29 de junho de 2015

Mario Vargas Llosa, os movimentos pendulares entre a cidade e os cães

«A él lo conocían de inmediato, tal como era, sin defensas, débil, un esclavo. Solo la libertad le interesaba ahora para manejar su soledad a su capricho, llevarla a un cine, encerrarse con ella en cualquier parte.»
Mario Vargas Llosa, La ciudad y los perros (1962-1963)
Constitui um hábito arreigado a quem é obrigado a permanecer eternidades nas salas de trânsito dos aeroportos o visitar todas as duty & tax free shops postas à sua disposição. Não sou uma exceção. A minha predileção por todas aquelas que usam a etiqueta Relay é sabida. Frequento-as sem acalentar grandes esperanças de encontrar o tal livro de bolso mágico, numa língua conhecida, que me possa servir de companhia eficaz, para além desse período de espera inexoravelmente forçado. Um outro qualquer local de venda de histórias assentadas em papel, com o título da obra e o nome do autor, registados em carateres ampliados na capa protetora de cartão envernizado, também me serve à perfeição. Sou pouco esquisito neste tipo de lojas de ocasião. Este ano fui surpreendido por uma edição comemorativa do cinquentenário do romance inaugural de Mario Vargas Llosa, A cidade e os cães (1962-1963 | 2013), enquanto esperava o voo doméstico que me traria do Porto para Faro. Encontros felizes com promessas de leituras felizes. Assim foi.

Pouco haverá a dizer sobre um texto sobre o qual já se terá dito tudo (ou quase tudo) ao longo de mais de meio século de leituras sucessivas espalhadas pela aldeia global. A circunstância de ter acedido ao relato através duma tiragem especialmente preparada pela Real Academia Española e pela Asociación de Academias de la Lengua Española, revista pelo homenageado e com a colaboração duma dúzia de hispanistas, com estudos distribuídos pelo ensaio académico, recensão crítica, análise literária, revisão bibliográfica, filologia peruana e onomástica limenha, dificulta ainda mais a hipótese remota de se ser original no registo das anotações de percurso colhidas ao longo do trajeto. O melhor é mesmo saltar por cima dos comentários alheios e avançar com os pessoais. Arregaçar as mangas, ganhar coragem e pôr as mãos na massa. Abrir o diário-de-bordo, folheá-lo calmamente e deixá-lo revelar as confidências nele arrolado aquando da viagem de descoberta pelos universos da escrita do futuro nobel das letras. Sucintamente. Com conta, peso e medida. É que uma história nunca é contada duas vezes do mesmo modo ou ouvida por todos os ouvintes da mesma forma.

A estrutura bipartida do relato vem anunciada logo no título definitivo com que acabou por ser batizado: a cidade de Lima, capital do Peru, e os caloiros do Colégio Militar Leoncio Prado, a quem o calão estudantil local apostrofa pejorativamente de cães. Os episódios que o compõem oscilam assim num movimento pendular constante entre os dois espaços cénicos referidos. Os eixos temporais convocados pelos sucessivos discursos memorialistas acabam por ser repartidos pelos diversos atores chamados ao palco, atropelando-se uns aos outros num vaivém constante de diálogos/monólogos discursivos, que só a atenção extrema do leitor saberá ordenar e decifrar. A fragmentação caleidoscópica das instâncias diegéticas, a alternância sistemática entre a subjetividade das primeiras pessoas e a objetividade das terceiras, promovem um processo de invisibilidade e dissolução do narrador, entendido como um mero intermediário de vozes ouvidas como testemunhas de factos ocorridos num momento perfeitamente localizado do devir histórico recente. 

