14 de dezembro de 2015

Amin Maalouf, os jardins de luz do maniqueísmo

«Sois traître à l’Empire, s’il le faut, et rebelle aux décrets du Ciel, mais fidèle à toi-même, à la Lumière qui est en toi, parcelle de sagesse et de divinité.»
Amin Maalouf, Les Jardins de lumière (1991)
Amin Maalouf, jornalista e escritor libanês de língua francesa, estreou-se no mundo das letras com As Cruzadas vistas pelos Árabes (1983). Seguiram-se-lhe uma dezena de outros títulos repartidos pelo ensaio, romance e libreto de ópera. O sucesso da obra cruzou fronteiras à escala mundial, transformando o autor num dos nomes de referência literária atual mais acatados pela comunidade internacional. O segredo tem residido no seu propósito de promover o diálogo constante do Oriente com o Ocidente, de fomentar o entendimento de todos os homens, de estimular o respeito pela diferença. Proeza facilitada pelo facto de ter sido cometida por um ser colocado entre dois mundos, entre dois padrões civilizacionais, entre dois paradigmas mentais, i.e., por espelhar a alma mediterrânea de um nativo árabe de criação católica exilado na Europa.

Essa experiência sui generis de vida e o gosto pelo discurso histórico empurraram-no para a composição de uma autêntica trilogia de biografias ficcionadas de grandes vultos da cultura universal, que o fenómeno da globalização tem vindo paulatinamente a relegar para segundo plano ou mesmo a ostracizar. Depois de ter traçado nas páginas de Leão, o africano (1986) e de Samarcanda (1988) as principais etapas andarilhas do diplomata, geógrafo e humanista mouro de Granada Hassan Al-Wazzan / Jean-Léon de Médicis (1488-1548) e do poeta, matemático e astrónomo iraniano Omar Khayyam (1048-1131); Amin Maalouf conclui a série com Os jardins de luz (1991), onde nos convida a conhecer um pouco melhor a personalidade do pintor, médico e filósofo babilónio Mani ou Manes (216-274), o Buda da Luz para os egípcios, o Apóstolo de Jesus para os egípcios, o fundador do maniqueísmo para os vindouros, que somos todos nós.

O dualismo religioso patente no modelo profético apregoado pelo Filho de Babel resulta, em grande parte, dos percursos que a existência lhe foi impondo. A permanência forçada, por mais de vinte anos numa comunidade eremita de monges brancos, isolado dos homens e do mundo, a explicar-lhe a origem e explicação da intransigência; e as longas e continuadas peregrinações pelos espaços abertos do império sassânida, no seio das populações anónimas, a oferecer-lhe os germes de uma nova relação com o transcendente, ancorada na conciliação de todas as religiões. Na opinião do curador de corpos e almas, a verdadeira forma de assegurar a total liberdade do homem não pode partir da renúncia exclusiva ao mundo exterior, mas sim da descoberta do mundo interior que habita dentro de si. Só assim se poderá aproximar do Pai, o Todo Poderoso, única hipótese de vislumbrar a face do Criador de todas as coisas, o Rei dos jardins de luz, sempre de braços abertos para acolher os inimigos das trevas.

Na luta incessante entre a tolerância e a intolerância, entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, a vitória parece que tem vindo a inclinar-se para os segundos termos dos binómios destacados. Era assim nesse tempo recuado, continua a ser assim nos nossos dias. Ao manter-se coerente com as suas convicções pessoais, com as suas crenças e doutrinas, Mani deixou escapar a oportunidade de garantir a canonização da sua fé, a institucionalização da sua igreja e a sobrevivência do seu pensamento. O mensageiro da paz morreu martirizado quando aconselhou o imperador persa a resolver os conflitos bélicos com o imperador romano pela via diplomática. A força da guerra foi mais forte do que a da concórdia. As lições da História têm servido de pouco para a formação de todos nós.

Fundado no século III da era comum, como um sincretismo do zoroastrismo, do budismo e do cristianismo, o maniqueísmo é hoje em dia uma religião extinta e o seu fundador um profeta sem seguidores. Neste sentido, os sistemas religiosos alicerçados por Buda, Jesus e Maomé tiveram um destino bem diferente do idealizado por Mani. A humanidade que promoveu esta seleção natural que o diga. Amin Maalouf, pela sua parte, já cumpriu sobejamente a sua missão.

NOTA:
Convoco aqui para este espaço a leitura que há meia dúzia de anos tornei público no Pátio de Letras. Faço-o com o propósito de reunir Os jardins de luz a Leão, o africano e a Samarcanda, dando maior visibilidade a esta trilogia biográfica organizada por Amin Maalouf, um dos meus escritores atuais de eleição.

2 comentários:

  1. "Os jardins de luz" foi, até agora, o único livro que li de Amin Maalouf. Foi uma leitura inspiradora pela experiência transcendental de um homem, Mani, que viveu no início da era cristã, que tudo tentou para implantar uma doutrina universal baseada numa nova visão do mundo, mais humana e tolerante. Acho que todos os leitores se devem sentir maniqueístas quando lêem o livro, tal a força da mensagem de harmonia e beleza.

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