5 de outubro de 2014

Álvaro Guerra, Trilogia dos Cafés: primeiro folhetim – República...


Eu tinha pensado chamar-lhe Café Central, mas quando encomendei a tabuleta ao Praga de Mãe, ele veio com aquelas falinhas mansas, que a República tinha sido implantada há duas semanas, que era um nome bonito e poderoso, e tal e coisa. E, olhe, deixei-me convencer.»
Álvaro Guerra, Café República (1982)
O Café República (1982) de Álvaro Guerra é um texto datado no tempo. Tal como a própria implantação da república, cujo centenário agora se celebra com toda a pompa e circunstância que a data exige e a crise permite. Para os seus obreiros, o velho mito sebastianista e messiânico do desejado estaria concluído. O encoberto tinha escolhido a sua manhã de nevoeiro, montado o cavalo branco e partido à desfilada para resgatar o país da decadência em que o mergulhara trezentos e tal anos atrás com a aventura desastrosa de Alcácer-Kibir. A panaceia milagrosa de todos os males gizados pela monarquia estava encontrada. A promessa de redenção dos ideais da liberdade, fraternidade e igualdade tantas vezes proferida e outras tantas adiada, tinha enfim chegado pelas mãos de uma mariana portuguesa, de maminha ao léu e barrete frísio sustentado por um ramo de oliveira, ou de louro ou de espigas de trigo, como a iconografia nacional registou e as moedas de escudo puseram a circular. A realidade, contudo, rapidamente se encarregou de desvanecer essa ilusória esperança de renovação e de dilatar o compasso de espera num devir histórico sem horizonte à vista.

O painel inicial da «Trilogia dos Cafés» remete-nos para o período compreendido entre as duas guerras mundiais. Aquele em que o novo regime deu os primeiros passos incertos e desajeitados para, logo de seguida, dar um trambolhão colossal que lhe custaria quase meio século de aturado esforço a recuperar e a levantar-se. Entre o atentado de Sarajevo e a rendição do Reich alemão, a República Portuguesa vitoriosa no 5 de outubro de 1910 acabou por cair no 28 de maio de 1926 e ser revezada pelo Estado Novo. A revolução nacional dos militares façanhudos de Braga a abrir o caminho ao professor de Coimbra e futuro ditador de Lisboa sem direito a nome. Ao invés do duce italiano, do fürer germânico e do caudillo espanhol, o anunciado salvador da pátria (mais um) e enfático mentor da «casinha portuguesa» só será referido por perífrases depreciativas feitas à medida do presidente do conselho, filho de Santa Comba e senhor de São Bento, o Manholas, o Botas, o chefe. Excecionalmente, uma criança de dois anos soletrará Sanazar e Beatriz Costa cantará Falazar numa revista do Parque Mayer. A inocência e a irreverência de mãos dadas.

A fábula é uma incursão da história fingida na verdadeira, um «ciclo de pequenas histórias» coligidas no Folhetim do mundo vivido em Vila Velha (1914-1945). Assim reza o subtítulo do romance inaugural do tríptico. É também uma saga de sagas, uma crónica de crónicas, uma gesta de gestas. É o relato aturado das efemérides dessa terra de pescadores e campinos, de lavradores e ganhões, de literatos e políticos, de fidalgos e plebeus, situada a 50Km da capital, cercada a norte por quintas, casais e cabeços e a sul por lezírias, rios e ribeirão. Espaço cénico criado num espaço dramático real. Palco ideal para declamar as inexoráveis misérias dos povos, as vividas pelas famílias nucleares e as comentadas nas tertúlias oficiais. As casas grandes e pequenas a deslocarem-se, conforme os ditames sociais e modismos vigentes, para a farmácia, a mercearia, a filarmónica, o clube, a barbearia e o café do burgo. Sobretudo este último, ribalta singular do sentir coletivo dos borda-d’água e ponto nevrálgico de todo o tecido narrativo, o revolucionário Café República, depois transformado no conservador Café Central. A censura e a tortura, as prisões e as deportações, a caça às bruxas e a queima de livros soaram mais forte no espírito avisado do proprietário, que preferia vê-lo de portas abertas às cavaqueiras certas dos clientes do que às devassas incertas da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado.

Neste contexto novelesco, de corte neorrealista tardio, são dados muitos vivas à república, a portuguesa e a espanhola. Depois a coragem das personagens de papel e tinta cede passo às pressões das personalidades de carne e osso. Os vivas à coisa pública repetem-se todos os anos, como um ritual obrigatório que o uso tem despido de sentido e a apatia vulgarizado. O desejado ainda se mantém nessa ilha encantada coberta pelo nevoeiro. Na Vila Velha de então como neste nosso mundo novo de agora, o compasso de espera a marcar o ritmo lento dos dias...

NOTA: 
No dia em que a República celebrou o seu primeiro centenário conturbado, publiquei este texto no Pátio de Letras. Volto a disponibilizá-lo quatro anos volvidos, intocável, neste espaço de histórias datadas no tempo e com memórias vivas nos dias que passam. Lidos os livros, fiquem os apontamentos do percurso...

1 comentário:

  1. República para mim só a de Platão, dirigida pela sabedoria altruísta dos filósofos que lutavam pela defesa justa da coisa pública à custa dos bens pessoais. Esta é governada pela ignorância dos cretinos que se apropriaram da coisa pública e transformaram em coisa própria. Aqui o café é mais monárquico do que republicano, porque os filhos do papá tomaram conta da gestão e estão pouco interessados na qualidade da bica curta ou pingada servida aos fregueses.

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