29 de março de 2015

O escritor fantasma

Προσωπείο | Máscara
Ainda hoje a nossa sensibilidade ocidental e as nossas mais comuns referências interiores provêm de uma dupla origem: Jerusalém e Atenas. Ou, para sermos mais exatos, a nossa herança intelectual e ética, bem como a leitura que fazemos da nossa identidade e da morte, vêm-nos directamente de Sócrates e de Jesus de Nazaré. Nenhum deles, contudo, fez questão de ser autor e muito menos de ser publicado.
Georges Steiner, O silêncio dos livros (2006) 
Notícia recente avançada pelo semanário SOL -nos conta que o livro de José Sócrates, A confiança no mundo  Sobre a tortura em democracia (2013), não foi escrito por ele. Mais um incidente aces-sório a juntar a esta telenovela da vida real transmitida diariamente pelos habituais meios de comunicação social. Tê-lo-ia encomendado a um escritor fantasma que abdicara dos seus direitos intelectuais. Calúnias. Apressou-se a afirmar o ex-primeiro-ministro português com nome de filósofo grego, que se prepara para processar o jornal de grande tiragem com nome luminoso de astro-rei. Tudo isto num só dia, como manda o cânone da tragédia ática.

Esta cena burlesca trouxe-me de imediato à lembrança o argumento dum filme de Roman Polanski, O escritor fantasma (2010), e o teor dum ensaio de Georges Steiner, O silêncio dos livros (2006). Pedi emprestado o título ao cineasta franco-polaco para identificar estas histórias em contracorrente e uma frase ao escritor franco-inglês para lhe servir de epígrafe. O confronto entre todos os atores referidos permite-nos situá-los em dois campos de ação diametralmente opostos: aqueles que fundaram sistemas globais com livros que não escreveram e aqueles que se afundaram nesses mesmos sistemas com livros que dizem ter escrito.

Não li nem vou ler o tal livro de autor duvidoso. A polémica gerada por um bestseller mediático falhou no intento de me fazer viajar no seu interior. Nem o prefácio de Lula da Silva e o posfácio de Eduardo Lourenço me levaram a fazê-lo. Prefiro dirigir as minhas leituras de lazer para outras paragens mais promissoras de encontrar o diferente. Como voltar à companhia de George Steiner e percorrer as páginas de Os livros que não escrevi (2008). Confissão surpreendente só possível num mestre na arte de surpreender os leitores. Rosto no rosto. Sem a máscara dramática do hipokrités em palco, de se fazer passar por aquilo que não é ou finge ser. 

26 de março de 2015

Duas culturas, dois povos, dois textos


No ano de 1922, o escritor irlandês James A. Joyce publicou o seu Ulisses, hoje considerado um dos romances do século xx. O roman-ce descreve as errâncias do pequeno-burguês irlandês Leopold Bloom em Dublin ao longo do dia 16 de junho de 1904. Este dia é celebrado pelos fãs de James Joyce como o Bloomsday (um jogo de palavras com Doomsday, o dia do Juízo Final). O herói do roman-ce é judeu. Mas os episódios por ele vividos naquele dia seguem o padrão da Odisseia. Com isto, James Joyce quer recordar-nos de que a nossa cultura é uma Mesopotâmia banhada por dois rios. A fonte de um deles jorra em Israel, ao passo que a do outro nasce na Grécia. E os rios são dois textos centrais que abastecem todo o sistema de irrigação da cultura com histórias ricas em nutrientes.

É que: uma cultura é, não em último lugar, o património comum de histórias que mantém unida uma sociedade. Destas também fazem parte os relatos sobre as próprias origens, ou seja, a biografia (descrição da vida) de uma sociedade que diz à mesma quem ela é.

─ A Bíblia judaica;
─ O duplo poema épico grego sobre o cerco de Troia ─ a Ilíada (Troia chamava-se em grego Ílion) ─ e a Odisseia, a atribulada e errante viagem de regresso do astuto Ulisses da cidade de Troia destruída para casa e para junto da sua mulher Penélope.

