9 de julho de 2015

Patrick Modiano, trilogia da ocupação: teatro de sombras em tempo de guerra

«Au mois de juin 1942, un officier allemand s'avance vers un jeune homme et lui dit : "Pardon, monsieur, où se trouve la place de l'Étoile? " | Le jeune homme désigne le côté gauche de sa poitrine. || (histoire juive)»
Patrick Modiano, La place de l'étoile (1968)
Patrick Modiano estreia-se no universo da escrita com a publicação dum retábulo de textos com três painéis, a que a uma certa tradição, não caucionada pelo autor ou veiculada pela editora, se habituou a designar de «trilogia da ocupação»: La place de l'étoile (1968), La ronde de nuit (1969) e Les boulevards de ceinture (1972). Obras matriciais que abririam caminho ao grande prémio do romance da Academia Francesa e ao prémio Nobel da literatura da Academia Sueca. Estão ligadas por uma viagem de descoberta alucinada às assombrações multisseculares da identidade europeia, na altura em que o território gaulês se viu invadido pelas forças germânicas, entre maio de 1940 e dezembro de 1944. Quezílias antigas geradas aquando do desmembramento do império carolíngio em 888 e da formação das duas grandes nações erigidas no coração do velho continente, eternas rivais dum espaço comum perdido. 

A tela inaugural do tríptico está ancorada num duplo ponto de fuga anunciado no título e confirmado na epígrafe inicial. É que place tanto nos remete para uma praça parisiense em forma de estrela, como para o local onde se cozia no peito a estrela amarela de David. A questão judaica toma conta do relato. O jovem narrador assume o papel de todos os judeus do mundo e de todos os tempos, do militarista ao colaboracionista, do miserabilista ao sionista, do tímido ao despudurado. Fá-lo num desdobramento caleidoscópico de personalidades contraditórias, num acumular de autobiografias caricaturais e num discurso delirante, modelado num caso clínico de mitomania masoquista ou de nevrose identitária, que só a psiquiatria poderá explicar de modo convincente. Todorov insere este tipo de ficção na categoria genérica do fantástico-estranho, definida em termos duma explicação natural do insólito pelo binómio real-imaginário*. Loucura assumida para reduzir ao absurdo os paradoxos dos nossos dias, assentes na ideia de que todos nós somos homens no meio de homens e nada mais, independentemente da nacionalidade ou convicções religiosas a que pertençamos ou julguemos pertencer, sejam elas franco-alemãs, hebraico-israelitas ou judaico-cristãs.

A tábua central pintada com palavras questiona as dimensões subjacentes à qualidade dos traidores, situando-se na fronteira labiríntica traçada entre a lealdade e a perfídia. O narrador de serviço, tão novo e alucinado como o anterior, opta por um jogo duplo de anti-herói bufo que o põe ao serviço da Rede de Cavaleiros da Sombra e da Sociedade Intercomercial de Paris–Berlim–Monte-Carlo. Por outras palavras: a Resistência e a Gestapo. Realiza-o num vaivém vertiginoso de carrocel rodopiante, de ciranda gigante a rodar sobre si mesma em direção a um abismo existencial inexorável, a uma ronda noturna implacável, título de opereta esquecida/inventada ou de mero guarda das noites urbanas. O resultado caótico de tal paranoia é previsível. Conduz ao martírio implícito do protagonista, aquele que assume a identidade cifrada de Swing Troubadour e Princesse de Lamballe, o mesmo que, por detestar a companhia dos seres humanos, imagina dois seres surdos-mudos indefesos com quem pode conversar sem se arriscar a ouvir uma resposta indesejada. 

O registo cromático do derradeiro quadro da série introduz-nos nos meandros dum ato falhado de homicídio. Episódio doloroso, lhe chama a verve juvenil do narrador, alvo do delito tresloucado cometido pelo pai, uma figura enigmática de judeu apátrida que o filho tenta a todo o custo desvendar. Ingloriamente. A recordação dos momentos em que os dois se deslocavam pela velha linha circular de caminho-de-ferro, rodeada pelas avenidas periféricas da capital francesa com nomes de marechais napoleónicos, inspiram o relator a inventar a história misteriosa do progenitor. O sonho e o pesadelo revezam-se, dando voz aos fantasmas, sombras, espetros, miragens e dúvidas dum passado anterior a essa época conturbada de guerra. Romance de ambiente ou de demanda duma humanidade perdida nas brumas da memória pelas vicissitudes da vida ou caprichos da morte. 

Lidos os livros, duma assentada, para não deixar assentar a poeira, encontramos com facilidade alguns elementos biográficos do autor, que as três instâncias novelescas convocadas repartem entre si. O ambiente familiar agitado, as origens étnicas e as práticas pouco ortodoxas dos seus membros são trazidas à ribalta. A obsessão é a palavra-chave que melhor define a situação. Uma forma, quiçá, de catarse. Uma purificação existencial das personagens novelescas modeladas nos seres concretos do dia-a-dia que as inspiraram.

NOTA
* Tzvetan Todorov, Introdução à literatura fantástica. Lisboa: Moraes Editores, 1977, caps. 2 e 3, pp. 25-54.

4 comentários:

  1. Muito bom. Como sabe, deste autor li "Dora Bruder" e marcou-me. Agora tenho que ler outro titulo dele, Mas, sempre na nossa lingua...

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  2. Está nos meus planos proceder também à leitura de «Dora Bruder», um título incluído na coletânea de 10 romances publicados pela Gallimard um ano antes do Nobel da literatura. Oiço as suas histórias no original, como contributo a uma das línguas que considero também minhas e que me dão um imenso prazer frequentar sempre que posso. Modiano é um autor muito especial, que exige um esforço continuado de viajar na sua companhia, razão pela qual resolvi intervalar um pouco e dedicar-me a outros universos estéticos de reinventar a vida e de lhe dar sentidos complementares.

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  3. Reconheço que muito do meu fascínio pelo autor advém não só de uma identificação pessoal com os seus personagens e vivências mas sobretudo de comungar do seu fascínio pelas memórias e pela reconstrução (fiel ou não...) do passado que se escoa entre os nossos dedos como areia finíssima, deixando-nos alguns grãos brilhantes com que (re)construímos a nossa vida...
    Leio estes livros mágicos como se ouvisse os meus pais e avós a contarem-me as histórias que sempre me encantaram: as suas memórias de quando eu era demasiado jovem para ter memórias.

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  4. As minhas incursões pelo universo de Modiano restringem-se aos quatro primeiros títulos, ligados entre si pela corrente de pensamento dos protagonistas-narradores. A questão judaica está presente em todos eles. A tendência autobiográfica do autor é muito clara. A leitura é cativante mas difícil de seguir. Um dia destes dedico-me a outras etapas mais recentes do 15.º prémio Nobel francês. Entretanto vou partir para outras viagens alternativas identicamente sugestivas e merecedoras da minha atenção. Obrigado pelo comentário. É sempre com prazer redobrado que os leio...

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