27 de outubro de 2014

Pintura comestível

Este não é um livro que pretenda liberalizar os doces para as pes-soas com diabetes. Procura, sim, tentar enquadrar, num dos muitos sentidos possíveis. a relação que existe na sociedade com os do-ces. E apresenta algumas sugestões possíveis, a enquadrar nas op-ções de cada um, de doces inspirados nos quadros de Josefa de Óbidos e com ingredientes que os tornam mais apropriados para as pessoas com diabetes. Os adoçantes ou edulcorantes artificiais po-dem ser utilizados para adoçar uma sobremesa uma vez que o seu valor calórico é quase nulo e não têm interferência no metabolismo dos hidratos de carbono. A utilização de outros ingredientes permite reduzir a sua quantidade, que deve ser moderada.
Francisco Sobral do Rosário,Josefa de Óbidos na cozinha da diabetes (2013)
Dizem as más línguas que somos o povo mais guloso do mundo. Para completar a ideia, também se diz termos concebido a doçaria mais rica e variada que se conhece. Exageros à parte, não restam dúvidas que estamos na presença dum gosto refinado e generalizado pelo açúcar e por todas as substâncias que lhe estão associadas. Mel, chocolate, bolos, compotas e marmeladas. É que, como reza o ditado, o que é doce nunca amargou.

Francisco Sobral do Rosário, médico especialista em endocrinologia e contador de histórias nos tempos livres, convidou uma série de amigos interessados pela temática e reuniu os seus testemunhos nas páginas d' As pinturas de Josefa de Óbidos na cozinha da diabetes (2013). Centraram-se nos percursos de vida de duas mulheres exemplares separadas por três séculos e meio de dias cumpridos e deram asas à imaginação fabuladora.

A primeira é nossa contemporânea e dá pelo nome sugestivo de D. Maria dos Prazeres. Declarada diabética em 1926, desenvolveu desde então um ódio irracional aos doces, transformando-se numa referência lendária na luta contra esse flagelo de saúde pública. Solteira por vocação ou militância, guardava em si um segredo que só um acaso tornou público. Era uma autora reconhecida de livros ilustrados de doçaria, modo de superar a gula com os olhos.

Miguel Real continua a parábola com a revelação de que a lendária senhora da história se inspiraria nas telas de doçaria pintadas por Josepha d'Ayalla (1630-1684) na pacata vila de Óbidos. A variedade e poder atrativo dessa arte pantagruélica continuavam a fazê-la salivar abundantemente, sem nunca ter tido o prazer de provar nenhuma das iguarias apelativas representadas a óleo pela grande criadora que empresta o nome à obra.

O livro de histórias conta ainda com um prefácio pedagógico de Bob Andersen e uma leitura metafórica de Raquel Henriques da Silva. A concluir, José Bento dos Santos inspira-se nas naturezas mortas da artista plástica seiscentista e transforma-as em autênticas naturezas vivas. Fá-lo através de dezena e meia de receitas ilustradas sem açúcar. Papos-de-anjo, barrigas-de-freira, toucinho-do-céu. Divinas, sublimes, celestiais. De comer e chorar por mais.

23 de outubro de 2014

Tradição em contramão

HOMEM DO CHAPEIRÃO

Iluminura do Códice de Paris (BNF) e Painel do Políptico de Lisboa (MNAA)


A tradição quando não existe inventa-se. Aproveita-se um eco longínquo, elimina-se o ruído de fundo e amplia-se o volume do som desejado. O murmúrio, o boato e o rumor ganham peso no círculo máximo de audição e o dogma instala-se com armas e bagagens no corpo da notícia feita, refeita e contrafeita. A figura do Infante D. Henrique tem originado algumas das distorções mais bem-sucedidas do devir histórico português. Símbolos, memórias, recordações, usos e hábitos são misturados ao sabor do acaso e o mito entra em cena para contentamento de alguns e desespero de outros.

