31 de agosto de 2015

T-shirts, bermudas & havaianas

O descanso da farpela...

Os uniformes que fazem o monge... 

O tempo das t-shirts, bermudas & havaianas chegou ao fim. O mês de Augusto despediu-se com uma trovoada quase molhada de cinco minutos. Tolos os que pensaram que a chuva de gotas contadas ia apagar incêndios ou lavar os carros estacionados na rua.

O tempo dos polos, jeans & mocassins está a chegar. O sétimo mês do calendário de Roma está a bater à porta. Faz-se acompanhar da tradicional náusea existencial que só se atenuará nas vésperas do Natal. Rotinas cíclicas a exigir um traje a condizer.

29 de agosto de 2015

Milan Kundera, os contos e recontos da insustentável leveza do ser

«Její drama nebylo dramatem tíhy ale lehkosti. Na Sabinu dopadlo nikoli břemeno, ale nesnesitelná lehkost bytí.»
Milan Kundera, Nesnesitelná lehkost bytí (1984)
Milan Kundera inicia A insustentável leveza do ser (1984) com uma reflexão filosófica sobre o mito do eterno retorno. Contrariamente ao afirmado por Nietzsche, defende que a vida só se vive uma vez, numa trajetória linear imutável. Assemelha-se a uma sombra e é desprovida de peso. Os livros, em contrapartida, podem ser indefinidamente visitados em movimentos circulares de nascimento-morte das personagens inventadas pelos autores. Assim tenham leitores para lhes dar a ilusão de possuírem uma existência real. Foi o que aconteceu comigo e com a obra-prima deste escritor naturalizado francês, por lhe ter sido retirada a naturalidade checoslovaca no país em que nasceu. Fi-lo há cerca de três décadas e voltei a fazê-lo agora. De permeio ficou a queda do Muro de Berlim. Fiel da balança duma Europa dividida em blocos. Um mundo reduzido a um maniqueísmo primário. Os bons de um lado e os maus do outro. A dificuldade está na escolha. O intervalo de espaço-tempo cavado pelo devir histórico desenhou leituras diferentes situadas entre as sucessivas levezas do ser de que somos feitos no dia-a-dia que vamos pontuando.

O fluxo narrativo assenta arraiais na capital dum país nascido após o desmembramento do império austro-húngaro no final da primeira guerra mundial. Por momentos muda-se para Zurique. Breve parêntesis entre dois flashes cénicos ancorados no antes e depois da Primavera de Praga (1968). A cegueira dos coprotagonistas do drama levou-os a abandonar conforto da Confederação Helvética pelas incertezas da Federação Checoslovaca. A ironia trágica dos seus destinos é marcada pelas referências constantes ao percurso mítico imaginado por Sófocles no Rei Édipo. Os diversos episódios e estásimos, enquadrados na introdução-párodos e êxodos, num total de sete blocos, como na criação bíblica do cosmos, são substituídos na versão diegética pelos sete partes que dão corpo ao relato. A teoria e a prática de contar e recontar uma infinidade de vezes o mesmo itinerário essencial-existencial como se se tratasse dum caso diferente. Original. Ilusões em que o universo literário é mestre. A unidade e diversidade das ações humanas a serem atualizadas pelos pontos de vista imaginados pelas personagens que dão corpo à ficção e que poderão ser entendidas como possibilidades não concretizadas da instância real que as imaginou.

As histórias individuais-partilhadas dos atores em cena são concebidas como um kitsch político em forma de romance, que a entidade demiúrgica se encarrega de definir nos intervalos discursivos concedidos aos destinos cruzados dos heróis/anti-heróis convocados. Tomás, Teresa, Sabina, Franz e Karenine, dois homens, duas mulheres, um cão e muitas vidas em comum. Poderíamos arrolar outros nomes mais até perfazer o número cabalístico selecionado nos versículos iniciais do Génesis judaico-cristão. Associá-lo, como faz a tradutora portuguesa no Posfácio da edição consultada, ao total de notas usadas nas partituras musicais. O Beethoven citado e comentado bastas vezes na trama ficaria eternamente grato pelo símile encontrado. Trata-se duma leitura feita com o engenho e arte com todo o peso que as palavras pedidas emprestadas ao autor-narrador recenseado lhe concedem. Passamos o tempo a preencher espaços com as palavras dos outros como se fossem nossas. Acontece que, de facto, até são. A ordem que as une é que varia. Vou cometer o mesmo defeito/qualidade de linguagem para registar mais um septenário simbólico composto de modo binário para definir a própria condição humana subjacente que nos liga a todos através da comunicação verbal falada e escrita: necessidade e contingência, fidelidade e traição, realidade e sonho, corpo e alma, peso e leveza, uno e múltiplo, força e fraqueza.

