28 de dezembro de 2015

O abeto iluminado, o pato recheado & a bota tricotada

H. C. Andersen, Christmas Tree, 1850
[Odense City Museums - Hans Christian Andersen Museum]

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso...
Ude i Skoven stod der saadant et nydeligt Grantræ; det havde en god Plads, Sol kunde det faae, Luft var der nok af, og rundtom voxte mange større Kammerater, baade Gran og Fyr; men det lille Grantræ var saa ilter med at voxe; det tænkte ikke paa den varme Sol og den friske Luft, det brød sig ikke om Bønderbørnene der gik og smaasnakkede, naar de vare ude at samle Jordbær eller Hindbær; tidt kom de med en heel Krukke fuld eller havde Jordbær trukket paa Straa, saa satte de sig ved det lille Træ og sagde: "nei! hvor det er nydeligt lille!" Det vilde Træet slet ikke høre...
H. C. Andersen: Grantræet. (1845)
A consoada dinamarquesa é regida pela árvore de Natal. A tradição católica do presépio não assentou arraiais em terras escandinavas de culto luterano. Este ano coube-me a honra de acender as duas dezenas e meia de velas espalhadas estrategicamente pelo abeto de cinco anos criado na terra de Andersen. Privilégios de se ser o decano da família. Depois dançámos e cantámos à volta dela: Høj fra træts grøne top stråler juleglansen, spillemand, spil lysting op!

Um bom pato assado, criado num dos campos da Zelândia, Fiónia ou Jutlândia, teve lugar à mesa. Vinha recheado de ameixas e maçãs e fazia-se acompanhar de batatas e couve-roxa. O bacalhau da Gronelândia rumou para a ceia meridional portuguesa. À falta de bolo-rei, comeu-se um risealamande com uma amêndoa inteira a substituir a fava e a desempenhar o papel de brinde extra. Depois desejou-se: Glade Jul, dejlige Jul, engle dale ned i skjul!

No final do jantar, os presentes vestidos de gala chamaram por nós. E a rainha da festa coberta de luz voltou à ribalta. As botas de lã tecidas em casa juntaram-se às demais decorações feitas ao longo da semana. O sapatinho e a chaminé são parra que já deu uva há muito tempo. A árvore iluminada despojou-se do que tinha para dar e o Natal cumpriu-se. Depois da noite acabada, pode dizer-se como nos contos infantis: Forbi, forbi, og det blive alle Historier!

26 de dezembro de 2015

José Saramago: claraboia, um retábulo com seis painéis e muitas gestas desenhadas

«Adriana pousou o livro e daí a pouco esquecia-o. Não apreciava muito os livros. Como a irmã, a mãe e a tia, adorava a música, mas os livros achava-os maçadores. Para contar uma história enchiam-se páginas e páginas e, afinal, todas as histórias se podem dizer em poucas palavras.»
José Saramago, Claraboia (2011)
Descobri José Saramago por acaso há cerca de três décadas, numa altura em que não conhecia o autor nem de nome. Apaixonei-me pela capa dum livro seu que tinha uma imagem fabulosa e só me dei conta do disparate cometido quando cheguei a casa. Deixara-me vencer pela aparência dum olhar e impulso dum instante. Reproduzia ela o pormenor bíblico da construção da torre de Babel, pintado nos frescos medievais da abadia francesa de Saint-Savin-sur-Gartempe. Alguns meses depois, resolvi arrumar em definitivo o incidente e lançar-me duma vez por todas à leitura sempre adiada do romance ou deixá-lo tranquilamente sossegado a encher-se de pó. A surpresa não podia ser maior. Li-o de fio-a-pavio, numa única noite e sem interrupções. Na manhã seguinte, fui à procura de todos os textos que já publicara e comecei a devorá-los da primeira à última notação gráfica. O prazer da descoberta foi menos intenso, mas vaticinou-me que o melhor ainda estava para vir nos anos seguintes. Assim foi. A paixão pela escrita desse desenhador de palavras até então desconhecido desabrochou e mantém-se bem viva até hoje. Tudo a partir do Memorial do convento (1982), um relato épico centrado na era dourada do Magnânimo e que transformou radicalmente em mim a forma de viver a literatura. Curiosas histórias que os livros nos oferecem, assim de imprevisto, sem pedirem licença a ninguém.

Uma outra capa que me voltou a sensibilizar para um romance de Saramago é mais recente e a linguagem de script que a encorpa obedeceu a uma trajetória distinta. A ansiedade de desvendar os segredos dum inédito há muito extraviado foi mais forte do que a magia provocada por uma gravura que se abria sedutoramente para o âmago da fábula. A representação duma fresta ou óculo aberto para permitir a passagem do ar ou claridade a um edifício de papel revestido de palavras e a pairar sobre o casario da cidade recortada sobre um fundo azul-celeste. Imagem feliz para dar visibilidade antecipada a uma Claraboia (2011) especial, traçada por um obscuro Honório, pseudónimo que os editores modernos substituíram pelo ortónimo do seu criador absoluto. Apesar de ter sido finalizada em 1953 e ficado esquecida até às vésperas da publicação, já com caráter póstumo, é deveras surpreendente que encontremos na sua urdidura a magia duma escrita que só seria reconhecida e consagrada a uma distância tão alargada no tempo. A problemática da existência humana tomada em todas as suas dimensões, a equação das relações erigidas entre homens e mulheres nas suas pequenas e grandes cumplicidades, a determinação possível das fronteiras balizadoras do real e do imaginado, do bem e do mal, do amor e do ódio, da verdade e da mentira, da vida e da morte, do tudo e do nada.

Essa abertura estratégica recortada no prédio ficcionado permite-nos espreitar para o seu interior sem ser vistos, observar discretamente o destino entrecruzado da meia dúzia de famílias que o habitam, protagonistas romanescos decalcados dos passeantes anónimos com que nos cruzamos no nosso caminhar pelo dia-a-dia. Vê-los a todos dum modo peculiar, como heróis e heroínas dum vasto retábulo com seis painéis e muitas intrigas por contar. Gente simples com sonhos de liberdade. Regresso inesperado aos anos cinquenta, a um bairro popular de Lisboa, descritos em cima do acontecimento, aqueles em que uma chamada telefónica custava cinco tostões e se podia fazer em casa duma vizinha, em que se ouvia rádio aos serões e se ignorava a existência da televisão, em que os jornais falavam da guerra da Indochina e se fazia tábua rasa das colónias portuguesas que, à época, se mantinham adormecidas, numa tranquilidade secular, sem o menor sobressalto de conflitos futuros. Anos em que as pessoas ainda sentiam prazer em conversar umas com as outras sobre os mais diversos assuntos, ainda achavam importante discutir os enredos das histórias de paixões ardentes escritas nas páginas dum livro ou gravadas nas faixas dum disco, ainda encontravam argumentos plausíveis para construir sistemas filosóficos pessoais de dimensão universal. Retalhos de vida plasmados num romance que por pouco não ficava encerrado numa qualquer gaveta de obras rejeitadas pela república das letras. Uma claraboia transformada numa janela aberta de par em par, para que as poeiras de décadas de esquecimento fiquem impedidas de ofuscar a luminosidade retratada na tela. Ironia inesperada do devir histórico, feita de teias urdidas e cerzidas, de dramas lidos e vividos, de palavras perdidas e achadas…

NOTA:
Li esta Claraboia de Saramago pela primeira vez em Copenhaga. Agora que voltei à capital dinamarquesa e o romance foi adaptado ao teatro e subiu aos palcos da capital portuguesa, trago para aqui o texto que então compus e tornei público no Pátio de Letras. Faço-o porque ainda não me deixei de surpreender com o autor que revolucionou a arte de contar histórias entre nós...   

21 de dezembro de 2015

O Pai Natal, as renas, os brinquedos & os meninos bem-comportados.

