31 de janeiro de 2016

Filipe Segundo e o zipper que não tinha


POEMA DO FECHO ÉCLAIR

          Filipe Segundo tinha um colar de oiro,
          tinha um colar de oiro com pedras rubis.
          Cingia a cintura com cinto de coiro,
          com fivela de oiro,
          olho de perdiz.

          Comia num prato
          de prata lavrada
          girafa trufada,
          rissóis de serpente.
          O copo era um gomo
          que em flor desabrocha,
          de cristal de rocha
          do mais transparente.

          Andava nas salas
          forradas de Arrás,
          com panos por cima,
          pela frente e por trás.
          Tapetes flamengos,
          combates de galos,
          alões e podengos,
          falcões e cavalos.

          Dormia na cama
          de prata maciça
          com dossel de lhama
          de franja roliça.
          Na mesa do canto
          vermelho damasco,
          e a tíbia de um santo
          guardada num frasco.

          Foi dono da Terra,
          foi senhor do Mundo,
          nada lhe faltava,
          Filipe Segundo.

          Tinha oiro e prata,
          pedras nunca vistas,
          safiras, topázios,
          rubis, ametistas.
          Tinha tudo, tudo,
          sem peso nem conta,
          bragas de veludo,
          peliças de lontra.
          Um homem tão grande
          tem tudo o que quer.

          O que ele não tinha
          era um fecho éclair.

António Gedeão, Poesias completas, Lisboa (1964)


NOTA:
Musicado por José Nisa | orquestrado por José Calvário | cantado por Carlos Mendes

27 de janeiro de 2016

Antonio G. Iturbe, os livros vivos e de papel da bibliotecária de Auschwitz

«–Buenos días. Soy Edita Adlerova. Tenemos una biblioteca de ocho libros en papel y media docena de libros vivientes.»
Antonio G. Iturbe, La bibliotecaria de Auschwitz (2012)
Quando a palavra biblioteca surge no horizonte das hipóteses a eleger pelo discurso, associamo-la sem pestanejar a grandes espaços labirínticos, forrados de estantes e cercados de livros por todos os lados. A atualização das ideias verbalizadas tem destes automatismos. A realidade pode ser outra bem distinta. Antonio G. Iturbe demonstra-o à saciedade n’ A bibliotecária de Auschwitz (2012), romance-reportagem edificado com materiais factuais unidos pela argamassa da ficção. No campo de extermínio nazi mais ativo concebido pelo Terceiro Reich alemão, existiu uma biblioteca infantil clandestina constituída por oito exemplares manuseáveis e um número indeterminado doutros guardados na memória viva dos seus habitantes forçados. As histórias reunidas pelo compilador externo da fábula estão centradas em Edita Adlerova, jovem judia checa nascida em Praga, de 14 anos de idade, nomeada guardiã desse tesouro feito em pasta de papel e tinta impressa, que acrescentam à vida aquilo que por vezes lhes falta, a liberdade de sonhar o proibido e de lhe conceder uma carta de alforria com valor universal.

Uma das regras básicas das resenhas críticas consiste em evitar falar na morte dos protagonistas ou desvendar mistérios da intriga que possam pôr em causa o interesse dos potenciais leitores. Para tranquilidade de todos nós, a heroína que dá título à obra sobrevive ao Holocausto, mas vê desaparecer muita gente ao seu redor. Só no dia 8 de março de 1942, reza o relato, 3792 prisioneiros do campo familiar BIIb foram gaseados e posteriormente incinerados no crematório III de Auschwitz-Birkenau. Uma cifra assustadora e mesmo assim insignificante, uma gota de água no oceano, se tivermos em atenção o número global de seres humanos sacrificados pela solução final ideada pelo führer de pantomima trágica germânica que varreu o mundo em meados do século passado. Tão distante e tão próximo dos nossos dias, tempos de todas as crises, em que os movimentos neonazis de protesto a um neoliberalismo canibal se fazem sentir cada vez mais intensamente um pouco por todo o lado neste velho continente regido pela divisa da unidade na diversidade. Os nacionalismos recalcados e as xenofobias militantes a ganharem terreno neste campo de batalha circundado pelas doze estrelas douradas em fundo azul da UE.