A Revolução e o Divórcio de Veludo já lá vão. A separação absoluta da Chéquia e da Eslováquia em 1993 transformou-se numa reunificação relativa através da adesão à União Europeia em 2004 e a todas as entidades comunitárias que lhe estão associadas. As fronteiras que dividiram povos foram substituídas por outras que Milan Kundera não podia imaginar na década de oitenta. Os inimigos de então confundem-se com os amigos de agora. E é neste contexto que o universo dos recetores das histórias forjadas se sobrepõem aos universos ficcionados pelos respetivos emissores. O tempo circular das personagens que habitam nos livros é questionado pelo tempo linear das pessoas que os leem. A sobrevivência duma obra depende das clivagens traçadas entre o real das contas-do-rosário já rezadas e o imaginário do faz-de-conta dos fadários por cumprir. À distância confortável de três décadas, a viagem pela insustentável leveza do ser sobreviveu às vicissitudes da história e ganhou sentidos adicionais. A maturidade que entretanto chegou lá terá a sua culpa no cartório. E assim a compaixão da leitura se altera em paixão pela escrita. Incondicional.

26 de agosto de 2015

Claudio Magris: viagem pelo Danúbio abaixo à descoberta da Mitteleuropa…

«Il Danubio (...) è il fiume di Vienna, di Bratislava, di Budapest, di Belgrado, della Dacia, il nastro che attraversa e cinge, come l'Oceano cingeva il mondo greco, l'Austria absburgica, della quale il mito e l'ideologia hanno fatto il simbolo di una koiné plurima e sovranazionale... Il Danubio è la Mitteleuropa tedesca-magiara-slava-romanza-ebraica, polemicamente contrapposta al Reich germanico.»
Claudio Magris, Danubio (1986)
Há livros que nos chegam às mãos fruto do mais puro acaso. Depois, apercebemo-nos tratar-se de obras de referência privilegiada dos respetivos autores. Detentores dos mais prestigiados galardões internacionais e com traduções efetuadas à escala planetária. Chamo a colação neste momento Claudio Magris e o Danúbio (1986). O texto foi recentemente reeditado entre nós. Quando estava a chegar à reta final da sua leitura de meses, foi anunciado ter o seu arquiteto vencido o primeiro Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, instituído pela Europa Nostra, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa, pelo seu contributo para a divulgação do património cultural. Felizes encontros estes que nos são proporcionados pela slot-machine da literatura. 

Pierre-Daniel Huet refere, no Traité de l’origine des romans (1669), ser essa forma narrativa constituída por um conjunto de histórias de aventuras fingidas, escritas em prosa e com arte, para proveito e deleite dos leitores. Dificilmente encontramos essa súmula de caraterísticas canónicas aplicadas nas cinco centenas de páginas deste relato de viagens com nome de rio e tido como um dos grandes romances europeus atuais. A categorização problemática talvez se deva ao facto das questões de género se terem vindo a alterar a ritmo galopante até aos nossos dias. Por essa linha de pensamento, a noção estrita de epopeia, tão antiga como a própria inventiva humana, também escaparia, grosso modo, às normas rígidas decretadas pelas poéticas clássicas inspiradas em Aristóteles e Horácio. 

Reanalizadas as coordenadas do problema à luz da obra aberta, equacionadas pelo olhar crítico de Umberto Eco, o mais conhecido texto do autor italiano até pode ser entendido como uma epopeia plural de muitos epos singulares, como um longo rosário de episódios histórico-lendários, protagonizados pelo segundo maior curso de água doce que atravessa o velho continente, como um romance de factos criados por ædos anónimos para dar vida aos heróis míticos recriados da Mitteleuropa. Biografia traçada a várias mãos para documentar as fases da vida do Danúbio, o rio que nasce negro e morre negro, o rio que por vezes é azul, o rio que atravessa uma dezena de países e alberga um número incerto de nações, povos e gentes. Relato épico-romanesco a lembrar-nos as aventuras peregrinas do Gilgamesh sumério pelas terras da Mesopotâmia e do Ulisses aqueu pelas águas do Mediterrâneo. 

