30 de abril de 2016

Paulo Varela Gomes, diálogos do fim do mundo no verão de 2012

«O seu corpo queria viver, e essa vontade era tão frenética e intensa que o medo da morte enquanto saudade da vida não chegou a aflorar-lhe o espírito.»
Paulo Varela Gomes, O verão de 2012 (2013)
Recebi este aniversário como prenda natalícia o livro dum autor desconhecido. Na melhor das hipóteses, tê-lo-ia deixado sossegado nos escaparates das livrarias, por onde os meus passos me vão levando com a frequência ditada pelo hábito e os afazeres do quotidiano me permitem. Paulo Varela Gomes estreia-se no mundo da ficção com O verão de 2012 (2013), centrado no ano em que se reformou e em que as interpretações exotéricas dos calendários maias apontavam como palco duma transformação cósmica ou do próprio fim do mundo. Os prognósticos ou profecias diziam que ocorreria no dia 21 de dezembro. Falharam redondamente e o romance, novela ou mero conto alargado, foi dado à estampa. As laudes de papel encheram-se de carateres impressos com tinta fresca e os diálogos travados pelo psiquiatra-narrador e paciente-protagonista, em forma de notas dispersas e textos fragmentários, foram confiados ao convívio de todos nós.

Tudo começa com o anúncio duma obscura tragédia ocorrida no largo do Rato, verdadeiro leitmotiv literário, cujos contornos precisos só serão revelados nos derradeiros momentos da obra. O alfa e o ómega dum drama acontecido e inspirador dum relatório clínico-criminal circunstanciado. O diagnóstico dum cancro incurável e os efeitos duma grave depressão terão levado o sujeito central da efabulação a esquecer-se do medo da morte ou saudade de vida e a cometer um ato temerário, que o colocaria nas páginas dos mass media planetários. A presença da Troika por essas datas em Lisboa foi determinante para desencadear o conflito e provocar a catástrofe. Os pormenores do insólito são-nos revelados por uma notícia de jornal, transcrita na final secção forjada na tessitura narrativa. Omiti-los-ei. O fascínio dum original é sempre preferível à facilidade dum resumo. Ficamos todos a ganhar.

O dossiê médico organizado pelo arquiteto interno da enunciação pode ainda ser visto como um caleidoscópio de testemunhos diversificados, habilmente urdidos para dar sentidos complementares à trama. Coincidências marcadas por datas e eventos documentados no diário de William Beckford e nos textos do enfermo. Frances Brooke entra em cena e a história epistolar de Lady Julia Mandevile toma conta da intriga. O ato criativo traçado em primeira mão recua e a crítica literária entrelaçada a várias vozes avança. Os juízos políticos de Cúrzio Malaparte sobre as técnicas do golpe de estado são sintetizados e trazem à boleia referências a figuras fundadoras de sistemas ideológicos alternativos de obter a liberdade do homem. Comunistas, anarquistas, capitalistas, fascistas. Palimpsesto sui generis de testemunhos cruzados sobre o theatrum mortis dos nossos tempos conturbados, somatório de episódios quotidianos de revolta e soluções armadas com final feliz.

O devir histórico europeu é equacionado e o percurso lusitano questionado. Os relatos de viajantes estrangeiros a Portugal são utilizados para traçar o retrato cultural do país. Depreciativos das gentes e costumes que o habitam, eivados de lugares comuns próprios de quem só vê o que quer ver, inquinados até à medula por um conjunto de preconceitos ancestrais que teimam em manter-se de pedra e cal. As vertigens maníaco-depressivas do herói trágico da crónica levam-no a insurgir-se com esse paradigma de menoridade assumida, apontando a sua indignação sobretudo contra os ensaístas nacionais que mal acabam de atravessar a fronteira se põem logo a enaltecer a terra alheia em detrimento da sua. Pinheiro Tomé da Veiga é destacado mas outros mais são referidos. A ideia de revolta surge no horizonte e o plano de ação é delineado. A retórica neobarroca das virtudes da aldeia esgota-se e a oratória pós-moderna do menosprezo da corte anima-se. A erudição académica abunda em ambos os casos. Pedagógica e enfandonha. 

