29 de fevereiro de 2016

As arcas do dilúvio universal

L'Arche de Noé
[Saint-Savin sur Gartempe - Abbaye St-Savin et St-Cyprien]
EPÍGRAFE 1: Epopeia do Grande Sábio (c. 1800 AEC: III, i, 20-24)
«Parede, escuta-me com atenção! | Cabana, nota todas as minhas palavras! | Separa-te da tua casa, constrói um barco! | Despreza os bens, conserva a tua vida!»
EPÍGRAFE 2: Grande Dilúvio da Bíblia (c. 800 AEC: Gn. 6, 14)
«Constrói uma arca de madeiras resinosas. Dividi-la-ás em compar-timentos e calafetá-las-ás com betume, por fora e por dentro.»
Li há dias, num testemunho tornado público na netosfera das reali-dades virtuais, ser o Gilgamesh um poema de autor desconhecido e inúmeras versões, que nos conta a lenda dum rei sumério semidivi-no e do seu encontro com o semi-humano Enkidu. Frisava-se aí, também, a referência a situações bíblicas concretas, como a cria-ção do mundo e o dilúvio universal. O confronto entre os dois relatos torna-se particularmente interessante e explosivo, dado que a epo-peia mesopotâmica primitiva foi composta cerca de mil anos antes da compilação hebraica do livro sagrado por excelência dos três mo-noteísmos de expressão planetária.

Quando a escrita cuneiforme começou a ser decifrada em cascata no início do séc. xix, depois de ter estado fechada sobre si mesma cerca de dois milénios, os seguidores das religiões abraâmicas en-traram literalmente em choque. Afinal a Torah do povo eleito não era a mais antiga coleção de ensinamentos divinos dados a revelar aos mortais. A arca de Noé havia sido precedida pela barca de Atra-hasis. Os versículos do Génesis hebraico resumiam-se a uma va-riante tardia dos versos do Supersábio sumério. O mais inquietante é que todos esses poemas estavam centrados numa imensidade de deuses e não dum só em particular.       

Os paralelismos existentes nos textos cotejados não se confina aos episodios destacados. Muitos outros haveria a arrolar para testar a sua origem comum. As terras banhadas pelo Tigre e Eufrates. A in-venção da escrita permitiu que a memória coletiva guardada pelos povos dos dilúvios ocorridos no final da última glaciação, há dez mil anos, se convertesse num conjunto de mitos assírio-babilónicos e judaico-cristãos indeléveis. Depois o homem descobriu ter criado os deuses à sua imagem e semelhança. A dimensão religiosa dá lugar à literária. E o processo de humanização de Abraão, Noé, Atrahasis, Enkidu e Gilgamesh entrava em cena.

25 de fevereiro de 2016

James Joyce, a busca de identidade do jovem artista

«Once upon a time and a very good time it was there was a moocow coming down along the road and this moocow that was coming down along the road met a nicens little boy named baby tuckoo...»
James Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man (1914)
Há livros que antes de serem lidos já ocupam um lugar privilegiado no nosso universo de referências bibliográficas. Vêm precedidos pelo carisma granjeado pelo autor ao longo dos tempos e pelos juízos de valor dos críticos de serviço. Aos simples mortais amantes da literatura, a tarefa da descoberta pessoal desses relatos compostos com engenho e arte torna-se particularmente difícil. E como de obras-últimas não rezam as sebentas escolares, toda a nossa atenção acaba por se centrar nas obras-primas impostas ex cathedra pelas diretivas oficiais do poder instituído. Tenho uma certa aversão à canonização incondicional de manual académico ou de contracapa de reedição especial. Encaro esse tipo de sacralização a contragosto. Pergunto-me onde fica afinal o livre-arbítrio de decidir sem a pressão exercida pela predestinação dogmática da intelligentzia disseminadora de cultura à escala planetária.

