25 de abril de 2015

Numa quinta-feira luminosa de abril...

Flashes dum dia de abril
[MAI Magazine, 25 de abril de 2014]
O DIA
Encontrei-me com o 25 de Abril de 74 em Lisboa. Como já disse al-gures, vivia então em Campo de Ourique. De vez em quando apa-nhava o 28, que me levava pachorrentamente até ao Calhariz. Descia mesmo em frente da pastelaria Bijou, a poucos passos da rua das Chagas, onde o então Instituto Comercial estava instalado e eu frequentava mais ou menos a contragosto. Na manhã desse dia, levantei-me particularmente cedo e troquei o trajeto do elétrico pelas subidas e descidas da Domingos Sequeira, calçadas da Estrela e do Combro, pelo percurso pedestre menos acidentado da Sol ao Rato, Escola Politécnica, Príncipe Real e Rosa. Lá poupei assim os preciosos dez tostões do bilhete. Enquanto ia andando entregue aos meus pensamentos, estranhei o silêncio inusitado que ouvi ao longo de toda a travessia. Sobretudo no Bairro Alto, onde a vida de quem trabalha começa muito cedo. Pareceu-me escutar um ou outro cochicho segredado aqui ou além. Atribuiu-o à humidade que se fazia sentir nessa quinta-feira fria duma primavera ainda tímida.

Cheguei cerca das oito horas ao edifício bizantino de traça ortodoxa onde em tempos funcionara a embaixada russa dos czares. A algazarra era indescritível. Junto à escadaria monumental ladeada por dois lampiões de bronze, deparei-me com um velho estandarte esfarrapado a exibir a dignidade resgatada dum apogeu passado. Tratava-se da bandeira da associação académica que tinha vivido os últimos anos na clandestinidade. Fui arrastada para o bar localizado na cave. Em cima duma mesa, um colega esbracejava e dava vivas a um MFA misterioso. Como música de fundo, uma rádio transmitia em alto som uma marcha militar. O caos tinha invadido o pacato ICL. No meio da barafunda, destacou-se uma voz a sair das ondas hertzianas da telefonia com fios. Daqui Movimento das Forças Armadas. A sigla gritada passara a ter algum significado. A repetição constante da palavra revolução ajudou a decifrar todos os enigmas com que me confrontara desde que saíra para a rua. Era altura de ver a história a acontecer ao vivo.

Andei pelas praças da cidade das muitas colinas. Camões, Terreiro do Paço, Rossio. Percorri as ruas que as unem em forma triangular e dão corpo ao Chiado. Garrett, Nova do Almada, Carmo. Por todo o lado testemunhei um ambiente militar florido pouco habitual no país dos brandos costumes impostos com pulso de ferro. Na noite que antecedeu esse dia de tantas novidades, não ouvi o Depois do Adeus e a Grândola. Estaria ligado a um outro posto radiofónico. Nessa madrugada, não vi os tanques na rua Augusta. Rua acima, rua abaixo, ouvi tiros para os lados dos Mártires, presenciei o assalto ao jornal Época, vi um pide em fuga nas escadinhas do Duque. Fui arrastado até ao largo do Carmo para ver cair um regime e ver erguer um outro. Por aqui e por ali, o dia chegou ao fim, mas a festa prolongou-se nos seguintes. Com muitos pormenores que as cronologias registaram. O cinzento dessa quinta-feira desfez-se e a luminosidade duma primavera acordada veio ao encontro das gentes que há muito tempo a esperavam de braços abertos.

3 comentários:

  1. Foi há 41 anos e parece que foi ontem. Tudo é claro também na minha memória.

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  2. Uma experiência intensa que nunca esquecerás, pois um 25 de Abril pela implanatação da liberdade de expressão e de SER não se repete. Eu fui trabalhar como de costume, vivendo também em Campo de Ourique na altura. Passei pela GNR na Rua da Estrela, de portas fechadas, o que estranhei. As ruas quase desertas mas lá passou o 38 que me conduziu ao Saldanha. Só ao chegar ao trabalho ouvi as notícias junto dos colegas que ficaram a conviver e a acompanhar durante a manhã a evolução das notícias. Grávida de 8 meses, apenas segui o dia radiofónica e televisivamente. Mas foi um dia inesquecível, ao ver ao meu lado quem se borrasse de medo por ter pactuado intensamente com o antigo regime... E por ter assistido da janela da casa dos meus pais ao movimento de quase linchamento de um pide, que me deixou abismada com a violênca de que o homem é capaz quando sente o poder nas mãos mas felizmente o bom sensoqe... E ter presenciado os vira-casacas a posicionar-se dentro da empresa... Um dia de emoções fortes, um futuro promissor que esperava vir ao encontro do meu filho. Muita água correu debzixo da ponte, mas a luta continua e foi o 25 de Abril a permiti-lo!

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  3. A nossa memória é muito seletiva. Só recordamos o que, de facto, nos marcou. O resto lá vai desaparecendo por entre as poeiras do tempo. O dia acima relembrado ficará registado para sempre como um dos mais significativos da minha vida, sem lugar a esquecimentos impensáveis...

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