27 de outubro de 2015

Roberto Bolaño, 2666 e o número da besta apocalíptica

«Pero ella se preguntaba (y de paso les preguntaba a ellos) hasta qué punto alguien puede conocer la obra de outro.»
Roberto Bolaño, 2666 (2004)
O mundo não acabou em 666, nem em 1666 e ninguém pode afirmar, no seu perfeito juízo, que terminará em 2666. Em nenhuma das 1100 páginas do 2666 (2004), que Roberto Bolaño nos deixou para publicação póstuma, se refere essa cifra mágica. Salvo no título da obra que dá unidade a este romance de novelas, nalguns casos meros contos ou arremedo fragmentário. As interpretações que o editor dos manuscritos dispersos do texto nos fornece são engenhosas, mas nunca passarão de meras conjeturas à espera duma confirmação mais consistente. A leitura atenta das dezenas de histórias que compõem este labirinto de palavras remete-nos sempre para o tal número da besta. O apocalíptico. O abismo a atrair-nos fatalmente para o precipício.

Das cinco novelas independentes imaginadas pelo autor, resultou um volume único repartido por cinco partes autónomas orquestrado pelos herdeiros. Lido o livro, ficamos com a sensação de ter sido uma medida acertada. A ordem escolhida nem parece arbitrária. Tudo começa e acaba em Beno von Arcimboldi. O escritor misterioso procurado em vão por quatro professores e críticos de literatura alemã, o inventor de histórias alheias a revelar-nos, no final do relato, a história verdadeira da sua própria existência. A ficção disfarçada de factual. Os alicerces programáticos do infrarrealismo poético transferidos para as sinuosidades específicas da prosa. Pelo meio, fica-nos ainda um punhado considerável de episódios centrados na figura do filósofo chileno e refugiado político Amalfitano e na do jornalista afro-americano e ativista político Fate. As nótulas descritivas das 110 mulheres assassinadas em série completam a trama. A cidade de Santa Teresa, situada na fronteira do México com os Estados Unidos, a convocar todos os intervenientes dos eventos narrados para um espaço cénico único, para um local de encontro/desencontro do homem com o seu próprio destino, para um palco do mundo em que todos nós somos, simultaneamente, os espetadores e atores dum mesmo drama de vida e morte.

O lançamento do romance conheceu um sucesso imediato mas meteórico nos meios cultos circundantes deste nosso cantinho atlântico. No curto período de tempo que atravessou as altas esferas siderais, iluminou tudo em seu redor. Depois extinguiu-se completamente sem deixar rastro atrás de si. As causas deste fenómeno não estão apuradas mas são fáceis de deduzir. A fama de obra-prima que os mass media lhe conferiu precedeu a sua publicação efetiva entre nós. Se a revista Time já afirmara tratar-se do «acontecimento literário da década», lá teria as suas razões bem fundadas em propagar essa nova por toda a parte, qual bênção papal urbi et orbi no início de cada ano. Confrontado com a monumentalidade da fábula, o vulgo assustou-se. Leu as primeiras páginas, saltou outras e evitou as restantes. A falta de tempo, entretanto aduzida, continua a ser um argumento de peso. Categórico, eficaz, tranquilizador.

Pessoalmente, li o 2666 de fio a pavio, sem hesitações e com muito prazer. Sobretudo porque não admite sínteses nem continuações. Por vezes fui obrigado a interromper a leitura, mas nunca procurei desculpas esfarrapadas para deixar de o fazer. Trata-se dum texto fascinante que só peca por ter um fim anunciado. Sinal de que a opinião abalizada de alguns críticos ainda pode merecer o nosso crédito. O universo académico das conferências, congressos e simpósios alterna com o universo policial dos homicídios, violações e estrangulamentos. O mundo dos enigmas, segredos e mistérios atravessa toda a tessitura discursiva a um ritmo alucinante. O terror erótico e onírico a concorrer com o anedótico grotesco e repulsivo. Tudo isto protagonizado por dezenas de figurantes representantes de todos os estratos e camadas sociais, dispersas pelo velho e novo continentes. As figuras politicamente corretas não abundam, são todas elas banalíssimas nas suas estranhezas. Tal como nós, personagens da vida real. Este talvez seja o grande segredo que Roberto Bolaño conseguiu imprimir à sua obra magna. Essa a razão do magnetismo poético das palavras que empresta ao discurso e oferece aos leitores. Todos nós nos vemos retratados nesse entrecruzar eclético de experiências imperfeitas. Sem uma solução de vida expectável que não seja a própria morte. Inexoravelmente certeira nos seus desígnios.