O autor do poema épico grego foi Homero. O autor da Bíblia foi Deus. Ambos têm características de autores mitológicos: Homero não via; Deus não podia ser olhado ─ era proibido fazer dele um retrato.
Dietrich Schwanitz, Cultura (1999 | 2004: 37)

23 de março de 2015

Motes e motejos reais com pegas, rosas, ligas de meias e tosões de ouro...

SALA DAS PEGAS
PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA


Existe no paço real de Sintra um teto de madeira decorado com 136 pegas. Seguram numa pata uma rosa vermelha e no bico uma tarja com a frase «Por Bem». A imagem associa num único emblema o corpo e a alma das divisas reais de D. Filipa de Lencastre e de D. João I de Portugal. Diz-se por aí que o fundador da dinastia de Avis, aquele a quem a história deu o cognome de O de Boa Memória, teria sido apanhado a beijar uma aia da mulher. -lo-ia feito por bem. AfirmouA desculpa terá sido depois repetida por todas as damas da corte. Tantas quantas as mandadas pintadas pela rainha na sala onde o petit affaire amoroso do rei terá decorrido. O episó-dio parece ter inspirado a soberana, que não se inibiu de escolher como lema pessoal a declaração algo provocatória de «Il me plaît».

Acontece que a esposa amantíssima do Mestre de Avis, a educadora da Ínclita Geração de Infantes, a filha do poderoso João de Gante, era também neta de Eduardo III de Inglaterra, de quem se conta uma história semelhante, protagonizada por si e pela condessa de Salisbúria. Segundo se diz, esta terá perdido a sua liga azul durante um baile. O rei apressou-se a recolocá-la no devido lugar e a responder aos sorrisos de cumplicidade consentida dos nobres: «Honi soit qui mal y pense». No dia seguinte, terá fundado a Ordem da Jarreteira, a mais antiga e prestigiada do sistema de honras britânico. A frase tornou-se proverbial, transformando-se num dos lemas do país, com direito a ser estampada na bandeira, a par do «Dieu et mon droit», como brasão de armas do Reino Unido.

Acrescentemos uma terceira história igualmente exemplar. Contam os anais oficiais que Filipe III da Borgonha, dito O Bom, criou em Bruges a Ordem do Tosão de Ouro, por ocasião do seu casamento com a infanta D. Isabel de Portugal, filha de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, bisneta, portanto, de Eduardo III de Inglaterra. Oficialmente, tê-lo-á feito em homenagem à Virgem Maria e a Santo André, com a divisa «Pretium laborum non vile». Tudo muito inócuo até ao momento. Todavia, dizem as más línguas habituais que o duque, ao olhar para o carneiro de ouro no colo da mulher morena, se lembraria dos caracóis louros da amante flamenga. Calúnias. Está mais que visto, que Plantagenetas, Avises e Borgonhas não podem ser tidos como gente de poucas vergonhas.

20 de março de 2015

Arthur: rei, cavaleiro, mártir e santo...


REX ARTVRVS

Mosaico della Cattedrale di Otranto - Italia (1163-1166)

Nasci numa sexta-feira de paixão, não tenho direito a santo do dia. Os dois nomes próprios que me deram na pia batismal, Artur-Henrique, podem traduzir-se à letra por o urso da casa grande. Satisfaz-me o ego. O celta e o teutónico juntos produzem um efeito aristocrático mais adequado para os tronos do que para os altares.

O lendário rei Arthur dos romances medievais de cavalaria do ciclo da Távola Redonda não carece de apresentações. Vive na nossa imaginação e é tudo. Inspirou multidões de leitores|ouvintes ao logo dos séculos. Está presente na nossa matriz cultural mais profunda. Passou a ter uma existência real nas histórias que a história conta.