Levei alguns anos a penetrar nos meandros diegéticos criados por James Joyce. Tive alguma dificuldade em percorrer os trilhos traçados no território por um romancista que estava condenado a demonstrar a sua genialidade inigualável em cada título publicado. Preferi viajar pelas nações, províncias e localidades dos restantes criadores a quem é consentido pisar o mesmo chão que eu piso sem ter necessidade de me pôr em pontas de pés ou dobrar-me de joelhos perante tanta genialidade. Alguém a quem omito o nome por pudor afirmou num ensaio necessariamente brilhante que só os estúpidos é que tinham dificuldade em entender a tessitura narrativa do Ulisses (1922). Achei a tirada impressionista de mau gosto e não me deixei impressionar com a provocação. Contive por algum tempo a curiosidade de seguir as errâncias de dezasseis horas de Leopoldo Bloom pelas dezanove ruas da cidade de Dublim, nesse dia 16 de junho de 1904, depois transformado nas festividades do Bloomsday. Uma viagem oportuna à Irlanda e um conhecimento mais consistente da Odisseia de Homero levou-me a entrar, finalmente, na intimidade do protagonista dum dos tais romances por excelência do século xx. A minha peregrinação pelos locais destacados na ficção ajudaram-me a compreender melhor alguns dos sentidos escondidos na escrita.

Acabo de encetar a minha segunda incursão nos domínios do mais consagrado inventor de histórias imaginadas com base em histórias acontecidas. Fi-lo pela mão de Stephen Dedalus, protagonista do Retrato do artista quando jovem (1914). Dizem os especialistas tratar-se dum verdadeiro autorretrato da infância, adolescência e juventude do autor. Relato pormenorizado dos mais significativos momentos existenciais do retratado e da sua passagem sucessiva pelo Clongowes Woods College de Kildare e pelos Irish Christian Brothers, Belvedere College e University College de Dublin. Romance de aprendizagem dum indivíduo que nunca se cansa de procurar a sua identidade de ser humano nos labirintos matriciais da cultura judaico-cristã de desenho católico-jesuítico. Percurso de formação feito, também, na intimidade familiar marcada por uma progressiva decadência económica a roçar a pobreza e no ambiente citadino povoado de tentações pecaminosas oferecidas a cada esquina. A procura da verdade leva-o, inexoravelmente, a uma rotura completa com a Igreja e à descoberta salvadora duma via artística alternativa. É assim que o vamos encontrar nos quatro capítulos iniciais da epopeia irlandesa dos nossos dias feita por Joyce à medida de Homero. O encontro do jovem Telémaco com o veterano Ulisses estava assegurada. Altura também de passar o testemunho duma personagem para a outra, dos verdes anos explanados num relato para os tempos de maturidade convocados num outro. E assim o processo de formação dum alter-ego literário tomou forma e se transformou num modelo de referência obrigatória na república das letras.

Lidos os livros e superados os obstáculos de percurso, posso afirmar que o balanço resulta positivo. Estou também apto para declarar que a obra máxima da modernidade literária europeia não é a obra da minha vida. Mas, mesmo assim, teve o condão de pintar a minha existência com cores, matizes e tonalidades mais claras. Deu asas à minha imaginação. Permitiu-me voar mais alto. Como Ícaro e Dédalo dos mitos gregos ao libertarem-se do Labirinto de Creta. Ajudou-me a transformar o cinzento-abissal em azul-celestial e a preparar a mente para habilidades desconhecidas. Tal como regista Ovídio nas Metamorfoses e Joyce repete no Retrato. Epígrafe inicial prestimosa de amigo e aviso precioso de navegante. E assim se enriquecem os horizontes estéticos com que o mundo se pode vestir, e a prosa se faz poesia e a arte se faz caminho.