NOTA:
Descobri Bolaño há cerca de cinco anos, altura em que escrevi estas linhas sobre o 2666 e as publiquei no Pátio de Letras. Trago-o agora para aqui, com alguns pequenos retoques editoriais, porque nunca é de mais dar visibilidade aos textos que merecem escapar às leis nem sempre compreensíveis do ostracismo. 

25 de outubro de 2015

O pelicano do Príncipe Perfeito

EMBLEMA DE D. JOÃO II

[Capela de São Jorge - Aljubarrota]

¡Murió el Hombre!  terá dito Isabel de Castela aquando da morte de D. João II de Portugal, ocorrido a 25 de outubro de 1495. É que a Rainha Católica guardava ainda na memória o papel desem-penhado pelo Príncipe Perfeito nas negociações da partilha do mundo, que culminara no ano anterior com a assinatura do Tratado de Tordesilhas. A deslocação da linha divisória das 100 para as 370 léguas a oeste de Cabo Verde tinha permitido ao primo Avis integrar no Senhorio da Guiné uma parcela considerável do Novo Mundo, a Terra de Vera Cruz ou Brasílica. A prima Trastâmara ficava-se assim com o que restava das Índias Ocidentais ou Américas.

Ignora-se o que terá dito D. Leonor de Lencastre quando teve conhecimento no Paço de Alcácer do Sal do falecimento do marido e primo coirmão em Alvor. Provavelmente terá dado um suspiro de alívio. É que segundo dizem as más-línguas, a fundadora das Mise-ricórdias terá mandado envenenar o soberano. Razões não lhe faltariam para tal. Enviara desta para melhor aquele que apunhalara o duque de Viseu e mandara degolar o duque de Bragança. Um irmão e um cunhado. Impedia também definitivamente que um bas-tardo real do Príncipe Tirano subisse ao trono, colocando em seu lugar D. Manuel I, o irmão mais novo e até então Duque de Beja.

«Jesus!» – terá dito o monarca lusitano antes de exalar o último suspiro. Síntese duma vida pautada pela aplicação da divisa real «Pola ley e pola grey», que tem como corpo emblemático um pelicano eucarístico a alimentar as crias com o seu próprio sangue. O criador do estado moderno nos reinos que lhe haviam sido confiados é aquele a quem a tradição garante ter dito a propósito da mão de ferro com que domara a nobreza: «Eu sou o senhor dos senhores, não o servo dos servos». Só assim se compreende que quem herdara do Africano as estradas e os caminhos do reino tivesse legado ao Venturoso um império de meio mundo.

24 de outubro de 2015

Poema visual a preto e branco...

Avelino Araújo, Apartheid Soneto (1988)


O PODER DO POVO
Clístenes é tido como o pai da democracia helénica, ao estabelecer em 508-507 AEC, na capital da Ática, a primeira experiência da história. O regime político então inaugurado estava centrado na capacidade do «povo» (δῆμος - demos) exercer o «poder» (κράτος - kratos). Encalhava, todavia, no facto de só incluir os homens, filhos de pai e mãe atenienses, livres e maiores de 21 anos. Excluídos ficavam os estrangeiros, escravos e mulheres de todas as idades. Numa altura em que a população de Atenas rondava os 200/400 mil habitantes, a cidadania democrática só era reconhecida a uma elite de cerca de 30/60 mil pessoas, i.e., 15%  da população.

O PODER DAS CASTAS
A implementação do  novo sistema de governo tem sido morosa. Passados mais de 2600 anos, ainda é desconhecido em grande parte deste nosso mundo de liberdades condicionadas. Surgiu ultimamente entre nós a ideia de que a democracia é para todos mas só pode ser exercida por alguns. Os iluminados pelas normas rígidas e imutáveis da tradição. Os seguidores de dogmas passados de geração em geração sem mais prova autêntica de veracidade do que a sua observação. A guerra entre filhos e enteadosO destro divino contra o sinistro diabólico. Apartheids políticos que a razão da «cidade» (πόλιςpólis) se encarregará de derrubar.