Dizia-me um alguém plural, pouco afeito aos desafios constantes da leitura, que o texto só teria algum interesse nos capítulos iniciais e finais. Pelo meio seria uma seca completa. Um vazio total de aventuras. Monótono, fastidioso, enfadonho. A ignorância, de facto, continua a ser muito atrevida. Sobretudo quando é proferida em termos categóricos por uma geração que nunca ouviu das precedentes os percursos humanos sempre prontos a quebrar as fronteiras instáveis da inocência juvenil. Claros e escuros, altos e baixos, dia e noite, como tudo na vida que precede a morte. O destino que é feito pelos homens poupou a jovem bibliotecária dum campo de extermínio de desaparecer prematuramente na voragem homicida da Segunda Guerra Mundial. A memória individual duma sobrevivente tornou-se memória coletiva através da escrita. Theresienstadt, Auschwitz-Birkenau e Bergen-Belsen tiveram uma existência real. Os guetos judeus ocuparam mesmo o coração das cidades que ditaram a segregação racial, religiosa e política. O ódio e a violência, o caos e a fome, a solidão e o horror, espalhados em nome de deus ou do diabo fazem parte da nossa herança cultural. Quer queiramos quer não. Ignorá-la não tem o poder de apagá-la.

A extensa narrativa jornalística composta com roupagem novelesca por Antonio G. Iturbe converteu-se em pouco tempo num fenómeno editorial no país vizinho. Tudo aponta para que siga igual caminho entre nós. Um dia destes ainda se arrisca a ser adaptado ao cinema, o modo mais fácil de contar uma história, sem ser incomodado pela leitura de algumas centenas de páginas. Entramos numa daquelas salas raquíticas dum qualquer shopping de bairro, acomodamo-nos confortavelmente num cadeira estofada e deixamos as imitações de vida passar-nos diante dos olhos, enquanto trituramos ruidosamente uma dose gigante de pipocas doces ou salgadas. Duas horas de imagens em movimento e já está. Ponto de vista legítimo que o livre-arbítrio cunhou. Tão legítimo como mergulhar no labirinto das palavras com sentidos ocultos a decifrar no interior dum livro. Uma opção não afasta a outra. Os heróis da imaginação não desistirão de espalhar o seu fascínio ao seu redor. Flashes de faz-de-conta a lembrar-nos que os heróis do dia-a-dia também existem. Nós é que muitas vezes passamos por eles e não os vemos.

NOTA:
Dizem as efemérides de factos acontecidos que se celebra todos os anos, a 27 de janeiro, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, motivo mais do que suficiente para trazer do Pátio das Letras para este espaço o texto que ali publiquei em meados de 2014, visto nunca ser tarde para fazermos um exame de consciência sobre as atrocidades cometidas pela insanidade mental dos homens no passado para que não se voltem a repetir no futuro.