Os rasgos autobiográficos detetados e confirmados ao longo de cerca de cinco centenas de páginas conferem ao romance um caráter documental precioso, convidando-nos a recordar as praxes, alcunhas, intimidações que um dia presenciámos de mais perto, como meros espetadores ou protagonistas ativos/passivos de práticas de abuso cobarde da força dos mais fortes sobre os mais fracos. Maldade, perversidade, prepotência, crueldade, violência, sadismo. Bullying se lhe chama agora com o anglicismo utlizado por todos os idiomas para qualificar o assédio físico e psicológico continuado e consentido nos meios juvenis como forma de demarcação irrefutada dum território conquistado e afirmação categórica duma virilidade triunfante. Num estabelecimento de ensino de matriz militar a noção de cobardia está excluída. A lealdade é exigida como um valor supremo. A mentira e a verdade são caldeadas à medida das circunstâncias e as exigências da honorabilidade castrense. Os fortes sobrevivem, os fracos soçobram. Lealdade e vingança digladiam-se. Amor e ódio confundem-se. Vida e morte dão corpo a este relato de heróis e vilões em formação. Flashes factuais de histórias verídicas são reveladas por agentes de ficção moldadas à dimensão humana. Lido o livro, pergunto-me como é possível que só agora tenha vindo ter comigo. É que a melhor literatura tanto se dá com os jornais, chocolates, tabaco e pastilhas dum quiosque local como com os best-sellers duma megalivraria multinacional. O segredo está em saber olhar o que se vê e agarrar muito bem o que se tem à mão. Nem mais nem menos.

26 de junho de 2015

Fronteiras efémeras da utopia

KUNST AN DER MAUER | A ARTE DO MURO
[East Side Gallery Berlin]

Estive há pouco tempo na capital alemã e tive ocasião de visitar aquele que dizem ser o maior museu ao ar livre erigido à face da terra. Dá pelo nome de East Side Gallery, está situado nas margens do rio Spree e é constituído por 105 pinturas originais, executadas por artistas de todo o mundo, num troço do antigo Berliner Mauer, uma secção de 1316 metros preservada da demolição após a reunificação da cidade e do país em 1989.

No dia 26 de junho de 1963, há precisamente 52 anos, John F. Kennedy, à época presidente dos EUA, proferiu um discurso memorável junto à parte oriental do Cortina de Ferro. A intervenção encontra-se registada um pouco por todo o lado. Fê-lo em inglês com uma única frase em alemão e uma outra em latim: Ich bin ein Berliner & Civis Romanus sum. Declarou ser berlinense com o mesmo orgulho com que há 2000 anos afirmaria ser romano.

O Muro da Vergonha voltou a ser visitado por um presidente americano, em 12 de junho de 1987, dois anos antes da queda dessa fronteira de cimento armado defendida pela Schießbefehl ou «Ordem 101» para matar. Nessa ocasião, Ronald Reagen, o ex-cowboy de Hollywood e então residente da Casa Branca, dirigiu um recado ao seu homólogo soviético e ainda habitante do Kremlin: Mr. Gorbachev, open this gate! tear down this wall! 

Palavras leva-as o vento se não forem gravadas na pedra. A estação de U-Brandenburger Tor regista-as à profusão em vários idiomas. Sonhos de eternidade que a insanidade humana pode converter dum momento para o outro em voos mal sucedidos de efémero. Os mortos do Muro de Berlim podem descansar em paz. As vítimas dos novos muros das lamentações esperam pela sua vez. Gaza, Chipre, Coreia, Ceuta, México, Jerusalém...

24 de junho de 2015

George Steiner, o transporte imaginado de A. H. para San Cristóbal

«When I turned against the Jews, nobody came to his aid Nobody...»
George Steiner, The Portage to San Cristóbal of A. H. (1979)
Às vezes apercebo-me com alguma mágoa do tempo desmedido que alguns textos de referência internacional levam a ser vertidos para português, se não se tratar de grandes êxitos editoriais confir-mados. É o que se passa, por exemplo, com O transporte para San Cristóbal de A. H. (2007), que George Steiner deu à estampa em 1979, na Kenyon Review, e logo confiou à forma de livro em 1981. Cerca de trinta anos separam a versão inglesa da traduzida para o nosso idioma. Nesse período de espera, o romance foi adaptado ao teatro e levado à cena em Londres e outros palcos que o «Posfácio» do autor, datado de 1999, não especifica. A polémica criada em torno da obra terá sido geral. Que me tenha dado conta, nenhum eco chegou até mim. Pura distração. Outros ouvidos mais atentos terão captado o rumor e falado com os editores. Duvido. O mais provável é que a fama do grande homem da cultura germano-franco-britânica, de origem judaica e pais austríacos, explique a publicação gradual de todos os seus escritos entre nós, incluindo os ficcionados.

