7 de agosto de 2015

Ana Hatherly e o lugar dos mestres…

«Mestre  Mestre! Oh Mestre! | Onde é que estás, Mestre? || Silêncio absoluto.»
Ana Hatherly, O Mestre (1963)
Cruzei-me com a professora Ana Hatherly numa sexta-feira chuvosa de outubro de 1990. O encontro teve lugar numa dependência que a Universidade Nova de Lisboa tinha no Príncipe Real, separada pela calçada da Patriarcal do palacete mourisco onde então funcionava a reitoria. Entrou no salão nobre do edifício à hora marcada para a apresentação do mestrado que dirigia de Literatura e Cultura Portuguesa - época moderna. Comigo encontravam-se umas seis dezenas de alunos admitidos ao curso. Vestia uma gabardina de oleado cor de alface amarelecida ainda a pingar e segurava um chapéu-de-chuva cujos pormenores a minha memória cromática não registou. Enquanto se recompunha, apressou-se a informar que o período escolhido para os trabalhos seria o Barroco. Quem achasse a tarefa difícil podia mudar para a época contemporânea. Um silêncio absoluto instalou-se. Resolvi ficar. Tinha encontrado a orientadora ideal da tese que teria de preparar daí para a frente.

Enderecei-lhe o pedido formal no final do primeiro ano da parte escolar. Encarou-me de frente sem espanto no olhar e disse-me que sim. Sugeriu-me trabalhar a Pedagogia. Pegar em Martinho de Mendonça de Pina e Proença e desbravar os Apontamentos para a educação de um menino nobre (1734). Contrapus-lhe a Picaresca sem indicação de autor e obra. Educação por educação sempre preferia alguma que me divertisse um pouco. Aceitou o argumento e perguntou-me se sabia bem onde me estava a meter. É que para muitos especialistas esse género novelesco era exclusivo da cultura literária hispânica. Mesmo assim aconselhou-me a ler João Palma-Ferreira e Ulla M. Trullemans. Entre um e outro alguma pista havia de encontrar. Atravessámos a rua da Escola Politécnica e entrámos na Imprensa Nacional. Na primeira página d' A Preciosa que havia editado de Sóror Maria do Céu, registou: «No início da sua tese de mestrado - um marco histórico?». Acertou em cheio.

Descobrimos em conjunto o quase esquecido Frei Gaspar Pires de Rebelo, licenciado em teologia pela Universidade de Évora e criador do único relato pícaro canónico redigido em português, O desgra-ciado amante Peralvilho de Córdova, deixado inédito com outros cinco relatos cortesãos que um amigo publicou postumamente com o título então em voga de Novelas exemplares (1649-1650). Descobri a editio princeps na Biblioteca Municipal do Porto, que serviria de base à minha tese de mestrado defendida com aproveitamento em 1995. Ganhámos gosto pelo frade seiscentista da ordem de Santiago e avançámos com o único romance bizantino composta entre nós, os Infortúnios trágicos da constante Florinda e de Arnaldo procurando-a pelo mundo (1625 e 1633). A tarefa terminou em 2001, ano em que defendi com aproveitamento a minha tese de doutoramento. Um summa cum laudio que devo à minha amiga de caminhada e que coloco no lugar privilegiado dos mestres.

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