8 de março de 2015

Mario Vargas Llosa, os jogos eróticos dos cadernos de dom Rigoberto

«Resumiendo, le diré que todo movimiento que pretenda trascender (o relegar a segundo plano) el combate por la soberanía individual, anteponiéndole los intereses de un colectivo —clase, raza, género, nación, sexo, etnia, iglesia, vicio o profesión— me parece una conjura para embridar aún más la maltratada libertad humana.»
Mario Vargas Llosa, Los cuadernos de don Rigoberto (1997)
Numa passagem rápida de trabalho por Sevilha, dei um pulo apressado ao terceiro andar da livraria maior da avenida de la Constitución e deparei-me com um dos seus habitantes, detentor duma capa apelativa e dum título sugestivo, a olhar para mim. Fixei-o de frente com mais cuidado e apercebi-me tratar-se dum texto desconhecido dum dos autores da minha predileção atual. Ultrapassando de imediato os prolegómenos do encontro, direi tratar-se duma novela a que Mario Vargas Llosa quis chamar Os cadernos de dom Rigoberto (1997). Esqueci-me do exemplar que pretendia adquirir nesse dia e trouxe para casa aquele que tinha vindo ter comigo sem que eu o tivesse chamado. Aqui lhe dei abrigo até lhe prestar um pouco mais de atenção e de o ter percorrido as suas linhas e entrelinhas de fio a pavio. Acabei neste momento de o ler. Continua a fitar-me, atento, no seu formato de livro de bolso, à espera de ouvir aquilo que eu tenho para lhe dizer.

Nesses percursos pelas histórias alojadas no interior da obra, cruzei-me com personagens já visitadas noutras paragens. Depois descobri que as poderia revisitar noutros locais, noutras etapas da escrita peruana do mais recente prémio Nobel das letras hispânicas. Não me vou deter em nenhuma delas. Fico-me mesmo com o desenho que lhe é feito nestes cadernos que acabei de folhear. O argumento é fácil de traçar. Situa-se na cidade de Lima e reparte-se por dois núcleos narrativos que se vão desenvolvendo de modo alternado e fragmentário. As reflexões, comentários, diatribes, anotações e devaneios do seu organizador interno, um maduro profissional de seguros momentaneamente afastado da mulher; e os diálogos travados com uma animação ousada por um jovem colegial apaixonado pela pintura com a segunda esposa do pai, na presença sempre expedita da criada da casa. O erotismo preenche todas as páginas do relato. Sem intervalos ou tempos mortos. A sensibilidade do leitor é constantemente despertada pelo peso das palavras que falam de arte, literatura, teatro, cinema, música, arquitetura, religião, ciência, desporto, sociologia e filosofia. A imaginação e o desejo brotam à flor da pele, nos discursos dos protagonistas da fábula familiar: a madrasta, o enteado, o progenitor e a empregada.

A estrela da companhia, aquela que tem o condão de unir todas as pontas da teia, é o pintor expressionista Egon Schiele (1890-1918), desaparecido aos 28 anos de idade, vítima da gripe espanhola. Fazem-lhe companhia outros nomes sonantes das belas artes ocidentais, com especial enfoque para Gustav Klimt, o mestre, mas também para Man Ray, Utamaro, Emile Nolde, Gustav Courbet, Renoir, Van Gogh, Goya ou Botticelli, entre muitos outros representantes das diversas correntes estilísticas que o devir histórico teve a capacidade de erigir com afinco neste nosso mundo de contrastes quotidianos repetidamente renovados e decalcados. As telas, aguarelas e gravuras que lhes deram renome imorredouro são dissecadas em pormenor, situando-nos no cenário estético duma longa écfrase novelesca ou numa sucessão de muitas outras que dão um sentido singular à tessitura narrativa, processo compositivo completado com a inclusão exaustiva de reproduções desenhadas do grande criador austro-húngaro no final de cada secção do retábulo verbal.

No final da longa caminhada pelos sendeiros labirínticos das fantasias, fetiches, fobias e fantasmas, pelo império dos sentidos que definem a própria condição humana, deparamo-nos com um extenso ensaio sobre os jogos de sedução, sobre os sonhos e os pesadelos que residem no próprio conceito judaico-cristão do pecado, sobretudo na sua vertente católica mais ortodoxa. Os medos, receios e inibições impostos no dia-a-dia pelo social aos gostos, manias e alvedrios do individual, inibem a liberdade a que todos nós temos direito. A opinião é explanada de modo sistemático pelas instâncias narrativas no decurso das cerca de quatrocentas páginas que dão corpo ao texto. As dissidências amorosas algo ambíguas vividas em modo triangular por dom Rigoberto, dona Lucrécia e Fonchito são resolvidas a contento de todos. Sem preconceitos. A reconciliação do casal acontece. Os três voltam a viver sob o mesmo teto. Apesar de tudo, estão cientes de formar uma família verdadeiramente feliz.

4 comentários:

  1. Mais uma recensão sugestiva que desperta logo a vontade de mergulhar nas páginas do livro. À boa maneira de Mário Vargas Llosa, com um enredo bem estruturado e envolto em erotismo, ao mesmo tempo que proporciona um banho de cultura geral. Se a liberdade individual, como se deduz ser o caso, não agredir deliberadamente o próximo, será mais uma lição de vida em romance que me agradará sobremaneira. Paixão, erotismo e cultura, três bons ingredientes para uma história bem sucedida...

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  2. Vargas Llosa é um escritor fantástico, cria e recria imagens de um sabor que nos leva ao sorriso e ao deleite intelectual. É mais um dos fabulosos escritores latino-americanos cuja escrita se situa no realismo mágico, tal a riqueza prodigiosa dos textos. Pena ter mudado de trincheira, para mim. E ter-se transformado num reacionário militante, mas belíssimo modelador da palavra escrita.

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  3. Professor, muitos parabéns. Para quando um livro seu? Quero um exemplar autografado! :)

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  4. Sem dúvida, excelentes ingredientes para uma obra digna de ser lida. E em especial gosto muito do final: "A reconciliação do casal acontece. Os três voltam a viver sob o mesmo teto. Apesar de tudo estão cientes de formar uma família verdadeiramente feliz."

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