20 de fevereiro de 2016

Umberto Eco, o cemitério de Praga e os labirintos da história

«L'odio è la vera passione primordiale. È l'amore che è una situazione anomala. Per questo Cristo è stato ucciso: parlava contra natura. Non si ama qualcuno per tutta la vita, da questa speranza impossibile nascono adulterio, matricidio, tradimento dell'amico... Invece si pùo odiare qualcuno per tutta la vita. Purché sia sempre là a rinfocolare il nostro odio. L'odio riscalda il cuore.»
Umberto Eco, Il Cimitero di Praga (2010)
Recordo com alguma precisão os tempos que precederam o lançamento do romance inaugural de Umberto Eco entre nós. As notícias foram-me chegando a conta-gotas e via académica através duma amiga minha e discípula do conhecido semiólogo italiano, o tal que ousara aventurar-se nos difíceis sendeiros da ficção histórica de debuxo policial. O mais fascinante d’O nome da rosa (1980) residia no facto singular de se trazer à luz do dia a descoberta do segundo livro perdido da Poética de Aristóteles, aquele que falava da comédia e do riso, modalidade dramática e atitude humana pouco apreciadas pela matriz judaico-cristã ortodoxa então imperante, mais vocacionada para os efeitos penitenciais e catárticos da tragédia e do choro. Seguiram-se-lhe outros títulos sempre sugestivos, de êxito editorial abonado e leitura estimulante assegurada. As temáticas abordadas estarão na origem deste fenómeno inusitado de bestsellers produzidos em cadeia e a nível global. A polémica filosófica do nominalismo escolástico e religiosa da cabala templária, os mistérios herméticos do ponto fixo da terra e do cosmos, as lendas-mitos medievais do Santo Graal arturiano e do Reino do Prestes João das Índias…

O cemitério de Praga (2010) é a sexta obra da série e centra-se, como as anteriores, na recriação dum momento preciso de rutura do devir histórico da Europa em geral e da Itália em particular, concretizada no processo de unificação do país, promovido à revelia do Congresso de Viena (1814-1815) e sob os auspícios da Casa de Saboia. O espaço cénico, mazzimiano e garibaldista, republicano e maçónico, carbonário e revolucionário, está todo documentado nas páginas da efabulação, labirinto de fragmentos narrativos centrados no protagonista e única personagem inventada do enredo, ilustrados com imagens da época para dar uma maior visibilidade ao relato e instrução do leitor. A informação é-nos dada pelo próprio autor e nada nos leva a duvidar da sua veracidade, muito embora esteja ancorada num texto final de «inúteis explicações eruditas» e desenhada num contexto de incontornável traçado irónico. A forma literária selecionada para dispor os factos passa pelos excertos caóticos dum diário pessoal composto pelo herói/anti-herói convocado, que, movido por uma convencional dupla personalidade, o redige em nome ora do falsário Simone Simonini ora do abade Dalla Picolla. O verso e o reverso, em suma, duma mesma entidade romanesca, marcada ao longo de todo o discurso por uma alegada «euforia amnésica» e não menor «rememoração disfórica».

Gizada à boa feição romântica do folhetim jornalístico de recorte neogótico e assente num manancial de pseudodocumentos autênticos ou habilmente falsificados, parafraseados ou comentados à exaustão, a relação ficcionada do Risorgimento italiano é também um livro que fala doutros livros, populares todos eles no seu tempo mas mesmo assim caídos no mais profundo e talvez merecido esquecimento. Excetua-se o caso paradigmático d’Os protocolos dos sábios do Sião (1905), publicado em data posterior à cronologia interna do romance, mas cuja génese doutrinária se questiona ao longo de toda a sua conceção diarística. O antissemitismo primário das instâncias narrativas, fruto de preconceitos multisseculares, agudizados por nacionalismos oitocentistas ancorados nos meandros dicotómicos do amor e morte, que o politicamente correto não conseguiu mitigar nos nossos dias de forma adequada, é constante e militante. O desconforto toma conta do leitor, levando-o a confundir os sujeitos internos da enunciação com o próprio autor. Feito prodigioso de Umberto Eco que, só por si, seria suficiente para aconselhar uma incursão atenta à obra que equaciona a teoria da conspiração judaica tecida no cemitério da capital checa e que levaria à conquista hebraica do mundo.

