27 de janeiro de 2015

John Boyne: e todos se vestiam como o rapaz do pijama às riscas

«And one final thought came into her brother’s head as he watched the hundreds of people going about their business, and that was the fact all of them – the small boys, the big boys, the fathers, and grandfathers, the uncles, the people who lived on their own on everybody's road but didn’t' seem to have any relatives at all – were wearing the same clothes as each other: a pair of grey striped pyjamas with a grey striped cap on their heads.»
John Boyne, The Boy in the Striped Pyjamas (2006)
Vi Dublin invadida de pijamas às riscas em forma de livro quando por lá andei em 2006. Na altura não dei grande atenção ao facto. Mais um bestseller na forja, pensei. Só me dei conta do exato sentido do traje referido no romance há uns dias atrás quando vi por acaso no pequeno ecrã da televisão o filme que o adaptara às telas de cinema. Espantoso. As tais histórias singulares que os livros às vezes nos contam. Assim. Sem mais nem menos. De improviso. Dentro e fora das páginas de papel que as suportam e das capas de cartão que lhe emprestam um primeiro rosto. John Boyne quis prestar homenagem a todos aqueles que nos campos de concentra-ção, trabalho escravo ou extermínio nazi foram obrigados a vestir-se como O rapaz do pijama às riscas (2006), figura central duma ficção feita de factos acontecidos. 

As edições mais recentes da saga de Bruno e Shmuel aproveitaram-se do sucesso da película e do ar de inocência transmitido pelos jovens atores que dão corpo aos heróis da efabulação, para substituírem a imagem anterior a duas cores por uma outra mais tranquila pintada com todas as opções cromáticas do arco-íris. Os dois encontram-se sentados num chão de relva viçosa, pernas cruzadas, virados um para o outro, a partilharem confidências e a projetarem o futuro. Separa-os uma vedação de arame farpado e uma feição peculiar de vestir. Une-os um processo de amizade em construção e uma ausência de preconceitos no horizonte. O modo ingénuo de encarar a vida idealizado pelas crianças é confrontado com o modo calculista materializado pelos adultos de transmudar a vida a seu bel-prazer. O leitor coloca-se na fronteira traçada por estas duas cosmovisões e converte-se no juiz dos conflitos que lhe vão sendo postos pela escrita minuciosamente tecida pelo autor. Os contrastes discursivos acumulam-se e o produto resultante acaba por demonstrar que a literatura não tem género definido nem idade limitativa. Tem é autores-leitores à altura. Caso contrário, resume-se a um conjunto de letras dispostas em palavras e frases que não cabem nas categorias ideadas pela arte poética. 

O episódio da gesta europeia recente retratado neste romance só pode ser remetido para o universo do juvenil e varonil, por ser protagonizado por dois rapazes de nove anos de idade, nascidos no mesmo dia, mês e ano, mas em contextos étnicos diametralmente opostos, o ariano da Alemanha nacional-socialista e o judaico da Polónia ocupada pelo Terceiro Reich, um em Berlim e o outro em Cracóvia, um regido pela cruz gamada e o outro pela estrela de David. assim se entende a candura manifestada por cada um deles ao pronunciar de maneira infantil «Fúria» pelo alemão Führer e «Acho-Vil» pelo polaco Auschwitz. Tudo se passa como se o autor tivesse pudor de registar a versão original das palavras-chave dos dramas vividos e as registasse pela inócua dos diálogos travados. O ponto de vista particular dos mais novos a questionar as interpretações dos mais velhos. A conhecida técnica usada por Jonathan Swift n’ As viagens de Gulliver, por Lewis Carroll na Alice no país das maravilhas ou por Saint-Exupéry n' O Principezinho. Os livros de adultos a refletirem o mundo infanto-juvenil tratado no seu interior pelas personagens que lhes dão alma e razão de existir. 

O encontro final do real e do imaginário faz-se na esfera discursiva da tragédia, marcado pela gramática teatral do disfarce, do fingimento e da máscara, pelo predomínio do discurso dialógico, pelo número reduzidos de atores e de recintos cénicos convocados pela ação. Os erros dos pais recaem nos ombros dos filhos. À boa maneira clássica da hybris helénica ou bíblica do pecado original judaico-cristão. Édipo é punido pelos crimes de Laio. Os descendentes de Adão e Eva são condenados à morte pela desobediência dos progenitores à vontade de deus. Os heróis findos do passado são trazidos ao convívio dos espetadores do presente pelo curto espaço de tempo da leitura do livro ou do visionamento do filme. A intriga desenvolve-se à frente dos nossos olhos, no palco. A catástrofe concretiza-se fora de olhares indiscretos nos bastidores. O castigo infligido aos filhos dos homens é representado discretamente no barracão dos duches oferecidos aos deserdados do prometido império dos 1000 anos. Implacavelmente. Sem apelo nem agravo.

Por razões que o meu subconsciente saberá explicar melhor do que eu, nunca gostei de me ver dentro dum pijama às riscas, daqueles de ir para a cama quando chega a noite, com a consciência tranquila, pronto para um sono reparador e algum sonho redentor. A associação das barras do tecido às grades da prisão deu-me sempre a sensação desagradável de claustrofobia, de falta de liberdade. É provável que o uniforme imposto compulsivamente aos condenados à solução final e ao holocausto me tivesse alimentado um pouco essa aversão visceral. Felizmente para todos nós que esses tempos de barbárie humana foram há muito erradicados da superfície da terra. O próprio feitor da fábula o afirma nas derradeiras linhas da fábula feita. Queiram os fados benfazejos e o bom senso dos homens que tenha razão. Aconteceram há muito tempo e não voltarão a repetir-se nos dias de hoje nem na época em que vivemos.

NOTA: 
Texto publicado há dois anos e meio no Pátio de Letras e reposto no preciso dia em que se celebra o 70.º aniversário da libertação de Auschwitz pelo exército vermelho. Lidos e relidos os livros, vistos e revistos os filmes, celebradas as efemérides oficiais com pompa e circunstância, fique a memória que o holocausto existiu e que importa a todo o custo impedir a sua repetição no porvir.

4 comentários:

  1. Uma recensão brilhante, Prof, que vale bem a pena ser relida neste dia de homenagem aos milhões de judeus exterminados pelo nazistas. Um livro que ainda não li mas que me impressionou sobremaneira, não só pela abordagem pedagógica que aqui nos deixas, mas também por ter tido a sorte de ter visto o filme na TV por um mero acaso. É um enredo extraordinário, que reveste com uma capa de humanidade sensível a miserável página que foi escrita na história dos homens com sangue vivo...

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  2. Dizia Esther Mucznick, autora de "Auschwitz, um dia de cada vez", que, por muito que se fale dos Campos de Concentração, as pessoas nunca conseguem realmente ter noção das barbaridades que ali foram sofridas por judeus, ciganos e outros.

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  3. Isabel Marques de Almeida28 de janeiro de 2015 às 13:57

    o texto é muito bom, e sendo um livro para adolescentes, está tão bem contado, que se o leitor não souber nada relativo aos campos de concentração, lê a história e fica por aí. Quem como nós sabe, lê e vai compreendo duma forma muito diferente o que se passa. é muito mais interessante ler o livro do que ver o filme.

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  4. Gostei imenso ,não há dúvida que ler é melhor que ver o filme porque conseguimos apreender melhor o enredo da história que no livro é mais completa.

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