A associação académica duma das mais jovens universidades do país fixou-se na lendária Escola de Sagres e passou a vestir-se ao modo do Navegador. Um trajo pré-renascentista caído em desuso há cinco séculos passou a estar na moda num meio pós-moderno com três décadas de existência. Tudo isto num abrir e fechar de olhos, sem pestanejar, fazendo tábua rasa do vazio criado entre os dois eventos evocados. O espaço e o tempo reais são simultaneamente encurtados e ampliados. Sem pudor ou problema de consciência. Tudo é possível na arte de criar patinas de conveniência.

O mesmo percurso seguiu a Confraria do Vinho do Porto. Pensada em 1945 e criada em 1964, passou a adornar-se desde 1982 como o Infante de Sagres terá feito nos tempos áureos da Casa de Avis. O facto de ter nascido na cidade foi suficiente para transformá-lo no patrono da irmandade. A partir de então, todos os chefes de estado ou representantes de casas reais, individualidades ou instituições de relevo, que tenham emprestado alguma notoriedade à causa, são entronizados como cancelários, infanções e cavaleiros. O famoso chapeirão quatrocentista outorga ao ato a dignidade exigida. 

Desfaça-se o mito, explique-se a lenda, reponha-se a história e fica-mos com uma tradição de pacotilha, a movimentar-se em sentido contrário à verdade dos factos acontecidos. Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma como alguém já disse em tempos e a mim me apetece repetir agora. A Escola de Navegadores terá fun-cionado na Universidade de Lisboa e a identidade do Homem do Chapeirão continua mergulhada numa polémica com mais de cem anos de vida. Anterior, para todos os efeitos, à invenção por medida dum conjunto de tradições em contramão ou em clara contrafação.


21 de outubro de 2014

Uma tisana com gabardina

Teatro do Bairro

Tisanas: um antídoto contra o cinzento dos dias (2012)


TISANA 161


A mulher é logo em criança educada para a prolongada tarefa de alimentação do homem. Adulta diz o resto da vida com ternura de ferro: come meu esposo come meu filho (Quando a minha filha era pequena eu dava-lhe de comer à colher. Como ela detestava sopa cuspia-a sobre a minha cara. A sopa acabava escorrendo pelo meu vestido. Mas um dia passei a dar-lhe de comer de gabardina).

Ana Hatherly, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

19 de outubro de 2014

José Eduardo Agualusa, crónicas da rainha Ginga do Dongo e da Matamba


«Nos dias antigos, acrescentou, os africanos olhavam para o mar e o que viam era o fim. O mar era uma parede, não uma estrada. Agora, os africanos olham para o mar e veem um trilho aberto aos portugueses, mas interdito para eles. No futuro – assegurou-me – aquele será um mar africano. O caminho a partir do qual os africanos inventarão o futuro.»
José Eduardo Agualusa, A rainha Ginga. E de como os africanos inventaram o mundo (2014)
Os anais oficiais da história e os registos das chancelarias régias dizem-nos que o nome usado pelos portugueses para designar o grande país da Etiópia Ocidental se deve a Dona Ana de Sousa, aliás Ngola Ana Nzinga Mbande do Ndongo e Matamba, mais conhecida por Ginga (c. 1583-1663). José Eduardo Agualusa, vulto consagrado da lusofonia literária, apaixonou-se pelo percurso traçado pela soberana e desenhou, com a fantasia criadora que a liberdade poética permite, A rainha Ginga. E de como os africanos inventaram o mundo (2014). O fabulista branco nascido no Huambo e formado em Lisboa empresta a voz ao secretário particular da biografada, mestiço de índia e mulato, para relatar a vida da mais famosa rainha negra angolana. Uma fusão triangular de sangues desavindos a urdir, através da língua comum que os reconcilia, uma fraternidade cultural erigida em três continentes.

