6 de janeiro de 2016

Karen Blixen, a quinta africana da baronesa escandinava

«Hun havde en farm i Afrika ved foden af bjerget Ngong...»
Karen Blixen, Den afrikanske farm (1937)
Quando estive em Copenhaga pela primeira vez, em meados da década de oitenta, a cidade ainda guardava alguns vestígios do esplendor hollywoodesco com que se vestira por altura da estreia do filme de Sydney Pollack, Out of Africa (1985). As réplicas ao guarda-roupa supersofisticado vestido por Meryl Streep, quando encarnou a figura da baronesa sueca nascida dinamarquesa, ainda luziam como rescaldo de luxo nas vitrinas de alguns magasins de moda com apetência para os universos dum certo chic revivalista com laivos de sangue azul. As livrarias ainda expunham em locais de destaque exemplares do bestseller transposto com grande sucesso de bilheteira para o grande ecrã. Resisti durante muito tempo a fazer uma leitura sistemática do meio milhar de páginas que serviram de suporte à versão cinematográfica do texto de Isak Dienesen, pseudónimo de Karen Blixen, traduzido para português com o título algo desviante de África minha (1937). O receio de quebrar o fascínio das imagens captadas pelo realizador norte-americano esteve na origem deste longo afastamento da versão literária da obra. Fi-lo agora de fio-a-pavio, com proveito e deleite, motivado por mais uma visita aos espaços escandinavos onde a história da «Quinta Africana» foi escrita.

Terminada a revisitação do mais conhecido livro da escritora aristocrata, que entre 1914 e 1931 teve uma plantação de café no Quénia, apetece-me dizer que a etiqueta geralmente usada de romance para a definir foge um pouco ao conceito genérico documentado nos manuais académicos de teoria literária. Nesses dezassete anos que passou na antiga colónia britânica, teve oportunidade de contactar uma realidade bem diferente da experimentada no ambiente europeu natal e de os registar num conjunto heterogéneo de microrrelatos, posteriormente reunidos num volume único de recordações nostálgicas vividas na vizinhança das tribos nativas de masais, kikuyus, wakambas e karivondos, no convívio com as comunidades imigrantes de somalis, indianos, núbios e árabes, na companhia de eventuais visitantes do hemisfério norte de passagem mais ou menos prolongada pelo hemisfério sul. Na tranquilidade bucólica da mansão familiar de Rungstedlund, situada nas proximidades do mar Báltico, distribui o manancial recolhido por três partes ou secções temáticas distintas, ainda que complementares entre si. Uma montagem cuidadosa de sequências devidamente legendadas, para dar uma maior e melhor visibilidade às histórias compiladas.

As dezassete reflexões multiculturais que abrem a tessitura narrativa centram-se no desenho de cenários captados pelos sentidos atentos da recoletora de flashes de vida real testemunhados. A aceção etimológica do ato de descrever é atualizado e ampliado a cada momento. A grande preocupação de transmitir aos recetores é levada às últimas consequências. Vemos, ouvimos e cheiramos as imagens, sons e odores vistos, ouvidos e cheirados pela observadora branca em terra de negros. A mancha gráfica é preenchida sinestesicamente com os carateres tipográficos com que as mensagens são transmitidas. Linha-após-linha. Incessantemente. Rios, montanhas, vales e lagos. Plantações, florestas, flora e fauna. Homens, mulheres, crianças e velhos. Episódios de caça e episódios do dia-a-dia. Convocados todos eles por igual. Elementos fundamentais para dar alma ao relato e pintar com palavras um painel de paisagens averbadas na lembrança.

O alinhamento prossegue com trinta e duas Notas duma emigrante. Digressões breves de poucos parágrafos sobre tudo e todos. Nada escapa ao olhar clínico e pena ágil da autora. Um entreato apropriado para ligar os sucessos compostos de factos feitos e refeitos no papel. Trivialidades quotidianas a assinalarem a sua passagem rápida pela propriedade rural situada junto ao Ngong, na linha do Equador, nas proximidades das falhas do Rift e gelos do Kilimanjaro. Observações rápidas a anteceder a despedida definitiva do continente que serviu de berço à humanidade. Adeus lhe chama e é composto por cinco únicos fragmentos de despedida compulsiva da terra de adoção que um dia quis que fosse a sua. As leis da oferta e da procura recusaram-no. A venda da fazenda impôs-se e o regresso à terra onde viera ao mundo perfilou-se no horizonte. A aventura tinha chegado inexoravelmente ao fim. Sem apelo nem agravo. Depois chegaria o momento de dar corpo a uma crónica composta por muitos e variados contos dignos de memória futura. A vida pessoal chamada à colação pelo filme está afastado do livro. Nada de divórcios conjugais, nada de ligações amorosas. O barão Bro von Blixen-Finecke é aludido de passagem como marido e sem direito a registo de nome. O caçador Denys Finche Halton protagoniza uma mão cheia de faits-divers sempre com a etiqueta de amigo e nada mais. Os pormenores românticos terão de ser procurados noutros registos. Os curiosos da literatura cor-de-rosa que o façam. Eu fico-me por aqui. E já está.

1 comentário:

  1. Vi o filme muito antes de ler o livro e revejo-o frequentemente, presa da mesma magia. O écran delicia-nos com o colorido das paisagens maravilhosas, de raças de costumes exóticos, da integração histórica da vivência da baronesa. A leitura do livro pintou-me com cores mais vivas a vida da nórdica em terras africanas, que o filme temperou com a envolvente romântica, como é geralmente costume na adaptação de enredos ao écran. Achei fantástica a descrição em palavras de uma vida que não se sujeitou a nada, a não ser ao azar da ruína financeira, e na qual os homens ocuparam um lugar mais secundário do que os acontecimentos em África.

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