27 de janeiro de 2016

Antonio G. Iturbe, os livros vivos e de papel da bibliotecária de Auschwitz

«–Buenos días. Soy Edita Adlerova. Tenemos una biblioteca de ocho libros en papel y media docena de libros vivientes.»
Antonio G. Iturbe, La bibliotecaria de Auschwitz (2012)
Quando a palavra biblioteca surge no horizonte das hipóteses a eleger pelo discurso, associamo-la sem pestanejar a grandes espaços labirínticos, forrados de estantes e cercados de livros por todos os lados. A atualização das ideias verbalizadas tem destes automatismos. A realidade pode ser outra bem distinta. Antonio G. Iturbe demonstra-o à saciedade n’ A bibliotecária de Auschwitz (2012), romance-reportagem edificado com materiais factuais unidos pela argamassa da ficção. No campo de extermínio nazi mais ativo concebido pelo Terceiro Reich alemão, existiu uma biblioteca infantil clandestina constituída por oito exemplares manuseáveis e um número indeterminado doutros guardados na memória viva dos seus habitantes forçados. As histórias reunidas pelo compilador externo da fábula estão centradas em Edita Adlerova, jovem judia checa nascida em Praga, de 14 anos de idade, nomeada guardiã desse tesouro feito em pasta de papel e tinta impressa, que acrescentam à vida aquilo que por vezes lhes falta, a liberdade de sonhar o proibido e de lhe conceder uma carta de alforria com valor universal.

Uma das regras básicas das resenhas críticas consiste em evitar falar na morte dos protagonistas ou desvendar mistérios da intriga que possam pôr em causa o interesse dos potenciais leitores. Para tranquilidade de todos nós, a heroína que dá título à obra sobrevive ao Holocausto, mas vê desaparecer muita gente ao seu redor. Só no dia 8 de março de 1942, reza o relato, 3792 prisioneiros do campo familiar BIIb foram gaseados e posteriormente incinerados no crematório III de Auschwitz-Birkenau. Uma cifra assustadora e mesmo assim insignificante, uma gota de água no oceano, se tivermos em atenção o número global de seres humanos sacrificados pela solução final ideada pelo führer de pantomima trágica germânica que varreu o mundo em meados do século passado. Tão distante e tão próximo dos nossos dias, tempos de todas as crises, em que os movimentos neonazis de protesto a um neoliberalismo canibal se fazem sentir cada vez mais intensamente um pouco por todo o lado neste velho continente regido pela divisa da unidade na diversidade. Os nacionalismos recalcados e as xenofobias militantes a ganharem terreno neste campo de batalha circundado pelas doze estrelas douradas em fundo azul da UE.

Dizia-me um alguém plural, pouco afeito aos desafios constantes da leitura, que o texto só teria algum interesse nos capítulos iniciais e finais. Pelo meio seria uma seca completa. Um vazio total de aventuras. Monótono, fastidioso, enfadonho. A ignorância, de facto, continua a ser muito atrevida. Sobretudo quando é proferida em termos categóricos por uma geração que nunca ouviu das precedentes os percursos humanos sempre prontos a quebrar as fronteiras instáveis da inocência juvenil. Claros e escuros, altos e baixos, dia e noite, como tudo na vida que precede a morte. O destino que é feito pelos homens poupou a jovem bibliotecária dum campo de extermínio de desaparecer prematuramente na voragem homicida da Segunda Guerra Mundial. A memória individual duma sobrevivente tornou-se memória coletiva através da escrita. Theresienstadt, Auschwitz-Birkenau e Bergen-Belsen tiveram uma existência real. Os guetos judeus ocuparam mesmo o coração das cidades que ditaram a segregação racial, religiosa e política. O ódio e a violência, o caos e a fome, a solidão e o horror, espalhados em nome de deus ou do diabo fazem parte da nossa herança cultural. Quer queiramos quer não. Ignorá-la não tem o poder de apagá-la.

A extensa narrativa jornalística composta com roupagem novelesca por Antonio G. Iturbe converteu-se em pouco tempo num fenómeno editorial no país vizinho. Tudo aponta para que siga igual caminho entre nós. Um dia destes ainda se arrisca a ser adaptado ao cinema, o modo mais fácil de contar uma história, sem ser incomodado pela leitura de algumas centenas de páginas. Entramos numa daquelas salas raquíticas dum qualquer shopping de bairro, acomodamo-nos confortavelmente num cadeira estofada e deixamos as imitações de vida passar-nos diante dos olhos, enquanto trituramos ruidosamente uma dose gigante de pipocas doces ou salgadas. Duas horas de imagens em movimento e já está. Ponto de vista legítimo que o livre-arbítrio cunhou. Tão legítimo como mergulhar no labirinto das palavras com sentidos ocultos a decifrar no interior dum livro. Uma opção não afasta a outra. Os heróis da imaginação não desistirão de espalhar o seu fascínio ao seu redor. Flashes de faz-de-conta a lembrar-nos que os heróis do dia-a-dia também existem. Nós é que muitas vezes passamos por eles e não os vemos.

NOTA:
Dizem as efemérides de factos acontecidos que se celebra todos os anos, a 27 de janeiro, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, motivo mais do que suficiente para trazer do Pátio das Letras para este espaço o texto que ali publiquei em meados de 2014, visto nunca ser tarde para fazermos um exame de consciência sobre as atrocidades cometidas pela insanidade mental dos homens no passado para que não se voltem a repetir no futuro.

2 comentários:

  1. Concordo inteiramente com a sua crítica. O cinema não substitui a literatura e tanto assim é que quando um livro é bom, dificilmente o cinema o consegue acompanhar. Mesmo quando tem um enredo muito cinematográfico. Estou a lembrar-me dos elogios tecidos por Italo Calvino ao 'Candide ou o otimismo' pela sequência constante e rápida de situações que o livro apresenta e que geram uma comicidade idêntica às do cinema no tempo dos grandes cómicos do mudo. Mas ficará assim tudo dito? Creio bem que não. Isto sem dizer que o cinema não pode ser profundo. É-o muitas vezes, basta pensarmos em Ingmar Bergman, são é duas linguagens diferentes...

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  2. Eu acho que o nº de filmes que desmerece os livros dos quais foram adaptados, é superior ao seu inverso, contudo, o "problema", eu acho que é um grande "problema", reside no facto das pessoas não serem capazes de parar e apreciar a solidão quando estamos a ler um livro. Não conseguem estar em sua própria companhia. É trágico! O texto é bom e acicata-nos a vontade de ler a obra.

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