Ilustrações de Afonso Cruz - Para onde vão os guarda-chuvas (2013)

HISTÓRIA DE NATAL
para crianças que já não acreditam no Pai Natal

O Pai Natal tem uma barriga muito grande e umas barbas enormes da cor do leite a escorrer pelo queixo. | O Pai Natal vive no Polo Norte no meio da neve e do frio. | Gosta muito das suas renas e passeia com elas como se fossem velhos amigos. | Por vezes, abraça-as e dá-lhes palmadinhas nas costas. Como nós fazemos quando vemos pessoas de quem temos saudades. | Uma das coisas de que o Pai Natal mais se orgulha é a sua colorida fábrica de brinquedos. | Onde os seus duendes trabalham dia e noite sem nunca se cansarem. E cantam de alegria enquanto fabricam tanta felicidade em forma de bonecas e carrinhos. |  Quando as prendas estão prontas, são embrulhadas em papéis coloridos. O Pai Natal gosta especialmente dos embrulhos em que ele aparece. | Depois, o Pai Natal monta no seu trenó, diz um poema às renas para elas conseguirem voar e percorrer o mundo. | Vai distribuindo os presentes por todo o lado. | Por todas as chaminés. | E é assim que os os meninos bem-comportados recebem as suas prendas. | Feliz Natal!
Afonso Cruz, Para onde vão os guarda-chuvas (2013: 23-47)

NOTA:
A leitura da história desenhada com palavras não dispensa a leitura da história contada com desenhos ou a obra maior a que pertence sobe a forma de romance. O confronto das duas versões é fundamental para entender os sentidos convocados no subtítulo desta História de Natal.

17 de dezembro de 2015

Presépio de Belém, Dia de Natal e Sol Invicto

Giotto di Bondone, Adorazione dei Magi (c. 1303-1305)
[Cappella degli ScrovegniPadova]

Segundo se julga saber, deve-se a São Francisco de Assis a criação do primeiro presépio. A encenação natalícia ocorreu no já longínquo ano de 1223 e contou com o acordo papal de Honório III. O drama litúrgico foi representado numa gruta da floresta de Grécio e integrado numa missa especial, rezada na presença da imagem do Menino Jesus deitado num berço revestido de feno e ladeado pelas imagens da Virgem Maria e de São José. Para completar o cenário, foram levados para ali um jumento e um boi verdadeiros. A recriação anual do nascimento do Messias Salvador acabava de ser instituída, atravessaria milénios e chegaria até aos nossos dias.

Artistas e artesãos deram-lhe vida em figuras pintadas, desenhadas e esculpidas, expostas em museus nacionais de todo o mundo e nas casas da gente anónima um pouco por todo o lado. A lenda local dada à luz num recanto perdido da Terra Santa transformar-se-ia, com o decorrer dos tempos, num mito global que abraça os cinco continentes habitados pelos seres humanos, devotos ou não das diversas interpretações da fé Cristã. Cada cor seu paladar. Os interpretes do presépio franciscano multiplicaram-se, o estábulo abriu-se ao exterior e os caminhos de areia traçados num chão de musgo chegarem até ao castelo dos Reis Magos.

Olhando com atenção para essas reconstituições do mistério da encarnação, até nos esquecemos da fragilidade dos dados factuais a ele associados e dos constantes desmentidos proferidos pelos registos históricos que até nós chegaram. A pragmática prosaica da realidade raras vezes dá as mãos à fantasia poética da imaginação. As temperaturas negativas que se fazem sentir nas montanhas de Belém aconselhariam os progenitores do recém-nascido a protegê-lo um pouco melhor dos frios invernais do último mês do ano. A menos que o parto sagrado se tenha dado noutra altura ou noutro espaço. As hipóteses alternativas são mais do que muitas.

A fixação do Natal a 25 de dezembro parece estar ligada ao culto ro-mano do Sol Invictus, cujo nascimento se festejava nesse dia. Com a conversão de Constantino ao Cristianismo em 313, a substituição duma divindade por outro efetuou-se de imediato, passando Jesus de Nazaré a ser o verdadeira resplendor invencível. E assim ficou até hoje no rito católico predominante entre nós. Data em que a luz do dia começa a aumentar após o solstício de inverno e o renascimento do astro-rei se iniciava. Momento simbólico de desejar as boas-festas à vida renovada, independentemente o nome que lhe outorguemos e dos sentidos religiosos que lhe agreguemos.

14 de dezembro de 2015

Amin Maalouf, os jardins de luz do maniqueísmo

«Sois traître à l’Empire, s’il le faut, et rebelle aux décrets du Ciel, mais fidèle à toi-même, à la Lumière qui est en toi, parcelle de sagesse et de divinité.»
Amin Maalouf, Les Jardins de lumière (1991)
Amin Maalouf, jornalista e escritor libanês de língua francesa, estreou-se no mundo das letras com As Cruzadas vistas pelos Árabes (1983). Seguiram-se-lhe uma dezena de outros títulos repartidos pelo ensaio, romance e libreto de ópera. O sucesso da obra cruzou fronteiras à escala mundial, transformando o autor num dos nomes de referência literária atual mais acatados pela comunidade internacional. O segredo tem residido no seu propósito de promover o diálogo constante do Oriente com o Ocidente, de fomentar o entendimento de todos os homens, de estimular o respeito pela diferença. Proeza facilitada pelo facto de ter sido cometida por um ser colocado entre dois mundos, entre dois padrões civilizacionais, entre dois paradigmas mentais, i.e., por espelhar a alma mediterrânea de um nativo árabe de criação católica exilado na Europa.

Essa experiência sui generis de vida e o gosto pelo discurso histórico empurraram-no para a composição de uma autêntica trilogia de biografias ficcionadas de grandes vultos da cultura universal, que o fenómeno da globalização tem vindo paulatinamente a relegar para segundo plano ou mesmo a ostracizar. Depois de ter traçado nas páginas de Leão, o africano (1986) e de Samarcanda (1988) as principais etapas andarilhas do diplomata, geógrafo e humanista mouro de Granada Hassan Al-Wazzan / Jean-Léon de Médicis (1488-1548) e do poeta, matemático e astrónomo iraniano Omar Khayyam (1048-1131); Amin Maalouf conclui a série com Os jardins de luz (1991), onde nos convida a conhecer um pouco melhor a personalidade do pintor, médico e filósofo babilónio Mani ou Manes (216-274), o Buda da Luz para os egípcios, o Apóstolo de Jesus para os egípcios, o fundador do maniqueísmo para os vindouros, que somos todos nós.

O dualismo religioso patente no modelo profético apregoado pelo Filho de Babel resulta, em grande parte, dos percursos que a existência lhe foi impondo. A permanência forçada, por mais de vinte anos numa comunidade eremita de monges brancos, isolado dos homens e do mundo, a explicar-lhe a origem e explicação da intransigência; e as longas e continuadas peregrinações pelos espaços abertos do império sassânida, no seio das populações anónimas, a oferecer-lhe os germes de uma nova relação com o transcendente, ancorada na conciliação de todas as religiões. Na opinião do curador de corpos e almas, a verdadeira forma de assegurar a total liberdade do homem não pode partir da renúncia exclusiva ao mundo exterior, mas sim da descoberta do mundo interior que habita dentro de si. Só assim se poderá aproximar do Pai, o Todo Poderoso, única hipótese de vislumbrar a face do Criador de todas as coisas, o Rei dos jardins de luz, sempre de braços abertos para acolher os inimigos das trevas.

Na luta incessante entre a tolerância e a intolerância, entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, a vitória parece que tem vindo a inclinar-se para os segundos termos dos binómios destacados. Era assim nesse tempo recuado, continua a ser assim nos nossos dias. Ao manter-se coerente com as suas convicções pessoais, com as suas crenças e doutrinas, Mani deixou escapar a oportunidade de garantir a canonização da sua fé, a institucionalização da sua igreja e a sobrevivência do seu pensamento. O mensageiro da paz morreu martirizado quando aconselhou o imperador persa a resolver os conflitos bélicos com o imperador romano pela via diplomática. A força da guerra foi mais forte do que a da concórdia. As lições da História têm servido de pouco para a formação de todos nós.

Fundado no século III da era comum, como um sincretismo do zoroastrismo, do budismo e do cristianismo, o maniqueísmo é hoje em dia uma religião extinta e o seu fundador um profeta sem seguidores. Neste sentido, os sistemas religiosos alicerçados por Buda, Jesus e Maomé tiveram um destino bem diferente do idealizado por Mani. A humanidade que promoveu esta seleção natural que o diga. Amin Maalouf, pela sua parte, já cumpriu sobejamente a sua missão.

NOTA:
Convoco aqui para este espaço a leitura que há meia dúzia de anos tornei público no Pátio de Letras. Faço-o com o propósito de reunir Os jardins de luz a Leão, o africano e a Samarcanda, dando maior visibilidade a esta trilogia biográfica organizada por Amin Maalouf, um dos meus escritores atuais de eleição.