25 de janeiro de 2016

David Ebershoff, as metamorfoses identitárias da rapariga dinamarquesa

«From downstairs, the silence implied a forgiving kiss. Then there was even louder laughter from Greta and Anna, and just as Einar was about to beg them to leave the studio, to let him change out of the dress in peace, Greta said, her voice soft and careful and unfamiliar, “Why don’t we call you Lili?”»
David Ebershoff, The Danish Girl (2000)
As viagens são um excelente meio de promover as aprendizagens. Confirmo o lugar-comum e exemplifico-o com um facto concreto ocorrido há menos dum mês. O acaso dum convite recebido na altura exata levou-me a visitar o Arken, um museu de arte moderna situado nas imediações de Copenhaga. O arquiteto Søren Robert Lund concebeu-o com o aspeto de barco abandonado no cais duma pequena ilha báltica da baía de Køge, elemento cénico já de si significativo a assinalar o processo pessoal de enriquecimento de saberes. O interior reservar-me-ia ainda outras possibilidades de os ampliar à luz das criações estéticas atuais. Fixar-me-ei na exposição retrospetiva de Gerda Wegner (1885-1940), uma pintora cuja existência efetiva me passara totalmente despercebida até então. Admirei os quadros exibidos e prestei atenção aos porme-nores detetados. A representação constante dum mesmo rosto e corpo de mulher moldados ao gosto da Art Déco despertou-me um reparo especial. Regressei ao início da mostra e clarifiquei as ideias. Uma foto legendada da modelo disse-me tratar-se de Einar Wegener (1882-1931), o marido da artista, metamorfoseado em Lili Elbe, por vontade própria e força das circunstâncias. Sem querer, encontrara-me no centro dum caso de transgeneridade mediática ocorrido na passagem dos anos vinte para os trinta. A singularidade vivida pelo casal levaria David Ebershoff a redigir A rapariga dinamarquesa (2000), romance recentemente adaptado ao cinema por Tom Hooper. Lembrei-me nesse instante de ter deixado em casa o livro para ler quando voltasse ao país e de ter planeado ver o filme entretanto estreado a nível mundial.

Cumprida a missão programada de entrar nos meandros do fait-divers por duas vias distintas, apraz-me afirmar que a versão contada em celuloide é bastante fiel à contada por escrito. Impulso de quem visualiza no papel impresso as imagens projetadas no grande ecrã. Convergem no núcleo central dos eventos factuais narrados. Divergem no tratamento dado aos episódios laterais pela ficção. Revi tanto numa narrativa como noutra alguns dos espaços pisados pelos dois protagonistas do drama, transformados em atores involuntários duma peça da vida real. Cenários expressamente compostos, de modo verosímil e convincente, para interpretar as ambiguidades identitárias com que a vida os juntou/afastou. Tablados teatrais onde foram obrigados a representar uma duplicidade de papéis que lhes granjearia junto do público sedento de insólito uma celebridade inesperada para além da própria morte. Desci na Estação Central de Copenhaga, passei junto ao Tivoli, atravessei a Rådhuspladsen e dirigi-me à Casa da Viúva, localizada nas imediações do Nyhavnskanalen e do Kongens Nytorv, paredes-meias com os palácios de Amalienborg e Rosenborg Slot. Revi-me em Paris a percorrer os Marais, a passear-me pelos jardins do Luxembourg e das Tuileries, a cruzar os quarteirões do Boulevar Sebastopol a norte de Les Halles Centrales e a dirigir-me para o refúgio da Casinha dos heróis/anti-heróis da fábula. Até me imaginei na Schloßplatz e no Brühlsche de Dresden, a observar o Elba através da Varanda da Europa e a vislumbrar, uma derradeira vez, as figuras de Henrick, Anna, Carlislie, Hans, Greta e Einar-Lili, enquanto degustava, muito lentamente, um chocolate alemão comprado na Under den Linden de Berlim. Miragens virtuais com que os textos se tecem e entrelaçam.

Descidas as cortinas da boca de cena e apagadas as luzes da ribalta, o romancista americano traz para o proscénio uma nota de autor, onde afirma ter composto uma obra de imaginação livremente idealizada a partir de dados efetivamente ocorridos. Rastreou os artigos publicados no Politiken e noutros jornais, consultou os diários e cartas de Lili Elbe, editados e publicados por Niels Hover no Man Into Woman (1933). Depois disfarçou nomes, inventou personalidades e deslocou a narrativa para Pasadena, a cidade californiana que o viu nascer. O realizador britânico não enveredou por aí. Centrou-se no essencial e omitiu o acessório. Urdiu a trama sem recorrer à digressão gratuita de intercalar episódios secundários com direito a um happy ending romântico. David Ebershoff remata o relato com o espírito da rapariga dinamarquesa a ser levado nas asas dum papagaio de papel. Tom Hooper oferece-lhe um trespasse tranquilo na Clínica Municipal para Mulheres da capital do estado germânico da Saxónia. Com uma maior ou menor dose de fantasia cor-de-rosa, exigida pelos interesses comerciais envolvidos na conversão dos livros em best-sellers e dos filmes em candidatos a Oscars, a ironia trágica da figura charneira que os inspirou e lhes deu forma entra em cena. No final das deambulações, o pintor-modelo que nasceu homem com uma mulher dentro de si vê a morte arrebatar-lhe a liberdade que a vida lhe dera por momentos. Capricho do destino que nos faz esquecer da história verdadeira das pessoas reais que deram corpo às personagens idealizados na tela, no celuloide e no papel. Segredo insondável que os deuses terão ciosamente guardado para si e que um dia destes talvez resolvam revelar para satisfação dos mais curiosos ou ávidos de sensações fortes a roçar o escândalo.

