19 de dezembro de 2014

Falando de greves

Hôtel de Ville et place de Grève
Théodore-Joseph-Hubert HOFFBAUER
[© Photo RMN-Grand Palais - Bulloz]
Fui surpreendido por uma greve geral de transportes públicos italianos em meados de outubro de 2012, quando aterrei no aeroporto de Roma Fiumincino. Encontrava-me em trânsito para Viterbo ao abrigo duma mobilidade interuniversitária há muito programada e vi-me, dum momento para o outro, a 35 km do centro histórico da cidade eterna. Na Stazione Treini, fui informado que o serviço mínimo me garantia um comboio expresso para a Grande Stazione da Roma Termini dali a um par de horas, descartando, por completo, uma qualquer ligação para a Piccola Stazione da Roma Transtevere que estava inscrita nos meus planos.

No bruabrá habitual destas alturas, fui surpreendido pela voz duma respeitável signora romana que comigo voara desde Lisboa. Informou-nos a todos em vários idiomas tratar-se da época do ano em que as greves assinavam o ponto no país e sugeriu-nos um autocarro alternativo para concluirmos a viagem. Aceitei a solução e encetei uma conversação em francês com a minha companheira de peregrinações imprevistas, decisão que se revelaria da maior utilidade nas horas que se seguiram. Uma visita guiada à cidade das sete colinas. No final da jornada, conduziu-me no seu Renault 5 ao hotel e ficámos amigos para sempre.

Voltei a ser surpreendido esta semana por um pré-aviso de greve marcado pelos sindicatos ligados à TAP, prevista para a semana situada entre o Natal e o Ano Novo. Ter-me-ia limitado a seguir   evolução dos acontecimentos pelos mass media, se não se desse o caso de esperar a visita de alguém muito chegado, que este oásis à beira-mar plantado obrigou a deslocar-se com caráter algo definitivo para Copenhaga. Situação insustentável que só uma requisição civil parece ter resolvido para os viajantes em trânsito, deixando todavia de parte a situação periclitante da companhia aérea de aviação em banho-maria ou coisa nenhuma.

A reunião de operários na velha praia parisiense de cascalho e areia do Sena à procura de trabalho levou a que se associasse o nome dessas reivindicações à place de la Grève onde se realizavamO Ancien Régime foi-se e os novos tempos chegaram, mas as lutas laborais ficaram. O direito à greve está inscrito na lei. A dificuldade reside em discernir com frieza de espírito quem ganha e perde com a sua aplicação. Os múltiplos dilemas instalam-se e cada opina de acordo com os interesses pessoais envolvidos. Pela parte que me toca, é fácil de adivinhar para que lado caiu a minha opção. Assim o volte-face duma providência cautelar me não troque as voltas.

2 comentários:

  1. Reconheço, julgo como a maior parte das pessoas, o direito à greve. Contudo - e eu não vou viajar e nem estou à espera de ninguém do estrangeiro nesta altura - fico admirada com a proporção que esta greve atingiu, quando grande parte das famílias portuguesas costumam reunir-se para matar as saudades em festa familiar. Mais admirada fico quando ouço pilotos a referirem a sua importância no processo, a qual deveríamos "lembrar quando se bate palmas por aterrarem em segurança"... Dirão o mesmo os engenheiros civis que constroem as pontes por onde passamos, os médicos que nos operam e assim por diante. Há muita confusão em redor desta luta "contra a privatização" da TAP... A propósito, lembra-me as sucessivas greves no metropolitano, que dantes se realizavam no dia para o qual o pré-aviso de greve era entregue. Passou a ser, há tempos, a partir das 23h 30 do dia anterior e, agora, a partir das 23h 15. Se os trabalhadores não assumem as suas responsabilidades, prejudicando assim o público, como podem querer que a população os apoie? Tanto mais no caso da TAP, que é uma questão de privatização de um bem público. Não fazem greve noutra altura porque nestes dias festivos prejudicam mais a companhia em termos de receitas, pelo que supõem exercer uma maior pressão sobre os decisores políticos, mas na realidade os sentimentos afetivos nesta altura estão muito acesos para que tenham o apoio da população...

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    1. Os sindicatos ligados à TAP acabam de desconvocar a greve marcadas para o entre Natal e Ano Novo. Decisão sábia tomada na algumas horas antes do Menino Jesus voltar a nascer pela enésima vez. Parece que chegaram todos a acordo sobre as negociações a encetar no futuro. Que do diálogo surja a luz e a nossa companhia de aviação se mantenha com as cores da bandeira nacional. Ficávamos todos a ganhar com essa decisão...

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