5 de maio de 2015

Fitas & Dramas

Se quem salva uma vida salva um mundo inteiro de possibilidades reais, como afirma o Talmude, então acrescentemos que quem salva um livro salva um mundo inteiro de possibilidades virtuais...
Um zapping providencial proporcionou-me um reencontro com Steven Spielberg e com a Schindler's List (1993). Durante 195 minutos livrei-me da conversa da treta dos comentadores do tudo e do nada, da lavagem ao cérebro das telenovelas de todas as horas e fora delas, do molhar no molhado dos bate-papo sobre a paralisação dos pilotos da ainda transportadora aérea nacional. O drama da barbárie humana voltou a ser representado. A preto e branco. Em toda a sua crueza. A demonstrar, mais uma vez, tudo aquilo que o homem é capaz de fazer. O mal e o bem. Tudo num filme que para ser produzido teve de recorrer aos lucros garantidos do Jurassic Park (1993). Rodado com todas as cores do arco-íris e mais algumas. Feitas as contas, o primeira película rendeu-lhe algumas centenas de milhões de dólares e a segunda sete Óscares da Academia incluindo o de melhor realizador. Os lucros, esses, doou-os integralmente à Shoah Foundation.

Realizar obras de consumo imediato para subsidiar uma obra de arte perene é uma prática que vem de trás. Das cerca de 1800 comédias compostas por Lope de Vega (1562-1635), só uma dezena delas continua a ser reposta nos nossos dias. Números impressionantes. O fundador da comédia espanhola e renovador da europeia, autor da Arte nuevo de hacer comedias en este tiempo (1609), sabia que nesses anos frenéticos dos Séculos de Ouro castelhanos a oferta teatral era muito variada e que o sucesso das peças representadas nos corrales de comedia peninsulares muito efémero. A qualidade literária estava longe de ser um garante do sucesso de bilheteira exigido para a sobrevivência da empresa. O segredo estava em oferecer um título à república das letras por cada dez destinados à fama dum dia. O Fénix de ingenios y monstruo de la natureza sabia-o muito bem. Melhor que ninguém. E com a quantidade se subsidiou no seu tempo e com a qualidade chegou até aos nossos.

Se recuarmos até ao classicismo helénico, momento em que o drama ático atingiu o apogeu (472-402 AEC), percebemos que das centenas de títulos e dezenas de autores arrolados, só chegaram até nós 32 tragédias completas, gizadas em 71 anos por 3 únicos validos de Melpóneme, a trindade ateniense: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. As entidades coevas encarregadas de preservar por escrito a coisa feita para ser representada oralmente pelos atores elegeram um número restrito para cada um deles, votando tudo o resto ao ostracismo. Desconhecemos os critérios exatos que terão presidido à triagem. Provavelmente nunca o saberemos de fonte segura. Só podemos lamentar que as sombras desses heróis tenham sido relegadas para a beira eterna de Hades sem a mediação efémera de Dionísio. Esperar que um dia possam ser resgatados e trazidos até nós. Para que a catarse de quem conta possa provocar a catarse de quem ouve, visiona ou lê.

2 comentários:

  1. Prof., é sempre um prazer e um privilégio ler as tuas recensões pedagógicas. O enquadramento literário do livro é uma obra de arte da qual tens uma chave que sabe bem abrir a comporta das palavras. Obrigada por mais esta lição partilhada!
    A Lista de Schondler é um dos livros que muito me marcou, já muito depois de ter visto o filme por várias vezes. Valeu a poena a leitura, que a repetir só me abrirá certamente novas conjeturas sobre as idiossincrasias do ser humano...

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  2. Como já disse/escrevi algures, estas palavras foram-me sussurradas aos ouvidos por sugestão da TV-Cabo, que lá nos vai dando algumas hipóteses de escolha diferente da fornecida a granel pelos três canais generalistas a que todos têm acesso...

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