20 de janeiro de 2016

Cara ou Coroa

MUSEU DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
Galeria dos Presidentes - Foto de Daniel Monteiro

Portugal vai a votos para eleger o próximo presidente da república. Durante séculos de monarquia, a passagem do testemunho fez-se de pai para filho, de avô para neto, de irmão para irmão ou mesmo de primo para primo e de tio para sobrinho. Em casos especiais, e na ausência de descendente varão, de pai ou tio para filha ou sobrinha. Sempre no seio da mesma família. Borgonhas, Avises, Áustrias, Braganças. Rei morto, rei posto. Sem obrigar os leais súbditos à maçada de escolher o candidato da sua preferência.

O primeiro Afonso da lista usou sucessivamente as coroas de prín-cipe, conde, duque e rei. À distância de sete séculos e quatro di-nastias, o último João ainda cingiu a coroa imperial que compartiu com o penúltimo Pedro. Por pouco tempo e a título honorífico. É verdade. Mas nem por isso deixou de o fazer. Com toda a fide-líssima majestade exigido pelo cargo. Tudo por vontade soberana sua e consentimento submisso dos povos. Proprietário hereditário de senhorios, principados, condados, ducados, reinos e impérios.

O Cata-vento, a Intriguista e o Soldado-raso preparam-se para jogar o cara-ou-coroa numa primeira volta de sufrágio universal e direto. Os cognomes não são meus. São os epítetos com que se gladiaram nos reality shows televisivos. Em tempo de presidentes, os apodos aplicados aos substitutos da Múmia de Belém ainda insistem no registo sangue-azul de rei dos órgãos de comuni-cação, de rainha das redes sociais e de príncipe de todas as áreas. Velhos hábitos que o humor à portuguesa lá vai gerindo e digerindo.

15 de janeiro de 2016

Uma pedra no assunto...

ÓSTRACO DE MÉGACLES (486/ AEC)

Museu da Ágora de Atenas - Stoa de Attalus

(foto: Giovanni Dall'Orto, 2009)


Atenas conheceu no século V AEC um dos mais eficientes métodos de punição cívica. Condenar ao banimento ou exílio todo e qualquer indivíduo que pusesse em risco as leis da cidade. Foi criado por Clístenes, o pai da democracia, tinha a duração de 10 anos e dava pelo nome de ostracismo. Para tal, bastava escrever o nome do alegado infrator num fragmento de cerâmica chamado óstraco e deixá-lo na ágora para ser votado pela eclésia.

O método parece ter sido eficaz. Caso contrário não teria resistido à voragem do tempo e chegado até nós. O princípio que o rege foi adaptado aos nossos dias e continua a ser aplicado sempre que o desejo imperioso de calar alguém assim o exige. Os mass media da nossa praça são exímios nessa prática ancestral. Vedam os canais informativos que controlam ao alvo a abater e o apagamento dá-se. A memória é curta e quem não aparece esquece.

A vontade de pôr uma pedra num assunto ou de mandar certa gente às urtigas perfila-se-me por vezes no horizonte. Sobretudo quando se está no início do ano novo e a tradição de deitar os trastes velhos pela janela fora passou de modaOlhar e ver à transparência, ouvir e fazer orelhas de mercador, cheirar à distância e passar ao largo é um remédio santo. Ostracismo adequado para quem quer ser senhor do silêncio e recusa ser escravo das palavras.

