12 de outubro de 2015

Hélia Correia, história dum adoecer enigmático num cenário pré-rafaelita

«E ela, que detestava o tempo quente e se entusiasmava com as chuvas, começou nesse outono a adoecer. Porém, não era uma doença de inverno, nem a vulgar fraqueza das londrinas. Esse enigma tornava-a interessante e o grupo de Barbara Leigh Smith fechou-se à sua volta, a protegê-la. Elas amavam as mulheres doentes. Tudo o que havia de materno e sororal dentro das suas compleições robustas se lançava naquela direção.»
Hélia Correia, Adoecer (2010)
Já lá vão longos anos guardados na bruma das memórias inscritas num cenário pintado de cinzento, em que uma geração de jovens incomodados com a situação do país cantava, quase em segredo, as poesias de Hélia Correia e doutros poetas iluminados, musicadas por alguns nomes sonantes no meio estudantil de então. Vivia-se intensamente o período áureo da canção de intervenção contra a guerra colonial em curso e das baladas de protesto ao regime totalitário que ameaçava eternizar-se no tempo. Defendia-se uma «Arte Poética» alternativa que fizesse um barco de pinho e deitasse as armas ao mar. Depois dos textos em verso vieram os textos em prosa. Sempre breves, sempre densos. Os manuais escolares etiquetá-los-iam de novelas, forma genérica que se situaria entre o conto e o romance. Questões teóricas de lana-caprina. As histórias lírico-diegéticas esboçam-se com poucas palavras. Por vezes atingem a dimensão épica que exige um pouco mais do fluir verbal. É o que se passa com o Adoecer (2010), a derradeira ficção publicada que em boa hora me chegou às mãos e me fez companhia incondicional estas férias de verão. Regresso ao seu convívio num ambiente outonal para registar as impressões de viagem recolhidas no universo das imagens visitadas com o olhar, numa cumplicidade avocada entre a leitura e a escrita.

A voz que dá vida à narrativa e empresta significados ao discurso enceta uma viagem nostálgica pelos espaços cénicos que viram nascer a Irmandade Pré-Rafaelita. Tudo começa na Inglaterra vitoriana de meados do séc. xix, quando um conjunto de jovens artistas inaugura uma espécie de confraria medieval que se opunha ao modelo clássico inaugurado pela escola florentina de Rafael e imposto pelas academias europeias desde então. Em contrapartida, a nova agremiação desejava atingir a genuinidade estética que dizia existir na viragem da arte gótica para a renascentista. E assim se abriam alguns dos caminhos revivalistas e ecléticos do sentir romântico oitocentista que alastraram por toda a parte e estiveram na origem de muitas das modernidades novecentistas. Os entendidos na matéria registam o movimento como uma antecipação perfeita das ruturas criativas que brotariam no horizonte ismado do naturalismo, realismo, impressionismo, expressionismo, pontilhismo, simbolismo, futurismo, cubismo e de muitas outras correntes plásticas terminadas em ismo.

Esta incursão de Hélia Correia pelos trilhos da biografia ficcionada está ancorada no percurso de vida de Elizabeth Siddal, uma antiga modista lançada no universo da pintura, onde se celebrizou por ter sido retratada pelos fundadores do «Bando Rossetti». Uma figura frágil de mulher no meio viril dos homens. Uma sombra idealizada que um dia resolveu sair da penumbra a que tinha sido votada como modelo e abraçar de motu proprio a república das artes e das letras. Um vulto menor, sem dúvida, mas, mesmo assim, basilar para o desbrochar da emancipação feminista, movimento que não deixou de crescer e afirmar desde aí até aos nossos dias. O relato oferece-nos, ainda, o evoluir dum adoecer imparável, que dá o título à obra e descreve o longo processo de formação pessoal da protagonista. A maturação da pupila, amante e mulher do poeta, ilustrador e pintor inglês de origem italiana Daniel Gabriel Rossetti, culmina com o desaparecimento físico da heroína, já antevisto uma década atrás por Sir John Everett Millais, na Ophelia (c. 1851), um quadro que fez furor na época e pode ser observada hoje em dia na Tate Britain de Londres. A musa ruiva de artistas morre na flor da idade, tal como o idealismo ultrarromântico ditava e a realidade quotidiana teima em imitar.

O império de paixões-compaixões sentidas/consentidas é atravessado por uma ou outra pincelada caricatural de Charles Augustus Howell, alegado descendente do Marquês de Pombal. A figura do «portuguee», como era conhecido, é convocado por ter sido o encarregado de abrir o túmulo de Miss Lizzie e exumar um caderno de poemas que o marido ali depositara. Episódio macabro que viria a engrossar a lenda negra do casal. Os Poems by D. G. Rossetti (1870) foram devidamente publicados em livro. Uma página manuscrita está depositada na British Library. Consulte-a quem quiser ou puder. O acesso aos seus segredos parece difícil de satisfazer. Assim se afirma nas linhas finais do relato que acabei de ler, com todo o proveito e deleite que a escrita da autora sempre me brindou e com a qual me fico à espera de novas propostas a explorar.

4 comentários:

  1. Que lindo, inspirador e desafiante texto. Tenho que ler esta obra! Já registei!

    ResponderEliminar
  2. O pouco que li de Hélia Correia fascinou-me pela sua criatividade original. Esta interessante resenha lembra-me um filme que vi sobre o Bando Rosseti e uma jovem que se inscreve na história tão bem enquadrada, jovem essa que, no filme, adoeceria com láudano. Pena não me recordar do título...
    Obrigada, Prof., por mais esta brilhante recensão!

    ResponderEliminar
  3. Provavelmente trata-se dum filme já antigo de 1967, de Ken Russell, intitulado «Dante's Inferno: The Private Life of Dante Gabriel Rossetti, Poet and Painter», protagonizado por Oliver Reed e baseado na vida de Miss Lizzie Siddal.

    ResponderEliminar
  4. Um livro magnífico, meticuloso na concepção e imaculado na construção. Do que li, Hélia Correia no seu melhor.

    ResponderEliminar