9 de novembro de 2014

De queda em queda

Fragmento do muro de Berlim

Portland Maine, EUA

De queda em queda se tem feito a história do mundo ocidental, o tal que já deu pelos nomes mais ou menos convencionais de Hélada, România, Cristandade e Europa. Atualmente abrange toda a península da Eurásia e prolonga-se à escala planetária por todos os locais onde o modelo democrático inventado pelos gregos se foi impondo ao longo dos tempos.

Depois da queda de Troia (c. 1250 AEC), o poderio de Micenas impôs-se no mar Egeu, no de Mármara e no Negro. Com a queda de Cartago (146 AEC), Roma torna-se senhora do mundo antigo, erigido em torno do Mediterrâneo ou Mare Nostrum. O princípio da hegemonia duma cidade-estado sobre as outras nações e povos estava inventado.

Como não há bem que sempre dure, depois da queda de Roma (476) e da queda de Constantinopla (1453), os impérios romanos do ocidente e do oriente são apagados do mapa. A antiguidade clássica e a medievalidade feudal desaparecem entre um evento e o outro. Deixam atrás de si uma herança multissecular que as gerações herdeiras geriram à sua maneira.

Os deuses olímpicos são remetidos para o universo da criatividade artística e literária. A cidade imperial transforma-se na cidade papal. A Respublica Christiana  instala-se nos reinos bárbaros europeus e tenta reconquistar os territórios islâmicos africanos. A aventura das Cruzadas à Terra Santa termina com a queda de Acre (1291). O caminho para os estados-nação estava aberto.

Os tempos modernos inauguram-se com a queda da Bastilha (1789). A Revolução Francesa invade o mundo com os ideais programáticos da Liberté-Égalité-Fraternité. As monarquias absolutas do Ancien Régime tremem e convertem-se gradualmente em monarquias constitucionais, cada vez mais abertas às filosofias políticas do Liberalismo, baseadas nos ideias políticos da democracia.

Entre as duas Guerras Mundiais, os impérios centrais ruíram. A Guerra Fria criou uma Cortina de Ferro em torno da sector ocidental da capital do Terceiro Reich. A queda do Muro de Berlim (1989) ocorreu há 25 anos. Celebremos. Uma geração volvida, muitos outros muros da vergonha continuam de pé. De queda em queda a história se vai traçando. Inexoravelmente. Até onde a vista alcança.

2 comentários:

  1. Uma resenha inquietante do mundo sempre em guerra pelo poder... Celebremos, portanto, a queda do Muro de Berlim, um dos acontecimentos humanos que não gerou sangue mas sim uma festiva união de gente de diversas nacionalidades no desmantelar do muro da vergonha. Muitos mais há pelo mundo, muros criados pelos detentores do poder económico que regem os nossos destinos, cegos pela ganância e sem ética, pelo que os direitos humanos continuam a ser selvaticamente pisados...

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    1. As sete quedas convocadas representam momentos de mudança. Abriram portas à cultura europeia que se veio construindo até aos nossos dias. Nas palavras iluminadas de Fernand Braudel, esplanadas na «'Grammaire des civilisations» (1963), teve a capacidade de estabelecer os princípios do Cristianismo, as bases do Humanismo e as estruturas das Ciências. Podia ser pior no meio de tanta guerra civil.

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