Por duas vezes consecutivas, a leitura levou-me até à Luanda seiscentista e aos reinos, senhorios, navegações, comércios e conquistas que a monarquia dual luso-castelhana dominava então à escala global. Com Pepetela, viajei ainda pelos trilhos traçados nas florestas tropicais até Benguela e encontrei, lá A Sul, o sombreiro, o morro que a natureza ofereceu aos habitantes do local para o converterem no símbolo maior duma cidade. Com Agualusa, sulquei as águas revoltas do mar oceano pelas rotas atlânticas nunca dantes navegadas, ao encontro das terras pernambucanas do Brasil. O real e a fantasia fundem-se numa trama comum de eventos acontecidos e imaginados. Os atores são chamados à boca da ribalta para darem visibilidade acrescida aos espetadores atuais do encontro pretérito de povos no seio dum império repartido pelas sete partidas do mundo.

João Maurício de Nassau e Luís Mendes de Vasconcelos ganham o estatuto de personagens aludidas com pretensão a um protagonismo sempre recusado e Francisco José de Santa Cruz simula o papel de figura pública na corte da rainha que exigia ser tratada por rei. A vida da própria cabeça coroada que dá nome ao romance é relegada para segundo plano, tornando-se num mero pretexto para valorizar o percurso traçado pelo seu colaborador pessoal, educado no Colégio Real de Olinda da Companhia de Jesus, inimizado com o cristianismo católico e convertido aos hábitos ancestrais e heréticos dos quimbundos que o haviam acolhido. Os sucessos centrais mais relevantes delineados pela chefe de estado africana, amiga/inimiga cíclica dos portugueses, são revelados de modo muito discreto, abafados pelos incidentes acessórios gerados por entidades mais ou menos fantasiadas ao sabor da pena das instâncias narrativas. A contracapa do romance editado em Lisboa destaca o almirante Jol, o pirata com perna de pau que conquistou Luanda para a Companhia das Índias Ocidentais, e Cipriano Gaivoto, o Mouro, o mercenário português ao serviço de Ngola Nzinga.

A rainha que se vestia de homem e tinha um serralho de mancebos vestidos de mulher é retratada como uma estratega exímia no seu relacionamento com os fazedores europeus de colónias brancas em território negro, adquirido pela força das armas e defendidas a ferro e fogo. Aliada de quem desse mais pelo domínio das terras que considerava suas de direito. Holandeses, jagas, portugueses. Coligada com os sobas e régulos indígenas ou com os governadores e capitães-gerais alienígenas, dentro ou fora dos princípios canónicos do cristianismo católico, luta com todas as forças ao dispor para manter o trono que herdara do irmão e consolidar o poder obtido, através do controlo apertado do tráfico de escravos, da borracha e do marfim. Como se diz que disse a soberana: Quanto maior um rei, menor lhe parece o mundo. Sentença de peso a dispensar comentários supérfluos. O subtítulo do romance alude ao modo como os africanos inventaram o mundo. Uma leitura atenta do relato talvez consiga decifrar os sentidos ocultos contidos na frase. Assim se entenderá melhor de como esses mesmos africanos se terão apoderado do mar, abrindo um caminho a partir do qual inventarão o mundo.

17 de outubro de 2014

In illo tempore

 Medalhão em cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro
(Coleção da Sociedade Martins Sarmento)

Pedi emprestado ao Trindade Coelho o título duma das obras mais paradigmáticas gizadas pela sua verve satírico-literária, In illo tempore: estudantes, lentes e futricas (1901). Com essa estranha frase latina no título engastada, situava-se o autor naquele tempo glorioso em que pertencera à velha academia coimbrã, erguida na mais tradicional universidade portuguesa e a única a funcionar nessa altura no reino. Dispenso-me de resumir as memórias boémias aí evocadas. Os meus propósitos são outros. Estão ligados a um meio estudantil bem mais restrito e recente. O estabelecimento do ensino secundário que frequentei nas Caldas da Rainha nessa época pretérita de 1964, já lá vai meio século.

