3 de abril de 2015

Michel Houellebecq, história duma submissão anunciada

«Il est probablement impossible, pour des gens ayant vécu et prospéré dans un système social donné, d'imaginer le point de vue de ceux qui, n'ayant jamais rien eu à attendre de ce système, envisagent sa destruction sans frayeur particulière.»
Michel Houellebecq, Soumission (2015)
O meu encontro cara a cara com o mais recente romance de Michel Houellebecq, Soumission (2015), deu-se na Fnac de Faro, a única livraria da cidade onde moro que ainda se atreve a vender livros em francês. Fiquei a olhar para um dos exemplares estrategicamente expostos a perguntar-me se lhe pegaria de imediato ou se esperaria por uma edição de bolso mais económica e fácil de arrumar numa das estantes lá de casa. Partilhei o dilema com uma cliente francesa que ali estava a ver as novidades. Esta aconselhou-me a esperar pelo Natal, altura em que estava prevista a sua publicação em tamanho e preço reduzidos. A completar a conversa de circunstância, sugeriu-me, ainda, a escolha doutros títulos alternativos, bem mais interessantes do ponto de vista estético-literário, do que aquele que as polémicas divulgadas pelos mass media já haviam convertido num bestseller internacional. Agradeci as informações prestadas e resolvi adquiri-lo naquele mesmo instante. Os tais impulsos comandados insubmissos que as leis da razão têm dificuldade em explicar ou desistem de o fazer.

A leitura foi rápida e proveitosa. Alertou-me para a possibilidade de nas próximas eleições gaulesas o palácio do Eliseu vir a ser ocupado por um presidente muçulmano. Até aqui nada de especial. Num estado secular, as convicções religiosas dos cidadãos, incluindo as do mais alto dignitário, não podem interferir em momento algum no desempenho integral das funções governativas ou no exercício das restantes liberdades cívicas que os assistem de juris et de jure. A minha objeção à realidade narrada surge quando o status quo da Quinta República é totalmente subvertido nesta antecipação ficcionada de cariz político. O novo poder instituído no país remete para o caixote de lixo da história os mais elementares princípios inaugurados pela Revolução Francesa e exportados para toda a aldeia global. O mais chocante da situação é que a esmagadora maioria dos habitantes do hexágono parece aceitar a situação com uma naturalidade inquietante. Deixa-se submeter, sem pestanejar, às mais radicais normas do Islão. Até se converte ao novo credo corânico, para manter ou recuperar um emprego ameaçado ou perdido.

O insólito da situação obriga-nos a uma pequena reflexão que nos permita apontar para possíveis lições do texto, tão polémico como todos aqueles que o autor tem vindo a pôr à disposição do leitor. A falência dos partidos tradicionais anunciada para 2022 já começou a concretizar-se nas eleições locais de 2015, a pouca distância da publicação da distopia que alguns lá vão comparando, a bem ou a mal, ao Brave New World (1932) de Aldous Huxley e ao Nineteen Eighty-Four (1949) de George Orwell. A vitória dum partido islâmico nascido do nada é que será mais difícil de realizar no espaço de tempo tão curto dum mandato presidencial. Admite-se a derrota relativa da Frente Nacional mas estranha-se a ausência de referências ao Estado Islâmico, tão presente nos noticiários difundidos pelos jornais, rádios e televisões à escala planetária. O anúncio da decadência do modelo ocidental tal qual o conhecemos hoje deixou há muito de ser entendida como uma mera figura de retórica. A realidade já se encarregou de confirmar algumas das previsões mais sombrias umas décadas atrás. Daí a configurar o ressurgimento dum novo império romano, regido pelas leis mais extremadas da sharia e a reboque da França, é que resulta pouco credível e sem pernas para andar. Uma redução ao absurdo, em suma, duma situação possível mas pouco provável de implementar nesta parte mais ocidental da península euroasiática.

Este relato de antecipação política a curto prazo não é certamente a melhor ficção de Houellebecq. Já li melhor. Não será porventura a pior, como alguns críticos mais existentes afirmam. Como desconheço a obra completa do autor desta Submissão, estou impedido de tecer juízos de valor ancorados no rigor na subjetividade de leitor atento. Trata-se dum texto honesto que desenha uma perspetiva muito pessoal de encarar o devir histórico. Uma caricatura eficiente riscada com traço firme. Um discurso fluente e incisivo. Uma pedrada no charco lançada contra o estado de apatia em que os cidadãos do velho continente caíram. Uma fábula dos nossos dias. Um escrito exemplar que se inscreve no duplo propósito de divertir e instruir. Retiremos as ilações sugeridas e tomemos conta do nosso destino, em liberdade, que de seres providenciais e salvadores está o inferno cheio.

5 comentários:

  1. Uma resenha brilhante que me fez pensar: "Abrenúncio, que o diabo seja surdo e cego!" O retorno a um império árabe florescente já é de per si uma ideia desagradável já que dele não restou o melhor, quanto mais imaginar a imposição de um estado islâmico radical onde impera o lei de Talião e a inexistência total do respeito pela vida humana! A tua dedução de que Houellebecq chama a atenção de forma brutal para a necessidade de defendermos com denodo as nossas liberdades democráticas tranquiliza-me! Obrigada pela paqrtilha deste texto tão lúcido!

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  2. Muito bom texto, muito elucidativo, não preciso de ler o livro.

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  3. Espero que o modo assertivo com que expus as minhas impressões desta Submissão, possível mas pouco credível da França ao Islão, não dispense a leitura das histórias de vida que dão corpo ao romance de M. Houellebecq, também elas a merecerem uma visita reflexiva igualmente atenta…

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  4. Descobri-te agora mesmo!!!! Gostei muito e vou continuar a ler as tuas reflexões.

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