28 de novembro de 2014

George Steiner, erros, provas & parábolas

«All errata is a falsehood final.»
George Steiner, Proofs And Three Parables (1992)
A forma peculiar como George Steiner aborda a questão da nossa identidade cultural, em A ideia de Europa (2005), convidou-me a mergulhar na restante obra do autor que até então ignorava. O prazer tem vindo a crescer à medida que os títulos se sucedem. Mesmo quando o universo do ensaio deu lugar ao da ficção. Comecei com Provas e três parábolas (2008). Voltei a render-me ao fascínio do mestre. Incondicionalmente.Trata-se dum grupo de quatro textos que já haviam conhecido uma publicação autónoma: Provas (1991), Desert Island Discs (1986), Noël, Noël (1989) e Excerto de uma conversa (1985).

O relato inicial apresenta-nos um revisor de provas italiano, cujo rigor profissional, de mais de trinta e cinco anos, convertera num mestre do ofício. Ignoramos o seu nome ou a cidade onde vive. Só sabemos que a militância comunista de décadas lhe granjeara o título de Professore. A história fictícia da personagem acaba por se demudar na história verdadeira de pessoas reais, de carne e osso, que a memória dos homens esqueceu. A queda do Muro de Berlim, difundida pela televisão, vai gerar um longo diálogo entre protagonista e um sacerdote católico sobre os erros e mentiras do marxismo e do cristianismo, cometidos pelas leis dos homens e de Deus. O resultado do debate é inconclusivo. Terá de ser o leitor a exercer o privilégio de decidir quais os atores mais adequados para promover uma eficaz revisão de provas da história.

A primeira parábola deve o título ao programa homónimo da BBC, que desde 1941 pede a figuras conhecidos sugestões de livros e discos a levar para uma ilha deserta. A entidade convocada pela ficção solicita seis registos, a que o arquivo sonoro da estação de rádio consegue responder. O arroto de Fortimbras (Shakespeare, Hamlet); o relincho do cavalo do rei de Tebas ao ver o amo morto (Sófocles, Rei Édipo); o rangido do aparo de Clausius ao concluir a equação da entropia; o riso da amada ao ser beijada; o Trio em Fá Maior para trompa, contrabaixo e conchas de Samatra, de Sigbert Weimerschlund, gravado por Zeppo, Harpo e Chico (Marx Brothers); e o assobio do jovem pintado pelo mestre da Paixão de Chambéry. E é tudo. Mais uma vez, cabe-nos a nós proceder às pesquisas necessárias para determinar até que ponto esses pedidos podiam ter sido guardados na memória de alguém.

A parábola seguinte expande-se em torno dos sons e cheiros que tornam o Natal uma época tão especial. O assunto acabaria aqui se não se desse o caso de ser contado por um pedaço de bicho tristonho, o Caça-Ratos / Pé Ligeiro, o cão de estimação daquela família feliz formada pelo pai, pela mãe e pela filha Penny. Trata-se, afinal, duma inesperada fábula.

A série termina com o excerto de uma conversa travada entre dois estudiosos do Talmude. Mestre e discípulo discutem o problema do livre-arbítrio do Homem face à presciência de Deus, focado no drama de Abraão de sacrificar Isaac ou na vanidade do Todo Poderoso testar a fé do seu humilde servo. A diferença fulcral entre os crentes da Torah e dos Evangelhos reside, talvez, no facto do Deus de Moisés não se ter coibido de matar todos os primogénitos do Egito para garantir o êxodo do povo eleito para a terra santa, ao invés do Deus do Nazareno que ofereceu a vida do filho unigénito em sacrifício à cruz romana para salvar a humanidade.

Ancorados em esferas aparentemente distintas, os quatro pilares da coletânea acabam por conectar as matrizes culturais que enformaram a ideia de Europa. Duas frases escritas numa paragem de autocarro atraem a atenção do corretor de provas: Deus não acredita em Deus e Deus não acredita no nosso Deus. Sinais dos tempos. Diremos nós. Na última parábola, uma mulher, pesarosa com o silêncio a que os livros sagrados votaram o drama de Sara, interroga os cabalistas sobre as sílabas que revelam o nome secreto de Deus e nos farão a todos livres. Boa questão à espera de resposta. Todavia, o nome dos nomes encontra-se guardado desde sempre no livro dos livros. Na nossa imaginação divinamente humana ou humanamente divina. É tudo uma questão de perspetiva ou de sensibilidade pessoal.

NOTA: 
Tornei público este texto no Pátio de Letras já lá vão mais de cinco anos, sem ter suscitado então qualquer reação nos inúmeros visitantes do blogue. Volto a dar-lhe visibilidade neste espaço de histórias contadas em tom coloquial, porque continuo a considerar Jorge Steiner um dos grandes mestres da nossa cultura contemporânea. Segue com uma ou outra alteração de pormenor para tornar a forma mais atual...

2 comentários:

  1. Li há tantos anos Anno Domini que já não me lembro com nitidez as histórias nele contidas, ambas sobre a guerra. Mas lembro-me perfeitamente de ter ficado cativada pelo estilo lúcido do autor, que analisa criticamente a condição humana e as suas idiossincrasias, sem remissão talvez...
    Feliz análise crítica da sua obra e, especificamente, das três parábolas do livro, que bem salienta as interrogações que se levantam sobre o ser humano e as suas opções culturais, políticas e religiosas... Obrigada por esta interessante sugestão, Prof.!

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  2. Um mestre anglo-franco-americano em literatura comparada, teorias da tradução, da linguagem e da filosofia da educação, defensor da cultura clássica greco-latina, reconhecido como o arquétipo do intelectual europeu, cuja obra ensaística e ficcionista só agora começam a ser vertidas do alemão, francês e inglês para português. Atraso incompreensível que a Gradiva tem vindo a mitigar ultimamente, demonstrando que mais vale tarde do que nunca.

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