11 de dezembro de 2015

A idade dos livros e das leituras juvenis


Aquel día había cumplido yo los quince años...
Martín Vigil, La vida sale al encuentro (1961)

Caprichos do acaso fizeram-me tropeçar há dias com um libro de bolsillo que ocupou uma posição cimeira numa fase crucial da minha formação pessoal, aquela que promoveu a passagem penosa da adolescência para o estado adulto pleno. Lera-o a pedido duma amiga muito especial com o compromisso de lhe dar depois a minha opinião sincera. Assim fiz sem pestanejar.   

Segui atentamente o relato que o jesuíta Martín Vigil preparara, em La vida sale al encuentro (1961), para um público juvenil moldado, até à medula, pela matriz judaico-cristã nos tempos áureos do regime franquista predominante na piele de toro espanhola. A ideologia político-religiosa então vigente transpira em cada sílaba, palavra e frase documentadas. Naturalmente.

Voltei a visitar o palco do drama vivido no início dos anos sessenta pelos protagonistas da ficção. A um contexto histórico-cultural em que ainda se escreviam cartas, se enviavam telegramas ou se recorria ao telefone fixo para comunicar. Os discos de vinil eram reproduzidos em pick-ups, ouvia-se rádio, ignorava-se a televisão e ia-se ao cinema de bairro nos fins de semana.

Em meados do século passado, as gentes não conheciam os iPhone, iPod, iPad, iMac e outras engenhocas em i (ai). Essas gentes estavam longe de imaginar os Laptop, Tablet, MP3, Notebook, Smartphone, dos nossos dias. Nem sequer imaginavam que um dia houvesse a Internet e se socializasse pelo Facebook, Twitter, Instagram, Google+, MySpace, Badoo e quejandos.

Os autores passam, os leitores vão-e-vêm, os livros ficam. No mundo real dos factos acontecidos, nasce-se, vive-se e morre-se uma única vez. No mundo virtual dos factos imaginados, nasce-se, vive-se e morre-se uma infinidade de vezes. Essa a diferença básica entre a vida vivida pelas pessoas concretas de carne e osso e a vida vivida pelas personagens abstratas de papel e tinta.

O novelista morreu esquecido de todos. A novela continua a esgotar edições. A juventude a que se destinava foi substituída por outras. Imparavelmente. A história autobiográfica de Iñaki, o herói, prossegue a sua missão de despertar em cada um dos seus confidentes a magia incontornável dos 15 anos. A identificação com essa fase de amadurecimento não deixará ninguém indiferente.

A etiqueta literatura juvenil é uma convenção ancorada nos temas centrais convocados pela escrita. Amor e morte, presença/ausência de fé, riso e choro, tudo e nada. O sonho e o pesadelo extremam-se. A dúvida instala-se e a incerteza impõe-se. Inexoravelmente. Os livros envelhecem. As leituras rejuvenescem-nos. Depois, as aprendizagens acontecem e a vida vem ao nosso encontro.

7 de dezembro de 2015

Afonso Cruz, Tapetes voadores, tabuleiros de xadrez e guarda-chuvas extraviados

«Para onde vão os guarda-chuvas? São como as luvas, são como uma das peúgas que formam um par. Desaparecem e ninguém sabe para onde. Nunca ninguém encontra guarda-chuvas, mas toda a gente os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa infância, os nossos guarda-chuvas?»
Afonso Cruz, Para onde vão os guarda-chuvas (2013)
Estou sempre a cair na tentação de comprar livros que amigos bem-intencionados me vão sugerindo de ler. Na maioria dos casos, o valor intrínseco que lhes encontro seria insuficiente para pagar o preço do papel em que estão escritos e a tinta gráfica com que foram fixados. Sobre tais casos, nem merece a pena gastar tempo precioso a tecer comentários supérfluos a acrescer ao já despendido na viagem pelo seu interior. No extremo oposto, encontram-se aqueles poucos textos que superaram todas as expetativas, que me encheram ou extravasaram mesmo as medidas. Para esses, tenho dificuldade em encontrar palavras para preencher o louvor merecido. As boas obras dispensam elogios a que, mesmo assim, têm direito. O romance que agora me ocupa foi composto por Afonso Cruz e dá pelo título enigmático de Para onde vão os guarda-chuvas (2013). A resposta à pergunta implícita colocada logo na capa do volume que o alberga só será respondida bastantes páginas à frente, quando já desesperava de decifrar os seus sentidos ocultos na tessitura dos relatos contados e desenhados que nos vão sendo oferecidos com toda a calma do mundo e ao sabor do momento.

Gostar ou não gostar das histórias impressas a fingir de verdadeiras é irrelevante. O mais importante é saber se nos deixam ou não indiferentes. Que falem delas ainda que seja para dizer mal. Eis uma frase que à força de ser repetida já entrou na categoria das banalidades. Cristalizações verbais ou sintagmas congelados lhes chamam os linguistas a demonstrar a sua destreza no manejo das palavras. Dispenso-me de optar por uma aprovação/reprovação simplista deste guarda-chuva metafórico que alguém fez cruzar no meu caminho sem me dizer para onde ia. Limito-me a dizer que a anunciada obra-prima de prosa poética composta por um jovem autor português buliu comigo mais do que uma vez. Deixou-me cheio de interrogações estéticas quase sempre contraditórias ou mesmo inconciliáveis. Sensação forte, intensa, que geralmente se experimenta quando estamos em presença duma manifestação de arte há muito consagrada e confirmada. Os prémios obtidos dentro e fora das fronteiras nacionais deixam antever que o caminho percorrido pelo escritor, ilustrador, cineasta e músico, já ultrapassou a fasquia do principiante e se encaminha a passos largos para a consagração multidisciplinar.

Trata-se dum livro aglutinador de várias estruturas discursivas, chamadas à colação para dar uma maior visibilidade aos flashes existenciais duma família oriunda dum espaço exótico, situado num quadrante impreciso e deixado por identificar com as palavras que desvendariam o mistério. Lá vamos sabendo professar o credo islâmico, conviver com representantes dum cristianismo minoritário e dum hinduísmo concorrente. O urdu é referido várias vezes e registado a título complementar na numeração dos capítulos em que a fábula se constrói. Talvez nos queira remeter para o Paquistão ou Índia, países onde é falado como língua oficial ou de utilização quotidiana. A menos que se trate do Irão, também sugerido pelo idioma farsi. Pouco importa. O caráter de indefinição atribuído aos relatos verbalizados, desenhados e fotografados, introduz um elemento suplementar que é posto à inteira disposição dos leitores para comporem os quadros onde a diegese se vai fazendo. Vida, paixão, inocência, amor, morte. O sonho de liberdade, o pesadelo do cativeiro. A perda de um filho e a adoção de um outro. Pedaços de solidão revelados a preto e branco num tabuleiro de xadrez ou pintados num tapete de oração com todas as cores do arco-íris. Os pássaros a voarem mais alto nos versos do poeta Omar Khayyam, reproduzidos na máquina de escrever do macaco infinito. Alegorias clássicas enquadradas por uma edificativa «História de Natal – para crianças que já não acreditam no Pai Natal» e uns imaginários «Fragmentos persas (anónimo, século I depois da Hégira – seleção e recolha de Théophile Morel)». O alfa e o ómega da própria condição humana, plasmados nos ícones e signos com que as tramas narrativas se tecem.

Nas badanas ou guardas dos livros, nas capas e contracapas, as críticas documentadas são sempre positivas, as obras magistrais e os autores geniais. Depois o pano levanta-se, a função inicia-se e a peça mostra-se. A verdade nua e crua é revelada sem dó nem piedade. Os atores em cena passam a revelar as suas próprias capacidades líricas, épicas e dramáticas. Os publicitários falariam na prova do algodão. As hipérboles são reduzidas à sua verdadeira dimensão e o balanço surge no horizonte. Dou o braço a torcer neste caso concreto. O texto, afinal, vale bem o papel em que está estampado. As sensibilidades estéticas dos amigos, por vezes, coincidem entre si. Então, as balizas entre o bom e o mau ganham uma nitidez cristalina e a fruição pela arte surge. A república das letras abre-nos as portas e convida-nos a entrar. Entremos que oportunidades destas não surgem todos os dias.

1 de dezembro de 2015

Guerras, ventos & casamentos...

Guillermo Harvey, Atlas (Londres: 1868)
[Library of Congress - United States]

O extinto feriado do primeiro de dezembro evoca-me os tempos em que nasci e cresci. Celebrava-se com especial ardor a Restauração duma Coroa governada por um rei nascido em território português. O equívoco entre os conceitos de País-Estado-Nação levaram o regime político vigente a associar essa mera mudança de monarca como a recuperação duma independência alegadamente perdida. Dizia-se ainda com mais empenho patriótico de ajuste de contas com a História: De Espanha, nem bom vento nem bom casamento.

