31 de dezembro de 2014

Julgamentos da história

JOSÉ MALHOA - O último interrogatório do Marquês de Pombal (1891)
Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea
[ óleo sobre tela 3,33 x 5,05 m.]

O ano novo aproxima-se a passos largos e antes que as doze badaladas da noite de São Silvestre se ouçam, os vendedores de opinião mais mediáticos do país elegeram José Sócrates como a personalidade mais marcante do ano velho. Pela negativa e sem hesitações de última hora, está bem de ver, que nesta terrinha de brandos costumes à beira-mar plantada, as cantigas de escárnio e maldizer sempre se adiantaram em popularidade às de amor e de amigo do nosso amargo cancioneiro. Não há notícia, afirmam ex ca-tedra, de um ex-primeiro-ministro ter alguma vez sido preso em Por-tugal. Verdade insofismável, dado que o cargo é recente e a memó-ria costuma ser curta nestes casos. Apetece-me recordar a queda abrupta de três dessas figuras maiores da governação nacional.

Começo com Marcello Caetano, presidente do conselho de minis-tros (1968-1974). Destituído após o 25 de Abril, rende-se no Carmo, é levado de chaimite para a Portela e exila-se no Brasil, onde termina os dias sem glória nem proveito. Passo para Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de estado (1750-1777) de D. José I. Apeado do poder por corrupção e votado ao ostracismo por D. Maria I, o Marquês de Pombal passa o resto da vida exilado da corte até que a morte o liberta aos 83 anos de idade. Termino com Luís de Vasconcelos e Sousa, escrivão da puridade (1662-1667) de D. Afonso VI. Caído em desgraça, exila-se em Paris e Londres. Com a morte da rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia, o Conde de Castelo Melhor regressa à esfera da governação de D, João V.

O único ex-primeiro-ministro português que não foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo pelo presidente da república foi detido por agentes da Autoridade Tributária e Aduaneira à chegada ao aeroporto de Lisboa, nas vésperas do Natal, indiciado de crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. Trivialidades. Um dia o julgamento da história dirá de sua justiça. Nessa altura a opinião pública já terá tido ocasião de condenar o protagonista da Operação Marquês, pouco interessada em saber se de facto é culpado ou inocente. Suspeito que a tal condecoração em falta vai ter de esperar vários natais, páscoas, carnavais e santos populares para poder luzir no peito do ex-locatário do palácio de São Bento e atual hóspede da prisão de Évora. Palpites.

29 de dezembro de 2014

Salomão aos quadradinhos

«Bem, Salomão, ainda não sei como é que vai ser exatamente a tua história, mas de uma coisa podes ter a certeza: o que tiver que ser, será, o que não tiver que ser, não será. Dito isto posso-te também dizer que... "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam". O livro dos itinerários»
João Amaral, A viagem do elefante (2014)
Aprendi a ler com as histórias aos quadradinhos que O Primeiro de Janeiro publicava todos os domingos em formato de suplemento juvenil. Chamava-se «O Janeirinho» e fazia concorrência ao «Pim-Pam-Pum» d' O Século, que também cheguei a folhear uma ou outra vez. Recordo-me dum interminável Príncipe Valente e duma tira sem palavras do Reizinho. O bê-a-bá das histórias contadas com imagens e palavras em balões foi-me transmitida pelas séries curtas do Walt Disney tipo A Dama e o Vagabundo, mais tarde adaptadas ao cinema e dobradas com sotaque brasileiro.

Já alfabetizado e a frequentar o ciclo preparatório, entrei em contacto com a literatura clássica num manual escolar em versão histórias aos quadradinhos. Nada mais nada menos do que a Odisseia de Homero. Por essa altura, fui também iniciado nas peripécias desenhadas das Viagens de Marco Polo e na Peregri-nação de Fernão Mendes Pinto, provavelmente em edições promovidas pela Fundação Calouste Gulbenkian, que se encarregou de divulgar num boletim especial as aventuras e desventuras de Camões e da composição épica d' Os Lusíadas.