À distância de trinta anos, tantos quantos os que separam a Rosa do Cemitério, com passagens cadenciadas pelo Pêndulo e Ilha, Baudolino e Loana, o universo imagético do romancista-ensaísta mantém-se intacto. A sensação de maravilhamento não será exatamente o mesmo, mas o encanto das palavras ditas com sentido continua inalterado sem sofrer a menor beliscadura. Razão mais do que suficiente para esperar atentamente a vinda dum sétimo grupo criativo de aventuras, enigmas e fantasias, para que um ciclo simbólico da totalidade humana se feche e abra caminho a outros mais.

NOTA:
Soube hoje logo pela manhã da morte de Umberto Eco, o inventor nato de heróis da imaginação e de outras histórias feitas com palavras plenas de significados. Lembrei-me da minha descoberta dos universos de criação sempre em expansão da república das letras italianas e universais e de ter em tempos escrito umas linhas a esse propósito. Fi-lo no Pátio de Letras a propósito d' O cemitério de Praga e trago-o agora para aqui como testemunho da minha estima pessoal pelo autor e pela obra.

19 de fevereiro de 2016

Mulher reclinada com meias verdes

Egon Schiele, Liegende Frau mit grünen Strümpfen (1917)

LLOSA & SCHIELE: EL JUEGO DE LOS CUADROS


–Qué chistoso, madrasta –dijo Fonchito–. Tus medias verdeoscuras son exactas a las de una modelo de Egon Schiele.

La señora Lucrecia se miró las gruesas medias de lana que abrigaban sus piernas hasta por encima de las rodillas.

–Son buenísimas para la humedad de Lima –dijo, palpándolas–; gracias a ellas, tengo los pies calientitos.

–Desnudo reclinado con medias verdes– recordó el niño–. Uno de sus cuadros más famosos. ¿Quieres verlo?

–Bueno, muéstramelo.

Mientras Fonchito se apresuraba a abrir su bolsón, que, como siempre, había tirado en la alfombra de la salita comedor, la señora Lucrecia sintió el difuso desasosiego que el niño solía transmitirle con esos arranques que siempre le parecían ocultar, bajo su apariencia, algún peligro.

–Qué coincidencia, madrastra– decía Fonchito, mientras hojeaba el libro de reproducciones de Schiele que acababa de sacar del bolsón–. Yo me parezco a él y tú te pareces a sus modelos. En muchas cosas.

–¿En qué, por ejemplo?

–En esas medias verdes, negras o marrones que te pones. También, en la frazada a cuadritos de tu cama.

–Caramba, qué observador.

–Y, por último en la majestad –añadió Fonchito, sin levantar la vista, enfrascado en la búsqueda de Desnuda reclinada con medias verdes. Doña Lucrecia no supo si reírse o burlarse. ¿Se daba cuenta de la rebuscada galantería o le había salido por casualidad?–: ¿No decía mi papá que tienes una majestad tan grande? ¿Que, hagas lo que hagas, nada en ti es vulgar? Yo sólo entendí lo que quería decir gracias a Schiele. Sus modelos se levantan las faldas, muestran todo, se las ve en posturas rarísimas, pero nunca parecen vulgares. Siempre, unas reinas. ¿Por qué? Porque tienen majestad. Como tú, madrastra...
Mario Vargas Llosa, Los cuadernos de don Rigoberto (2006)

14 de fevereiro de 2016

A Fábrica Real de Tabacos de Sevilha em três atos

FÁBRICA REAL DE TABACOS - UNIVERSIDAD DE SEVILLA

ATO 1: Cenário de ópera 

Muito antes de ter visitado pela primeira vez a cidade de Sevilha, já a Fábrica Real de Tabacos fazia parte do meu imaginário pessoal. Via-a como um cenário de ópera. Aquele com que abre o primeiro ato da Carmen de Bizet. A sensibilidade do compositor francês a dar corpo ao espírito espanhol da cigana andaluza. E no ar já ouvia os acordes iniciais do Coro dos Soldados: Sur la place, chacun passe, chacun vient, chacun va; drôles de gens que ces gens-là !...