11 de janeiro de 2016

A dupla personalidade


O homicídio

Regressando do psiquiatra, o homem estendeu-se na cama, pensativo. Algumas horas depois tomou uma decisão.

Levantou-se, foi à cozinha, agarrou numa faca de cortar carne, dirigiu-se novamente ao quarto e olhou a cama. Em seguida, com determinação, foi-se aproximando.

Perto da cabeceira parou, fitando o homem negligentemente estendido no leito. Tinha um belo rosto feminino, um corpo frágil e branco, olhos levemente sombreados, as unhas finas e envernizadas, um ar lascivo e gentil, simultaneamente recatado e sensual.

Levantou a faca e, cerrando os olhos, cravou-a violentamente no peito do homem. Um jato de sangue espirrou para cima dos lençóis e inundou-lhe a face.

Lentamente, largou a faca e deixou-se cair sobre a alcatifa. Uma agradável sensação de alívio começava a invadi-lo.

Acabava de assassinar a sua dupla personalidade.

Orlando Neves, A condecoração (1984) 

6 de janeiro de 2016

Karen Blixen, a quinta africana da baronesa escandinava

«Hun havde en farm i Afrika ved foden af bjerget Ngong...»
Karen Blixen, Den afrikanske farm (1937)
Quando estive em Copenhaga pela primeira vez, em meados da década de oitenta, a cidade ainda guardava alguns vestígios do esplendor hollywoodesco com que se vestira por altura da estreia do filme de Sydney Pollack, Out of Africa (1985). As réplicas ao guarda-roupa supersofisticado vestido por Meryl Streep, quando encarnou a figura da baronesa sueca nascida dinamarquesa, ainda luziam como rescaldo de luxo nas vitrinas de alguns magasins de moda com apetência para os universos dum certo chic revivalista com laivos de sangue azul. As livrarias ainda expunham em locais de destaque exemplares do bestseller transposto com grande sucesso de bilheteira para o grande ecrã. Resisti durante muito tempo a fazer uma leitura sistemática do meio milhar de páginas que serviram de suporte à versão cinematográfica do texto de Isak Dienesen, pseudónimo de Karen Blixen, traduzido para português com o título algo desviante de África minha (1937). O receio de quebrar o fascínio das imagens captadas pelo realizador norte-americano esteve na origem deste longo afastamento da versão literária da obra. Fi-lo agora de fio-a-pavio, com proveito e deleite, motivado por mais uma visita aos espaços escandinavos onde a história da «Quinta Africana» foi escrita.

Terminada a revisitação do mais conhecido livro da escritora aristocrata, que entre 1914 e 1931 teve uma plantação de café no Quénia, apetece-me dizer que a etiqueta geralmente usada de romance para a definir foge um pouco ao conceito genérico documentado nos manuais académicos de teoria literária. Nesses dezassete anos que passou na antiga colónia britânica, teve oportunidade de contactar uma realidade bem diferente da experimentada no ambiente europeu natal e de os registar num conjunto heterogéneo de microrrelatos, posteriormente reunidos num volume único de recordações nostálgicas vividas na vizinhança das tribos nativas de masais, kikuyus, wakambas e karivondos, no convívio com as comunidades imigrantes de somalis, indianos, núbios e árabes, na companhia de eventuais visitantes do hemisfério norte de passagem mais ou menos prolongada pelo hemisfério sul. Na tranquilidade bucólica da mansão familiar de Rungstedlund, situada nas proximidades do mar Báltico, distribui o manancial recolhido por três partes ou secções temáticas distintas, ainda que complementares entre si. Uma montagem cuidadosa de sequências devidamente legendadas, para dar uma maior e melhor visibilidade às histórias compiladas.

