8 de janeiro de 2015

Quem muito se abaixa...

EMILIANO ZAPATA

(1879-1919)

«Je n'ai pas de gosses, pas de femme, pas de voiture, pas de crédit. C'est peut-être un peu pompeux ce que je vais dire, mais je préfère mourir debout que vivre à genoux.» 
Stéphane Charbonnier, directeur de Charlie Hebdo (2011)
Em meados dos anos 70, quando o poder dos ditadores com pés de barro foi derrubado, escutei uma frase que me ficou a ressoar nos ouvidos por um tempo tão extenso, que chegou até hojeEs prefe-rible morir de pie que vivir de rodillasTeria sido proferida por Dolores Ibárruni nos anos amargos da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Como nunca apreciei a mística purificadora de me arrastar de joelhos, achei a máxima digna duma mulher de armas com a dimensão de La Pasionara, resistente republicana ao naciona-lismo totalitário do caudilho da cruzada e generalíssimo do exército.

Uma navegação recente pela virtualidade cibernética revelou-me que a sentença atribuída à revolucionária comunista basca já teria sido dita por Emilio Zapata, no quadro histórico da Revolução Mexicana (1910-1920), com ligeiras variantes de pormenor e de pouca monta. Es mejor morir de pie que vivir arrodillado. Com estas mesmas palavras ou com outras a significar o mesmo, terá Che Guevara defendido os princípios da Revolução Cubana (1953-1959). Uma locução poderosa ao serviço de três conflitos bélicos travados em nome duma mudança brusca e violenta da ordem estabelecida.

Quem também recusava andar de quatro, de gatas ou de cócoras era a protagonista dum drama espanhol de Alejandro Casona que a RTP gravou no Teatro AvenidaAs árvores morrem de  | Los árboles muerem de pié (1949), representado pela Companhia Nacional de Teatro e transmitida com grande sucesso no pequeno ecrã em 1966. Recordo-me bem da última cena em que Palmira Bastos afirmava categoricamente, batendo com a bengala no chão: «Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores». Atitudes próprias de quem não gosta de se abaixar para não mostrar o que não quer.

NOTA: 
Escrevi esta reflexão há já algum tempo e só agora encontrei uma oportunidade para a tornar pública. A frase dita em espanhol passou a ter um  sentido acrescido quando pronunciada em francês. Aliás, nos dias que correm, ela pode | deve ser pronunciada em todas as línguas.


2 comentários:

  1. Declarações históricas cujos ecos sonoros nos trazes como inspiração em tempos conturbados!
    Lembro-me do meu pai falar de Palmira Bastos e do seu genial desempenho em "As árvores morrem de pé" (transmitida na TV no ano em que cheguei a Lisboa, em dezembro, pelo que não cheguei a tempo de ver as peça). É uma ideia que todos deveriam ter presente, lembrando-se que somos pó! Faz-me lembrar a expressão popular "Foi assim que a Alemanha perdeu a guerra" e que usamos muito em tom de brincadeira mas que, no fundo, nos encaminha para a mesma questão: quem não preza a sua retaguarda, perderá de certeza a guerra quando quiser mostrar o seu caráter...

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  2. Exemplos de homens e mulheres que correram riscos para combater aquilo que achavam mal, e os enfrentaram até às últimas consequências sem temer ameaças ou perseguições. Grandes lições de caráter.

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