A viagem pelo Danúbio abaixo, desde as fontes incertas duma floresta germânica até ao delta romeno que conduz ao alto-mar, resulta também numa visita guiada às duas margens da Cortina de Ferro, aquela que ainda dividia a Europa em dois blocos rivais à data da conceção, escrita e publicação do texto. O alargamento da CEE aos novos países do sul estava então em curso. O processo de formação das novas fronteiras da periferia comunitária da futura UE, a prosseguir a ritmo rápido e eficaz. A premonição de novas eras surge no horizonte. O eco de impérios e reinos caídos, de países feitos, refeitos e desfeitos, de revoltas, revoluções e guerras do passado a ecoar no presente da leitura que já foi o futuro da escrita. Revoltas, revoluções, guerras, batalhas, invasões, cercos, conquistas, combates. Eis as coordenadas da história verdadeira que condicionam a feitura dos livros de histórias fingidas. 

A verdade da epopeia em prosa do destino europeu mantém-se atual. O território banhado por um rio com duas fontes incertas, alimentado por muitos afluentes rivais, disperso numa foz repartida por três braços autómanos, persiste em ser o coração da civilização ocidental greco-latina e judaico-cristã. Mosaico de fadários individuais multisseculares a sonhar com a construção de impérios planetários eternos. Goteiras, regatos, mananciais, correntes, oceanos. Uma cultura de culturas que pode gerar a unidade na diversidade ou conduzir ao abismo que atrai o abismo. Vox populi, vox dei. O tudo ou o nada. O percurso acidentado da tal fita de bronze que corre tisnada e brilhante a simbolizar o trajeto dos argonautas ancestrais aos confins das terras conhecidas, para resgatar o Velocino de Ouro e repor a licitude da sua posse. Expedição dum punhado de navegantes em busca dum ideal comum. Teatro de encontros/confrontos representados no palco do grande teatro do mundo. Assim foi nos tempos lendários de ficção heroica assim o seja também nos tempos históricos de feição humana.

NOTA: 
Uma sugestão oportuna de leitura do Danúbio de Magris aqui neste espaço levou-me a repor um texto composto há quase dois anos no Pátio de Letras, até porque o tempo de férias que ainda anda no ar é particularmente propício às viagens pelos espaços que dão sentidos acrescidos à vida.

24 de agosto de 2015

Histórias de deus com palavras, cerejas & livros

Josefa d'Óbidos - Cesta com cerejas, queijos e barros (1670/80)
The Quraysh seem to have found a rupture with the ancestral gods profoundly threatening and it would not be long before Muhammad's own life was imperiled. Western scholars have usually dated this rupture with the Quraysh to the possibly apocryphal incident of the Satanic Verses, which has become notorious since the tragic Salman Rushdie affair.
Karen Armstrong, A History of God (1993) 
As palavras são como as cerejas. Vão umas atrás das outras. Com os livros passa-se o mesmo. Pegamos num e aparecem logo outros à boleia. Farto de procurar os sentidos escondidos por Salman Rushdie n' Os versículos satânicos (1988), interrompi a releitura de verão ao romance maldito e parti à procura de ajuda nas fontes habituais da metalinguagem multicultural usadas em casos que tais.

Após algumas tentativas goradas pelos universos virtuais da netosfera, virei-me para a estante real de livros cá de casa. Dei com a Karen Armstrong a propor-me Uma história de Deus (1993) posta mesmo à frente dos meus olhos. Afinal a alegada blasfémia referia-se a um conjunto de versículos heréticos erradicados por Maomé do Alcorão, por lhe terem sido ditados por inspiração satânica.

O bestseller da ex-freira inglesa trouxe-me de novo à ideia que o homem tem de deus, o nada que é tudo e o tudo que é nada. Enviou-me logo ao abri-lo para a religiosidade de infância de Stephen Dedalus em Dublin, posta em palavras por James Joyce no Retrato do artista quando jovem (1916). Leitura futura a mostrar que os livros são como as cerejas. Vêm sempre agarrados uns aos outros.