Fiz ato de presença na inauguração da Escola Nova. Pouco recordo dos festejos então efetuados. Sei que estiveram nomes sonantes do Estado Novo. Creio que o velho almirante e o velho cardeal. Cor-taram-se fitas e deram-se vivas. Meninas de um lado, meninos do outro. Elas de branco, eles de pardo. A minha visão algo daltónica confunde um pouco as cores. Imagino que predominasse o cinzento muito em moda na altura. Os senhores professores estariam de fato completo, gravata e sapatos engraxados. As senhoras professoras estariam de saia-casaco, mala de pôr no braço e sapatos de salto alto. Tenho uma vaga ideia que havia uma placa comemorativa que os vindouros terão preservado para memória futura.

A década que antecedeu a abertura solene do edifício está mais presente na minha lembrança de menino e moço. O espaço ocupado pelo Escola Nova pertencia então à chamada Escola Agrícola. Local privilegiado da minha infância. A sorte de ser filho dum funcionário dessa instituição pública de formação prática de trabalhadores rurais abriu-me as portas para um mundo mágico do campo na cidade. Uma arcádia paradisíaca ao virar da esquina. A construção duma complexa estrutura pedagógica feita de cimento armado e sem arborização à vista alterou-me por completo o modo pessoal de olhar a vida. A cidade recuperara o espaço que tinha partilhado com o campo.

A Escola Industrial e Comercial | Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro não é a minha alma mater. Se tivesse de eleger uma, voltava-me para a escola primária que frequentei no bairro da ponte. Foi aí que me iniciei nas artes de ler, escrever e contar. A formação técnica que me foi ministrada ao longo da década de 60 foi ficando para trás. Os livros de contas do deve e haver ficaram arrumados na prateleira dos universos esquecidos. Outros livros e escritas surgiram no horizonte. Os verdes anos foram-se e os maduros chegaram. Vieram acompanhados duma paleta muito colorida com a qual passei a pintar o mundo. Algumas dessas tonalidades provêm desses tempos. Outras nem por isso.

15 de outubro de 2014

Elogio da língua portuguesa

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na aldeia. Lisboa: Edições Vercial, 2010

DIÁLOGO I

E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar é engraçada com um todo senhoril, para cantar é suave com um certo sentimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com uma gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para cartas nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para histórias nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem a arrancar as palavras com veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da Latina, a origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da Italiana. Tem mais adágios e sentenças que todas as vulgares, em fé de sua antiguidade. E se à língua Hebreia, pela honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta quanto a nossa. E, para que diga tudo, só um mal tem: e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte.

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na aldeia (1619)

13 de outubro de 2014

Os aniversários da língua

Notícia de Fiadores (1175)
[IAN/TT, Mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto, maço 2, doc. 10; 120×327mm]
Dizem os arautos dos aniversários nacionais que a língua portuguesa escrita cumpriu no passado 27 de junho oito séculos de vida. Basearam-se na redação do Testamento de D. Afonso II (1214), depositado na Torre do Tombo. Ignoro os verdadeiros critérios seguidos para selecionar este documento régio em detrimento doutros menos palacianos, mas com mais pátina nos pergaminhos. A própria Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas admite a existência da Notícia de Fiadores (1175), documento notarial lavrado 39 anos antes, onde o desconhecido Pelágio Romeu arrola os nomes dos seus fiadores para uma memória pessoal futura. O peso duma testa coroada terá sido decisiva no momento de resolver as hesitações institucionais da escolha. Mais a mais quando se tratava da figura dum Borgonha que ficou registado na história com o cognome d' O Gordo.