O provérbio repetido a torto e a direito por todos os quadrantes da época, incluindo o republicano, sempre me causou uma certa confusão. O mistério do vento aludido só começou a desvendar-se no momento em que a experiência pessoal da nortada estremenha, fresca e húmida, se veio juntar à experiência do levante algarvio, quente e seco. Vistas bem as coisas, as massas de ar atlânticas ou sarianas pouco têm a ver com as fronteiras físicas da Península Ibérica. Atingem-na por inteiro, por igual e sem preconceitos.

A inclusão do casamento na sentença rimada pareceu-me sempre óbvia. Referia-se à política matrimonial seguida pelas monarquias hispano-portuguesas ao longo dos séculos. Afinal de contas, tinha sido através da união de Isabel de Avis com Carlos Quinto que nascera Filipe II. Pesquisas posteriores vieram dizer-me que o problema das rivalidades políticas entre reinos vizinhos tinha criado um conjunto de ditados populares comprovativos dessa realidade. Destaco o franco-inglês: D'Angleterre, ni bon vent ni bonne guerre.

Questiúnculas dinásticas à parte, apeteceu-me saltar esse ambiente de guerra e recuar aos meus 20 e poucos anos, quando estive em Olivença pela primeira vez. Fi-lo com um amigo espanhol. No regres-so, perguntou-me onde ficava a raia portuguesa. Ao olhar para o fir-mamento, livre das luzes da cidade, fui incapaz de identificar a estrela Polar que me apontaria o rumo certo. Então, na imensidão da Via Láctea, percebi o quanto as linhas divisórias entre povos per-dem o seu sentido absoluto e se reduzem a nada. Inexoravelmente.

26 de novembro de 2015

Alegorias do bom e do mau governo

Allegoria del Buon Governo & Allegoria del Cattivo Governo

[Sala dei Nove, Palazzo Pubblico, Siena (1338-1339)]
Existe em Siena um conjunto de frescos alegóricos que descrevem o modo como a Baixa Idade Média entendia o desempenho gover-nativo da coisa pública. Foram executadas pelo pintor florentino Ambrogio Lorenzetti (c.1290-1348?) nas paredes da Sala dos Nove do Palácio Comunal da cidade e república italiana. Baseou-se, para tal, na visualização simbólica das virtudes e vícios definidores das práticas do bom e do mau governo.

Mudam-se os tempos mudam-se as vontades. Os Espelhos de Príncipes pré-renascentistas tiveram de se adaptar às realidades criadas ao longo dos séculos entre as modernidades clássicas e as pós-modernidades contemporâneas. Rei morto, rei posto. Governo caído, governo erguido. As fronteiras maniqueístas traçadas entre o bem e o mal estiveram sempre longe de viabilizar consensos consistentes e convincentes.

Olhando para os retratos de família dos governos atuais, tirados nos momentos oficiais de maior solenidade, procuro encontrar a tal Perfeição do Político que lhes é exigida. Assinalar a presença dos rostos da Paz, Justiça, Fortaleza, Prudência, Magnanimidade e Temperança. Afastar de cena os rostos da Crueldade, Traição, Maldade, Furor, Divisão e Guerra. Afirmar aos quatro ventos que desta vez é de vez e acertar.

20 de novembro de 2015

Piqueniques, memórias & Internet


RELÓGIO FUNDIDO

Dalí, La persistència de la memòria (1931)
[NY - Museum of Modern Art - MoMA]
Sempre nutri uma simpatia muito especial por piqueniques. Esse gosto deve ter raízes nas aventuras dos famosos cinco que ocuparam as minhas leituras de quase teenager, logo imitados com afinco pela primalhada em tempo de férias no pinhal grande da praia da Areia Branca. Saltando para um tempo mais maduro, recordo um desses convívios de grupo na serra de Sintra com um punhado de colegas e amigos em final de formação académica na grande cidade. O encanto efémero dessa tarde levou-nos a marcar um encontro para dali a uns quantos anos naquele mesmo local. Esqueci-me do combinado e não compareci. Duvido que alguém se tenha lembrado de o fazer. Nem sequer posso confirmar a suspeita, porque lhes perdi completamente o rasto.

Muitos piqueniques passados, voltei ao convívio dalguns colegas de liceu através do mundo virtual da Internet. Pistas perdidas achadas por acaso nas navegações cegas pela blogosfera e redes sociais. Fotos a preto e branco recuperadas pela persistência da memória a saltarem na janela indiscreta do PC doméstico. Os contactos e a atualização de episódios pretéritos foram imediatos. Exumámos das sombras as merendas da quinta-feira da espiga, nas matas das Caldas da Rainha, e as petiscadas do santo chouriço, no adro da ermida de Santo Antão em Óbidos. Tudo ao ar livre. Depois o assunto esgotou-se, o dito e redito instalou-se e os posts findaram de vez. Inexoravelmente. Ficaram os votos rituais de parabéns e de boas festas nas páginas do Facebook.

Voltei a cruzar-me com um rosto perdido há muito no tempo. O MySpace foi o mediador de serviço para fazer a ponte entre dois pontos singulares de devir existencial. Já nos conectámos online e trouxemos a jusante fragmentos das memórias formadas a montante. Trivialidades. Qualquer dia ainda lhe falo duma merienda celebrada com toda a pandilla da altura numa praia fluvial do Tejo espanhol. Provavelmente deixarei este flash com entorno internacional vogar sem destino definido pela Net à escala global. Esperarei que a mensagem chegue ao computador do meu amigo de juventude. Duvido. Os acasos não se fazem por encomenda. Deixariam de o ser. A menos que o insólito entre abruptamente em cena e me venha surpreender. Ya lo veremos...

15 de novembro de 2015

Amin Maalouf, histórias do manuscrito de Samarcanda

«Sais-tu ce qui me fascine dans les sciences ? C'est que j'y trouve la poésie suprême : avec les mathématiques, le grisant vertige des nombres ; avec l'astronomie, l'énigmatique murmure de l'univers. Mais, de grâce, qu'on ne me parle pas de vérité !»
Amin Maalouf, Samarcande (1988)
Amin Maalouf resgatou em Samarcanda (1988) a lenda dos três amigos de Ispahan, antiga capital dos Seljúcidas, que marcaram, cada um à sua maneira, o início do segundo milénio da era comum. Reza a tradição registada em livro e propagada de boca em boca, ter sido o mundo observado por Omar Khayyam (1048-1131), governado por Nizam-el-Molk (1018-1092) e aterrorizado por Hassan Sabbah (1034-1124). O romance centra-se na primeira das personalidades referidas, reservando um papel bastante relativo aos restantes. O geómetra, algebrista, astrónomo-astrólogo, filósofo e poeta renomado, o versejador maldito dos Rubaiyat, toma conta da tessitura narrativa como ator principal, relegando os seus hipotéticos colegas de estudo em Nixapur para a órbita de figuras secundárias a pisarem o palco das ações representadas por palavras escritas.

O vizir persa é lembrado nos dias de hoje por ter sido o obreiro dum Tratado do governo, ensaio equivalente a O príncipe de Maquiavel. O Oriente muçulmano e o Ocidente cristão separados por hiato de quatro séculos de reflexão crítica sobre a arte de construir impérios de forma eficiente e sem olhar a meios para atingir os fins pretendidos. A ação do Velho da Montanha, o missionário fundamentalista que converteu o norte iraniano ao ismaelismo mais ortodoxo, ficou gravada na memória dos homens como a do fundador da Ordem dos Assassinos. Foi ele também o organizador da biblioteca de Alamut, posteriormente destruída pelos mongóis, em cujo espólio se encontraria o livro secreto do poeta do vinho, coletânea que reunia um número indeterminado de ruba’is, poemas de forma fixa compostos por estrofes de duas linhas, com dois hemistíquios cada, centrados na efemeridade da vida, no êxtase do amor e na transcendência humana.