18 de outubro de 2015

Edgarda Ferri: peregrinações da judia errante em busca da terra prometida

«“Ha Geveret”, così hanno chiamato gli ebrei Dona Gracia Nasi, la Dominatrix, dal momento che aveva costruito a proprie spese, nel quartiere affollato di Balata, una sinagoga che ad un tratto fu chiamata "la Señora".» 
Edgarda Ferri, L'Ebrea Erante. Donna Grazia Nasi dalla Spagna dell'Inquisizione   alla  Terra Promessa   (2000)
Alguém disse algures que a criatividade humana é mais aparente do que real. A ideia até pode ferir os ouvidos mais sensíveis. A verdade nua e crua da afirmação pode ser testada com alguma facilidade. A conversão da natura em cultura tem vindo a ser concretizada por um conjunto de princípios que mantêm sempre algo de comum entre si. Opõem-se sobretudo na capacidade de disfarçar a imitação com um ou outro elemento estranho que dê uma ilusão consistente de novidade. A configuração do nosso mundo envolvente tem vindo a obedecer a um processo contínuo de afirmação/rejeição das normas vigentes nos sucessivos períodos de espaço-tempo que pontuam o devir histórico do homo sapiens. A cíclica luta entre o cosmos previsível do já feito e o caos imprevisível do por fazer é particularmente visível nas dialéticas seguidas pela república das letras. Os modelos biográficos de figuras públicas conhecidas são dos mais expostos a esse pendor diegético de dizer o mesmo com outras palavras. O percurso de vida de Beatriz de Luna Mendes / Grácia (Hannah) Nássi encontra-se nessa situação ingrata de ter sido relatada ao sabor da imaginação dos efabuladores mais ou menos oficiais que lhe deram corpo.

A recente releitura da versão gizada por Catherine Clément, n' A Señora (1992), levou-me a revisitar uma outra mais recente composta por Edgarda Ferri, n’ A Judia. Do Portugal da Inquisição à Terra Prometida (2000). O confronto entre as duas assaltou-me de imediato a ideia. Vou resistir à tentação de fazê-lo, muito embora a vontade me não falte. Limitar-me-ei a destacar que a imaginação poética que define a primeira é substituída pela reportagem prosaica da segunda. A vertente objetiva da jornalista e ensaísta italiana impede-a de rivalizar com a subjetividade da romancista e ensaísta francesa. Escusado será dizer por qual das duas contadoras de fadários alheios a minha preferência recai. Revelação aliás bem pouco pertinente, dado que a vocação primordial dos livros é suscitar tantas leituras quantos os leitores envolvidos. A minha interpretação não é melhor nem pior do que as demais. Gostaria todavia de salientar que a grande dificuldade com que os cultores deste género se deparam depende em grande medida das fontes seguidas. Neste caso concreto, a consulta confessada por ambas em nota final de edição está ancorada nos trabalhos modelares de Sir Cecil Roth, A History of the Marranos (1932) e The House of Nasi (1940). Divergem naturalmente na forma. Outra coisa não seria de esperar em duas obras autónomas e complementares.

A peregrinação traçada por Edgarda Ferri segue de muito perto os caminhos trilhados pela marrana sefardita portuguesa e registados em todas as enciclopédias dignas desse nome. Lisboa, Londres, Antuérpia, Veneza, Ferrara e Istambul, com passagens rápidas por outros pontos intermédios da bacia mediterrânica europeia e asiática. A hipótese de ter falecido na Palestina é ignorada. O real sobrepõe-se sempre ao imaginário neste arrolar de factos acontecidos aceites por todos sem se deixarem estrebuchar por suspeitas pouco consistentes. O rigor enunciativo do discurso produzido esbarra, porém, com a verdade histórica exigida no ato da escrita. Deslizes pouco significativos mas sistemáticos. Tudo começa no subtítulo original dado à naturalidade da heroína. Segundo se julga saber, apesar de ter percorrido meio mundo até chegar à Terra Prometida, nunca terá pisado terras de Espanha. Pormenor a juntar a muitos outros geralmente situados na geografia cultural do Portugal da Inquisição. Como, por exemplo, insistir na antiga capitalidade de Évora, a cidade das muitas colinas e bosques de castanheiros, localizada a curta distância da Batalha. Falhas que podemos atribuir à pesquisa apressada de quem viajou mais pela fantasia delirante de ficcionista aprendiza do que pela mestria científica da investigadora aclamada, dando razão aos créditos aludidos na contracapa do exemplar que tenho entre mãos.

A Ha Gueveret do povo judeu na diáspora, a mecenas de artistas e financeira de reis, atravessa de modo muito tímido as menos de duas centenas de páginas da crónica factual disfarçada de romance. O mesmo se diga do papel meramente decorativo dos restantes elementos da família na tessitura narrativa. Sombras sem vida dum grupo de destinos iluminados pujantes de vida. Quem quiser perscrutar a dimensão psicológica de cada um deles que enverede por outras vias alternativas. Comece pelas palavras inspiradas que Samuel Usque dedicou «À Ilustríssima Senhora Dona Gracia Nasci», prossiga com «Da ordem e razão do livro prólogo aos senhores do desterro de Portugal» e ouça os três Diálogos que compõem a Consolação às tribulações de Israel (1553). Está tudo lá. Basta fazê-lo com toda a atenção que o tema merece e a memória exige.