O título, algo obscuro para quem desconheça os meandros da controvérsia, remete-nos para um enigmático A. H., que o leitor desprevenido identificará, e bem, com o protagonista do relato. A sigla, mantida estrategicamente no reino das incógnitas, só será desenvolvida, com todo o recato, sem muitas pressas e parcelar-mente, no final do terceiro capítulo, que termina com as palavras «Herr Hitler». O alegado nome completo do «homem muito velho», capturado no fim do mundo, no interior da selva amazónica, entre o Brasil e a Bolívia, só será documentado por extenso bastante mais à frente e sem grandes pudores. O mistério da identidade da personagem novelesca estava desvendado, altura de deslocar o centro das atenções para a identificação da personalidade histórica retratada. Questionar a versão oficial da morte do chanceler alemão com a verdade dos factos vividos em privado no derradeiro dia do mês de abril de 1945 no Füherbunker de Berlim. Averiguar, em suma, se o cadáver semicarbonizado ali encontrado pelas tropas soviéticas corresponderia ao do ditador derrotado ou ao de um mero duplo que terá sido sacrificado em seu nome.

A «narrativa ficcional» desenvolvida por Steiner envereda, precisamente, por esta última hipótese, resumida no conhecido princípio literário da «ucronia» definido por Umberto Eco, i.e., imaginar «o que teria acontecido se aquilo que realmente aconteceu tivesse acontecido de maneira diferente»*. Neste caso concreto, medir as consequências da sobrevivência de A. H. ao III Reich e posterior refúgio na floresta virgem sul americana. O seu transporte para São Cristóvão é, tão somente, a primeira etapa de uma peregrinação maior que o leitor está arredado de seguir. Os preparativos de um julgamento supranacional são referidos, as dificuldades processuais adiantadas, as pressões políticas asseguradas. A vontade exercida pela instância narrativa ou a economia do discurso remetem-nos para o universo das suposições nunca concretizadas. É que um dos segredos da arte de contar histórias com palavras reside nos silêncios que consegue espalhar ao seu redor.

Lido o texto, inteiramo-nos que o romancista-ensaísta põe na boca dos atores do drama um conjunto de tópicos recorrentes e sobejamente comentados. Os nomes de deus, os erros da palavra, a questão judaica, as memórias da história, a música e as coordenadas do tempo. Alguns outros se poderiam agregar. Fiquemo-nos por aqui. O problema da comunicação entre os homens está patente em todo o corpus textual, materializado no cruzamento de línguas, culturas, fontes e testemunhos em confronto. O poder de argumentação posto ao dispor do fantasma-vivo de A. H. como mestre da palavra é surpreendente e motivo de todas as polémicas. A verdade almejada habitará com certeza no interior desse labirinto feito de conceções contraditórias. O problema está em conseguir alcançá-la sem recorrer à intervenção divina, tão ausente do nosso quotidiano desde que os redatores do(s) Livro(s) das revelações compuseram o derradeiro parágrafo. Na visão do criador, este Transporte «é uma parábola sobre a dor (...) a dor da recordação, a imperativa mas intolerável dor da lembrança». Por isso foi «escrita com dor». Não o duvidamos, conhecendo minimamente a crueza dos factos. A leitura da «fábula» poderá também ela ser fonte de dor. Tudo depende dos olhos que leem, da forma como veem e do modo como sentem.

NOTAS
* Umberto ECO, «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. [1985]. Lisboa: Difel, 1989, p. 202.

A leitura ainda em curso do mais recente romance de Umberto Eco, Número zero (2015), onde se equaciona a presença dum sósia de Mussolini, levou-me a chamar à colação da memória deste já datado no tempo de George Steiner, O transporte para San Cristóbal de A. H. (1979), onde se imaginava também a existência dum duplo de Hitler. Por esse motivo, resolvi chamar a este espaço um texto que publiquei no primeiro dia de setembro de 2010 no Pátio de Letras. Deixo-o aqui as minhas notas sobre o destino ucrónico do fürer germânico enquanto não dou um tratamento idêntico às dedicadas ao duce italiano.