O magnum opus e Prix des Maisons de la Presse 1988 é concebido como um texto de peregrinações incessantes pelas vastas extensões imperiais dos czares russos, xás persas e sultões otomanos, repartido pelo início do século xi e passagem do xix para o xx. Nas duas primeiras partes, traça-se o percurso de vida conhecido do arquiteto subversivo dos versos heréticos e ímpios compostos à luz do livre pensamento. Nos dois restantes, conjetura-se o destino aventuroso seguido pelo original perdido que terá registado com as próprias mãos e lhe concederiam uma celebridade crescente até aos nossos dias. Oitocentos anos de histórias com história dentro, unidos pelas deambulações do manuscrito de Samarcanda, o verdadeiro protagonista do relato. A cronologia dos acontecimentos é confiada a um narrador-interveniente, que se encarrega de informar o leitor, logo no primeiro período-parágrafo por si composto, repousar no fundo do Atlântico o livro cujo percurso acidentado se compromete a contar. Fá-lo abruptamente e sem contemplações. O naufrágio do Titanic, ocorrido na noite de 14 para 15 de abril de 1912, ao largo da Terra Nova, tê-lo-á levado consigo para as profundezas oceânicas. A imaginação ficcional diz-nos que um dia voltará ao seu convívio, esperança efémera que a realidade factual se encarrega de desfazer sem apelo nem agravo.

O desaparecimento sem rasto das mais paradigmáticas criações literárias produzidas pelo génio humano tem levado os fabricantes de sonhos impossíveis a fazê-las reaparecer, meteoricamente, nas obras de faz de conta. Veja-se, por exemplo, o segundo livro da Poética de Aristóteles, perdido na voragem impiedosa do tempo, a ser exumado por Umberto Eco nas páginas d’O nome da rosa, para, logo de seguida, ser devorado por um incêndio ateado muito a propósito na biblioteca abacial que o alojava. O romancista libanês e académico francês procede de modo semelhante com os Rubaiyat. A sensação de perda é tão grande que, neste caso concreto, a ação imoladora das chamas é substituída caridosamente pela ação mais benévola das águas. E os leitores passam a acreditar que a sua recuperação é possível. Entretanto, terão de se contentar com as múltiplas quadras que até nós chegaram em nome de Omar Khayyan. As canónicas e as apócrifas. Vá-se lá saber onde terminam umas e começam as outras. Os restos do grande paquete transoceânico foram descobertos há relativamente pouco tempo. A hipótese de encontrar o exemplar afogado mantém-se vivo. Um dia destes, saberemos pelos mass media ter o baú que o encerra sido encontrado entre os despojos já trazidos à superfície. Que belo momento seríamos então todos convidados a viver...

11 de novembro de 2015

Castanhas e vinho do verão de São Martinho

José Malhoa, Festejando o São Martinho (1907)
[Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado]
     No dia de São Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho...
Provérbio popular
Corria o ano de 1504, quando Gil Vicente representou para a rainha D. Leonor de Lencastre o Auto de São Martinho. Tudo se pas-sou durante as festividades do Corpus Christi, provavelmente antes da procissão ter saído da igreja de Nossa Senhora do Pópulo, anexa ao hospital termal que a soberana fundara nas Caldas. A história sobejamente conhecida de todos foi contada em poucas palavras, porque, como confessa o dramaturgo na didascália final, a obra de devoção católica fora pedida muito tarde. Em onze oitavas decas-silábicas, repartidas por duas cenas, o Pobre lamenta-se da sua sorte de indigente e solicita a Martinho esmola, que reparte com o pedinte metade da sua capa. Tudo isto em castelhano, a língua de corte dos Avis-Beja durante pelo menos três quartos de século.

A lenda/milagre terá ocorrido em meados de novembro, altura em que os derradeiros calores estivais começam a ser rendidos pelos primeiros frios outonais. Meia estação conhecida por Verão de São Martinho. Para celebrar essa mudança gradual de temperaturas, costuma celebrar-se o magusto com castanhas assadas regadas com vinho novo ou água-. José Malhoa representou uma dessas festanças pagãs em honra de Dionísio-Baco, numa tela pintada a óleo em 1907. A popularidade que granjeou na época manteve-se intacta até aos nossos dias. Os excessos realistas documentados no quadro levaram a ser conhecido alternativamente como Os bêbados. Título adequado para descrever com uma imagem aquilo que as tais mil palavras seriam incapazes de traduzir cabalmente.

7 de novembro de 2015

Armando Silva Carvalho & Maria Velho da Costa, o livro do meio ou das ligações perigosas

«Ensaiemos pois, em silêncio, o percurso do nosso dueto, a ouvir o Scarlati.»
Armando Silva Carvalho & Maria Velho da Costa, O livro do meio (2006)
Sempre ouvi dizer que Lisboa é uma grande aldeia, onde todos se conhecem ou fingem ignorar, onde uns e outros cultivam, sem exceção, os seus amores/ódios de estimação. Mais os segundos do que os primeiros, como convém. Os profissionais da escrita não fogem a esta regra de ouro do escárnio e maldizer nacionais. A diferença é que o fazem com uma inequívoca e inexcedível mestria. E nós, pobres mortais, sedentos de palavras bonitas (mesmo quando dizem coisas feias), até aplaudimos. Há séculos que o fazemos impunemente.

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa recorreram a esse velho hábito que a tradição canonizou. Fizeram uma incursão combinada à meninice, cartearam-se durante alguns meses e alinharam um romance epistolar, a que chamaram O livro do meio (2006). Aquele que se situa no cruzamento de duas escritas estripadas de todo o tipo de preconceito, concebidas ao jeito de uma «marquise de Merteuil» e dum «vicomte de Valmont», personagens novelescas criadas por Pierre de Laclos nas Liaisons dangereuses (1782); ou à imagem e semelhança da experiência que a autora tivera na composição das Novas cartas portuguesas (1972), integrada no grupo das «Três Marias»; ou do autor na tradução da Correspondência a três (2006), que Rilke, Pasternak e Tsvétaïeva terão partilhado no verão de 1926. Títulos frequentemente citados e glosados no decorrer dos diálogos travados à distância e em fragmentos repartidos.

As fontes de inspiração seguidas pelo dueto terão servido de perfeito álibi explicativo de muitas das liberdades tomadas nessas memórias feitas de realidades pretéritas, atualizadas ao sabor do momento, de cumplicidades pressentidas, mas nunca reveladas na sua totalidade. O leitor é confrontado com um discurso entremeado de claros subentendidos e de aparentes evidências que terá de enfrentar do lado de «fora do Livro», com toda a perícia que consiga agilizar para desenlear os fios da meada. A tarefa é árdua, mas os resultados deveras compensatórios. É que a fruição plena do prazer da leitura não tem preço.

As referências às obras de um e de outro são constantes. As apreciações que suscitaram aos críticos encartados do trabalho alheio ou de fazedores de ideias feitas são o pretexto para os mais inspirados jogos de disfarces encenados nas cartas. Os remoques satíricos dirigidos a todos aqueles que alguma vez se lhes tenham atravessado no caminho são impiedosos. É que «um puritano da boca é uma criatura perigosa». Os nomes são substituídos por siglas anódinas e epítetos sonantes, mas a força das descrições fornece-nos a chave das charadas sem grande esforço de descodificação. Que o digam a «Académica», a «Mnemónica» ou a «Embaixatriz».

Resumir essa longa conversa travada entre dois amigos de longa data, esse coloquialismo intimista, seria uma traição que nenhum deles mereceria. A menos que nos limitemos a dizer que se trata dum livro que fala de arte e artistas, de música e compositores, de cinema e cineastas, de livros e autores, que fala, inevitavelmente, da vida e morte das paixões. É um livro que pretende promover uma perigosa colaboração de classes, aquelas que cada um dos signatários das missivas representou nas origens. Ela a emergir duma média burguesia urbana do Bairro Azul e Janelas Verdes, a saltitar entre a Casa dos Gritos e o Palácio das Madres ou das Escravas do Sagrado Coração de Jesus; ele a fugir dum proletariado rural remediado duma aldeia cinzenta do litoral oeste, a saltitar entre a Casa dos Choros e a Escola do Paraíso ou externato pobre para meninos ricos.

No final do percurso retrospetivo às Casas da Infância, o cansaço dos caminhantes é notório. A escrita ressente-se da penosa caminhada. Armando Silva Carvalho despede-se entoando o canto do viandante e das sombras. Maria Velho da Costa convocando o sangue, coalhado e vivo. Pela parte que me toca de mero leitor, de anjo ou demónio desconhecido, com muita saudade de os ter visto acenar o lenço pela última vez, de os ter visto partir e de não continuar a desfrutar do prazer da sua presença. Arrebatadora, inebriante, sublime. Como sempre.

NOTA:
De repente apeteceu-me revisitar este exercício dialogado de escárnio e maldizer, trazer para este espaço uma texto publicado há meia dúzia de anos no Pátio de Letras. Dei-lhe uns retoques formais de menor importância e parti à procura na estante de guardar livros deste repositório de memórias gizado em forma de romance epistolar. Vou reler calmamente alguns dos fragmentos mais acutilantes desta escrita feita de cumplicidades partilhadas...