Ditaram os fados que regem as coincidências que se celebre também agora os quatro séculos da publicação da Peregrinação (1614) de Fernão Mendes Pinto, uma das obras maiores das letras portuguesas, a tal que quase toda a gente conhece de nome e que quase ninguém leu ou pense fazê-lo. Menos sorte teve O desenganado (1614) de Francisco Rodrigues Lobo, o último retábulo dum tríptico pastoral desconhecido de todos, até dos fazedores encartados de cânones. Celebram-no nos círculos fechados dos iniciados e dispensam-se de lhes dar uma visibilidade adequada aos dias que passam. Dois testemunhos com registos diferentes e tratamento diversificado. Aqui, a língua vernácula dos andarilhos anónimos que fizeram a epopeia em prosa do Oriente a vencerem a língua artificial dos livros de pastores das arcádias idílicas gizadas pelas estéticas cortesãs da época.

As efemérides valem o que valem. Até admitimos que se possa fixar o dia exato do nascimento da língua. Saber quando se passou do latim para o vernáculo. Omitimos que o relato do aventureiro e explorador quinhentista fora composta quatro décadas antes de ter saído dos prelos de Pedro Craesbeeck. Passamos por alto ter então António Álvares terminado a impressão da primeira pastoral novelada no nosso idioma. Escolhe-se uma data, marcam-se os festejos, organizam-se as homenagens, atiram-se os foguetes e apanham-se as canas. Depois preparamos outras honrarias semelhantes. Nos próximos anos haverá de certeza muitas mais. Assim a Corte na aldeia (1619) de Francisco Rodrigues Lobo seja lembrado e se releia com olhos de ver o elogio à língua portuguesa, tão mal tratada nestes nossos dias de submissão forçada a outros falares tidos como mais dignos da aldeia global.

11 de outubro de 2014

João Ubaldo Ribeiro e o poleiro das almas do bom povo brasileiro

«E assim, uma bola azul elétrico invisível suspensa pelos muitos ventos que povoam o firmamento, a almazinha adiava e ansiava o instante em que se tomaria de perdida paixão e se tornaria uma alma brasileira para todo o sempre, contribuindo para entender-se este fenômeno lembrar que, sim, as almas não aprendem nada, mas sonham desvairada-mente.»
João Ubaldo Ribeiro, Viva o povo brasileiro (1984)
Tomei conhecimento efetivo da existência de João Ubaldo Ribeiro no preciso momento em que os noticiários televisivos anunciavam o seu desaparecimento e lhe teciam os encómios costumeiros nestas ocasiões. Mais uma vez se provou que a visibilidade dos vultos da cultura só se intensifica com a chegada da morte. Mea culpa exclusiva neste caso. O nome do novo habitante do Parnaso das letras até já me deveria ser familiar, por ter sido laureado com o Prémio Camões em 2008. A leitura dos artigos da imprensa escrita e as notas publicadas no ciberespaço, também elas laudatórias, convidou-me a procurar uma livraria e adquirir algum dos seus romances. A tarefa efetuou-se sem dificuldades e até obtive um desconto especial, por ter escolhido a figura literária do dia ou da semana. Decidi-me de imediato pelo Viva o povo brasileiro (1984). Deixei-me cativar pela frase registada na capa e atribuída ao pai do autor: «Livro que não fica em pé, não presta». Obedeci ao recomendado por Manoel Ribeiro e as 850 páginas que conformam o volume escolhido aguentaram-no sem cair. Levei-o para casa para testar pessoalmente se ao critério quantitativo demonstrado se juntaria a qualidade poética produzida.