As aprendizagens com as histórias aos quadradinhos prosseguiu na faculdade. Fui aí convidado a ler o Astérix em latim que alternei com a versão francesa original. Duma assentada, pratiquei as duas línguas com um suporte visual, mas só a segunda, hélas, me permitiu estabelecer uma conversação de longa duração pelos desafios que a vida me foi oferecendo desde então. Felizmente não fui obrigado a mergulhar em nenhuma BD em idioma grego antigo ou moderno. Os meus conhecimentos linguísticos teriam sentido fortes dificuldades em superar esse poliglotismo académico.

No ano em que saiu o último póstumo de Saramago, umas Espin-gardas, alabardas ilustradas por Günter Grass, saiu também dos prelos uma adaptação de João Amaral d' A viagem do elefan-te (2014). A história aos quadradinhos de Salomão segue de muito perto os itinerários já desenhados com palavras. Dispenso-me de os sintetizar. A visita ao original será sempre mais proveitosa. Sobretudo se as vinhetas alinhadas em tiras e pranchas coloridas forem substituídas pelas linhas negras impressas nas páginas em branco dum livro a cheirar a tinta. Manias pessoais. Nada mais...

26 de dezembro de 2014

Histórias do Menino Jesus

Le nouveau-né 
Georges de La Tour (1593-1652)
[Musée des Beaux Arts de Rennes]
No tempo em que eu acreditava no Menino Jesus, fazia um presépio monumental com imagens de barro pintado a ocuparem um cenário forrado com musgo recolhido num pinhal estremenho da redondeza. Os caminhos eram traçados com areia fina da praia atlântica e os rios corriam com papel prateado dos chocolates comidos ao longo do ano. Os Reis Magos moviam-se todos os dias uns centímetros até chegarem no dia certo à gruta de Belém, onde a Sagrada Família se mantinha imóvel há mais de duas semanas à sua espera.

No tempo em que eu acreditava no Menino Jesus, as prendas eram abertas na manhã de Natal, depois de terem sido retiradas do sapatinho colocado de véspera na chaminé. Essa era de facto a noite mais longa do ano, aquela em que saberia de fonte segura se me tinha portado bem durante trezentos e sessenta e quatro dias completos para merecer uma prenda embrulhada em papel colorido no início do tricentésimo sexagésimo quinto. Como era de esperar, saí-me sempre bem nessa prova dos nove das faltas expiadas.

No tempo em que eu acreditava no Menino Jesus, o Pai Natal era uma figura de segundo plano pouco visível no meu horizonte de eventos previsíveis. A árvore de Natal era um acessório dispensável e associada a uma festividade pagã pouco recomendável num ambiente católico do tempo da outra senhora. Resumia-se a um pinheirito enfezado mediterrânico enfeitado à pressa com umas farripas de algodão a imitar a neve que, por essa altura, cobririam de branco os majestosos abetos das paisagens escandinavas.

No tempo em que eu acreditava no Menino Jesus, ia à catequese semanal, confessava pecados imaginários e comungava depois do ato de contrição, nunca fui à Missa do Galo. Falta lamentável só agora corrigida, muito depois de me ter libertado dessas práticas de submissão rigorosa ao divino. Aos odores das filhós acabadas de fritar poderei agora associar o odor do incenso queimado em honra do recém-nascido mais famoso do mundo. A mistura natalícia assim obtida não deixa de ter o seu quê de singularidade digna de registo.  

19 de dezembro de 2014

Falando de greves

Hôtel de Ville et place de Grève
Théodore-Joseph-Hubert HOFFBAUER
[© Photo RMN-Grand Palais - Bulloz]
Fui surpreendido por uma greve geral de transportes públicos italianos em meados de outubro de 2012, quando aterrei no aeroporto de Roma Fiumincino. Encontrava-me em trânsito para Viterbo ao abrigo duma mobilidade interuniversitária há muito programada e vi-me, dum momento para o outro, a 35 km do centro histórico da cidade eterna. Na Stazione Treini, fui informado que o serviço mínimo me garantia um comboio expresso para a Grande Stazione da Roma Termini dali a um par de horas, descartando, por completo, uma qualquer ligação para a Piccola Stazione da Roma Transtevere que estava inscrita nos meus planos.