3 de novembro de 2015

Os Cinco e a Super-Homem

Enide Blyton, Os cinco (1942-1963)
[Série antiga portuguesa]
Quando os alunos ainda tinham alguma imaginação criativa, costumavam dar uma alcunha sugestiva a cada um dos seus professores mais carismáticos. Depois deixaram-se disso. No meu percurso de vida já fui brindado com alguns particularmente acutilantes e já mimei muitos dos meus se'tores com aquela palavrinha mágica de efeito catártico imediato. O significado de cada uma delas é, regra geral, imediato. Fico-me aqui com um único caso, o da terrível Super-Homem, a minha muito viril mestra de português no ciclo preparatório, no início dos anos sessenta.

Exemplo acabado da magister dixit dos tempos áureos da outra senhora, usava e abusava do baculum justiceiro para impor os seus métodos pedagógicos baseados na ponteirada e no puxão de orelhas. Do muito que terei aprendido com esse método infalível, só me terá ficado o vernáculo carroceiro com que os conteúdos me eram transmitidos. Ficou-me também memória daquela ideia inusitada na época de organizar uma biblioteca de turma. As obras eram compradas pelo coletivo e ao gosto de todos. Bom, depois de passarem pelo lápis azul invisível da pedagoga com pelo na venta.

Um dia calhou-me no sorteio o volume inicial da série mais famosa de Enid Blyton, Os cinco na ilha do tesouro. O entusiasmo pela descoberta foi tal, que só parei depois ter viajado por todas as aventuras disponíveis na biblioteca municipal ou na carrinha da Gulbenkian. Nos intervalos ainda visitei os títulos mais chamativos de Jules Verne, os romances ilustrados de autores famosos ou os relatos juvenis de Adolfo Simões Müller. O meu gosto compulsivo pela leitura terá começado aí, voluntário e sem o chicote castigador da mestre coriácea com nome reinventado de super-heroína.

1 de novembro de 2015

Bruxas e Pão-por-Deus

J. Bosch, Tentações de Santo Antão (pormenor) c. 1500,
[MNAA. Fotografia: DGPC/ADF/Luísa Oliveira]

Em tempos que já lá vão, amadurecia eu então os meus verdes anos na Estremadura, a que agora chamam com todas as letras Oeste, costumava celebrar o pão-por-deus com toda a pompa e circunstância exigida pela tradição. Todas as manhãs do primeiro dia de novembro, aquele que a crença popular dedicava a todos-os-santos, conhecidos ou desconhecidos. Toda a criançada da rua partia em bando, a bater à porta da vizinhança, na expectativa de encher o pequeno saco de chita com que cada um se havia munido com uma guloseima teoricamente destinada aos fiéis defuntos.

Recordo-me também do cerimonial que celebrava na véspera com o meu irmão em casa da nossa avó materna. Depois de termos escolhido uma abóbora amarela bem redonda, começávamos a talhar uma caveira tenebrosa. Cortávamos com uma faca de bico quatro orifícios bem desenhados: dois redondos para os olhos, um triangular para o nariz e um recortado para a boca meio desdentada. Extraíamos as sementes com todo o cuidado. No interior colocávamos uma vela de cera que seria acesa no final do dia e iluminaria a noite dita das bruxas num dos muros do quintal.

Perdi o contacto com os cenários da minha infância. Desconheço se o costume ancestral se mantém. Duvido que assim seja. Em terras algarvias de cultura urbana nunca vi em nenhuma janela enfeitada com uma cabeça de bruxa ou um saco de pão-por-deus pendurado na mão de nenhuma criança. Como diz o rifão popular: cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Diz-me aquele dedo que adivinha andar o país inteiro a imitar a prática anglo-saxónica do Halloween das «doçuras ou travessuras». Digam-me que estou enganado e que a identidade cultural ainda conta...   

27 de outubro de 2015

Roberto Bolaño, 2666 e o número da besta apocalíptica

«Pero ella se preguntaba (y de paso les preguntaba a ellos) hasta qué punto alguien puede conocer la obra de outro.»
Roberto Bolaño, 2666 (2004)
O mundo não acabou em 666, nem em 1666 e ninguém pode afirmar, no seu perfeito juízo, que terminará em 2666. Em nenhuma das 1100 páginas do 2666 (2004), que Roberto Bolaño nos deixou para publicação póstuma, se refere essa cifra mágica. Salvo no título da obra que dá unidade a este romance de novelas, nalguns casos meros contos ou arremedo fragmentário. As interpretações que o editor dos manuscritos dispersos do texto nos fornece são engenhosas, mas nunca passarão de meras conjeturas à espera duma confirmação mais consistente. A leitura atenta das dezenas de histórias que compõem este labirinto de palavras remete-nos sempre para o tal número da besta. O apocalíptico. O abismo a atrair-nos fatalmente para o precipício.

Das cinco novelas independentes imaginadas pelo autor, resultou um volume único repartido por cinco partes autónomas orquestrado pelos herdeiros. Lido o livro, ficamos com a sensação de ter sido uma medida acertada. A ordem escolhida nem parece arbitrária. Tudo começa e acaba em Beno von Arcimboldi. O escritor misterioso procurado em vão por quatro professores e críticos de literatura alemã, o inventor de histórias alheias a revelar-nos, no final do relato, a história verdadeira da sua própria existência. A ficção disfarçada de factual. Os alicerces programáticos do infrarrealismo poético transferidos para as sinuosidades específicas da prosa. Pelo meio, fica-nos ainda um punhado considerável de episódios centrados na figura do filósofo chileno e refugiado político Amalfitano e na do jornalista afro-americano e ativista político Fate. As nótulas descritivas das 110 mulheres assassinadas em série completam a trama. A cidade de Santa Teresa, situada na fronteira do México com os Estados Unidos, a convocar todos os intervenientes dos eventos narrados para um espaço cénico único, para um local de encontro/desencontro do homem com o seu próprio destino, para um palco do mundo em que todos nós somos, simultaneamente, os espetadores e atores dum mesmo drama de vida e morte.

O lançamento do romance conheceu um sucesso imediato mas meteórico nos meios cultos circundantes deste nosso cantinho atlântico. No curto período de tempo que atravessou as altas esferas siderais, iluminou tudo em seu redor. Depois extinguiu-se completamente sem deixar rastro atrás de si. As causas deste fenómeno não estão apuradas mas são fáceis de deduzir. A fama de obra-prima que os mass media lhe conferiu precedeu a sua publicação efetiva entre nós. Se a revista Time já afirmara tratar-se do «acontecimento literário da década», lá teria as suas razões bem fundadas em propagar essa nova por toda a parte, qual bênção papal urbi et orbi no início de cada ano. Confrontado com a monumentalidade da fábula, o vulgo assustou-se. Leu as primeiras páginas, saltou outras e evitou as restantes. A falta de tempo, entretanto aduzida, continua a ser um argumento de peso. Categórico, eficaz, tranquilizador.

Pessoalmente, li o 2666 de fio a pavio, sem hesitações e com muito prazer. Sobretudo porque não admite sínteses nem continuações. Por vezes fui obrigado a interromper a leitura, mas nunca procurei desculpas esfarrapadas para deixar de o fazer. Trata-se dum texto fascinante que só peca por ter um fim anunciado. Sinal de que a opinião abalizada de alguns críticos ainda pode merecer o nosso crédito. O universo académico das conferências, congressos e simpósios alterna com o universo policial dos homicídios, violações e estrangulamentos. O mundo dos enigmas, segredos e mistérios atravessa toda a tessitura discursiva a um ritmo alucinante. O terror erótico e onírico a concorrer com o anedótico grotesco e repulsivo. Tudo isto protagonizado por dezenas de figurantes representantes de todos os estratos e camadas sociais, dispersas pelo velho e novo continentes. As figuras politicamente corretas não abundam, são todas elas banalíssimas nas suas estranhezas. Tal como nós, personagens da vida real. Este talvez seja o grande segredo que Roberto Bolaño conseguiu imprimir à sua obra magna. Essa a razão do magnetismo poético das palavras que empresta ao discurso e oferece aos leitores. Todos nós nos vemos retratados nesse entrecruzar eclético de experiências imperfeitas. Sem uma solução de vida expectável que não seja a própria morte. Inexoravelmente certeira nos seus desígnios.