16 de outubro de 2015

Perversidades, tempestades e delírios

AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO (1500)
Hieronymus Bosch
[Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa] 


LIVROS & TELAS

O Pintor Copiador abriu uma garrafinha de terebentina e começou a limpar as mãos com cuidado. O Bosch tinha uma imaginação perversa, disse, ele atribui essa imaginação ao pobre do Santo Antão, mas a imaginação é do pintor, era ele quem pensava todas essas coisas feias, é evidente, acho que o pobre Santo Antão nunca teria imaginado coisas dessas, o Santo Antão era uma pessoa simples. Mas foi tentado, objetei eu, é o diabo que insinua essas coisas perversas na imaginação dele, Bosch pintou a tempestade que se está a passar na alma do santo, pintou um delírio.
Antonio Tabucchi, Requiem (1991: 78-79)

12 de outubro de 2015

Hélia Correia, história dum adoecer enigmático num cenário pré-rafaelita

«E ela, que detestava o tempo quente e se entusiasmava com as chuvas, começou nesse outono a adoecer. Porém, não era uma doença de inverno, nem a vulgar fraqueza das londrinas. Esse enigma tornava-a interessante e o grupo de Barbara Leigh Smith fechou-se à sua volta, a protegê-la. Elas amavam as mulheres doentes. Tudo o que havia de materno e sororal dentro das suas compleições robustas se lançava naquela direção.»
Hélia Correia, Adoecer (2010)
Já lá vão longos anos guardados na bruma das memórias inscritas num cenário pintado de cinzento, em que uma geração de jovens incomodados com a situação do país cantava, quase em segredo, as poesias de Hélia Correia e doutros poetas iluminados, musicadas por alguns nomes sonantes no meio estudantil de então. Vivia-se intensamente o período áureo da canção de intervenção contra a guerra colonial em curso e das baladas de protesto ao regime totalitário que ameaçava eternizar-se no tempo. Defendia-se uma «Arte Poética» alternativa que fizesse um barco de pinho e deitasse as armas ao mar. Depois dos textos em verso vieram os textos em prosa. Sempre breves, sempre densos. Os manuais escolares etiquetá-los-iam de novelas, forma genérica que se situaria entre o conto e o romance. Questões teóricas de lana-caprina. As histórias lírico-diegéticas esboçam-se com poucas palavras. Por vezes atingem a dimensão épica que exige um pouco mais do fluir verbal. É o que se passa com o Adoecer (2010), a derradeira ficção publicada que em boa hora me chegou às mãos e me fez companhia incondicional estas férias de verão. Regresso ao seu convívio num ambiente outonal para registar as impressões de viagem recolhidas no universo das imagens visitadas com o olhar, numa cumplicidade avocada entre a leitura e a escrita.

A voz que dá vida à narrativa e empresta significados ao discurso enceta uma viagem nostálgica pelos espaços cénicos que viram nascer a Irmandade Pré-Rafaelita. Tudo começa na Inglaterra vitoriana de meados do séc. xix, quando um conjunto de jovens artistas inaugura uma espécie de confraria medieval que se opunha ao modelo clássico inaugurado pela escola florentina de Rafael e imposto pelas academias europeias desde então. Em contrapartida, a nova agremiação desejava atingir a genuinidade estética que dizia existir na viragem da arte gótica para a renascentista. E assim se abriam alguns dos caminhos revivalistas e ecléticos do sentir romântico oitocentista que alastraram por toda a parte e estiveram na origem de muitas das modernidades novecentistas. Os entendidos na matéria registam o movimento como uma antecipação perfeita das ruturas criativas que brotariam no horizonte ismado do naturalismo, realismo, impressionismo, expressionismo, pontilhismo, simbolismo, futurismo, cubismo e de muitas outras correntes plásticas terminadas em ismo.