22 de junho de 2015

Um agá a mais ou a menos

ΙΣΤΟΡΊΑ - HISTÓRIA
Nikolaos Gyzis
(1892)

Os gregos dispunham de muitas palavras para o relato de factos acontecidos ou imaginados: drama para o diálogo, mito para a fábula, diegese para a narrativa e história para exame, informação, pesquisa, estudo, ciência. A economia de meios exigida nestas circunstâncias levou-nos a concentrar todos os sentidos arrolados no vocábulo «história». Depois vieram os inovadores da língua e inventaram a variante «estória». Uma adaptação apressada e subserviente do inglês story. Um terceiro-mundismo linguístico que caiu no goto de alguns para estranheza dos demais.

Dizem os inventores de etimologias de conveniência ou da caro-chinha que «história» se referiria aos percursos de vida traçados por personalidades de carne e osso, com direito a ocuparem as páginas dos anais dum país; enquanto «estória» se aplicaria às imitações de vida protagonizadas por personagens de papel e tinta, com espaço reservado nos contos infantis de transmissão oral. A utilização ou não do Hh inicial serviria, assim, de traço distintivo entre si, solução inútil, pois a pronúncia diferenciada das duas palavras não depende em nada do seu registo escrito.

As minhas filhas desde muito cedo manifestaram uma apetência pela aprendizagem do nome das letras e pela sua associação lógica em sílabas e palavras. Os nomes grafados com caracteres agigantados nos edifícios urbanos sempre resultaram num enorme chamariz. Uma delas saiu-se-me uma vez com a cadeia sonora agagotel. Perante a minha perplexidade, apontou-me para o edifício do «Hotel» mesmo à nossa frente e o mistério desfez-se. É que no campo da sinestesia ortográfica do H (agá), aquilo que os olhos veem os ouvidos nem sempre escutam.

20 de junho de 2015

O cavalo de Troia & os cifrões da Troika

MÁSCARA DE AGAMÉMNON
[Micenas, séc. xvi aec - Museu Nacional Arqueológico de Atenas]
Contam as lendas guardadas na memória dos povos que, em tempos que já lá vão, Agamémnon conseguiu unir todas as cidades-estado helénicas para derrotar um inimigo comum. Recorreu para tal ao pacto dos heróis assinado por todos aquando do casamento de Helena de Argos. Ao fim de dez anos de cerco, Troia caiu nas mãos do rei de Micenas e dos seus aliados aqueus. A ajuda do cavalo de madeira imaginado pelo e engenho e arte de Odisseu, o rei de Ítaca, foi precioso. A mais bela mulher alguma vez nascida na terra foi arrebatada ao raptor, o príncipe Páris de Ílion, e restituída ao legítimo marido, o rei Menelau de Esparta.

A história foi cantada por Homero na Ilíada e na Odisseia, as duas epopeias compostas pelo aedo e rapsodo jónio nos finais do século oitavo antes da era comum. Iniciou assim o período arcaico da literatura grega antiga e matriz inaugural da cultura ocidental atual. As forças confederadas do subcontinente europeu atravessaram o mar Egeu e obtiveram uma vitória decisiva no subcontinente asiático. As portas do Helesponto e do Bósforo estavam abertas e o acesso ao Ponto Euxino assegurado para os vindouros, através das águas mar de Mármara. A hegemonia do Mediterrâneo oriental acabava de ser obtida com a conquista da Tróade.

Volvidos mais de três milénios sobre o confronto de gregos e troianos um outro se vive agora entre gregos e troikanos. A UE que deveria demonstrar uma lealdade para com um dos seus estados-membro virou-lhe as costas. O cerco dos credores será muito mais célere a tomar a cidade de Atenas. Contra os cifrões da Troyka não há cavalo de Troia que lhe valha. Todavia, sempre é bom acreditar que os sobreviventes do poder imperial macedónico, romano, bizantino, otomano e nazi consigam levar a melhor sobre o poder financeiro do FMI, BCE e CE. A bem da Grécia e da Europa, que os descendentes divinos de Heleno ajudaram a fundar.      