ATO 2: Roteiro de turista

Quando visitei a cidade de Sevilha pela primeira vez, inclui a Fábrica Real de Tabacos no meu percurso pessoal de primeiro dia. Tinha de ser. ¡Inevitable! ¡Fatal! Institui-a como etapa principal do meu roteiro de turista. Procurei por toda a parte La Carmencita. Mais elle n'était pas là. Só me foi dado ver muitos abanicos, castañuelas, peinetas, mantillas y batas de sevillana nas lojas de recuerdos plantadas estrategicamente nas redondezas. Hélas !...

ATO 3: Sede de reitoria 

Já perdi a conta às vezes que visitei a cidade de Sevilha e a Fábrica Real de Tabacos. Ainda não me cansei. Há sempre recantos inéditos a descobrir. Funciona agora no edifício a sede de reitoria da Universitas Hispalensis. A entrada e saída das tabaqueras foi agora substituído por alumni & magistri de Letras. Ali tenho participado em alguns diálogos ibéricos. Fortuna máxima de quem tem há tantos anos La Ciudad del Nodo en el corazón...

9 de fevereiro de 2016

Tragédias, comédias & carnavais

VASO DI  PRONOMOS (c. 410 AEC )

«Preparazione della recita di un dramma satiresco»
[Museo Archeologico Nazionale di Napoli]

Itinerários dramáticos do hipócrita...
Quando os Hinos dedicados a Dioniso se converteram em Dramas patrocinados pelo filho de Sémele e Zeus, os descendentes de Heleno tinham acabado de criar o teatro ático. Um elemento do coro circular destacou-se do grupo, dirigiu-se ao centro da orquestra, ocupou o local destinado ao deus tutelar dos regressos bem-vindos. Depois, dançou, cantou e falou como se fosse a encarnação da divindade que nascera duas vezes e triunfara da morte. Passaram a chamar-lhe hypokritḗs, aquele que fingia ser o que não era.

Quando ao Canto do Bode se juntou o Canto da Aldeia, os ritos dionisíacos anuais ganharam uma nova forma de escapar à transitoriedade da vida. Os conflitos remotos de deuses e heróis começaram a ombrear com os conflitos atuais dos homens. A representação mítica da Tragédia transformara-se na apresentação realista da Comédia. A superioridade dos imortais é confrontada com a inferioridade dos mortais. A imitação de ações de caráter elevado é completada pela imitação de ações de caráter inferior.

Quando os espetadores se viram cara-a-cara com estes dois modos antagónicos de celebrar a condição humana, hesitaram entre um e outro. Ostracizaram o primeiro e eternizaram o segundo. Adaptaram-no aos novos tempos e inventaram o Carnaval. Durante três dias dá-se livre curso à liberdade catártica de escarnecer os defeitos alheios. A máscara criada por Théspis dá lugar às máscaras do Rei Momo. A res seria sai do palco e a res ridicula entra em cena. Triunfal. Como nos tempos de Dioniso mais conhecido por Baco.

5 de fevereiro de 2016

Karen Blixen, contos de inverno com sabor dinamarquês

«Tragedy should remain the right of human beings, subject, in their conditions or in their own nature, to the dire law of necessity. To them it is salvation and beatification.» 
Karen Blixen, «Sorrow-Acre», IN Winter's Tales (1942)
Entretive-me este inverno a reler os Contos de inverno (1942) e os Novos contos de inverno (1957) de Karen Blixen. Um sol estival em plena estação hibernal. Milagres meteorológicos promovidos pela república das letras. A viagem de revisitação às duas coletâneas de textos, redigidos originalmente em inglês com o pseudónimo de Isak Dinesen, iniciou-se na capital dinamarquesa, na passagem do Natal de 2015 para o Ano Novo de 2016. Boas saídas, melhores entradas. Fi-lo através duma edição avulso de «Uma temporada em Copenhaga», título bem apropriado para avivar a memória dum conjunto de relatos que me foram apresentados há cerca de duas décadas. Encontrei-os a olhar para mim nos expositores da livraria da Rungstedlund, a Casa Museu da autora, situada nas costas bálticas do Øresund com vista para a Suécia. As imagens fixadas por Sydney Pollack na versão filmada do África minha (1985) estavam ainda muito vivas nas minhas retinas, levando-me a testar a facilidade que a protagonista tinha de contar histórias e de cativar os ouvintes com a sonoridade das suas palavras. Quis juntar-me ao auditório, partilhar esse privilégio de sedução verbal e adquiri todos os títulos que ali achei então à minha inteira disposição. 