Tirei a prova dos nove à beira-mar. Ocupei uma parcela considerável das férias de verão a ouvir as histórias com história dentro enviadas do outro lado do Atlântico há precisamente três décadas. Gostei de ouvir tudo aquilo que as vozes selecionadas pela ficção resolveram confidenciar-me. Só para mim. Como se tratasse dum segredo que exigia uma cumplicidade partilhada de emissor-recetor único. Ilusões que a arte criadora dos artistas consegue oferecer aos seus admiradores. Permito-me discordar do ponto de vista veiculado pela editora portuguesa e enquadro a obra como uma lídima saga do povo brasileiro, uma vez que está ancorado na pesquisa da identidade nacional enunciada explicitamente no título. Opiniões não se discutem. Muito menos quando resultam dos apontamentos subjetivos traçados no decorrer duma viagem virtual pelo universo da ficção. As histórias secretas reveladas não funcionam como um contraponto da história oficial documentada, mas sim como um complemento fundamental para vislumbrar a verdade dos factos, situada na fronteira imprecisa do real e do imaginário.

Trata-se mesmo dum grande relato que se ocupa da vida duma família com muitos feitos guerreiros ocorridos num passado remoto, com muitos ramos parentais à mistura, fruto duma miscigenação étnica multissecular oriunda de três continentes. Índios americanos, negros africanos e brancos europeus. Genealogias legítimas indesejadas substituídas por outras inventadas ao sabor da maré ou dos interesses dos seus membros fundadores mais proeminentes. Num dos galhos dessa árvore feita com pessoas, surge uma gesta caboca de cor acobreada. Num outro, uma gesta mulata de cor parda. Entre um e outro ou para além dos dois, uma gesta sem mestiçagem declarada, cor bronzeada a esconder um sangue azul inexistente. Portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses também são chamados à colação, para enriquecerem a paleta e darem um colorido inconfundível ao poleiro das almas, cada uma delas à procura duma série de encarnações que lhes permita desenhar o genuíno espírito e sabedoria do bom povo brasileiro.

Os heróis e os anti-heróis pululam no texto. Os consagrados pelo poder instituído e os guardados na memória das gentes. Entre uns e outros não existem coincidências de catalogação. A língua dos pretos ou a língua dos brancos com que são contados os seus feitos é que condiciona a sua colocação numa das duas listagens. Surgem todos eles em Itaparica, uma ilha perdida na imensidade das Terras da Vera Cruz e acabam por se espalhar por todo o território do país. Pedaços sincopados de vida a dar unidade a uma grei que se carateriza pela diversidade. A esperança na Irmandade do Homem mora nas laudas de papel em branco revestido a negro com as palavras convocadas com engenho e arte por um escritor iluminado. Há também espaço para definir a fé como uma maneira de ver o mundo capaz de tornar possíveis aquelas coisas que se deseja que aconteçam. O Espírito do Homem continua a vagar sobre as águas da grande baía de todos os santos, errante mas confiante, a encarnar os seres que o inspiram e lhe dão razão de lutar, a demudar-se nas almas brasileirinhas, tão pequetitinhas, mas com uma ânsia tão grande de existir.

9 de outubro de 2014

Café, uma beberagem negra e amarga...

Chaumeton et Turpin, Flore médicale (Paris 1814-1820)


Lectures & Beuvrages

« Je bus une coupe de ce nouveau beuvrage noir et amer qui commençait à faire fureur à Istamboul, et que le sultan, cédant à l’aspiration de ses sujets, venait enfin d’autoriser. On disait du café qu’il coupait l’appétit, et qu’il était un “ nègre ennemi du sommeil et de la copulation ” : juste ce qu’il me fallait ! Mais le cafè ne fut pas suffisant pour apaiser mon angoisse et je retournai au palais du Belvédère pour y boire mon vin. »
Catherine Clément, La Señora (Paris: 1992)

7 de outubro de 2014

Top ten das letras

GIUSEPPE ARCIMBOLDO, Il libraio | Il bibliotecario (1566)
[
Stoccolma, Skoklosters Slott, Styrelsen]
No passado mês de setembro, fui desafiado uma meia dúzia de vezes para compor a lista dos 10 livros que de alguma forma me tivessem sensibilizado e ficado comigo. A tarefa demoraria apenas alguns minutos a executar e dispensava que se pensasse demasiado no assunto. Para mais, não teriam de ser os livros certos ou grandes obras literárias, mas apenas aqueles que de algum modo me tivessem tocado duma forma particular. Deveria ainda nomear 10 amigos e enviar-lhes o repto.