17 de junho de 2015

A grande arte de mentir

PIOLHO
Maria del Mar & Marta Gaspar

CARAPUÇAS

A grande arte de mentir é a que entre todas as mais tem tido mais aceitação. Ela tem chegado ao último ponto da aceitação, tem sido adotada por todas as nações com diferentes nomes. Apenas temos uso da razão, já nossos pais no-la vão ensinando com todo o cui-dado e vigilância e insensivelmente nos entranhamos nela com tanto gosto que uma pequena conversa, quando não é marchetada com trezentas ou quatrocentas mentiras, é o mesmo que comer sem sal: não tem graça alguma e, a poucos passos, estão todos a dormir...
ANÓNIMO, O Piolho Viajante, Parte II, carapuça xxxiv (1802-1804)

15 de junho de 2015

Maria Àngels Anglada, histórias do violino de Auschwitz

«... ja havien anunciat el nostre vol i jo ni ho havia sentit, ficat com estava en la historia del violí de la meva amiga -la història que no podré oblidar mai més.»
Maria Àngels Anglada, El violí d'Auschwitz (1994)
Li de um único folgo um relato com dimensão de conto da jornalista, ensaísta, escritora e classicista catalã Maria Àngels Anglada, O violino de Auschwitz (1994). Foi o mero acaso que mo pôs entre mãos, sem para tal ter efetuado um esforço superior ao ato de lhe pegar e de desvendar os eventuais segredos que guardava no seu interior. O dia não estava muito propício a grandes digressões pelo exterior e o percurso pela escassa centena de páginas impressas em livro enviou-me para algumas viagens reais concretizadas no passado e outras quiméricas relegadas para um futuro ainda incerto. 

Visitei o gueto judaico de Cracóvia há dois anos. Anteriormente já havia pisado o de Varsóvia e o de Lodz. Só não tive coragem de me deslocar a Auschwitz. Entrar em velhas sinagogas reconstruídas, passear-me pelas ruelas de Kazimierz, parar junto à antiga fábrica e atual museu de Schindler é uma coisa, penetrar no campo de concentração mais sangrento da Polónia é outra bem diferente. Nada que se compare aos vestígios quase apagados pelo tempo que as judiarias ibéricas deixaram entre nós. Estou a pensar, v.gr., na de Sevilha ou na de Lisboa, já que da de Faro só resta um nome. Os últimos cinco séculos de devir histórico encarregaram-se de apagar as marcas de vidas perdidas deixadas pelo genocídio peninsular perpetrado pelas inquisições católicas e pelo holocausto nazi. 

Terei assim de me contentar com as descrições mais ou menos fiéis das ficções feitas de factos acontecidos. Já o fiz através de muitos outros testemunhos fornecidos pela república das letras. Nomes sonantes a rivalizar com os anónimos. À experiência pessoal vivida na cidade dos bons músicos, onde a arte de combinar sons se manifesta em cada recanto, sobretudo na malha urbana da cidade velha, a tal que se encontra rodeada dum mar verde de árvores plantadas, terei de associar à visão literária duma autora-obra que até agora desconhecia completamente. É através do seu olhar atento que as histórias dum violino, construído em cenário de insanidade humana global num campo de extermínio, milimetricamente programado pela barbária instalada a ferro e fogo no poder, se farão e aqui serão recordados. Para que a memória de Daniel, o luthier improvável dum Stradivarius encomendado por medida, o protagonista do relato se mantenha viva para sempre, in sæcula sæculorum

O contributo é operado com palavras registadas poeticamente sobre um fundo melódico. Inicia-se com a Sonata em mi bemol de Mozart e termina com o Trio de Mitilene de Climent. O real e o virtual são depositados numa partitura preenchida em tempo de paz para celebrar as vítimas caídas em tempo de guerra. O inferno de Dante e o paraíso de Schindler são convocados ao Campo dos Três Rios, o lager da morte certa, para demonstrar que no meio de tantos führers e kapos demoníacos ainda existem alguns goyim angelicais. Ilhas minúsculas num arquipélago perdido no meio dum vasto oceano sem horizonte à vista. Assassinos, monstros, porcos, inimigos e carrascos. Assim lhes chamam os heróis sem nome convocados pela fábula. Vocábulos muito fracos para nomear/adjetivar a natureza dos atos por si cometidos. 