21 de agosto de 2015

Por Ceca e Meca e olivais de Santarém

CIDADE DE CEUTA
Gravura de Georgius Braunius e Franz Hohemberg, IN Civitates Orbis Terrarum (1572)
A globalização faz hoje 600 anos. Ceuta foi conquistada a 21 de agosto de 1415 por D. João I de Avis, rei da Boa-Memória de Portugal. Dava-se também início nessa data ao ciclo dos impérios coloniais europeus, que só terminaria em dezembro de 1999, quando a cidade de Macau foi confiada ao estado chinês.

A fortaleza manteve-se integrada na Coroa Portuguesa até 1668, quando foi assinado em Lisboa a paz com Castela que dava fim à Guerra da Restauração. A proximidade com território hispânico impediu os seus habitantes de aclamarem D. João IV de Bragança, como novo soberano legítimo da Monarquia Lusitana.

Entre Ceca e Meca se ergueram impérios. A olivais de Santarém voltaram os conquistadores depois dos impérios caídos. Ceuta e Macau já se foram mas a cultura portuguesa por lá ficou. Marco eurafricano nas portas ocidentais do mar Mediterrâneo. Marco eurasiático nas portas orientais dos mares da China.

17 de agosto de 2015

Fitas & Tricas

The Notting Hill Bookshop | The Travel Book Co.

Há filmes que nunca nos cansamos de ver e rever de vez em quando. As reposições constantes dos canais temáticos da TV Cabo oferecem-nos essa possibilidade quando menos esperamos. A Fox Life HD 62 ofereceu-me, há uns dias feitos semanas, o Notting Hill (1999), escrito por Richard Curtis, realizado por Roger Mitchell e protagonizado por Julia Roberts e Hugh Grant.

O coup de foudre do par romântico da película repetiu-se de novo naquela livraria de bairro londrino especializado em guias de viagens. Dispenso-me de resumir o argumento. A história é sobejamente conhecida e pode ser revista sem dificuldade numa navegação pela Net. Fico-me por duas breves cenas projetadas na tela que me lembraram uma outra real passada comigo.

A estrela de cinema americano ouve inadvertidamente um grupo de homens falar mal de si num restaurante. O livreiro anónimo inglês defende-a como é exigido a um cavalheiro apaixonado. A má-língua repete-se quando ele ouve sem querer um comentário pouco lisonjeiro proferido contra si por ela. A situação é esclarecida um pouco depois como preâmbulo do happy end exigido pelo género.

No início do semestre passado, ouvi um grupo de alunos tecer um parecer pouco abonatório a meu respeito. A cena durou durante todo o percurso do autocarro. Estava sentado no banco de trás. Dei-me a conhecer. Felicitei-os pela análise tão profunda após uma única aula de apresentação. Desejei que essa mesma habilidade se repetisse ao longo do curso com as obras que lhes ia propor para analisar.

Quem cochicha seu mal espicha. Nada de extraordinário que uma vez ou outra não tenhamos já feito. Anna Scott e William Thacker resolvem todos os diz-que-disse um pouco antes do ficha técnica final. Os mal-entendidos no início de ano resolveram-se na paz dos anjos, muito antes da avaliação final. Nas fitas e tricas, dá vontade de dizer, tudo está bem quando acaba bem.

13 de agosto de 2015

Peregrinos de cabeleira das esferas celestes

Artiste anonyme, Comète dans le signe de Mercure, Istanbul. © R. et S. Michaud / akg-images.
Esta quarta-feira, deixei escapar a chuva de estrelas-cadentes que os detritos deixados pela cauda do cometa Swift-Tuttle nos oferece todos os anos por esta altura. Quando espreitei pela varanda que dá para o mar, as Perseidas já tinham dado o ar da sua graça ou estavam ainda à espera de entrar em cena. Não fiquei à espera para ver. Na próxima passagem da Terra por esta parte da esfera celeste a exibição voltará a repetir-se com pompa e circunstância.

Tive mais sorte com a Lua Azul que iluminou a noite de 30 para 31 de julho. Olhei-a com toda a atenção e não a achei nem mais azul nem menos azul do que habitualmente. Afinal a expressão limita-se a designar a segunda lua cheia que ocorre num mesmo mês. Guardadas as diferenças, é como assistir a um eclipse total do nosso satélite natural. Quando o estamos a ver não vemos coisa nenhuma, porque a luz do Sol foi engolida pela sombra da Terra.

