5 de fevereiro de 2016

Karen Blixen, contos de inverno com sabor dinamarquês

«Tragedy should remain the right of human beings, subject, in their conditions or in their own nature, to the dire law of necessity. To them it is salvation and beatification.» 
Karen Blixen, «Sorrow-Acre», IN Winter's Tales (1942)
Entretive-me este inverno a reler os Contos de inverno (1942) e os Novos contos de inverno (1957) de Karen Blixen. Um sol estival em plena estação hibernal. Milagres meteorológicos promovidos pela república das letras. A viagem de revisitação às duas coletâneas de textos, redigidos originalmente em inglês com o pseudónimo de Isak Dinesen, iniciou-se na capital dinamarquesa, na passagem do Natal de 2015 para o Ano Novo de 2016. Boas saídas, melhores entradas. Fi-lo através duma edição avulso de «Uma temporada em Copenhaga», título bem apropriado para avivar a memória dum conjunto de relatos que me foram apresentados há cerca de duas décadas. Encontrei-os a olhar para mim nos expositores da livraria da Rungstedlund, a Casa Museu da autora, situada nas costas bálticas do Øresund com vista para a Suécia. As imagens fixadas por Sydney Pollack na versão filmada do África minha (1985) estavam ainda muito vivas nas minhas retinas, levando-me a testar a facilidade que a protagonista tinha de contar histórias e de cativar os ouvintes com a sonoridade das suas palavras. Quis juntar-me ao auditório, partilhar esse privilégio de sedução verbal e adquiri todos os títulos que ali achei então à minha inteira disposição. 

E a inventora de heróis da imaginação começou logo a segredar-me ao ouvido, em jeito de confidência, o caso dum jovem aprendiz de marujo, que salvou um falcão e foi salvo por uma lapoa; a aventura dum escritor infeliz no porto de Antuérpia, que queria fugir da própria vida; o símbolo misterioso dum colar, que tinha uma pérola suplementar; os artifícios de duas irmãs arruinadas, que se faziam passar por herdeiras de grande fortuna; os atos destemidos duma heroína durante a grande guerra... E mais não me disse nessa altura, porque a contracapa onde lera a síntese desses cinco primeiros relatos se ficara por essas reticências indesejadas. Abandonei o Have og fuglereservat, o jardim e santuário de pássaros que envolve a casa senhorial onde a baronesa escandinava nasceu, morreu e criou todo o seu universo de faz-de-conta, como só ela sabia fazer, entrelaçando de modo indelével o real e o ideado. Apanhei um autocarro e dirigi-me a um sítio tranquilo para iniciar a descoberta completa de todo o manancial literário contido nos volumes impressos em tamanho de bolso que ganhara nessa tarde de verão dinamarquês em tempo de férias boreais. 

Viagem vai, viagem vem, os enredos tão cuidadosamente tecidos foram sendo revelados um a um. Os sonhos grandiosos dum jovem órfão, originados pelas descrições entusiastas duma solteirona; as fantasias duma jovem órfã com nome de protagonista de mito grego; as alusões ao assassinato do rei Eric V, pressagiado por um anel achado na barriga dum peixe; o trajeto de Peter e Rosa pelas águas geladas do Sundo, ao largo do porto de Helsingor, em direção à fronteira invisível entre o mar e o céu, entre a vida e a morte, entre o tudo e o nada; a história trágica duma viúva, que, para salvar o filho da prisão, aceita ceifar um campo de centeio num único dia, quando em situação normal a tarefa exigiria o trabalho de três homens; o longo debate sobre a criação artística e a sua relação com os espetadores, que a transformam numa obra-prima ou numa caricatura digna de lástima. Os argumentos aí estão. Resumidos. Para que a vontade de conhecer os pormenores se não perca. E a resenha nem sequer foi exaustiva. Ficaram ainda alguns por visitar e referir. Estão agrupados na categoria dos últimos contos. Apetece-me destacar aquele que nos exibe uma modalidade muito especial de aplicar a justiça, digna dum drama passional, dum libreto de ópera ou duma história infantil, centrado num jovem rei português não identificado. Obviamente. No universo da literatura tradicional de vocação exemplar, os nomes contam pouco. Depois há ainda um diálogo travado em 1767 por Cristiano VII e Johannes Ewald, o monarca e o poeta dinamarqueses que tanta tinta fariam correr nos tempos conturbados que se lhe seguiram. E fico-me mesmo por aqui. 

Ao longo da visita, perguntei-me várias vezes sobre o significado do título dado ao conjunto destas catorze micronarrativas. O facto de terem sido compostas em ambiente de guerra, quando a contadora nata de contos fazia o percurso dos 57 para os 72 anos de idade, pode ajudar a justificar o inverno como estação específica escolhida. O século XIX, aquele em que veio ao mundo, é chamado à colação para servir de cenário aristocrático ou campesino privilegiado às fábulas, lendas, mitos e histórias trazidas à presença dos leitores-ouvintes como eu. É que, como é referido no corpo da obra, os quadros e os livros são feitos para ser olhados e lidos. Só existem de facto se tiverem espetadores. Caso contrário, a arte deixaria de existir. Destino que as palavras pronunciadas por Karen Blixen (1885-1962) no inverno da sua existência não se arrisca a correr. Nem de longe nem de perto.

1 comentário:

  1. Leitor-ouvinte e escritor nato, termo usado em sentido lato enquanto as palavras mágicas destas críticas literárias não se converterem em livro editado. Vou entretanto saboreando este dom de partilhar palavras como imagens que nos seduzem ainda mais para a leitura das sugestões apresentadas.

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