No final da caminhada encetada pelos meandros da escrita, por entre as notas alegóricas de La folia de Corelli, numa oscilação de tempos diegéticos ancorados nos primeiros anos da década de quarenta, encontramos uma história triste que acaba bem. Todos os atores do drama chamados a representar um papel criador de significados em Auschwitz-Plaszow sobreviveram ao HaShoá, ao Churben/Hurban, à catástrofe-destruição que ceifou a vida de seis milhões de judeus. A instância narrativa resgatou os intervenientes internos que dão voz ao discurso ao anonimato da morte e remeteu-a para um pós-guerra distante muito próximo dos nossos dias, onde o passado e o futuro dos homens e mulheres se confundem num eterno presente. A música não amansa as feras. Afirma-se nas derradeiras linhas do texto. Mas, no fim de contas, sempre tem a capacidade de gerar harmonias.

13 de junho de 2015

Sardinhas e velas de Santo António


FESTAS DE LISBOA
Alberto Faria - Santo António do fogareiro
«No fim de contas, talvez os arquiduques decidam dar uma volta pe-lo grande canal e sejam recebidos pelo doge, mas solimão, os cou-raceiros, todos e a restante equipagem ficarão em pádua, de cara para a basílica de santo antónio, que de lisboa é, reivindiquemo-lo, e não de pádua, num espaço livre de árvores e outras vegetações.»
José Saramago, A viagem do elefante (2008: 188)
Em tempos de crise, a inquietação instala-se e a emigração dispara. Vá-se lá saber se Fernando de Bulhões (Lisboa: 1191/1195 - Pádua: 1231), mais conhecido por Santo António, terá um dia rumado a outras paragens em busca de melhor vida. Por aí ganhou fama como teólogo, místico, asceta, taumaturgo e orador, o que levou Gregório IX a canonizá-lo em 1232 e Pio XII a conceder-lhe o título de Doctor Evangelicus da Igreja Católica em 1946.

Como santos de casa não fazem milagres por dá cá aquela palha, o Santo António de Lisboa passou a Santo António de Pádua. Nesta usurpação da hagiográfica, o mais famoso franciscano português não está só. Do mesmo se pode queixar João XXI, o papa, médico, filósofo, professor e matemático lusitano Pedro Hispano (1215-1277); tal como o humanista, arquiteto, escultor, desenhador e iluminador alfacinha Francisco de Holanda (1517-1585).

Entre o nascer e o morrer, o segundo termo do binómio leva sempre a melhor nos aniversários dos heróis partidos. Celebra-se o final do percurso e esquece-se o início da caminhada. A 13 de junho festeja-se em Lisboa o trespasse do santo em Pádua. A sardinha assada é rainha. Os casamentos na Sé e as marchas na Avenida unem o sagrado e o profano. O São João e o São Pedro entram na folia e o solstício do verão cumpre-se em nome dos santos populares.

Numas férias algarvias passadas em 82 com uns amigos bretões, resolvemos fazer uma visita a Lisboa. Calcorreámos as sete colinas e demos de cara com a igreja de Santo António. Entrei com a minha filha de três anos ao colo. Na presença de tanta vela acesa, bateu as palmas e cantou os parabéns, para espanto dos fiéis. Não seria caso para tanto, já que se celebrava nesse dia o nascimento do padroeiro do templo. Lá diziam os latinos: voz pueri, vox dei.