Numa passagem rápida pela Île-aux-Moines, a maior ilha do golfo do Morbihan, encontrei na igreja local um enigmático Saint Arthur, representado num vitral modesto colocado num lugar de destaque do deambulatório. Nada como viajar pela a Bretanha para encontrar um rei e um santo a prestigiar o nome com que sou chamado.

Pesquisas posteriores revelaram-me um desconhecido Saint Arthur of Glastonbury, monge católico imolado em 1539 por Henrique VIII, por se ter oposto à separação da Igreja de Inglaterra de Roma. Duma assentada, passei a ter na minha onomástica pessoal dois reis e um mártir. De facto, não há fome que não dê em fartura.

17 de março de 2015

Uma livraria ao virar da esquina

Second Life Marketplace

Em tempos pretéritos, a Valentim de Carvalho teve uma pequena loja de discos e livros no Forum Algarve de Faro. Na primeira vez que lá entrei, pedi ao jovem vendedor de serviço um qualquer título de Lídia Jorge acabado de publicar. Esqueci-me do nome. Talvez uma coletânea de contos. Respondeu-me, com toda a educação que o part time lhe exigia, não venderem música brasileira. A ignorância, de facto, é muito atrevida. Explicar que se tratava da mais prestigiada escritora algarvia do momento, com obra traduzida para algumas dezenas de línguas, premiada dentro e fora das fronteiras nacionais, pareceu-me completamente irrelevante. Desci as escadas rolantes do primeiro andar e dirigi-me à livraria Bertrand do rés-do-chão. O meu pedido foi de imediato atendido com eficácia e sem perguntas suplementares de permeio. 

Este episódio veio-me à memória quando revi pela enésima vez num canal da TV-Cabo o filme americano de Nora Ephron, You've got mail (1998). Recordando o argumento, trata-se duma típica comédia romântica protagonizada por Tom Hanks e Meg Ryan, proprietários da Fox & Sons Books e da The Shop Around the Corner. É evidente que na luta travada entre uma megalivraria multinacional e uma microlivraria de virar da esquina, a astúcia proverbial da raposa derrotou sem dificuldade de maior a ingenuidade pueril do urso de peluche. Os grandes comem os pequenos. Escusado será dizer que, pouco antes de se esgotarem os 119 minutos de projeção da película, a reconciliação dos dois livreiros antagonistas é selada com o tal beijo cinéfilo obrigatório nestas circunstâncias e exigido pelo género. Está tudo dito.

Saltando por cima dos pormenores que conduzem ao happy end esperado desde o início da história, destaco uma única cena. O não menos jovem funcionário de serviço à secção infantil do novo megastore instalado no bairro sente-se impotente para satisfazer o pedido duma cliente. Esta pretendia um livro para crianças que falava de sapatinhos de ballet. Bloqueio completo do vendedor. Afinal, tratava-se tão somente do Ballet Shoes (1936), o título inaugural da série infantil Shoes, imaginada pela escritora inglesa Noel Streatfeild, mundialmente conhecida no âmbito da literatura infantil. Felizmente que a ex-proprietária da minilivraria falida estava presente para esclarecer as dúvidas e satisfazer a cliente. A lição da fábula é que a sócia dum urso de peluche instruído vale bem mais do que o escravo duma qualquer raposa delambida.

15 de março de 2015

Les vers du poète aveugle

Le départ pour la croisade

(Statuts de l'Ordre du Saint-Esprit, XIVe siècle) 

Bibliothèque nationale, Paris, MS Fr. 4274, f. 6



     Je ne sais pas si c'est un pâturage de bêtes sauvages ou ma maison, ma demeure natale !


     Ce cri d'affliction d'un poète anonyme de Maara n'est pas une simple figure de style. Nous sommes malheureusement tenus de prendre ses mots au pied de la lettre et de nous demander avec lui : que s’est-il donc passé de si monstrueux dans la ville syrienne de Maara en cette fin d’année 1098 ? 