No bruabrá habitual destas alturas, fui surpreendido pela voz duma respeitável signora romana que comigo voara desde Lisboa. Informou-nos a todos em vários idiomas tratar-se da época do ano em que as greves assinavam o ponto no país e sugeriu-nos um autocarro alternativo para concluirmos a viagem. Aceitei a solução e encetei uma conversação em francês com a minha companheira de peregrinações imprevistas, decisão que se revelaria da maior utilidade nas horas que se seguiram. Uma visita guiada à cidade das sete colinas. No final da jornada, conduziu-me no seu Renault 5 ao hotel e ficámos amigos para sempre.

Voltei a ser surpreendido esta semana por um pré-aviso de greve marcado pelos sindicatos ligados à TAP, prevista para a semana situada entre o Natal e o Ano Novo. Ter-me-ia limitado a seguir   evolução dos acontecimentos pelos mass media, se não se desse o caso de esperar a visita de alguém muito chegado, que este oásis à beira-mar plantado obrigou a deslocar-se com caráter algo definitivo para Copenhaga. Situação insustentável que só uma requisição civil parece ter resolvido para os viajantes em trânsito, deixando todavia de parte a situação periclitante da companhia aérea de aviação em banho-maria ou coisa nenhuma.

A reunião de operários na velha praia parisiense de cascalho e areia do Sena à procura de trabalho levou a que se associasse o nome dessas reivindicações à place de la Grève onde se realizavamO Ancien Régime foi-se e os novos tempos chegaram, mas as lutas laborais ficaram. O direito à greve está inscrito na lei. A dificuldade reside em discernir com frieza de espírito quem ganha e perde com a sua aplicação. Os múltiplos dilemas instalam-se e cada opina de acordo com os interesses pessoais envolvidos. Pela parte que me toca, é fácil de adivinhar para que lado caiu a minha opção. Assim o volte-face duma providência cautelar me não troque as voltas.

18 de dezembro de 2014

Per Olov Enquist: visita de médico ao rei da Dinamarca

«Johann Friedrich Struensee utsågs kungliga läkaren den danske kungen Christian VII den 5 april 1768, fyra år senare avrättades.»
Per Olov Enquist, Livläkarens besök (1999)
Todas as viagens são úteis para a aquisição de novas aprendiza-gens e experiências. Algumas delas conseguem mesmo mudar de modo radical pontos de vista pessoais até então tidos como definitivos. Uma passagem rápida por Copenhaga permitiu-me entrar em contacto com uma realidade escandinava que os roteiros turísticos geralmente ignoram ou a que imprimem uma ênfase muito reduzida. Convidam-nos a visitar castelos e palácios, a passear pelos parques e jardins que os enquadram, a fotografar os recantos mais aprazíveis que os alojam, mas omitem parte dos dramas que os seus proprietários aí vivenciaram. Acedi a alguns destes eventos pretéritos com a ajuda de Per Olov Enquist e d’ A visita do médico real (1999), através da escrita mágica dum autor sueco e dum romance histórico de enfoque dinamarquês, centrado na deslocação profissional do alemão Johann Friedrich Struensee à corte de Cristiano VII de Oldenborg e de Caroline Mathilde de Hanôver entre 1768 e 1772. Pequeno episódio aparentemente inócuo do Almanach de Gotha, que a Europa setecentista das monarquias absolutas do Ancien Régime comentou copiosamente em vários idiomas e depois remeteu para a órbita confortável dum esquecimento previsível.

Encarado desta forma simplista, o leitmotiv romanesco referido até pareceria roçar os limites da banalidade, se o obscuro visitante real não tivesse vivido um escandaloso caso de amor com a rainha e não tivesse implementado os alicerces da revolução dinamarquesa em nome do rei. Tudo isto em quatro anos que os anais oficiais consagraram com a designação de Era Struensee. O resultado de tão insólita efeméride é conhecido. A princesa da Grã-Bretanha e Irlanda foi obrigada a divorciar-se do rei da Dinamarca e Noruega e foi deportada para o castelo de Celle na Baixa-Saxónia. O até então médico, conselheiro e ministro do gabinete real foi condenado à morte por decapitação seguido de esquartejamento, sentença proferida mais pela implementação do processo de reforma do país do que pelo adultério cometido com a soberana. O tribunal que o julgou cortou o mal pela raiz, separando-lhe do corpo a mão que assinara os 632 decretos iluministas e a cabeça que os havia concebido e posto em prática. Por vezes vem-nos à lembrança o eco perdido doutros sucessos históricos cuja crueldade chocaram de igual modo o velho continente. A execução dos Távora (1759) serve de exemplo perfeito num contexto estritamente nacional. As semelhanças sangrentas são claras, conquanto a ação de Sebastião José de Carvalho e Melo, o ministro plenipotenciário de D. José I, tenha sido feita em nome no despotismo esclarecido do monarca fidelíssimo e não contra a sua concretização entre nós.

