1 de novembro de 2015

Bruxas e Pão-por-Deus

J. Bosch, Tentações de Santo Antão (pormenor) c. 1500,
[MNAA. Fotografia: DGPC/ADF/Luísa Oliveira]

Em tempos que já lá vão, amadurecia eu então os meus verdes anos na Estremadura, a que agora chamam com todas as letras Oeste, costumava celebrar o pão-por-deus com toda a pompa e circunstância exigida pela tradição. Todas as manhãs do primeiro dia de novembro, aquele que a crença popular dedicava a todos-os-santos, conhecidos ou desconhecidos. Toda a criançada da rua partia em bando, a bater à porta da vizinhança, na expectativa de encher o pequeno saco de chita com que cada um se havia munido com uma guloseima teoricamente destinada aos fiéis defuntos.

Recordo-me também do cerimonial que celebrava na véspera com o meu irmão em casa da nossa avó materna. Depois de termos escolhido uma abóbora amarela bem redonda, começávamos a talhar uma caveira tenebrosa. Cortávamos com uma faca de bico quatro orifícios bem desenhados: dois redondos para os olhos, um triangular para o nariz e um recortado para a boca meio desdentada. Extraíamos as sementes com todo o cuidado. No interior colocávamos uma vela de cera que seria acesa no final do dia e iluminaria a noite dita das bruxas num dos muros do quintal.

Perdi o contacto com os cenários da minha infância. Desconheço se o costume ancestral se mantém. Duvido que assim seja. Em terras algarvias de cultura urbana nunca vi em nenhuma janela enfeitada com uma cabeça de bruxa ou um saco de pão-por-deus pendurado na mão de nenhuma criança. Como diz o rifão popular: cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Diz-me aquele dedo que adivinha andar o país inteiro a imitar a prática anglo-saxónica do Halloween das «doçuras ou travessuras». Digam-me que estou enganado e que a identidade cultural ainda conta...   

4 comentários:

  1. Lembro-me da avó Cristina, tal como nós, estar completamente dedicada a preparar a abóbora na cozinha tal como descreveste e eu depois da obra acabada ficar ali na janela da sala a espreitar a dita virada bruxa. Para mim era mesmo uma bruxa porque tinha medo de a ver ali no muro a deitar luz (creio que nunca o disse mas arrepiava-me todo).
    Adquirir a abóbora era também um ritual.
    Íamos ao pinhal lá longe fazer um piquenique ou pelos menos uma boa caminhada, e no regresso, naqueles baixios encostados ao Rio Grande era um encanto ver as abóboras ali ao sol no lugar onde nasceram.
    Uma viria a ser uns tempos mais tarde a nossa bruxa.
    A tradição já não é o que era aqui por esta Estremadura extinta por decreto, mas ainda dá gosto ver miúdos andarem de saco na mão a bater às portas a divertirem-se e ainda a dizerem "pão-por-Deus"

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  2. Fico satisfeito por saber que ainda há meninos aí nessa região de além-Douro ou Estremadura celebrar o dia de todos-os-santos com o ritual do pão-por-deus, dá-me a satisfação de comprovar que a identidade cultural ainda tem alguns praticantes empenhados...

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  3. No meu caso, nascida na freguesia de Sta Justa e criada na freguesia de Sta Maria dos Olivais, em Lisboa, o único ritual que presenciei neste dia foi a ida ao cemitério depositar flores nas campas dos entes queridos. Quanto ao ritual do pão por Deus, só o vim testemunhar aqui na Madeira, quando os meus filhos ingressaram na escola primária.
    Quanto ao Halloween, foi nos anos oitenta no Bairro Alto que tomei contacto com ele.

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  4. É sempre interessante ler as tuas lembranças de infância sobre costumes antigos que ficaram um pouco esquecidos na esteira do comércio selvagem. Este teu exemplo de partilha é repetida por muitos, que se referem ao Pão por Deus quando tropeçam nestes festejos, pelo que os costumes ancestrais acabarão por ficar registados para a posteridade.

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