As prendas de anos são por vezes surpreendentes. Esta foi-o com certeza. O livro negativo sobre um país moribundo converteu-se num panfleto de resistência às agressões europeias do norte sobre as periferias do sul. Os três Pequenos Contos da Revolução, idealizados pelo paciente e transcritos pelo psiquiatra, apontam-nos os caminhos eficientes de alterar as coordenadas do fatalismo nacional. Drásticas, eficientes, definitivas. A figura onírica da morte surge na ribalta, o coro trágico entoa o último canto do êxodo e o pano de cena cai abruptamente no tablado da vida. A catarse consumara-se…

NOTA:
O aniversário referido no texto já tem três anos, altura em que o li e publiquei as minhas notas de leitura no Pátio de Letras. Faço-o agora, no momento em que os anúncios de morte aludidos na ficção se concretizaram no mundo real e levaram o autor a atravessar a fronteira que leva para o outro lado da vida. E assim a condição humana se vai cumprindo... 

29 de abril de 2016

Bizantinices

Raffaello Sanzio - Cherubini - Cappella Sistina (1513-1514)


O sexo dos anjos...

Os mass media  do burgo têm vindo a comentar um projeto recente de alteração da designação de Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania, por não respeitar a «identidade de género de metade da população portuguesa». Ora, sendo a cidadania a qualidade dum cidadão, a substituição duma etiqueta por outra parece-me perfeita-mente inútil. Acrescenta-se uma sílaba e fica tudo na mesma. 

A polémica em curso trouxe-me à memória uma outra provocada cerca de dois meses antes por um artigo de Miguel Esteves Cardoso no Público, onde afirmava, sem papas na língua: «Calem-se! "Portu-guesas e portugueses" não é apenas um erro e um pleonasmo: é uma estupidez, uma piroseira e uma redundância que fede a um machismo ignorante e desconfortavelmente satisfeitinho».

Polémicas à parte, vem a talho de foice uma ainda mais antiga. Diz-se que quando os Otomanos tomaram Bizâncio em 1453, decorria um concílio eclesiástico a discutir se os anjos tinham ou não sexo. Ignoro o resultado a que chegaram. Provavelmente a nenhum. Caso contrário, lá estaríamos nós hoje a falar de anjos e anjas em nome da paridade de género e da eliminação do falso neutro.

25 de abril de 2016

Álvaro Guerra, Trilogia dos Cafés: terceiro folhetim – 25 de Abril

«... o café foi batizado pela terceira vez e a velha tabuleta substituída por outra de fundo verde, cravos vermelhos em grinalda a envolver as letras amarelas que formavam o novo nome – Café 25 de Abril...» 
Álvaro Guerra, Café 25 de Abril (1987)
Muitas têm sido as tentativas de definir com a eficácia desejada o velho continente, berço e túmulo de sonhos e quimeras, palco privilegiado de quezílias continuadas entre gregos e troianos, de brigas absurdas de alecrim e manjerona pela conquista de impérios e domínio hegemónico do mundo. Diligências ensaístas bem-intencionadas todas elas, mas quase sempre votadas ao malogro pela complexidade dos caminhos trilhados. George Steiner tenta ultrapassar essa dificuldade aparentemente insolúvel com o pragmatismo modelar a que nos habituou. Assenta os pés no chão, arregaça as mangas e convoca a substância das coisas ancoradas na realidade das cafetarias e cafés, das paisagens humanizadas e dos viajantes pedestres, dos nomes de ruas e de praças, da dupla herança de Atenas e Jerusalém, da consciência escatológica do fim ou finalidade da civilização ocidental. Reúne todos esses parâmetros em cinco axiomas e traça com uma precisão milimétrica A ideia de Europa (2004) em forma de reflexão pessoal, que nos oferece generosamente para que a possamos questionar, aceitar ou rebater.