A urdidura dos factos é traçada com frases curtas, incisivas, clínicas, com o recurso a uma linguagem crua, sem falsos pudores, num estilo que certas práticas literárias reprovam mas que a natureza da matéria relatada justifica. O romancista fá-lo através da revisitação documental de confissões, relatórios, despachos, dissertações, jornais, escritos, notas, diários, livros e memórias. A oscilação discursiva entre luz e trevas é constante. O jogo dicotómico entre sonho e pesadelo, prazer e dor, realidade e ilusão, paixão e ódio invade o mundo imagético dos atores que dão corpo ao drama, levado à cena no país do lendário Amled, o príncipe louco celebrizado por Shakespeare com o nome trágico de Hamlet, um e outro referidos várias vezes na efabulação, sempre em confronto direto com Cristiano VII, o rei louco que passara toda a vida a representar o papel da corte no teatro da corte. O sentido paradoxal da peça assenta na tentativa absurda de se instaurar o reino da razão num reino entregue a um rei destituído de razão. A corte transforma-se num grande manicómio em que Struensee, o reformador idealista derrotado, é substituído nos labirintos do poder por Guldberg, o conspirador intriguista vencedor. Dois pequenos arbustos insignificantes entre árvores grandes e arrogantes. A aristocracia todo-poderosa podia voltar a respirar sossegada. A moral e os bons costumes tinham sido restaurados. O direito divino de governar os povos restituído às mãos do seu legítimo proprietário, i.e., dos seus leais colaboradores.

O romance mais conhecido do Prémio Nórdico da Academia Sueca começa com uma frase lapidar que sintetiza toda a fábula: «Johann Friedrich Struensee foi nomeado médico real do rei dinamarquês Christian VII no dia 5 de abril de 1768; quatro anos mais tarde foi executado». Felizmente para todos nós que o engenho e arte do escritor não se ficou por aí e nos introduziu nesse escasso período de tempo em que o livre-pensamento deu os primeiros passos decisivos nos palcos europeus e começou a mudar irreversivel-mente o destino dos seus cidadãos. Os filósofos da revolução perderam a batalha dinamarquesa no reinado de Cristiano VII mas ganharam a guerra francesa no reinado de Luís XVI. E assim se faz a história, e assim se contam histórias...

NOTA: 
Texto publicado há dois anos e meio no Pátio de Letras no regresso duma viagem rápida à Dinamarca. Reponho-a agora, no momento em que uma outra viagem nessa mesma rota corre o risco de ser inviabilizada por uma greve natalícia da TAP. As boas festas especiais que os envolvidos na transportadora aérea portuguesa dedicam aos seus clientes para celebrarem em separado a época por excelência no ano dedicada à família.  Ditos e reditos os factos fiquem os livros lidos e relidos.

16 de dezembro de 2014

A caixa de fósforos

Natal

MEU QUERIDO JESUS:


                  Aqui estou neste sítio pobre
                  nesta rua fria
                  com as árvores vermelhas
                  a anunciar a tua chegada.
                  Os anjinhos de estrelas
                  que vieram a meu lado
                  quando eu estava sentado naquela rocha
                  disseram-me que não chorasse
                  porque teria umas calças vermelhas
                  e uma camisola de lã branca.
                  Mas só tenho os pés roxos
                  os dedos não os sinto.
                  Se me deixasses uma caixa de fósforos
                  para me aquecer
                  ou me levasses nos braços para o céu
                  como se fosse um farrapo de neve
                  essa era a minha melhor prenda de Natal.
                                                                                                   victor moreira
                                                                                                   9 anos
                  IN Maria Rosa Colaço, A criança e a vida (Lisboa: ITAU, 1960)

