1 de dezembro de 2015

Guerras, ventos & casamentos...

Guillermo Harvey, Atlas (Londres: 1868)
[Library of Congress - United States]

O extinto feriado do primeiro de dezembro evoca-me os tempos em que nasci e cresci. Celebrava-se com especial ardor a Restauração duma Coroa governada por um rei nascido em território português. O equívoco entre os conceitos de País-Estado-Nação levaram o regime político vigente a associar essa mera mudança de monarca como a recuperação duma independência alegadamente perdida. Dizia-se ainda com mais empenho patriótico de ajuste de contas com a História: De Espanha, nem bom vento nem bom casamento.

O provérbio repetido a torto e a direito por todos os quadrantes da época, incluindo o republicano, sempre me causou uma certa confusão. O mistério do vento aludido só começou a desvendar-se no momento em que a experiência pessoal da nortada estremenha, fresca e húmida, se veio juntar à experiência do levante algarvio, quente e seco. Vistas bem as coisas, as massas de ar atlânticas ou sarianas pouco têm a ver com as fronteiras físicas da Península Ibérica. Atingem-na por inteiro, por igual e sem preconceitos.

A inclusão do casamento na sentença rimada pareceu-me sempre óbvia. Referia-se à política matrimonial seguida pelas monarquias hispano-portuguesas ao longo dos séculos. Afinal de contas, tinha sido através da união de Isabel de Avis com Carlos Quinto que nascera Filipe II. Pesquisas posteriores vieram dizer-me que o problema das rivalidades políticas entre reinos vizinhos tinha criado um conjunto de ditados populares comprovativos dessa realidade. Destaco o franco-inglês: D'Angleterre, ni bon vent ni bonne guerre.

Questiúnculas dinásticas à parte, apeteceu-me saltar esse ambiente de guerra e recuar aos meus 20 e poucos anos, quando estive em Olivença pela primeira vez. Fi-lo com um amigo espanhol. No regres-so, perguntou-me onde ficava a raia portuguesa. Ao olhar para o fir-mamento, livre das luzes da cidade, fui incapaz de identificar a estrela Polar que me apontaria o rumo certo. Então, na imensidão da Via Láctea, percebi o quanto as linhas divisórias entre povos per-dem o seu sentido absoluto e se reduzem a nada. Inexoravelmente.

2 comentários:

  1. Magnífica ideia, esta de nos lembrar a incoerência de extinção de um feriado importante do país, ao mesmo tempo que se constata a incoerência de guerras vizinhas violentas quando o caos deste mundo nos baralha as luzes. Infelizmente, o homem, lobo do homem, nunca permitirá uma união de povos durável, mormente a extinção de preconceitos seculares que perduram...

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  2. Já fiz notar várias vezes neste espaço de contar histórias à minha maneira defender uma visão muito especial do significado do 1.º de Dezembro de 1640. Mais do que considerar esta data como aquela em que se celebra a independência do nosso país-estado-nação, entendo-a como uma simples comemoração da independência da Casa de Bragança face à Casa de Áustria. Portugal, esse, nunca deixou de ter a sua independência relativa assegurada, apesar de ser governado a título pessoal por um mesmo Rei. A Monarquia Dual luso-castelhana desfez-se por vicissitudes várias e cada uma das coroas envolvidas seguiu o seu destino de modo autónomo. Trata-se duma efeméride monárquica com uma importância muito menor do que a espelhada no 5 de Outubro de 1910, aquela que democratizou o país, permitindo aos cidadãos que o habitam eleger periodicamente um Presidente da República sem levar em linha de conta a sua árvore genealógica. Se o fazem bem ou mal já é outra coisa. Restaurem-se os dois feriados, que a identidade dum povo também se faz através da memoração dessas pequenas grandes alterações estruturais que, de um modo ou de outro, lhe conferiram personalidade única e intransmissível com um percurso milenar único digno de ser lembrado e celebrado.

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