E a inventora de heróis da imaginação começou logo a segredar-me ao ouvido, em jeito de confidência, o caso dum jovem aprendiz de marujo, que salvou um falcão e foi salvo por uma lapoa; a aventura dum escritor infeliz no porto de Antuérpia, que queria fugir da própria vida; o símbolo misterioso dum colar, que tinha uma pérola suplementar; os artifícios de duas irmãs arruinadas, que se faziam passar por herdeiras de grande fortuna; os atos destemidos duma heroína durante a grande guerra... E mais não me disse nessa altura, porque a contracapa onde lera a síntese desses cinco primeiros relatos se ficara por essas reticências indesejadas. Abandonei o Have og fuglereservat, o jardim e santuário de pássaros que envolve a casa senhorial onde a baronesa escandinava nasceu, morreu e criou todo o seu universo de faz-de-conta, como só ela sabia fazer, entrelaçando de modo indelével o real e o ideado. Apanhei um autocarro e dirigi-me a um sítio tranquilo para iniciar a descoberta completa de todo o manancial literário contido nos volumes impressos em tamanho de bolso que ganhara nessa tarde de verão dinamarquês em tempo de férias boreais. 

Viagem vai, viagem vem, os enredos tão cuidadosamente tecidos foram sendo revelados um a um. Os sonhos grandiosos dum jovem órfão, originados pelas descrições entusiastas duma solteirona; as fantasias duma jovem órfã com nome de protagonista de mito grego; as alusões ao assassinato do rei Eric V, pressagiado por um anel achado na barriga dum peixe; o trajeto de Peter e Rosa pelas águas geladas do Sundo, ao largo do porto de Helsingor, em direção à fronteira invisível entre o mar e o céu, entre a vida e a morte, entre o tudo e o nada; a história trágica duma viúva, que, para salvar o filho da prisão, aceita ceifar um campo de centeio num único dia, quando em situação normal a tarefa exigiria o trabalho de três homens; o longo debate sobre a criação artística e a sua relação com os espetadores, que a transformam numa obra-prima ou numa caricatura digna de lástima. Os argumentos aí estão. Resumidos. Para que a vontade de conhecer os pormenores se não perca. E a resenha nem sequer foi exaustiva. Ficaram ainda alguns por visitar e referir. Estão agrupados na categoria dos últimos contos. Apetece-me destacar aquele que nos exibe uma modalidade muito especial de aplicar a justiça, digna dum drama passional, dum libreto de ópera ou duma história infantil, centrado num jovem rei português não identificado. Obviamente. No universo da literatura tradicional de vocação exemplar, os nomes contam pouco. Depois há ainda um diálogo travado em 1767 por Cristiano VII e Johannes Ewald, o monarca e o poeta dinamarqueses que tanta tinta fariam correr nos tempos conturbados que se lhe seguiram. E fico-me mesmo por aqui. 

Ao longo da visita, perguntei-me várias vezes sobre o significado do título dado ao conjunto destas catorze micronarrativas. O facto de terem sido compostas em ambiente de guerra, quando a contadora nata de contos fazia o percurso dos 57 para os 72 anos de idade, pode ajudar a justificar o inverno como estação específica escolhida. O século XIX, aquele em que veio ao mundo, é chamado à colação para servir de cenário aristocrático ou campesino privilegiado às fábulas, lendas, mitos e histórias trazidas à presença dos leitores-ouvintes como eu. É que, como é referido no corpo da obra, os quadros e os livros são feitos para ser olhados e lidos. Só existem de facto se tiverem espetadores. Caso contrário, a arte deixaria de existir. Destino que as palavras pronunciadas por Karen Blixen (1885-1962) no inverno da sua existência não se arrisca a correr. Nem de longe nem de perto.