14 de dezembro de 2014

Ironia trágica

Σοφοκλῆς, Οιδίπους Τύραννος  |  Sófocles, Rei Édipo

CORO
Ó habitantes de Tebas, nossa pátria, olhai: este é Édipo que conhecia os famosos enigmas e era o mais poderoso dos homens; ela, a quem nenhum dos cidadãos contemplava sem invejar a sua sorte, em que procela de desgraça se vem precipitar! Assim, aos olhos dos mortais que esperam ver o dia derradeiro, ninguém pareça ser feliz, até ultrapassar o termo da vida, isento de dor.
SÓFOCLES, Rei Édipo (vv. 1524-1530)

O destino trágico de Édipo fez-me pensar num político português com nome de filósofo que também quis ser filósofo e acabou por ser apanhado pelas malhas da lei que ele mesmo havia criado.

Ato contínuo lembrei-me dum banqueiro da nossa praça com nome de divindade cristã que se julgava dono de tudo e acabou por ruir como um baralho de cartas armadas num castelo de quimeras.

Depois resolvi revisitar o tal rei tebano com nome de pés-furados que um dia salvou a cidade das garras da esfinge devoradora de vidas e acabou por tombar do trono a que havia ascendido.

O primeiro recusou-se a beber a cicuta que o libertaria com honra da infâmia da acusação: que o bebam os outros se tiverem muito gosto em seguir o modelo dos clássicos.

O segundo esqueceu-se de se borrifar com um pouco de água benta purificadora do vexame: que a usem os ingénuos se estiverem muito certos das capacidades lenitivas do sagrado.

O terceiro penitenciou-se com a cegueira e o desterro para mostrar como toda a ação humana se pode voltar contra aquele que é seu autor: que lhe siga o exemplo quem souber ou puder.

Dizem os entendidos ser o extrato transcrito de Sófocles um final espúrio tradutor dum mero lugar-comum, ironia trágica esta a que se resume todo o drama quotidiano da existência humana... 

12 de dezembro de 2014

Rosas vermelhas de Berlim

Rosen am Parkhaus Gleisdreieck

Sergej Alexander Dott, 2003


Numa visita relâmpago a Berlim, deparei-me com um conjunto de ro-sas vermelhas esculpidas num material desconhecido que me pare-ceu aparentado com o plástico. Encontravam-se plantadas estra-tegicamente numa zona supermoderna junto às margens do rio Spree e nas imediações da Potsdamer Platz. Interroguei-me sobre quem seria o seu autor e qual o sentido que lhes teria querido dar. Fiquei-me pelas dúvidas e com um par de fotografias obscurecidas pela neblina ambiente. Além do mais, já passava das quatro da tarde, fazia um frio de rachar e a noite já se pressentia no horizonte. As pesquisas exatas teriam de aguardar por uma melhor ocasião.

Embrenhei-me no centro urbano da capital alemã e pus-me a res-pirar a cultura que a grande metrópole me oferecia nessas vésperas de Natal. As marcas que o tempo foi semeando um pouco por todo o lado continuam bem visíveis, apesar da camuflagem clínica per-petrada para tapar as feridas da II Guerra Mundial e da Guerra Fria que se lhe seguiu. O Muro da Vergonha continua presente mesmo quando está ausente. De repente pensei que cada rosa vermelha simbolizasse uma vida perdida na tentativa gorada de pular de Berlim Leste para Oeste por cima dessa parede de cimento armado. Fiquei satisfeito com a solução encontrada e esqueci-me do assunto.

Voltei a pensar nas rosas vermelhas já no conforto do lar. As es-culturas que fotografara num dia de inverno antecipado teriam de contar os seus segredos. Pesquisei na NET e lá encontrei algumas pistas em alemão que o tradutor Google me ajudou a precisar. Trata-se dum conjunto de 86 exemplares criadas por Sergej Alexander Dott, artista local de Arte Pop, que se limitou a transmitir em termos plásticos a simbologia que essa flor espinhosa ganhara ao longo dos séculos. Os 136 mortos da Cortina de Ferro não moram definitivamente no roseiral semeado no Parkhaus Gleisdreieck de Berlim, tal como a imaginação fantasista ingenuamente confabulara.