     Jusqu'à l'arrivée des Franj, les habitants vivaient paisiblement à l'abri de leur muraille circulaire. Leurs vignobles, comme leurs champs d'oliviers et de figuiers, leur procuraient une modeste prospérité. Quant aux affaires de leur cité, elles étaient gérées par de braves notables locaux sans grande ambition, sous la suzeraineté nominale de Redwan d’Alep. La fierté de Maara, c’était d’être la patrie de l’une des plus grandes figures de la littérature arabe, Aboul-Ala al-Maari, mort en 1057. Ce poète aveugle, libre penseur, avait osé s’en prendre aux mœurs de son époque, sans égard pour les interdits. Il fallait de l’audace pour écrire : 

          Les habitants de la terre se divisent en deux, 
          Ceux qui ont un cerveau, mais pas de religion, 
          Et ceux qui ont une religion, mais pas de cerveau. 

Quarante ans après sa mort, un fanatisme venu de loin allait donner apparemment raison au fils de Maara, tant pour son irréligion que pour son pessimisme légendaire : 

          Le destin nous démolit comme si nous étions un verre, 
          Et nos débris ne se ressoudent plus jamais. 

Sa ville sera, en effet, réduite à un amas de ruines, et cette méfiance que le poète avait si souvent exprimée à l'égard de ses semblables trouvera là sa plus cruelle illustration.

Amin Maalouf, Les croisades vues par les arabes (1983 : 53-54)

13 de março de 2015

José Saramago, a estátua e a pedra: a superfície e o interior da obra

«A estátua é a superfície da pedra, o resultado de retirar pedra da pedra. Descrever a estátua, o rosto, o gesto, as roupagens, a figura, é descrever o exterior da pedra […] Quando terminei o Evangelho ainda não sabia que até então tinha andado a descrever estátuas. Tive de entender o novo mundo que se me apresentava ao abandonar a superfície da pedra e passar para o seu interior, e isso aconteceu com o Ensaio sobre a Cegueira.»
José Saramago, A estátua e a pedra (2013)
O último livro publicado de José Saramago, A estátua e a pedra (2013), não é um autógrafo de juventude, perdido numa gaveta sem fundo duma editora portuguesa, pragmaticamente à espera da consagração global do autor com prémios outorgados em nome de Camões e Nobel, para o revelar ao mundo sob a forma dum bestseller assegurado. Trata-se dum livro que fala de livros, dos seus, sobretudo de romances e contos, regidos todos eles pela metáfora da estátua e da pedra. Segundo notas introdutórias assinadas pelos lusitanistas italianos Giancarlo Depretis e Luciana Stegano Picchio, limita-se a transcrever a conferência de encerramento do colóquio Dialogo sulla cultura portoghese. Letteratura-musica-storia, proferida em 1997 na Universidade de Turim, em boa hora preservada para memória futura numa oportuna gravação magnética. Uma primeira versão impressa do texto, presumo, dado que a atual versão bilingue, lançada mundialmente em português e espanhol pela Casa dos Bicos na Feira do Livro de Bogotá, alude a duas obras compostas em data posterior.

Como é explicitado no subtítulo dado ao improviso, «o autor explica-se», a revisitação à totalidade da produção romanesca dada à estampa até então é o pretexto seguido para exclui-la, em definitivo, da órbita genérica da narrativa histórica. É que, a seu ver, a verdade histórica absoluta só existe na ideia mais ou menos fantasista dos relatores profissionais que lhe dão forma, moldada ao sabor subjetivo de cada um deles e dos interesses pessoais que os norteiam. A ficção, por muito verosímil que seja, é sempre uma reprodução grosseira do mundo autêntico que nos rodeia. Ao longo das 25 páginas do ensaio, são passados em revista os argumentos de 12 romances e duma coletânea de contos, protagonizados, em bloco, por indivíduos anónimos, personagens inventadas sem nenhuma relação direta com as personalidades imortalizadas pelas crónicas oficiais dum qualquer país com existência documentada numa carta geográfica. A história anda sempre muito perto na efabulação mas nunca é devassada em nome duma recriação artística intencional de realidades efetivamente acontecidas. Os heróis estão ausentes das esculturas verbais cinzeladas pelo escritor durante 55 anos de labuta intensa, carecem da beleza estereotipada a que o classicismo nos habituou e foram talhados sem planos, sem projetos, sem estratégias prévias para definir caminhos e atingir objetivos, à semelhança, aliás, da vida do próprio escultor de palavras que lhes deu vida nas folhas brancas de papel.

