12 de março de 2016

Mathias Énard, Zona: a viagem no tempo à procura do fim do mundo

«...ils parlaient de nos trafics, de la région qu’ils appelaient the area “la Zone” et de leur sécurité, sans dire jamais le mot “arme” ou le mot “pétrole” ou n’importe quel autre mot d’ailleurs à part investment et safety...»
Mathias Énard, Zone (2008)
O fascínio exercido pela epopeia homérica no nosso imaginário coletivo ao longo dos últimos três milénios é surpreendente. Gerações de ouvintes e leitores das rapsódias cantadas em torno da guerra de Troia têm-se encarregado de perpetuar os feitos dos heróis que a travaram ao longo de dez intermináveis anos. Aqueles mesmos seres divinos que depois conquistaram, pilharam e incendiaram sem dó nem piedade a cidade sagrada de Ílion, que encetaram as viagens de regresso aos lares distantes onde deixaram anciãos, mulheres e filhos menores, que enfrentaram as mil e uma dificuldades arquitetadas pelos ciúmes eternos dos deuses imortais pela mortalidade dos humanos. Quem duvidar desta nossa memória multissecular que se dê ao trabalho de pesquisar o número incontável de obras que os poetas têm vindo a recriar desde então até aos nossos dias. Limitar-me-ei a referir uma e a anotar outra, por ajudarem a ajustar as balizas histórico-culturais algo fluídas da modernidade e da pós-modernidade.

A primeira foi idealizada por James Joyce nas páginas do Ulisses (1922), uma extensa e circunstanciada epopeia em prosa que nos põe ao corrente das errâncias urbanas de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin, no dia 16 de junho de 1904. As referências diretas ao rei de Ítaca primam pela ausência. O mesmo se diga da totalidade dos aqueus e troianos que povoam a Ilíada e a Odisseia. No entanto, a estrutura épica imaginada pelo ædo de Quios acompanha-nos da primeira à última página do livro, num universo de referências em que a matriz clássica greco-romana é constantemente revezada pela judaico-cristã, situada num contexto bem irlandês de cariz católico-protestante. O segundo texto anunciado deve-se a Mathias Énard, que lhe deu o título algo enigmático de Zona (2008) e se baseia nas deambulações de Yvan Derroy / Francis Servain Mirković pelos trilhos da memória de ex-guerrilheiro croata, ex-espião francês e ex-delator internacional, enquanto percorre de comboio as paisagens noturnas que ligam as gares de Milão e Roma. As aventuras/desventuras dos heróis da imaginação helénica estão bem presentes em toda a efabulação, em assíduo diálogo com os anti-heróis que a realidade mediterrânica foi erigindo desde o tempo da queda das muralhas de Ílion até à noite de 8 de dezembro de 2004, no rescaldo ainda fresco da queda em 9 de novembro de 1989 do muro de Berlim ou de todas as vergonhas.

O romance mais recente desenvolve-se como um longo e único período-parágrafo-frase do protagonista, cuja corrente de pensamento só é interrompida três vezes para dar voz a um relato encaixado de amor e morte vivido na cidade-mártir de Beirute, durante uma das incessantes guerras civis que a têm assolado. No total, as instâncias discursivas necessitaram de 24 capítulos (cifra idêntica às 24 horas do Bloomsday, às 24 rapsódias centradas na cólera de Aquileus e mais 24 para enquadrar a viagem-vingança de Odisseus), para compilar todas as histórias laterais que dão corpo à tessitura nuclear, também ela recheada de flashes episódicos vários, repartidos pelas três margens do Mediterrâneo, ponto de confluência de três continentes, à sombra das cidades que ergueram e derrubaram impérios ou viveram à sombra de outros. Podemos omitir as já registadas e referir Constantinopla, Jerusalém e Argel, que muitas ficariam ainda de parte, todas elas necessárias para definir as fronteiras exatas da «Zona». Aliás, o próprio narrador tem dificuldade no seu traçado preciso. O grande espaço cénico dos eventos evocados abrange a totalidade das terras banhadas pelo grande mar fazedor de civilizações. Começa em qualquer ponto do velho mundo e pode até terminar no Vaticano, nos arquivos da cidade-estado mais poderosa dos nossos dias, passaporte para o fim do mundo e para uma vida nova. Entre as bagagens do passageiro-efabulador do grande comboio transitaliano encontra-se uma maleta de mão carregada de documentos, nomes, fotos e relatórios secretos, uma coleção de fantasmas que lhe permitirão abrir as portas para a eternidade.

O texto refere-se muitas vezes ao dilema de Aquiles, o ter de eleger entre morrer jovem na guerra e coberto de glória ou morrer velho em casa, sem honra nem proveito e esquecido de todos. O filho da ninfa Tétis e do rei Peleus optou pela primeira hipótese. Preferiu a fama ao anonimato. Espalhou o luto por toda a parte e acedeu por mérito próprio e vontade de Zeus à ilha dos bem-aventurados. Os deuses estão sempre a surpreender-nos. O Mediterrâneo tem sido desde Troia um berço de heróis. Só que a maioria dos mortos não morará na memória de ninguém. Ironia trágica dos simples viventes como nós, que não têm a proteção divina de nenhum dos progenitores. Aos filhos das sombras só resta mesmo o reino das sombras, o mísero destino dos mortais...

NOTA:
Agora que tanto se fala das histórias trágico-marítimas protagonizadas neste nosso dia-a-dia conturbado de travessias-naufrágios mediterrânicos e de caminhadas-errâncias sem fim à vista por três continentes, lembrei-me de recuperar este texto paradigmático, composto há meia dúzia de anos e publicado um pouco depois no Pátio de Letras. O romance que lhe forneceu tópicos de reflexão recorre a outros relatos épicos, compostos em verso e prosa, a demonstrar que o destino peregrino dos homens não mudou muito no decurso de séculos e milénios de devir histórico.

3 comentários:

  1. Um texto magnífico que tenho o prazer de reler ao fim destes anos. Muito interessante a referência ao Mediterrâneo como berço de heróis e, agora, como sepultura de seres depois de errâncias sofridas. Pensarão eles ter a proteção de algum deus, quando se metem a caminho sabendo que uma grande percentagem morre sem lei e sem apelo?

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  2. «Zona», do Mathias Énard, é um livro imperdível. Não tenho palavras para dizer quanto gostei dele. Não entendo a falta de reconhecimento (pelo menos em Portugal). É sem dúvida um dos livros da minha vida. Sem exagero.

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