10 de dezembro de 2014

Saramago: alabardas, espingardas, caderno, romance e notas

«O sentir humano é uma espécie de calidoscópio instável [...] Burilar a frase é o mais importante nas comunicações entre os humanos.»
José Saramago, Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas (2014)
Foi publicado no passado mês de setembro o derradeiro romance de José Saramago, Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas (2014) e eu já o li todo. Levei algum tempo a fazê-lo, para assim adiar um pouco mais o momento inevitável de vislumbrar o definitivo ponto final do relato. É que, como foi noticiado pelos herdeiros e gestores do espólio literário do prémio Nobel português, trata-se da última ficção que ainda perdurava inédita. Agora só nos resta reler com olhos de ver a obra completa que nos legou, repartida pelos principais géneros dos universos da escrita. 

Chegou inacabado, reduzido a três únicos capítulos e a cerca de cinquenta e seis páginas impressas em livro, generosamente ilustrado com desenhos de Günter Grass e acompanhado com dois ensaios de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano. É completado com um punhado de notas soltas registadas no caderno pessoal do autor, espaço privilegiado para delinear muito sucintamente as etapas de escrita a seguir no projeto de criação artística a que se propusera dar corpo e alma se a saúde lhe não faltasse, como acabou por faltar. 

A história que até nós chegou é fácil de resumir. Aborda a temática do armamento, já anunciada no título selecionado, inspirado na tragicomédia de Gil Vicente Exortação da guerra. O belicista Artur Paz Semedo, contabilista na fábrica de material bélico Produções Belona SA, é incitado pela ex-mulher, a pacifista Berta/Felícia, a desenvolver um estudo comparativo dos negócios da empresa com a indústria da guerra durante os anos trinta do século xx e os atuais. A investigação preparatória é iniciada com sucesso mas os resultados ficam a meio. A tarefa de entrelaçar os fios da trama com os fios da urdidura é abandonada no tear e o remate da tapeçaria feita de palavras é entregue à imaginação dos leitores. 

Lido o livro, deparamo-nos com uma epopeia em prosa lacunar que dispensa o maravilhoso explícito ou o realismo mágico. Está ancorado nas políticas vigentes patrocinadas pela deusa Belona, muito pouco interessadas em serem substituídas pelas políticas emergentes defendidas pela deusa Concórdia. Os conflitos armados mais marcantes da humanidade são convocados pelas instâncias narrativas e tomam conta da tessitura discursiva. As duas guerras mundiais, as guerras europeias dos 30 e dos 100 anos, os conflitos fratricidas travados entre israelitas e palestinianos, italianos e abissínios, bolivianos e paraguaios. E mais exemplos houvera se mais fábula houvera. 

O pano de fundo da peça em cena é desenhado com os usuais catálogos épicos pensados à maneira homérica, mas em que os heróis aparentados com os deuses olímpicos é permutado pelos anti-heróis apadrinhados pelos deuses infernais. Nomes de ditadores e de atores, títulos de filmes e de vídeos, tipos de armas e de documentos, grupos de agressores e de agredidos. Questiona-se o porquê de nunca ter havido uma greve numa fábrica de armas. Referem-se casos de bombas que não chegaram a deflagrar e de operários fuzilados por terem sabotado obuses. 

Visitam-nos a cada passo as memórias sangrentas da guerra civil espanhola d’ O Ano da morte de Ricardo Reis (1984), a falta de visão global denunciada no Ensaio sobre a cegueira (1995), os ecos distantes dos arquivos carregados de morte de Todos os nomes (1997), os odores peculiares dos subterrâneos secretos d’ A caverna (2000), a busca de pistas singulares investigadas n’ O homem duplicado (2002). Gestas coletivas ou reflexões identitárias a caminharem lado a lado. Os ciclos da estátua e da pedra ligados duma assentada num mesmo texto, num mesmo propósito irónico de dar unidade poética ao corpus romanesco produzido.