As dezassete reflexões multiculturais que abrem a tessitura narrativa centram-se no desenho de cenários captados pelos sentidos atentos da recoletora de flashes de vida real testemunhados. A aceção etimológica do ato de descrever é atualizado e ampliado a cada momento. A grande preocupação de transmitir aos recetores é levada às últimas consequências. Vemos, ouvimos e cheiramos as imagens, sons e odores vistos, ouvidos e cheirados pela observadora branca em terra de negros. A mancha gráfica é preenchida sinestesicamente com os carateres tipográficos com que as mensagens são transmitidas. Linha-após-linha. Incessantemente. Rios, montanhas, vales e lagos. Plantações, florestas, flora e fauna. Homens, mulheres, crianças e velhos. Episódios de caça e episódios do dia-a-dia. Convocados todos eles por igual. Elementos fundamentais para dar alma ao relato e pintar com palavras um painel de paisagens averbadas na lembrança.

O alinhamento prossegue com trinta e duas Notas duma emigrante. Digressões breves de poucos parágrafos sobre tudo e todos. Nada escapa ao olhar clínico e pena ágil da autora. Um entreato apropriado para ligar os sucessos compostos de factos feitos e refeitos no papel. Trivialidades quotidianas a assinalarem a sua passagem rápida pela propriedade rural situada junto ao Ngong, na linha do Equador, nas proximidades das falhas do Rift e gelos do Kilimanjaro. Observações rápidas a anteceder a despedida definitiva do continente que serviu de berço à humanidade. Adeus lhe chama e é composto por cinco únicos fragmentos de despedida compulsiva da terra de adoção que um dia quis que fosse a sua. As leis da oferta e da procura recusaram-no. A venda da fazenda impôs-se e o regresso à terra onde viera ao mundo perfilou-se no horizonte. A aventura tinha chegado inexoravelmente ao fim. Sem apelo nem agravo. Depois chegaria o momento de dar corpo a uma crónica composta por muitos e variados contos dignos de memória futura. A vida pessoal chamada à colação pelo filme está afastado do livro. Nada de divórcios conjugais, nada de ligações amorosas. O barão Bro von Blixen-Finecke é aludido de passagem como marido e sem direito a registo de nome. O caçador Denys Finche Halton protagoniza uma mão cheia de faits-divers sempre com a etiqueta de amigo e nada mais. Os pormenores românticos terão de ser procurados noutros registos. Os curiosos da literatura cor-de-rosa que o façam. Eu fico-me por aqui. E já está.

4 de janeiro de 2016

Faça-se luz!

FIRECRACKER 

I Begyndelsen skabte Gud Himmelen og Jorden. | Og Jorden var øde og tom, og der var Mørke over Verdensdybet. | Men Guds Ånd svævede over Vandene. | Og Gud så, at Lyset var godt, og Gud satte Skel mellem Lyset og Mørket,
GENESIS 1:1-4
Os festejos vikings da passagem de ano iniciam-se mais cedo na Dinamarca. Logo após a consoada, o fogo-de-artifício começa a estalar nos jardins particulares e nos arruamentos públicos que lhes dão acesso. Preso, rasteiro, solto. Três a cinco segundos no máximo. Efémero. O tempo duma dúzia de estalidos ruidosos. A luz surge no meio duma nuvem de fumo a cheirar a pólvora queimada. E todos ficam felizes com estas sinestesias sentidas à distância.

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Diz o ditado cheio de razão. Depois São Silvestre chega e as bordbombs caseiras entram em cena. Heróis duma peça singular representada no enterro do ano-velho. Pequenos, médios, grandes. Cuspidores de serpentinas coloridas. Barulhentas. Iluminadas pelos relâmpagos dos foguetes lançados no exterior. Incessantes. Convite para beber um glögg bem quente e ir assistir ao espetáculo ao ar vivo.

Trovoada festiva desde as quatro horas da tarde. Sem parar até que a noite se faça dia outra vez. E os céus do país da Sereiazinha, do Patinho feio e da Menina dos fósforos acendeu-se como no princípio bíblico dos tempos. Haja luz! E fez-se luz... E as trevas foram derrotadas. Estrondosamente. Em miríades de estrelas-cadentes a anunciar o ano-novo. E o espumante explodiu. Exuberante. Comeram-se as doze passas e desejou-se Godt Nytår.