Esta incursão de Hélia Correia pelos trilhos da biografia ficcionada está ancorada no percurso de vida de Elizabeth Siddal, uma antiga modista lançada no universo da pintura, onde se celebrizou por ter sido retratada pelos fundadores do «Bando Rossetti». Uma figura frágil de mulher no meio viril dos homens. Uma sombra idealizada que um dia resolveu sair da penumbra a que tinha sido votada como modelo e abraçar de motu proprio a república das artes e das letras. Um vulto menor, sem dúvida, mas, mesmo assim, basilar para o desbrochar da emancipação feminista, movimento que não deixou de crescer e afirmar desde aí até aos nossos dias. O relato oferece-nos, ainda, o evoluir dum adoecer imparável, que dá o título à obra e descreve o longo processo de formação pessoal da protagonista. A maturação da pupila, amante e mulher do poeta, ilustrador e pintor inglês de origem italiana Daniel Gabriel Rossetti, culmina com o desaparecimento físico da heroína, já antevisto uma década atrás por Sir John Everett Millais, na Ophelia (c. 1851), um quadro que fez furor na época e pode ser observada hoje em dia na Tate Britain de Londres. A musa ruiva de artistas morre na flor da idade, tal como o idealismo ultrarromântico ditava e a realidade quotidiana teima em imitar.

O império de paixões-compaixões sentidas/consentidas é atravessado por uma ou outra pincelada caricatural de Charles Augustus Howell, alegado descendente do Marquês de Pombal. A figura do «portuguee», como era conhecido, é convocado por ter sido o encarregado de abrir o túmulo de Miss Lizzie e exumar um caderno de poemas que o marido ali depositara. Episódio macabro que viria a engrossar a lenda negra do casal. Os Poems by D. G. Rossetti (1870) foram devidamente publicados em livro. Uma página manuscrita está depositada na British Library. Consulte-a quem quiser ou puder. O acesso aos seus segredos parece difícil de satisfazer. Assim se afirma nas linhas finais do relato que acabei de ler, com todo o proveito e deleite que a escrita da autora sempre me brindou e com a qual me fico à espera de novas propostas a explorar.

10 de outubro de 2015

Heróis modernos do Parnaso


Den som inom litteraturen har producerat det utmärktaste i idealisk riktning.

A Academia Sueca acaba de anunciar o Prémio Nobel da Literatura 2015. Os louros da glória couberam este ano à jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch, cujo nome ouvi pela primeira vez e ainda não me atrevi a repeti-lo em voz alta. Provavelmente vou ter poucas oportunidades de o fazer. Trata-se duma figura pouco conhecida entre nós e escapa às áreas da ficção que ocupam as minhas práticas de leitura. Parece-me que o perfil da laureada, assente numa «escrita polifónica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época», estaria mais adequado a um Prémio Pulitzer do que àquele que agora os mass media estão a apregoar à escala global.

Quando frequento alguns dos autores premiados pelos académicos suecos, questiono-me sobre os critérios por si seguidos para erguer aos píncaros da fama uns em detrimento doutros. As estratégias geopolíticas do momento associadas às culturas linguísticas que lhes dão corpo estarão na origem dos resultados obtidos. As estatísticas são fáceis de traçar. Basta consultar os factos coligidos e divulgados pelo The Official Web Site of the Nobel Prize. Fico-me pelas 65 atribuições a obras compostas em inglês (27), francês (14), alemão (13) e espanhol (11), o que corresponde, números redondos, a 58% das 112 candidaturas vencedoras desde 1901.

Os prémios valem o que valem. O instituído por Alfred Nobel não foge à regra. Observando a lista dos novos residentes divinos do Parnaso, admiro-me da minha ignorância olímpica. Desconheço-os a quase todos. A minha biblioteca de livros lidos não coincide, grosso modo, com a dos académicos escandinavos. James Joyce, Marcel Proust e Jorge Luís Borges são apenas alguns dos fundadores da literatura moderna ostracizados pelos iluminados de Estocolmo. Acrescentaria ainda o vulto incontornável de Fernando Pessoa, para demonstrar que a genialidade perene dos criadores se antecipa sempre algumas décadas à efemeridade judicativa dos críticos.  

7 de outubro de 2015

Catherine Clément, as histórias com história da Senhora

«Béatriz était leur Dame. Elle était devenue leur Señora. […] “Ha-Gueveret”, criaient nos frères en hébreu. La Dame. C’est à Salonique qu’on l’appela ainsi pour la première fois.»
Catherine Clément, La Señora (1992)
A escrita foi inventada pelos Sumérios há cerca de 5300 anos. A literatura deve ter surgido pouco mais ou menos por essa altura. Desde então até hoje, o homem terá criado qualquer coisa como cem milhões de milhões de originais que a voragem do tempo lá foi fazendo chegar até nós. Cifra prodigiosa que nem o leitor mais aplicado logrará atingir nas suas viagens contínuas pelos livros que contam histórias fingidas ou verdadeiras. Estima-se que nenhum deles consiga ultrapassar uma escassa parcela de 0,01% desse número prodigioso. Desconheço o modo como os entendidos na matéria chegaram a esses resultados de cálculo probabilístico. Fica-se todavia com a ideia geral da grandeza da criatividade humana e da pequenez que todos nós temos de o entender na sua universalidade.