O encontro entre o autor e leitor plasmado na palestra-escrito define, também, a transição necessária do ciclo da estátua para o ciclo da pedra. A fronteira entre as duas fases de criação literária, a superficial e a profunda do objeto esculpido, está balizada pel’O evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e pelo Ensaio sobre a cegueira (1995). A permuta de estéticas não passa despercebida a ninguém, nem sequer aos frequentadores menos atentos da obra completa do romancista. Os atores e cenários demandados num primeiro ato de representação mimética da realidade inventada não se confundem, um só instante, com os postos em cena num segundo e derradeiro ato dramático. A descrição física dos rostos, gestos e roupagens definidora das tessituras narrativas da estátua é substituída pela descrição psíquica da pedra de que são feitas. A viagem pelo mundo do parecer cede lugar à viagem pelo mundo do ser. O intuito diegético de nos perguntar quem somos e para que servimos surge no horizonte, conquanto saibamos de antemão quão fugitiva e incerta é a resposta que venhamos a obter. 

A autorreflexão efetuada pelo contador de histórias à obra pretérita cessa com o Ensaio sobre a lucidez (2004). A tarefa de integrar os derradeiros textos publicados no universo da estátua ou da pedra afasta qualquer tipo de dificuldade. O ensaísta e escritor espanhol Fernando Gómez Aguilera fá-lo, para tranquilidade nossa, no epílogo à edição atualizada da conferência de Turim. Ficamos entretanto na expetativa que a Fundação José Saramago cumpra a promessa de converter em letras impressas as páginas manuscritas do inacabado Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. Penetrar no interior das palavras convocadas pela fábula que é o material de que a escrita é feita, lugar onde a imaginação dos poetas contracena com a realidade e os sonhos se revelam em toda a sua plenitude.

NOTA: 
Texto publicado no Pátio de Letras aquando do lançamento há cerca de dois anos da edição bilingue luso-castelhana entre nós deste livro que fala de livros. Reponho-o agora neste novo espaço, porque de vez é quando é bom revisitar Saramago e nunca é de mais falar dos amigos de quem se gosta.

8 de março de 2015

Mario Vargas Llosa, os jogos eróticos dos cadernos de dom Rigoberto

«Resumiendo, le diré que todo movimiento que pretenda trascender (o relegar a segundo plano) el combate por la soberanía individual, anteponiéndole los intereses de un colectivo —clase, raza, género, nación, sexo, etnia, iglesia, vicio o profesión— me parece una conjura para embridar aún más la maltratada libertad humana.»
Mario Vargas Llosa, Los cuadernos de don Rigoberto (1997)
Numa passagem rápida de trabalho por Sevilha, dei um pulo apressado ao terceiro andar da livraria maior da avenida de la Constitución e deparei-me com um dos seus habitantes, detentor duma capa apelativa e dum título sugestivo, a olhar para mim. Fixei-o de frente com mais cuidado e apercebi-me tratar-se dum texto desconhecido dum dos autores da minha predileção atual. Ultrapassando de imediato os prolegómenos do encontro, direi tratar-se duma novela a que Mario Vargas Llosa quis chamar Os cadernos de dom Rigoberto (1997). Esqueci-me do exemplar que pretendia adquirir nesse dia e trouxe para casa aquele que tinha vindo ter comigo sem que eu o tivesse chamado. Aqui lhe dei abrigo até lhe prestar um pouco mais de atenção e de o ter percorrido as suas linhas e entrelinhas de fio a pavio. Acabei neste momento de o ler. Continua a fitar-me, atento, no seu formato de livro de bolso, à espera de ouvir aquilo que eu tenho para lhe dizer.