De cada vez que respondi ao solicitado, lá fui dizendo que sentia muita dificuldade em organizar um top ten das minhas preferências literárias, porque estaria a ser injusto com todos os livros assim excluídos sem terem feito mal a ninguém. Como as férias do verão ainda estavam frescas na memória, pensei indicar um ou outro que tivesse viajado comigo para a terra do dolce far niente sazonal, mas acabei por abandonar a ideia. Limitei-me a indicar um ao acaso e poupei os amigos de tal castigo.

A corrente foi entretanto quebrada. A pesquisa virtual cessou sem deixar rasto atrás de si. É o que costuma acontecer aos sistemas piramidais de recolha de dados. Um dia destes volta ao ataque, como se nada tivesse acontecido. O processo passará então pelos mesmos passos perdidos. Mais uma vez ficará por explicar o porquê e o para quê de tal registo. Presumo que se destine a testar a cultura literária dos navegadores do livro das caras. Um modo suplementar de definição de perfil público.

A próxima vez serei mais radical e deixarei a lista em branco. Direi que os livros da minha vida são todos aqueles que já me passaram pelas mãos. Vieram ter comigo e eu abri-lhes os braços. Todos eles me alargaram os horizontes. Mesmo os que deixei a meio ou esqueci por completo. Revelaram-me que a leitura é uma longa caminhada sem fim à vista. Está sempre à nossa frente e nunca se deixa tocar. Cada livro uma aventura que não cabe nas margens estreitas dum qualquer rol quantificado de primazias pessoais.

5 de outubro de 2014

Álvaro Guerra, Trilogia dos Cafés: primeiro folhetim – República...


Eu tinha pensado chamar-lhe Café Central, mas quando encomendei a tabuleta ao Praga de Mãe, ele veio com aquelas falinhas mansas, que a República tinha sido implantada há duas semanas, que era um nome bonito e poderoso, e tal e coisa. E, olhe, deixei-me convencer.»
Álvaro Guerra, Café República (1982)
O Café República (1982) de Álvaro Guerra é um texto datado no tempo. Tal como a própria implantação da república, cujo centenário agora se celebra com toda a pompa e circunstância que a data exige e a crise permite. Para os seus obreiros, o velho mito sebastianista e messiânico do desejado estaria concluído. O encoberto tinha escolhido a sua manhã de nevoeiro, montado o cavalo branco e partido à desfilada para resgatar o país da decadência em que o mergulhara trezentos e tal anos atrás com a aventura desastrosa de Alcácer-Kibir. A panaceia milagrosa de todos os males gizados pela monarquia estava encontrada. A promessa de redenção dos ideais da liberdade, fraternidade e igualdade tantas vezes proferida e outras tantas adiada, tinha enfim chegado pelas mãos de uma mariana portuguesa, de maminha ao léu e barrete frísio sustentado por um ramo de oliveira, ou de louro ou de espigas de trigo, como a iconografia nacional registou e as moedas de escudo puseram a circular. A realidade, contudo, rapidamente se encarregou de desvanecer essa ilusória esperança de renovação e de dilatar o compasso de espera num devir histórico sem horizonte à vista.