Há obras que percorremos uma única vez ao longo dos nossos trajetos empenhados pelas letras feitas de palavras portadoras de sentido. A qualidade relativa de cada uma delas é irrelevante para explicar essa singularidade. O desejo de achar outras associações de sons geradoras de prazer estético limita-nos os passos e obriga-nos a saltar de página em página até descobrir o tal poema-ficção da nossa vida. Tarefa inglória, porque todos os dias surgem títulos novos que nem teremos ocasião de conhecer pelo nome. De quando em quando, deixamo-nos de ilusões e lá nos lembramos dum texto que em tempos nos encheu as medidas e temos vontade de visitar de novo. A Senhora (1992), de Catherine Clément, cabe nesta categoria de livros repescados num passado recente, sem direito, ainda, a serem postos na prateleira dos clássicos imortalizados por gerações sucessivas de ledores. Nunca o saberemos.

O mais conhecido relato da autora francesa de origem judaica está centrado na mais ilustre humanista portuguesa que a centúria de quinhentos produziu. Beatriz de Luna se chamou na pia batismal (1510) e Mendes após o casamento católico (1528). Dona Grácia (Hannah) Nassi se passou a nomear por vontade própria após a fuga à Inquisição de Lisboa (1536) e posterior substituição da qualidade de conversa forçada pela de judia convicta em Ferrara (1550). Ganhou o epíteto de A Senhora em Salónica (1553/4), que manteve pela vida fora até ao ano da morte ocorrida na Terra Santa (1569), onde era tida como uma digna rainha da Palestina. A história desta mulher invulgar é também a história dum mundo em mudança. Aquele que trocou as alegadas trevas medievais pelas proclamadas luzes renascentistas. As que levaram a civilização ocidental aos quatros cantos da terra e deram origem à globalização. Época de grandes transformações culturais nas artes, filosofia e ciências, de grandes convulsões sociais na economia, política e religião. Aquela que opôs papistas e protestantes, expulsou marranos e mouriscos, promoveu a limpeza de sangue, acendeu fogueiras e espalhou o terror e a guerra um pouco por toda a parte. No velho continente, a tolerância e convívio dos três monoteísmos abrâmicos foi sentido de modo diferente nos diversos países que o compunham, com particular complacência no império otomano, local de refúgio final da comunidade sefardita ibérica, tutelada pela viúva do banqueiro Francisco Mendes / Semah Benveniste, a dominadora ou Ha-Gueveret, como também era apelidada.

A crónica das errâncias da protetora do povo hebreu na diáspora, mecenas de artistas e intelectuais no exílio, patrocinadora da Bíblia de Ferrara e das Consolações das tribulações de Israel de Samuel Usque, íntima do médico João Rodrigues de Castel-Branco, mais conhecido por Amato Lusitano, partidária do messias David Rubeni e do rabi Isaac Louria, é-nos transmitida através do ponto de vista do sobrinho e genro João Micas / Dom Josef Nassi, feito cavaleiro pelo imperador Carlos Quinto e Duque de Naxos pelo sultão Selim II. É a esta figura incontornável da primeira modernidade europeia, amigo íntimo de Maximiano II de Áustria e inimigo figadal de Filipe II de Espanha, que Catherine Clément confia o fio condutor de todas as histórias com história de Dona Grácia Nassi, a Senhora, escrita em homenagem de todas as Beatriz da dispersão de Israel. Tributo literário que a judia de Lisboa merecia, graça que todos nós ficamos a dever à judia de França. Assim o afirma no derradeiro parágrafo do romance, assim se identifica com a protagonista da efabulação, assim se evoca o exemplo duma vida que a ortodoxia católica tentou apagar e que a ficção romanesca recuperou e trouxe ao nosso convívio. Que a leitura se faça refaça então e que aproveite.

NOTA: 
As movimentações migratórias que atualmente assolam a Europa levaram-me a revisitar alguns testemunhos literários ancorados nessa realidade cíclica da História. As deambulações quinhentistas de Beatriz de Luna / Grácia Nassi, traçadas por Catherine Clément em A Senhora, encontram-se nessa situação de releitura motivada. Deixo aqui as impressões de viagem publicadas há mais de três anos no Pátio de Letras,  com alguns pequeníssimos ajustes de forma, para que as histórias como lembrança e a cultura como companhia se mantenha neste espaço de memórias partilhadas. 