Nesses percursos pelas histórias alojadas no interior da obra, cruzei-me com personagens já visitadas noutras paragens. Depois descobri que as poderia revisitar noutros locais, noutras etapas da escrita peruana do mais recente prémio Nobel das letras hispânicas. Não me vou deter em nenhuma delas. Fico-me mesmo com o desenho que lhe é feito nestes cadernos que acabei de folhear. O argumento é fácil de traçar. Situa-se na cidade de Lima e reparte-se por dois núcleos narrativos que se vão desenvolvendo de modo alternado e fragmentário. As reflexões, comentários, diatribes, anotações e devaneios do seu organizador interno, um maduro profissional de seguros momentaneamente afastado da mulher; e os diálogos travados com uma animação ousada por um jovem colegial apaixonado pela pintura com a segunda esposa do pai, na presença sempre expedita da criada da casa. O erotismo preenche todas as páginas do relato. Sem intervalos ou tempos mortos. A sensibilidade do leitor é constantemente despertada pelo peso das palavras que falam de arte, literatura, teatro, cinema, música, arquitetura, religião, ciência, desporto, sociologia e filosofia. A imaginação e o desejo brotam à flor da pele, nos discursos dos protagonistas da fábula familiar: a madrasta, o enteado, o progenitor e a empregada.

A estrela da companhia, aquela que tem o condão de unir todas as pontas da teia, é o pintor expressionista Egon Schiele (1890-1918), desaparecido aos 28 anos de idade, vítima da gripe espanhola. Fazem-lhe companhia outros nomes sonantes das belas artes ocidentais, com especial enfoque para Gustav Klimt, o mestre, mas também para Man Ray, Utamaro, Emile Nolde, Gustav Courbet, Renoir, Van Gogh, Goya ou Botticelli, entre muitos outros representantes das diversas correntes estilísticas que o devir histórico teve a capacidade de erigir com afinco neste nosso mundo de contrastes quotidianos repetidamente renovados e decalcados. As telas, aguarelas e gravuras que lhes deram renome imorredouro são dissecadas em pormenor, situando-nos no cenário estético duma longa écfrase novelesca ou numa sucessão de muitas outras que dão um sentido singular à tessitura narrativa, processo compositivo completado com a inclusão exaustiva de reproduções desenhadas do grande criador austro-húngaro no final de cada secção do retábulo verbal.

No final da longa caminhada pelos sendeiros labirínticos das fantasias, fetiches, fobias e fantasmas, pelo império dos sentidos que definem a própria condição humana, deparamo-nos com um extenso ensaio sobre os jogos de sedução, sobre os sonhos e os pesadelos que residem no próprio conceito judaico-cristão do pecado, sobretudo na sua vertente católica mais ortodoxa. Os medos, receios e inibições impostos no dia-a-dia pelo social aos gostos, manias e alvedrios do individual, inibem a liberdade a que todos nós temos direito. A opinião é explanada de modo sistemático pelas instâncias narrativas no decurso das cerca de quatrocentas páginas que dão corpo ao texto. As dissidências amorosas algo ambíguas vividas em modo triangular por dom Rigoberto, dona Lucrécia e Fonchito são resolvidas a contento de todos. Sem preconceitos. A reconciliação do casal acontece. Os três voltam a viver sob o mesmo teto. Apesar de tudo, estão cientes de formar uma família verdadeiramente feliz.