O debate ideológico imaginado para ser travado pelos dois cônjuges desavindos ficou reduzido a um mero esboço de intenções anotadas no computador portátil do escritor. Sabemos que seria um relato de encontros falhados e desencontros firmados a que nem faltaria um remate exemplar. O livro terminaria com um sonoro «Vai à merda», desabafo imperativo da ex-mulher quando o ex-marido é posto a chefiar uma secção de armas pesadas. História humana lhe chama Saramago. História de corrupção lhe chamamos nós. História paradigmática dos nossos dias. Compra e venda vil de interesses. Lei desenfreada da oferta e da procura. O salve-se quem puder baseada na falência dos valores elementares que deveriam reger uma sociedade e não regem.

8 de dezembro de 2014

Estudar ou não estudar

LUÍS ANTÓNIO VERNEY

(Lisboa, 1713 — Roma, 1792)
Quanto à necessidade, eu acho-a grande que as mulheres estudem. Elas, principalmente as mães de família, são as nossas mestras nos primeiros anos da nossa vida: elas nos ensinam a língua; elas nos dão as primeiras ideias das coisas.

E que coisa boa nos hão de ensinar, se elas não sabem o que dizem? Certamente que os prejuízos que nos metem na cabeça, na nossa primeira meninice, são sumamente prejudiciais em todos os estados da vida; e quer-se um grande estudo e reflexão para se despir deles. 

Além disso, elas governam a casa, e a direção do económico fica na esfera da sua jurisdição. E que coisa boa pode fazer uma mulher que não tem alguma ideia de economia? 

Além disso, o estudo pode formar os costumes, dando belíssimos ditames para a vida; e uma mulher que tem alguma notícia deles pode, nas horas ociosas, empregar-se em coisa útil e honesta, no mesmo tempo que outras se empregam em leviandades repreensíveis. 

Muito mais, porque não acho texto algum da Lei, ou Sagrada, ou Profana, que obrigue as mulheres a serem tolas; e não saberem falar.
Luís António Verney, Verdadeiro método de estudar (1746)

1 de dezembro de 2014

As duas duquesas

LA VIRREINA

Joaquín Ezequiel Linares (1927-2001)

Dizem que nas vésperas do primeiro de dezembro de 1640, D. Luísa de Gusmão (1613-1666) terá dito no seu idioma materno com pronún-cia andaluzo-alentejana: Antes reina por un día que duquesa toda la vidaSegundo afirmam as más-línguasa declaração categórica da duquesa terá dissipado as hipotéticas hesitações do duque seu marido em assumir sem rodeios o trono da Monarquia Lusitana, restaurada sob a égide da Sereníssima Casa de Bragança. Ironias que a história gosta de coligir e divulgar. Apetece frisar o paradoxo do final da união ibérica pessoal das coroas de Portugal e Castela se ter devido às ambições régias duma Medina-Sidónia espanhola.

Diz-se também que no próprio dia do golpe de estado palaciano, Margarida de Saboia (1589-1656) terá tentado ingloriamente resistir aos revoltosos que lhe invadiram os aposentos, onde exercia as funções de vice-rainha de Portugal (1534-1640), perguntando-lhes com a altivez própria duma duquesa de Mântua e Montferrat, neta de Filipe II e prima direita de Filipe IV das Espanhas: ¿Qué es esto? ¿Dónde está vuestra fidelidad?Ao que D. Carlos de Noronha, um dos conjurados, lhe terá respondido em bom e legítimo português: Se Vossa Alteza não quiser sair por aquela porta, terá de sair pela janela, apontando-lhe uma das varandas do Terreiro do Paço.

Os regimes monárquicos têm destas bizarrias peregrinas, repetidas tantas vezes ao longo da sua história secular de guerras dinásticas, que os próprios regimes republicanos acabam por dar ouvidos a essa retórica coroada com data marcada no calendário. Até nos es-quecemos que o velho rei destronado e o novo rei aclamado serem trinetos de D. Manuel I de Portugal. Tudo farinha do mesmo saco. As miragens duma independência recuperada continuam a ser con-vocadas ano a ano por um mesmo saudosismo pretérito. Agora que o lenitivo dum feriado nacional nos foi arrebatado, confessemos que nos resta muito pouco a celebrar dessa querela familiar...