10 de junho de 2015

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

ANÓNIMO, Camões na prisão de Goa (1556) 
DE repẽte, apeteceome celebrar o dia de Camoens, de Portugal, & das communidades portogueſas eſpalhadas pelo mũdo, com hũ texto ortogra-phado á maneyra do poeta, para aßim demõſtrar o meu patriotiſmo, palaura q̃ nos noßos tẽpos paßou a eſtar aßoçiada a formas de regiſto de lingoa chriſtalizadas  eras preteritas. ʃim, por hũa atualizaçam das conuçoens normatiuas paßou a ſer cõſiderado  crime de verdadeyra leſamageſtade, ou, ſe prefferirmos, de leſaluſitaniſmo...
         SONETO               
         MVdaõſe os tẽpos, mudaõſe as võtades,
         Mudaſe o ſer, mudaſe a cõfiança
         Todo o mũdo he cõpoſto de mudança,
         Tomando ſẽpre nouas qualidades.

         Continuamẽte vemos nouidades,
         Differẽtes ẽ tudo da eſperança,
         Do mal ficaõ as magoas na lẽbrança,
         E do bẽ (ſe algũ ouue) as ſaudades:

         O tẽpo cobre o chaõ de verde manto,
         Que ja cuberto foy de neue fria,
         E ẽ mim conuerte ẽ choro o doce canto.

         E affora eſte mudarſe cada dia,
         Outra mudança faz de mór eſpanto,
         Que não muda ja como ſoia.

LVIZ VAZ DE CAMOENS

7 de junho de 2015

Michel Houellebecq, as partículas elementares do amor verdadeiro

«Il n'y a pas de silence éternel des espaces infinis, car il n'y a en vérité ni silence, ni espace, ni vide. Le monde que nous connaissons, le monde que nous créons, le monde humain est rond, lisse, homogène et chaud comme un sein de femme.»
Michel Houellebecq, Les particules élémentaires (1998) 
Garante um velho mito grego que outrora a nossa natureza era diferente da atual. Para além do masculino e do feminino havia ainda o andrógino. Esta terceira espécie de proto-humanos era constituída pela associação das outras duas. Esses seres híbridos ter-se-iam extinguido por vontade expressa de Zeus, de forma a castigá-los pela arrogância manifestada ao longo da sua existência. A decisão de escalarem o céu e guerrearem os imortais foi travada de modo radical. O pai dos deuses dividiu-os em dois, tornando-os assim mais fracos e menos dados a ambições usurpadoras. Desde então, separados em homens e mulheres, esqueceram-se de conquistar os espaços olímpicos e passaram a perseguir-se uns aos outros sobre a terra, à procura da outra metade que haviam perdido, no intuito perseverante de se voltarem a fundir num só corpo. A história é contada por Aristófanes aos companheiros de simpósio, encontro de amigos/conhecidos que Platão reuniu nas páginas dialogadas d’ O banquete ou do amor (c. 380 aec).

Esta tentativa de explicar de jeito divertido e exemplar o mistério fundamental da vida, resultante da associação consentida de dois seres sexualmente distintos sob os auspícios divinos de Eros, veio-me à memória quando percorri com olhar atento as imagens literárias registadas por Michel Houellebecq nas entrelinhas das mais de três centenas de páginas do seu segundo romance, As partículas elementares (1998). Fez-me companhia nos momentos de pausa forçada passados em alguns aeroportos europeus que me levaram numa incursão académica até Cracóvia. Ficou-me a vontade de revisitar o texto com mais calma após o regresso, intento que só consegui cumprir agora, dum fôlego, decorrido um bom par de anos. O prazer da leitura repetiu-se, intensamente, como se se tratasse duma estreia absoluta. O caráter controverso dos temas abordados e o tom provocatório com que o autor expõe os seus pontos de vista voltaram a exercer em mim um fascínio avassalador, perceção pessoal que nem todas os sentires estéticos conseguem entender ou aceitar de ânimo leve. A fluência do discurso é inegável e o domínio da língua total. As palavras valem o que valem, mesmo quando os dicionários mais conservadores, que as deveriam alojar e enquadrar no contexto para que foram criadas, teimam em ignorar ou marginalizar.