O painel inicial da «Trilogia dos Cafés» remete-nos para o período compreendido entre as duas guerras mundiais. Aquele em que o novo regime deu os primeiros passos incertos e desajeitados para, logo de seguida, dar um trambolhão colossal que lhe custaria quase meio século de aturado esforço a recuperar e a levantar-se. Entre o atentado de Sarajevo e a rendição do Reich alemão, a República Portuguesa vitoriosa no 5 de outubro de 1910 acabou por cair no 28 de maio de 1926 e ser revezada pelo Estado Novo. A revolução nacional dos militares façanhudos de Braga a abrir o caminho ao professor de Coimbra e futuro ditador de Lisboa sem direito a nome. Ao invés do duce italiano, do fürer germânico e do caudillo espanhol, o anunciado salvador da pátria (mais um) e enfático mentor da «casinha portuguesa» só será referido por perífrases depreciativas feitas à medida do presidente do conselho, filho de Santa Comba e senhor de São Bento, o Manholas, o Botas, o chefe. Excecionalmente, uma criança de dois anos soletrará Sanazar e Beatriz Costa cantará Falazar numa revista do Parque Mayer. A inocência e a irreverência de mãos dadas.

A fábula é uma incursão da história fingida na verdadeira, um «ciclo de pequenas histórias» coligidas no Folhetim do mundo vivido em Vila Velha (1914-1945). Assim reza o subtítulo do romance inaugural do tríptico. É também uma saga de sagas, uma crónica de crónicas, uma gesta de gestas. É o relato aturado das efemérides dessa terra de pescadores e campinos, de lavradores e ganhões, de literatos e políticos, de fidalgos e plebeus, situada a 50Km da capital, cercada a norte por quintas, casais e cabeços e a sul por lezírias, rios e ribeirão. Espaço cénico criado num espaço dramático real. Palco ideal para declamar as inexoráveis misérias dos povos, as vividas pelas famílias nucleares e as comentadas nas tertúlias oficiais. As casas grandes e pequenas a deslocarem-se, conforme os ditames sociais e modismos vigentes, para a farmácia, a mercearia, a filarmónica, o clube, a barbearia e o café do burgo. Sobretudo este último, ribalta singular do sentir coletivo dos borda-d’água e ponto nevrálgico de todo o tecido narrativo, o revolucionário Café República, depois transformado no conservador Café Central. A censura e a tortura, as prisões e as deportações, a caça às bruxas e a queima de livros soaram mais forte no espírito avisado do proprietário, que preferia vê-lo de portas abertas às cavaqueiras certas dos clientes do que às devassas incertas da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado.

Neste contexto novelesco, de corte neorrealista tardio, são dados muitos vivas à república, a portuguesa e a espanhola. Depois a coragem das personagens de papel e tinta cede passo às pressões das personalidades de carne e osso. Os vivas à coisa pública repetem-se todos os anos, como um ritual obrigatório que o uso tem despido de sentido e a apatia vulgarizado. O desejado ainda se mantém nessa ilha encantada coberta pelo nevoeiro. Na Vila Velha de então como neste nosso mundo novo de agora, o compasso de espera a marcar o ritmo lento dos dias...

NOTA: 
No dia em que a República celebrou o seu primeiro centenário conturbado, publiquei este texto no Pátio de Letras. Volto a disponibilizá-lo quatro anos volvidos, intocável, neste espaço de histórias datadas no tempo e com memórias vivas nos dias que passam. Lidos os livros, fiquem os apontamentos do percurso...

1 de outubro de 2014

Em tempo de gatunos & ladrões...

OS GATOS DO MÚSICO
Fragmento de painel de azulejos do palácio Fronteira (Lisboa: Séc. XVI)

DIES IRÆ

- É que, sabem, não é por acaso que as palavras são como são. Vejam, por exemplo, a palavra gatuno e a palavra ladrão. Só aparentemente é que significam a mesma coisa, porque gatuno quer mais dizer o que se introduz a roubar subtilmente, sem ruído, pela sorrelfa, como o gato. Daí... gatuno, igual a gato + uno. Pelo contrário, o que rouba com ruído, com estardalhaço, procedendo como o cão que ladra, chama-se ladrão, que vem de ladrar + ão. Não meus caros, o povo é sábio, nunca inventa palavras à toa. O povo é esperto.

Mário de Carvalho, A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho (Lisboa: 1983)