Este verão tem sido pródigo em eventos astronómicos raros. Segui em junho a aproximação de dois pontos particularmente brilhantes no céu e alinhados com uma Lua em forma de crescente. Pensei na Estrela de Belém. A fusão aparente de Vénus e Júpiter teve lugar na última noite do mês. Umas nuvens caprichosas impediram-me de testemunhar o feliz encontro dos astros mas não a despedida seguinte até se perderem nos confins do horizonte visível a olho nu.

Este ver sem ver lembrou-me um outro ocorrido em 1957. O céu era visitado todas as noites por uma Grande Estrela que iluminava tudo à sua volta. Mais tarde descobri tratar-se do cometa Arend–Roland. Por essa altura, o meu avô materno falou-me no Halley que vira em 1910 e eu veria em 1986. Fracasso. Só se deixou ver por telescópio. Ficou tudo adiado por 76 anos. Talvez então os meus netos possam avistar o mais famoso peregrino de cabeleira das esferas celestiais.

12 de agosto de 2015

Isabel Allende, os labirintos da casa dos espíritos

«Pronto Alba descubrió que el lugar más seguro era su propia casa, porque en el laberinto y en el abandono de los cuartos traseros, donde nadie entraba, podían amarse sin perturbaciones | –Si las empleadas oyen ruidos, creerán que han vuelto los fantasmas –dijo Alba, y le contó del glorioso pasado de los espíritus visitantes y mesas voladoras de la gran casa de la esquina.»
Isabel Allende, La casa de los espíritus (1982)
Resisti durante mais duma década a ler a saga que a prima em segundo grau do primeiro presidente marxista eleito do mundo transformou em bestseller internacional em menos dum nada. A suspeita que Isabel Allende tivesse transportado de modo abusivo para A casa dos espíritos (1982) os fantasmas ocorridos no Chile em setembro de 1973 esteve na origem desse boicote pessoal já experimentado noutros casos similares. Resolvi percorrê-lo de ponta a ponta no ano em que se estreou a versão filmada do romance, realizado por Bille August em 1993 e com um elenco de luxo, o que me obrigou a encetar a tarefa de imediato, não fosse a história contada com imagens matar o hipotético interesse da história contada com palavras dispostas em linha.

O prazer da descoberta dos sentidos escondidos foi imediato e acompanhou-me ao longo das vivências ficcionadas de quatro gerações de Truebas, del Valle e García, as três famílias nucleares que dão corpo à fábula. O destino coletivo do designado país de catástrofes ou mais esquecido país da terra, o último recanto da América está presente ao longo de todo o relato, distribuído por catorze capítulos e um epílogo, contidos nas cerca de quatro centenas de páginas da edição de bolso que, em boa hora, adquiri em Sevilha. Fala de tudo aquilo que nós sabemos sobre a terra de Salvador Allende (o Candidato | o Presidente) e de Pablo Neruda (o Poeta), sem se transformar num panfleto político intragável ou difícil de digerir. Remete-nos para um país sem nome, que identificamos sem grande esforço intelectual.

O fluir dos acontecimentos relatados é assegurado pelas memórias de alguns dos habitantes da grande casa da esquina. Os cadernos de anotar a vida redigidos por uma das matriarcas da família são revisitados pela neta e transformados no testemunho que nos é posto nas mãos e à frente dos olhos. Completam-no algumas reflexões do patriarca por excelência dessa mesma família. Tanto uns como outros são coadjuvados pela presença persistente dos entes já partidos do aquém para o além, os tais que teimam em habitar os labirintos arquitetónicos da casa dos espíritos. O realismo mágico das histórias impossíveis, dos duendes, das fadas e dos espetros toma conta do discurso. O realismo puro de que são feitas as coisas fora da ficção é remetido para segundo plano. O mundo da política perde o encanto, porque já sabemos de antemão o fim trágico a que conduziu os bonifrates da farsa. Depois, a vida das pessoas que leem livros é sempre mais dramática do que a vida das personagens que dão corpo aos livros.