NOTA:
Descobri Bolaño há cerca de cinco anos, altura em que escrevi estas linhas sobre o 2666 e as publiquei no Pátio de Letras. Trago-o agora para aqui, com alguns pequenos retoques editoriais, porque nunca é de mais dar visibilidade aos textos que merecem escapar às leis nem sempre compreensíveis do ostracismo. 

25 de outubro de 2015

O pelicano do Príncipe Perfeito

EMBLEMA DE D. JOÃO II

[Capela de São Jorge - Aljubarrota]

¡Murió el Hombre!  terá dito Isabel de Castela aquando da morte de D. João II de Portugal, ocorrido a 25 de outubro de 1495. É que a Rainha Católica guardava ainda na memória o papel desem-penhado pelo Príncipe Perfeito nas negociações da partilha do mundo, que culminara no ano anterior com a assinatura do Tratado de Tordesilhas. A deslocação da linha divisória das 100 para as 370 léguas a oeste de Cabo Verde tinha permitido ao primo Avis integrar no Senhorio da Guiné uma parcela considerável do Novo Mundo, a Terra de Vera Cruz ou Brasílica. A prima Trastâmara ficava-se assim com o que restava das Índias Ocidentais ou Américas.

Ignora-se o que terá dito D. Leonor de Lencastre quando teve conhecimento no Paço de Alcácer do Sal do falecimento do marido e primo coirmão em Alvor. Provavelmente terá dado um suspiro de alívio. É que segundo dizem as más-línguas, a fundadora das Mise-ricórdias terá mandado envenenar o soberano. Razões não lhe faltariam para tal. Enviara desta para melhor aquele que apunhalara o duque de Viseu e mandara degolar o duque de Bragança. Um irmão e um cunhado. Impedia também definitivamente que um bas-tardo real do Príncipe Tirano subisse ao trono, colocando em seu lugar D. Manuel I, o irmão mais novo e até então Duque de Beja.

«Jesus!» – terá dito o monarca lusitano antes de exalar o último suspiro. Síntese duma vida pautada pela aplicação da divisa real «Pola ley e pola grey», que tem como corpo emblemático um pelicano eucarístico a alimentar as crias com o seu próprio sangue. O criador do estado moderno nos reinos que lhe haviam sido confiados é aquele a quem a tradição garante ter dito a propósito da mão de ferro com que domara a nobreza: «Eu sou o senhor dos senhores, não o servo dos servos». Só assim se compreende que quem herdara do Africano as estradas e os caminhos do reino tivesse legado ao Venturoso um império de meio mundo.

24 de outubro de 2015

Poema visual a preto e branco...

Avelino Araújo, Apartheid Soneto (1988)


O PODER DO POVO
Clístenes é tido como o pai da democracia helénica, ao estabelecer em 508-507 AEC, na capital da Ática, a primeira experiência da história. O regime político então inaugurado estava centrado na capacidade do «povo» (δῆμος - demos) exercer o «poder» (κράτος - kratos). Encalhava, todavia, no facto de só incluir os homens, filhos de pai e mãe atenienses, livres e maiores de 21 anos. Excluídos ficavam os estrangeiros, escravos e mulheres de todas as idades. Numa altura em que a população de Atenas rondava os 200/400 mil habitantes, a cidadania democrática só era reconhecida a uma elite de cerca de 30/60 mil pessoas, i.e., 15%  da população.

O PODER DAS CASTAS
A implementação do  novo sistema de governo tem sido morosa. Passados mais de 2600 anos, ainda é desconhecido em grande parte deste nosso mundo de liberdades condicionadas. Surgiu ultimamente entre nós a ideia de que a democracia é para todos mas só pode ser exercida por alguns. Os iluminados pelas normas rígidas e imutáveis da tradição. Os seguidores de dogmas passados de geração em geração sem mais prova autêntica de veracidade do que a sua observação. A guerra entre filhos e enteadosO destro divino contra o sinistro diabólico. Apartheids políticos que a razão da «cidade» (πόλιςpólis) se encarregará de derrubar.

18 de outubro de 2015

Edgarda Ferri: peregrinações da judia errante em busca da terra prometida

«“Ha Geveret”, così hanno chiamato gli ebrei Dona Gracia Nasi, la Dominatrix, dal momento che aveva costruito a proprie spese, nel quartiere affollato di Balata, una sinagoga che ad un tratto fu chiamata "la Señora".» 
Edgarda Ferri, L'Ebrea Erante. Donna Grazia Nasi dalla Spagna dell'Inquisizione   alla  Terra Promessa   (2000)
Alguém disse algures que a criatividade humana é mais aparente do que real. A ideia até pode ferir os ouvidos mais sensíveis. A verdade nua e crua da afirmação pode ser testada com alguma facilidade. A conversão da natura em cultura tem vindo a ser concretizada por um conjunto de princípios que mantêm sempre algo de comum entre si. Opõem-se sobretudo na capacidade de disfarçar a imitação com um ou outro elemento estranho que dê uma ilusão consistente de novidade. A configuração do nosso mundo envolvente tem vindo a obedecer a um processo contínuo de afirmação/rejeição das normas vigentes nos sucessivos períodos de espaço-tempo que pontuam o devir histórico do homo sapiens. A cíclica luta entre o cosmos previsível do já feito e o caos imprevisível do por fazer é particularmente visível nas dialéticas seguidas pela república das letras. Os modelos biográficos de figuras públicas conhecidas são dos mais expostos a esse pendor diegético de dizer o mesmo com outras palavras. O percurso de vida de Beatriz de Luna Mendes / Grácia (Hannah) Nássi encontra-se nessa situação ingrata de ter sido relatada ao sabor da imaginação dos efabuladores mais ou menos oficiais que lhe deram corpo.

A recente releitura da versão gizada por Catherine Clément, n' A Señora (1992), levou-me a revisitar uma outra mais recente composta por Edgarda Ferri, n’ A Judia. Do Portugal da Inquisição à Terra Prometida (2000). O confronto entre as duas assaltou-me de imediato a ideia. Vou resistir à tentação de fazê-lo, muito embora a vontade me não falte. Limitar-me-ei a destacar que a imaginação poética que define a primeira é substituída pela reportagem prosaica da segunda. A vertente objetiva da jornalista e ensaísta italiana impede-a de rivalizar com a subjetividade da romancista e ensaísta francesa. Escusado será dizer por qual das duas contadoras de fadários alheios a minha preferência recai. Revelação aliás bem pouco pertinente, dado que a vocação primordial dos livros é suscitar tantas leituras quantos os leitores envolvidos. A minha interpretação não é melhor nem pior do que as demais. Gostaria todavia de salientar que a grande dificuldade com que os cultores deste género se deparam depende em grande medida das fontes seguidas. Neste caso concreto, a consulta confessada por ambas em nota final de edição está ancorada nos trabalhos modelares de Sir Cecil Roth, A History of the Marranos (1932) e The House of Nasi (1940). Divergem naturalmente na forma. Outra coisa não seria de esperar em duas obras autónomas e complementares.

A peregrinação traçada por Edgarda Ferri segue de muito perto os caminhos trilhados pela marrana sefardita portuguesa e registados em todas as enciclopédias dignas desse nome. Lisboa, Londres, Antuérpia, Veneza, Ferrara e Istambul, com passagens rápidas por outros pontos intermédios da bacia mediterrânica europeia e asiática. A hipótese de ter falecido na Palestina é ignorada. O real sobrepõe-se sempre ao imaginário neste arrolar de factos acontecidos aceites por todos sem se deixarem estrebuchar por suspeitas pouco consistentes. O rigor enunciativo do discurso produzido esbarra, porém, com a verdade histórica exigida no ato da escrita. Deslizes pouco significativos mas sistemáticos. Tudo começa no subtítulo original dado à naturalidade da heroína. Segundo se julga saber, apesar de ter percorrido meio mundo até chegar à Terra Prometida, nunca terá pisado terras de Espanha. Pormenor a juntar a muitos outros geralmente situados na geografia cultural do Portugal da Inquisição. Como, por exemplo, insistir na antiga capitalidade de Évora, a cidade das muitas colinas e bosques de castanheiros, localizada a curta distância da Batalha. Falhas que podemos atribuir à pesquisa apressada de quem viajou mais pela fantasia delirante de ficcionista aprendiza do que pela mestria científica da investigadora aclamada, dando razão aos créditos aludidos na contracapa do exemplar que tenho entre mãos.