3 de março de 2015

O labirinto de letras das bibliotecas

Maria Helena Vieira da Silva, Biblioteca 
[óleo sobre tela, 1949]
También sabemos de otra superstición de aquel tiempo: la del Hombre del Libro. En algún anaquel de algún hexágono (razonaron los hombres) debe existir un libro que sea la cifra y el compendio perfecto de todos los demás: algún bibliotecario lo ha recorrido y es análogo a un diós.
Jorge Luis Borges, La biblioteca de Babel (1941) 
Os mass media da aldeia global alimentaram avidamente os noticiários impressos, radiofónicos e televisivos com a informação à la une de que o pretenso Estado Islâmico incendiara a biblioteca pública de Mossul, no Iraque, queimando milhares de livros, entre os quais se contavam oito mil manuscritos raros e obras antigas de valor inestimável. A ação extremista estendeu-se ainda à biblioteca universitária, a uma igreja e ao teatro locais. Barafustou-se muito nesse dia sobre esse atentado à cultura, enquanto o cheiro a papel queimado se foi adivinhando no ar. Depois o assunto caiu no silêncio dos deuses.

O episódio mediático de barbárie fundamentalista fez-me recordar outros momentos da história, em que a força destruidora das chamas reduzira irremediavelmente a cinzas grande parte da criação poética dos povos. O incêndio da antiga biblioteca de Alexandria terá sido, porventura, o mais calamitoso de todos aqueles que a memória dos homens regista nos seus anais. Quantos testemunhos únicos da antiguidade, registados em cerca de setecentos mil rolos de papiro e pergaminho preciosos, se terão perdido para sempre nesse ano fatídico de 48 AEC é a questão que fica no ar sem resposta satisfatória a dar.

A perda então sofrida foi de tal modo grande, que ainda hoje procuramos recuperar algumas migalhas desse imenso património drasticamente desaparecido, por todos os meios postos à nossa disposição. Há algumas décadas que tentamos decifrar, com os mais sofisticados meios tecnológicos postos à nossa disposição, os segredos guardados nos volumes calcinados pelas lavas vulcânicas do Vesúvio das bibliotecas privadas dos patrícios romanos das cidades de Pompeia e Herculano, varridas do mapa em 79 da EC e mantidas sepultadas da curiosidade dos leitores por mais de 1600 anos feitos da poeira dos dias que passam.

Umberto Eco impacientou-se com a espera e imaginou uma biblioteca de fantasia perdida no coração duma abadia medieval italiana, minuciosamente descrita nas páginas d' O nome da rosa (1980). Por instantes, chegamos a acreditar que o segundo livro da Poética de Aristóteles se encontrava preservado naquele refúgio labiríntico idealizado pelo espírito religioso da época. A ilusão é de curta duração. Quem leu o romance ou viu o filme sabe perfeitamente que, no final da fábula, todo o edifício é engolido pelas labaredas providenciais dum incêndio purificador, levando consigo a mais chorada obra perdida da literatura ocidental.

Só nos resta confiar na fé de Jorge Luis Borges ficcionada nas páginas visionárias de La biblioteca de Babel (1941). Admitir a existência no universo dum livro total que é a cifra perfeita de todos os demais. A arte combinatória dos números aceita como provável essa arte combinatória das letras. O guardião dessa biblioteca recuperada dá pelo nome de Homem do Livro. Vive em qualquer lugar remoto do nosso mundo possível a que chamamos imaginação. É através da utopia que em nós habita que a centelha divina da criação se manifesta a cada momento que passa, depois de termos absorvido as imagens e as semelhança de deus.