Romance circular a vários níveis. Inicia-se e acaba com a chegada por via marítima de Barrabás, o grande cão da família. Pelo meio desenha-se os cenários dum duplo incesto. O neto da mulher violada repete o gesto com a neta do violador. Uma dupla bastardia a unir pela força o sangue dos ramos genealógicos convocados pela gesta, a terratenente e a assalariada, a citadina e a campesina, a detentora dos meios de produção e detentora da força do trabalho. Um universo com lugar ainda a séries ternárias levadas a toque de caixa do real para o imaginário. Marxistas-fugitivos-traidores, presos-desaparecidos-mortos, liberdade-justiça-sindicato, viúvas-órfãos-torturados. Palavras-chave para uma definição sucinta da condição humana. O caminho escolhido pela parente do presidente abatido para fazer a catarse possível do seu país natal. Aqueles que, por pudor, nunca são nomeados. Recurso poético próprio da literatura popular de transmissão oral para salvaguardar as potencialidades da liberdade criadora e da capacidade interpretativa convocadas pelos fados da fruição artística.

Estas férias revisitei o texto escrito para ser lido e a adaptação filmada para ser vista. Cumpriram ambas a sua função de contar uma história de modo diferente. O papel venceu o celuloide mais uma vez. A brevidade exigida pela sétima arte empobreceu drasticamente a tessitura estrutural da narrativa. A versão relatada em duas horas elimina personagens, suaviza episódios, inverte papéis. Minimaliza factos, mutila episódios, trunca eventos. Resulta uma caricatura açucarada do original. O regresso à velha técnica de juntar letras até formar sílabas, palavras, frases e sentidos impõe-se. Sem urgências do olhar registadas a contrarrelógio. A literatura é uma arte que se desfruta com toda a calma do mundo. Só assim se ouvem as mensagens que os espíritos dos heróis da imaginação têm para nos oferecer em toda a sua plenitude e beleza imorredouras.

10 de agosto de 2015

Tema & Variação...

Claude Monet, La gare de Saint-Nazaire (1877)
[Musée d'Orsay - Paris]
«Está à janela a olhar para a parede suja do prédio em frente, do outro lado do pátio. Pensa com uma espécie de nostalgia naquele tipo alto com queixo de rabeca e nos seus amigos que não conhece, e no número dos quais ele próprio não se inclui. É como se se tivesse cruzado com uma mulher muito bela no cais de embarque duma estação e que, antes mesmo de poder abordá-la, ela tivesse subido para o comboio de Lisboa ou de Istambul.»
Milan Kundera, A insustentável leveza do ser (1984)
TEMA
Em agosto de 1986 caiu-me nas mãos um livro que tinha elevado aos píncaros da fama o autor, um dos muitos intelectuais checos obrigado a abandonar o país após o fracasso da Primavera de Praga. Estou a referir-me a Milan Kundera e a A insustentável leveza do ser (1984). O romance não me suscitou o tal prazer estético imediato prometido pelos mass media da aldeia global. Deixei-o a descansar na estante ao lado de muitos outros ali depositados à espera duma segunda oportunidade. 

VARIAÇÃO
Em junho de 2008 deram-me um livro que tinha catapultado para a ribalta dos bestsellers o estranho caso dum professor suíço de latim e grego apaixonado pelas sonoridades do português. Cruzara-se com um mulher falante desse idioma e resolvera trocar a capital helvética pela lusitana. Refiro-me agora a Pascal Mercier e ao Comboio noturno para Lisboa (2004). Li-o com alguma dificuldade. Exilei-o sem compaixão no lugar destinado às histórias já contadas uma vez com palavras impressas em papel a cheirar a tinta.

TEMA & VARIAÇÃO
Regressei ao convívio de Milan Kundera passados 19 anos. Neste mês de agosto voltei a reler A insustentável leveza do ser. A páginas tantas deparei-me com a frase que registei em topo de post. A reflexão do romancista checo ressoou como um eco distante do romancista suíço. O relato de Pascal Mercier surgiu-me na memória. O leitmotiv d' O comboio noturno para Lisboa apareceu-me ali todo condensado. Tema e variação ligados por uma gare de caminho de ferro que até podia ser a de Saint-Nazaire, mas não é...

7 de agosto de 2015

Ana Hatherly e o lugar dos mestres…

«Mestre  Mestre! Oh Mestre! | Onde é que estás, Mestre? || Silêncio absoluto.»
Ana Hatherly, O Mestre (1963)
Cruzei-me com a professora Ana Hatherly numa sexta-feira chuvosa de outubro de 1990. O encontro teve lugar numa dependência que a Universidade Nova de Lisboa tinha no Príncipe Real, separada pela calçada da Patriarcal do palacete mourisco onde então funcionava a reitoria. Entrou no salão nobre do edifício à hora marcada para a apresentação do mestrado que dirigia de Literatura e Cultura Portuguesa - época moderna. Comigo encontravam-se umas seis dezenas de alunos admitidos ao curso. Vestia uma gabardina de oleado cor de alface amarelecida ainda a pingar e segurava um chapéu-de-chuva cujos pormenores a minha memória cromática não registou. Enquanto se recompunha, apressou-se a informar que o período escolhido para os trabalhos seria o Barroco. Quem achasse a tarefa difícil podia mudar para a época contemporânea. Um silêncio absoluto instalou-se. Resolvi ficar. Tinha encontrado a orientadora ideal da tese que teria de preparar daí para a frente.