A Ha Gueveret do povo judeu na diáspora, a mecenas de artistas e financeira de reis, atravessa de modo muito tímido as menos de duas centenas de páginas da crónica factual disfarçada de romance. O mesmo se diga do papel meramente decorativo dos restantes elementos da família na tessitura narrativa. Sombras sem vida dum grupo de destinos iluminados pujantes de vida. Quem quiser perscrutar a dimensão psicológica de cada um deles que enverede por outras vias alternativas. Comece pelas palavras inspiradas que Samuel Usque dedicou «À Ilustríssima Senhora Dona Gracia Nasci», prossiga com «Da ordem e razão do livro prólogo aos senhores do desterro de Portugal» e ouça os três Diálogos que compõem a Consolação às tribulações de Israel (1553). Está tudo lá. Basta fazê-lo com toda a atenção que o tema merece e a memória exige.

16 de outubro de 2015

Perversidades, tempestades e delírios

AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO (1500)
Hieronymus Bosch
[Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa] 


LIVROS & TELAS

O Pintor Copiador abriu uma garrafinha de terebentina e começou a limpar as mãos com cuidado. O Bosch tinha uma imaginação perversa, disse, ele atribui essa imaginação ao pobre do Santo Antão, mas a imaginação é do pintor, era ele quem pensava todas essas coisas feias, é evidente, acho que o pobre Santo Antão nunca teria imaginado coisas dessas, o Santo Antão era uma pessoa simples. Mas foi tentado, objetei eu, é o diabo que insinua essas coisas perversas na imaginação dele, Bosch pintou a tempestade que se está a passar na alma do santo, pintou um delírio.
Antonio Tabucchi, Requiem (1991: 78-79)

12 de outubro de 2015

Hélia Correia, história dum adoecer enigmático num cenário pré-rafaelita

«E ela, que detestava o tempo quente e se entusiasmava com as chuvas, começou nesse outono a adoecer. Porém, não era uma doença de inverno, nem a vulgar fraqueza das londrinas. Esse enigma tornava-a interessante e o grupo de Barbara Leigh Smith fechou-se à sua volta, a protegê-la. Elas amavam as mulheres doentes. Tudo o que havia de materno e sororal dentro das suas compleições robustas se lançava naquela direção.»
Hélia Correia, Adoecer (2010)
Já lá vão longos anos guardados na bruma das memórias inscritas num cenário pintado de cinzento, em que uma geração de jovens incomodados com a situação do país cantava, quase em segredo, as poesias de Hélia Correia e doutros poetas iluminados, musicadas por alguns nomes sonantes no meio estudantil de então. Vivia-se intensamente o período áureo da canção de intervenção contra a guerra colonial em curso e das baladas de protesto ao regime totalitário que ameaçava eternizar-se no tempo. Defendia-se uma «Arte Poética» alternativa que fizesse um barco de pinho e deitasse as armas ao mar. Depois dos textos em verso vieram os textos em prosa. Sempre breves, sempre densos. Os manuais escolares etiquetá-los-iam de novelas, forma genérica que se situaria entre o conto e o romance. Questões teóricas de lana-caprina. As histórias lírico-diegéticas esboçam-se com poucas palavras. Por vezes atingem a dimensão épica que exige um pouco mais do fluir verbal. É o que se passa com o Adoecer (2010), a derradeira ficção publicada que em boa hora me chegou às mãos e me fez companhia incondicional estas férias de verão. Regresso ao seu convívio num ambiente outonal para registar as impressões de viagem recolhidas no universo das imagens visitadas com o olhar, numa cumplicidade avocada entre a leitura e a escrita.

A voz que dá vida à narrativa e empresta significados ao discurso enceta uma viagem nostálgica pelos espaços cénicos que viram nascer a Irmandade Pré-Rafaelita. Tudo começa na Inglaterra vitoriana de meados do séc. xix, quando um conjunto de jovens artistas inaugura uma espécie de confraria medieval que se opunha ao modelo clássico inaugurado pela escola florentina de Rafael e imposto pelas academias europeias desde então. Em contrapartida, a nova agremiação desejava atingir a genuinidade estética que dizia existir na viragem da arte gótica para a renascentista. E assim se abriam alguns dos caminhos revivalistas e ecléticos do sentir romântico oitocentista que alastraram por toda a parte e estiveram na origem de muitas das modernidades novecentistas. Os entendidos na matéria registam o movimento como uma antecipação perfeita das ruturas criativas que brotariam no horizonte ismado do naturalismo, realismo, impressionismo, expressionismo, pontilhismo, simbolismo, futurismo, cubismo e de muitas outras correntes plásticas terminadas em ismo.

Esta incursão de Hélia Correia pelos trilhos da biografia ficcionada está ancorada no percurso de vida de Elizabeth Siddal, uma antiga modista lançada no universo da pintura, onde se celebrizou por ter sido retratada pelos fundadores do «Bando Rossetti». Uma figura frágil de mulher no meio viril dos homens. Uma sombra idealizada que um dia resolveu sair da penumbra a que tinha sido votada como modelo e abraçar de motu proprio a república das artes e das letras. Um vulto menor, sem dúvida, mas, mesmo assim, basilar para o desbrochar da emancipação feminista, movimento que não deixou de crescer e afirmar desde aí até aos nossos dias. O relato oferece-nos, ainda, o evoluir dum adoecer imparável, que dá o título à obra e descreve o longo processo de formação pessoal da protagonista. A maturação da pupila, amante e mulher do poeta, ilustrador e pintor inglês de origem italiana Daniel Gabriel Rossetti, culmina com o desaparecimento físico da heroína, já antevisto uma década atrás por Sir John Everett Millais, na Ophelia (c. 1851), um quadro que fez furor na época e pode ser observada hoje em dia na Tate Britain de Londres. A musa ruiva de artistas morre na flor da idade, tal como o idealismo ultrarromântico ditava e a realidade quotidiana teima em imitar.

O império de paixões-compaixões sentidas/consentidas é atravessado por uma ou outra pincelada caricatural de Charles Augustus Howell, alegado descendente do Marquês de Pombal. A figura do «portuguee», como era conhecido, é convocado por ter sido o encarregado de abrir o túmulo de Miss Lizzie e exumar um caderno de poemas que o marido ali depositara. Episódio macabro que viria a engrossar a lenda negra do casal. Os Poems by D. G. Rossetti (1870) foram devidamente publicados em livro. Uma página manuscrita está depositada na British Library. Consulte-a quem quiser ou puder. O acesso aos seus segredos parece difícil de satisfazer. Assim se afirma nas linhas finais do relato que acabei de ler, com todo o proveito e deleite que a escrita da autora sempre me brindou e com a qual me fico à espera de novas propostas a explorar.

10 de outubro de 2015

Heróis modernos do Parnaso


Den som inom litteraturen har producerat det utmärktaste i idealisk riktning.

A Academia Sueca acaba de anunciar o Prémio Nobel da Literatura 2015. Os louros da glória couberam este ano à jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch, cujo nome ouvi pela primeira vez e ainda não me atrevi a repeti-lo em voz alta. Provavelmente vou ter poucas oportunidades de o fazer. Trata-se duma figura pouco conhecida entre nós e escapa às áreas da ficção que ocupam as minhas práticas de leitura. Parece-me que o perfil da laureada, assente numa «escrita polifónica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época», estaria mais adequado a um Prémio Pulitzer do que àquele que agora os mass media estão a apregoar à escala global.

Quando frequento alguns dos autores premiados pelos académicos suecos, questiono-me sobre os critérios por si seguidos para erguer aos píncaros da fama uns em detrimento doutros. As estratégias geopolíticas do momento associadas às culturas linguísticas que lhes dão corpo estarão na origem dos resultados obtidos. As estatísticas são fáceis de traçar. Basta consultar os factos coligidos e divulgados pelo The Official Web Site of the Nobel Prize. Fico-me pelas 65 atribuições a obras compostas em inglês (27), francês (14), alemão (13) e espanhol (11), o que corresponde, números redondos, a 58% das 112 candidaturas vencedoras desde 1901.

Os prémios valem o que valem. O instituído por Alfred Nobel não foge à regra. Observando a lista dos novos residentes divinos do Parnaso, admiro-me da minha ignorância olímpica. Desconheço-os a quase todos. A minha biblioteca de livros lidos não coincide, grosso modo, com a dos académicos escandinavos. James Joyce, Marcel Proust e Jorge Luís Borges são apenas alguns dos fundadores da literatura moderna ostracizados pelos iluminados de Estocolmo. Acrescentaria ainda o vulto incontornável de Fernando Pessoa, para demonstrar que a genialidade perene dos criadores se antecipa sempre algumas décadas à efemeridade judicativa dos críticos.