4 de outubro de 2015

O triunfo da velha senhora

Quentin Matsys, Vieille femme grotesque (1513)
[National Gallery de Londres]

A velha senhora grotesca vestiu o trajo de gala, arrumou o cabelo na coifa, apertou os atilhos do corpete, retocou as pregas do cen-dal, cobriu o colo e o rosto de carmim vivo, sentou-se no toucador da alcova e perguntou à imagem projetada à sua frente: «Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém  mais bela do que eu?»

O interpelado fitou-a cara a cara e respondeu: «Não vos inquieteis, se-nhora minha! No mundo até pode haver, mas aqui neste reino do Faz-de-Conta a vossa beleza peregrina conta. O Ali-babá rendeu-se ao Abre-te Sésamo dos 40 ladrões. Os choramigas já partiram no tapete-voador à procura do génio da lâmpada noutras paragens...»

E continuou por ali fora com o blá-blá-blá de banha-da-cobra usual. Não se coibiu de dizer que depois da abalada geral só tinham ficado os zombies desejosos de ficar adormecidos por mais 100 anos de tranquila inércia e apetite acrescido de sofrer, agora que os muros-da-vergonha se voltaram a erguer no velho mundo.

A velha senhora grotesca olhou para espelho mágico e disse para os seus botões: «Felizmente que os contos da carochinha mudaram de figurino e as bruxas-más do passado viraram nas fadas-boas do presente». E preparou-se para imperar sobre os submissos sem-memória compulsivos. Infalível, majestosa, triunfante.

3 de outubro de 2015

Amin Maalouf, as memórias andarilhas de Leão-o-Africano

«Moi, Hassan fils de Mohamed le penseur, moi, Jean Léon de Médicis, circoncis de la main d'un barbier et baptisé de la main d'un pape, on me nomme aujourd'hui l'Africain, mais d'Afrique ne suis ni d'Europe, ni d'Arabie. On m'appelle aussi le Grenadin, Le Fassi, le Zayyati, mais je ne viens d'aucun pays, d'aucune cité, d'aucune tribu. Je suis fils de la route, ma patrie est caravane, et ma vie la plus inattendue des traversées.»
Amin Maalouf, Léon l'Africain (1986)
Quando o século passado tinha ainda uma dezena e meia de anos pela frente, viajei por um bom punhado de cidades multisseculares levantadas na tripla orla continental da bacia mediterrânica. Encetei a visita guiada na companhia do muçulmano Hassan al-Wazzan depois convertido no católico Giovanni Leone di Medici (c. 1488 – c. 1554). Realizei o percurso através da magia das palavras escolhidas por Amin Maalouf, que desse modo deu corpo à autobiografia recriada de Leão, o Africano (1986), a sua estreia na área do romance histórico. Fá-lo numa linguagem encantatória, situada no seio da poesia integral feita em prosa poética, faceta que tem conseguido manter obra após obra, para proveito das letras e deleite dos leitores.

As memórias imaginadas do mouro granadino exilado em terras magrebinas, do comerciante, diplomata, pedagogo, explorador e geógrafo, do peregrino que ao regressar da cidade santa do profeta Maomé é capturado por piratas sicilianos e enviado como presente à cidade santa do papa Leão X, chegou-me às mãos pouco depois de ter sido editado em França. Foi-me oferecido por uma amiga de longa data que o trouxe diretamente daí, país onde já começava a ser alvo dos mais diversos comentários críticos, que levariam à sua tradução imediata num número crescente de idiomas, incluindo o português. A fama do autor já atravessara fronteiras algum tempo antes, logo após o sucesso da publicação e divulgação internacional d’ As Cruzadas vistas pelos Árabes (1983). Do ensaio à ficção, deu um passo de gigante, ao estabelecer em ambas as modalidades discursivas um diálogo constante entre o Oriente e o Ocidente, extensão global onde os três grandes sistemas monoteístas do Livro se espalharam. Tão próximos e tão distantes uns dos outros. Uma abordagem programática algo compreensível mas pouco expectável, por ter sido encetada entre as margens dos textos por um cristão árabe franco-libanês com méritos comprovados, a ponto de se ter tornado num membro eleito da Académie française (2011).