A velha historieta platónica, situada na fronteira da anedota e da etiologia, vem à baila por portas travessas neste relato do mais mediático escritor francês da atualidade. Entrou em cena quando voltei a seguir os percursos de vida trilhados por caminhos diametralmente opostos pelos dois meios-irmãos que o protagonizam. Ambos procuram incessantemente a sua cara-metade e nunca a chegam a encontrar. Bruno envereda pela via do prazer e apercebe-se da sua incapacidade de amar. Michel opta pela via do amor e apercebe-se da sua impossibilidade de amar. O mundo absurdo do primeiro obtém um equivalente perfeito no mundo preciso do segundo. Um dedica-se à escrita o outro à ciência. Os traços biográficos do romancista surgem a cada passo. As oscilações entre o factual e o fictício são constantes. Coincidências episódicas empoladas certamente pela fábula, mas confirmadas pontualmente pela realidade exterior ao livro que as confronta. A ironia é convocada pelas instâncias narrativas e a sátira surge em termos duma caricatura grotesca das relações humanas, sobretudo das familiares estabelecidas entre uns e outros, de todas as gerações, sem distinções muito visíveis.

Dizem os exegetas que o título escolhido pode ser entendido como uma metáfora pedida emprestada à mecânica quântica, reenviando os leitores para o espírito rigoroso que atravessa o texto e à conceção dum espaço social onde os indivíduos que a formam se veem como meras partículas elementares dum todo universal. Aceito a tese sem pestanejar. A solução estaria na dissociação radical da reprodução do prazer, condição sine qua non da humanidade conhecer a verdadeira paz e o amor. A antecipação científica modelada à maneira de Aldous Huxley, referido mais do que uma ocasião, leva-nos até 2079, quando os seres humanos da antiga raça em extinção se confrontam com os representantes duma novíssima raça estável criada num ambiente laboratorial. O sonho da eternidade parece que se cumprirá lá para o final deste século. Sorte ou azar nosso que não testemunharemos a vinda desses entes imortais criados à imagem e semelhança dos deuses. Vingança dos filhos dos proto-humanos helénicos que a arte poética dum fabricante de heróis da imaginação converteu em autênticos neo-humanos edificadores das utopias do melhor dos mundos.

2 de junho de 2015

O lançamento do livro

Igor Morski, Fly Higher with books

ECCE LIBRO
O mês de junho é propício ao lançamento de novas obras. A feira do livro de Lisboa é um espaço particularmente adequado para a divulgação desses títulos a preços reduzidos. A proximidade das eleições legislativas e presidenciais tem levado os partidos do chamado arco da governação a promoverem as biografias dos seus líderes em textos mais ou menos encomendados. Vou poupar-me à tarefa de lhes dar um destaque particular. Outros o farão com todos os pormenores nos próximos meses.

Vou recordar o mais estranho lançamento de livro a que assisti sem ter sido convidado e a meio da via pública. Passou-se no início da década de setenta na rua Silva de Carvalho, nas proximidades dos Alunos de Apolo. Sem saber muito bem como, apanhei com um exemplar do Lazarilho de Tormes em cima. Terá sido atirado duma janela do velho bairro de Campo de Ourique. Ainda hoje guardo essa edição de bolso publicada pela Biblioteca Básica Verbo, o número 44 dos então famosos Livros RTP.

Esse encontro imediato com a primeira novela picaresca castelhana teria repercussões singulares nos anos seguintes. Despertou-me para um género que exploraria à exaustão tanto na Clássica como Nova, universidades onde lá fui obtendo os graus académicos tradicionais de licenciado, mestre e doutor, nas versões longas pré-Bolonha. Um caso feliz associado a um relato de sucesso que fez escola no Renascimento-Maneirismo-Barroco peninsulares e abriu portas à moderna arte de compor romances.

O livro que caiu do céu num final de dia, junto à paragem do 25/26, o elétrico que então fazia a ligação entre a Estrela e Gomes Freire, continua a fazer parte daquele escasso número de textos que ainda hoje me continua a povoar o imaginário. Sempre que lhe pego e acompanho o protagonista nas suas peregrinações pela vida, a aventura da descoberta do mundo através das palavras reanima-se de imediato. Histórias com histórias dentro a dar sentidos inesperados às picardias dum legítimo livro voador.