Enderecei-lhe o pedido formal no final do primeiro ano da parte escolar. Encarou-me de frente sem espanto no olhar e disse-me que sim. Sugeriu-me trabalhar a Pedagogia. Pegar em Martinho de Mendonça de Pina e Proença e desbravar os Apontamentos para a educação de um menino nobre (1734). Contrapus-lhe a Picaresca sem indicação de autor e obra. Educação por educação sempre preferia alguma que me divertisse um pouco. Aceitou o argumento e perguntou-me se sabia bem onde me estava a meter. É que para muitos especialistas esse género novelesco era exclusivo da cultura literária hispânica. Mesmo assim aconselhou-me a ler João Palma-Ferreira e Ulla M. Trullemans. Entre um e outro alguma pista havia de encontrar. Atravessámos a rua da Escola Politécnica e entrámos na Imprensa Nacional. Na primeira página d' A Preciosa que havia editado de Sóror Maria do Céu, registou: «No início da sua tese de mestrado - um marco histórico?». Acertou em cheio.

Descobrimos em conjunto o quase esquecido Frei Gaspar Pires de Rebelo, licenciado em teologia pela Universidade de Évora e criador do único relato pícaro canónico redigido em português, O desgra-ciado amante Peralvilho de Córdova, deixado inédito com outros cinco relatos cortesãos que um amigo publicou postumamente com o título então em voga de Novelas exemplares (1649-1650). Descobri a editio princeps na Biblioteca Municipal do Porto, que serviria de base à minha tese de mestrado defendida com aproveitamento em 1995. Ganhámos gosto pelo frade seiscentista da ordem de Santiago e avançámos com o único romance bizantino composta entre nós, os Infortúnios trágicos da constante Florinda e de Arnaldo procurando-a pelo mundo (1625 e 1633). A tarefa terminou em 2001, ano em que defendi com aproveitamento a minha tese de doutoramento. Um summa cum laudio que devo à minha amiga de caminhada e que coloco no lugar privilegiado dos mestres.

3 de agosto de 2015

Livrarias que o vento vai levando

«O livro ainda é a melhor ferramenta da humanidade...»
Carlos Simões - livreiro & alfarrabista
Os meses de férias ainda são os melhores para dedicar à leitura. Dizem. Por todo o lado surgem feiras do livro. Imensas, grandes, médias, pequenas minúsculas. Pouco importa o tamanho. Os factos feitos com letras impressas não têm uma dimensão mensurável com um qualquer metro-padrão em platina iridiada guardado em Paris no Bureau International des Poids et Mesures. Editores e livreiros fazem a festa anual nos diversos municípios que as alojam. Ao ar livre, está bem de ver. A animar as noites quentes de verão.

Faço questão de visitar todos os pavilhões e observar as propostas que me são dadas a observar. Por vezes até encontro um texto há muito procurado em vão nas livrarias tradicionais que frequento desde que me conheço como gente. Olhar com olhos de ver esses conjuntos de folhas de papel com palavras para decifrar e histórias para contar. Ouvir tudo aquilo que têm para dizer. Cheirá-los. Tateá-los. Saboreá-los. Um verdadeiro festim para todos os sentidos. Sem exceção. Sempre que posso, pego num e levo-o para casa.

Prazeres que um dia destes se converterão em meras lembranças dum tempo extinto. Há um ano dei-me conta do desaparecimento de mais uma livraria desta cidade onde vivo. Pátio de Letras e Espaço de Memórias. Onze meses decorridos fui surpreendido com o sumiço duma outra. A Simões. Aquela onde sempre encontrei o tal exemplar que me fazia falta na altura exata. O único alfarrabista de Faro foi alvo de despejo e obrigado a encerrar a atividade. Li-o num jornal. E tudo o vento vai levando sem apelo nem agravo.