A reconstituição do trajeto de vida do globetrotter renascentista está repartida por quatro livros com nome de cidade, ancorado cada um deles num espaço geográfico concreto, onde decorreram os primeiros 40 anos da sua existência (894-933 AH | 1488-1527 AD), também eles etiquetados segundo as peripécias mais relevantes desse período restrito de tempo medido pelos ciclos lunares-solares específicos. As memórias documentadas nesse roteiro-de-bordo foram compostas no cativeiro-exílio italiano e dedicado ao filho. Interrompe-as nos primeiros momentos da sua chegada à antiga metrópole fenícia de Cartago, derradeira etapa conhecida do seu périplo de aventuras por dois mundos antagónicos. O livro de Túnis não chegou a ser escrito. O desaparecimento misterioso e a morte não documentada do autor dum Léxico poliglota árabe-hebraico-latino (c. 1525) e da Descrição de África (c. 1526) explica parte da lacuna assumida na crónica romanesca elaborada à distância aproximada de quatro centúrias e picos. A ilusão de verosimilhança narrativa e a dimensão realista do relato são assim preservadas no auto da escrita e no átimo da leitura.

Restam-nos as impressões de viagem registadas pelo grande caminheiro retratado desde que saiu de Granada e depois experimentou os exílios de Fez, Cairo e Roma. Nessas mudanças constantes de casa, com uma passagem fugaz por Constantinopla, assiste à conquista do derradeiro reino andaluz de Boabdil pelas forças castelhano-aragonesas dos reis católicos, escapa ao grande incêndio de Tombuctu no reino africano do Mali, testemunha o castigo infligido pelo grão turco otomano ao imperador egípcio e sobrevive ao saque da cidade-eterna nos tempos de Carlos Quinto. Nos entretantos que pontuam a sua passagem pela existência humana, enriquece-empobrece, casa-descasa e garante a sobrevivência de entre os mortais com a prole que engendra e a obra que engenha. As voltas-reviravoltas dum destino fértil em momentos de altos e baixos continuam a surpreender gerações sucessivas de gentes oriundas dos quatro cantos da urbe terrestre. Devemo-lo em grande parte ao exemplo humanista que nos deixou como legado. Devemo-lo, também, ao exercício de reconstituição histórica levada a bom termo pelo estilo fascinante do romancista-ensaísta do entendimento entre povos, que um dia se viu obrigado a procurar em território europeu a paz que a guerra fratricida travada na sua pátria asiática lhe negara a si e aos seus. Lição a seguir por todos aqueles que ainda acreditam na concórdia entre todos os homens, independentemente das sua origens étnicas, quadrantes políticos e convicções religiosas.

1 de outubro de 2015

Dedo para cima

Marion Peck, Fuck You (2008)

Uma imagem vale bem mais do que mil palavras. A frase é atri-buída ao filósofo chinês Confúcio, depois repetida em todas as lín-guas. A do dedo médio virado para cima dispensa qualquer tipo de verbalização. Se se tratar duma senhora, o espanto surge e a ar-ticulação duma cadeia fonética com sentido ganha uma dificuldade acrescida. Na melhor das hipóteses, converte-se num semissorriso irónico de cumplicidade implícita ou desfaz-se numa gargalhada es-tridente de aquiescência explícita. O beliscar inusitado do expec-tável provoca sempre uma reação de riso mais ou menos contido.

Pegar numa chávena de chá com o mindinho esticado, luzir um anel de brilhantes no seu-vizinho, compor um V com o pai-de-todos e o fura-bolos, erguer o mata-piolhos para confirmar a vitória, são algumas possibilidades estéticas admissíveis no retrato pintado por Marion Peck. A simbologia do gesto gravado na tela remete-nos para as palavras que a autora associou no título da obra. A primeira começa por F e costuma ser seguida por três *** de pudor, tantos quantos as letras elididas. Em português soa a faca, vocábulo acutilante e perfeitamente aceitável pelos ouvidos mais discretos.

Aproveito o gesto descontraído desenhado a duas dimensões em estilo império e dirijo este dedo iconoclasta a todos os filhos-da-mãe da nossa praça, aos vendilhões do templo e charlatães da banha-da-cobra, aos arautos da desgraça, fazedores-de-mitos e línguas-de-palmo, aos vira-casacas, chicos-espertos e lambe-botas, aos cara-de-pau e paus-mandados do burgo. A todos os peritos na lavagem-de-cérebro, milagreiros sazonais de trazer-por-casa, pregoeiros do mais-do-mesmo eternizado, levanto o dedo bem para cima e afino o olhar, pois uma imagem vale bem mais do que mil palavras.