2 de março de 2015

Michel Houellebecq e as extensões dos domínios da luta dum jovem informático

«Le libéralisme économique, c’est l’extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société. De même, le libéralisme sexuel, c’est l’extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société.»
Michel Houellebecq, Extension du domaine de la lutte (1994)
Tenho vindo a substituir pouco a pouco a compra compulsiva de livros que deixaram de me caber nas estantes depois de lidos pela revisitação de todos aqueles que em tempos me ofereceram visitas guiadas únicas pelo universo mágico da imaginação poética. O caso que aqui trago acompanhou-me numa outra viagem complementar. Aquela que me trouxe de Rennes a Faro, com passagens rápidas por Paris e Lisboa, no regresso dumas férias de verão bretão com amigos de longa data. Entre as etapas percorridas de TGV e Alfa Pendular, em trânsito pelos aeroportos de Roissy e da Portela, pedaços de espaço-tempo intervalados com muitas horas paradas nas gares ferroviárias e aéreas, Michel Houellebecq pôs-me a par das peripécias autobiográficas dum jovem informático de 30 anos, na Extensão do domínio da luta (1994), o romance com que o mais controverso escritor vivo das letras francesas se projetou nas bocas do mundo. Quando cheguei a casa, os dois percursos pelas geografias do real e da fantasia encontraram-se num final feliz, levando-me a idealizar outras peregrinações conjuntas que a força do destino, condicionada pelo livre-arbítrio sempre presente nestas circunstâncias, lá me tem permitido concretizar.

A contracapa da edição de bolso que me serviu de testemunho refere tratar-se da odisseia desencantada do protagonista, situado entre duas idades, a representar o papel dum observador dos movimentos humanos e das banalidades desenvolvidas à beira das máquinas de café. Definição feliz, muito embora o conceito de heroísmo subjacente ao género épico tenha de ser adaptada a uma realidade urbana, atual, situada na derradeira década do século passado. Desde então até aos nossos dias pouco terá mudado. Se as vidas reveladas das personagens da ficção se prolongassem no real quotidiano que nos rodeia, se a mimeses literária se fundisse com as existências traçadas fora do universo diegético dos contos, novelas e romances, se por via deste entrecruzar de planos voltássemos a encontrar o jovem quadro que dá forma à fábula, amadurecido de 10 ou 20 anos, aperceber-nos-íamos que pouco se teria alterado na sua forma de ser e de estar neste mundo globalizado em torno da revolução tecnológica das modernas sociedades da informação computorizada. Estaria provavelmente rendido ao sistema que nos verdes anos associara ao liberalismo económico e ao sexual. As tais extensões do domínio da luta que dão título à obra. O absurdo, a solidão, a tristeza, a desilusão, a angústia e a amargura teriam tomado conta do seu destino pessoal e confirmado um estado de depressão ininterrupta, anunciada desde o início das confissões partilhadas no texto.

No final das deslocações forçadas/escolhidas de navegador solitário pelas rotas hexagonais do país natal, o analista-programador, em conflito com o statu quo a que chegara, opta por uma peregrinação purificadora ao cume duma montanha, rodeada de florestas e de natureza a perder de vista, sentindo com impressionante violência no seu íntimo a possibilidade de experimentar a alegria, o que, num ser até então obcecado com a morte, não deixa de constituir uma mensagem a reter por todos os leitores. Em Houellebecq, a possibilidade de contrariar a predestinação alheia à nossa vontade existe e o direito à liberdade pessoal da escolha é reclamado a cada momento, ainda que, para tal, tenha de recorrer ao tratamento de choque da provocação militante, que tantos engulhos tem causado aos espíritos menos preparados para encarar o diferente.

Durante o voo encetado entre as duas capitais referidas, um parceiro de jornada questionou-me, num francês de invejar, cultivado na cidade luz que deixáramos para trás, se apreciava o estilo do autor da obra que me via ler avidamente. Respondi-lhe que estava a gostar, mas precisava de conhecer os restantes títulos que levava comigo e só depois poderia ter uma opinião global bem formada. Olhou-me incrédulo e continuou a folhear o jornal com as notícias frescas do dia sem voltar a dirigir-me palavra. Agradeci a deferência e continuei a leitura da centena e meia de páginas que tinha entre mãos. Neste momento já estou em condições de o fazer, mas vou aguardar por outras ocasiões para revelar o veredicto final, para abrir o balanço e dizer de que modo geri as contas do deve e haver identificadas depois de lidos e relidos os livros.