Álvaro Guerra antecipa-se-lhe duas décadas e idealiza um Folhetim do mundo vivido em Vila Velha, burgo fictício com ruas e praças alusivas a heróis reais/imaginados, desenha-as numa quadrícula urbana convincente, povoa-a de habitantes anónimos ou de figuras públicas com direito a nomes e apelidos. Estabelece os eixos essenciais duma vida comunitária plausível, onde não pode faltar o ambiente peculiar do café de província para dar o tom de verosimilhança ao painel. Reparte o fresco feito de palavras por três atos seguidos, tal como nos grandes dramas encenados pela humanidade, por vezes com o sabor satírico da comédia, outras com o afinco purificador da tragédia. Em cada uma dessas fases de representação teatral, o local das tertúlias mantém-se fixo no coração da terra, muito embora o bom senso dos proprietários galegos o vão (re)batizando ao sabor da maré e dos ditames históricos do momento. O autor da ficção gostou da ideia e coligiu o Café República (1982), o Café Central (1984) e o Café 25 de Abril (1987). O destino mítico do país está todo concentrado nessas tramas fingidas que compõem essa gesta de gestas vividas nas lezírias do rio Grande, a dois passos de Lisboa, no percurso que vai da revolução que destronou um rei à revolução que derrubou uma ditadura, no limite do romantismo ideológico de uns e do realismo político dos restantes.

O terceiro retábulo da trilogia fala-nos dos comunas que o pintaram e dos reaças que o esborrataram. O texto não se refere aos partidários dos dois campos opostos nestes precisos termos. A lembrança que guardo da época garante-me que eram então as mais rotineiras, a par de muitas outras que o uso/abuso que delas se fez se encarregou de afastar paulatinamente do nosso vocabulário quotidiano. Retenho, todavia, um conjunto de quatro letras que nos habituámos a ler, sem saber muitas vezes o seu real sentido. PREC, uma sigla maldita/nostálgica que continua a assustar de morte uns e a alimentar de saudosismo outros. Todos aqueles que assistiram ao período revolucionário em curso mais de perto, porque, para os restantes, talvez signifique muito pouco ou nada. Apagados os ardores revolucionários de 74-75, de verões quentes e maiorias silenciosas, saneamentos políticos e reforma agrária, passada tanta água debaixo das pontes, ultrapassados os discursos inflamados dos pás, gajos e portantos, extintos os ecos dos slogans populares, dessa agitação inusitada num país de brandos costumes ou tido como tal, resta-nos a imagem dos cravos coloridos e das esperanças que semeámos em seu redor e que teimamos em manter viçosos, ano após ano, como se fosse o primeiro e o último das nossas vidas.

Lidos os livros à distância de duas décadas, a crónica desses anos revolucionários ganha um sentido que as testemunhas oculares estavam impedidas de percecionar. O caráter novelesco do folhetim/diário apaga-se e a História revela-se-nos através do testemunho do autor e dos relatos das entidades internas do romance convocadas expressamente para o espaço cénico em que a peça se declama. O tempo alarga-se e chega até nós matizado pelos caprichos seletivos da memória. A individual e a coletiva. Para George Steiner, a Europa é feita de cafés, como o preferido de Pessoa em Lisboa ou o de Kierkegaard em Copenhaga. Para Álvaro Guerra, Portugal pode ser contado à mesa de um café, no centro de uma pacata vila de província, de um pequeno país à beira-mar plantado, de onde as ruínas dum mundo em estilhaços podem ser placidamente criticadas, enquanto se bebe uma bica bem tirada e se saboreia um pastel de nata com canela.

NOTA:
Terceiro painel dum retábulo dedicado à história da República e que Álvaro Guerra resolveu associar à tradição bem portuguesa do Café, espaço público por excelência de encontros e desencontros dum país com o seu próprio destino. Publiquei-o pela primeira vez no Pátio de Letras há precisamente meia década. Trago-o agora para aqui, para fazer companhia aos seus companheiros de percurso e para celebrar também o 25 de Abril que o inspirou...

23 de abril de 2016

Cervantes & Shakespeare no Dia Mundial do Livro

«Cervantes y Shakespeare: ni se conocieron, ni se copiaron, ni murieron el mismo día...»

Uma rosa por um livro...


Celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. A escolha da data deve-se ao facto insólito de tanto Miguel de Cervantes y Saavedra como William Shakespeare terem morrido alegadamente a 23 de abril de 1616. Há precisamente 400 anos. Um em Madrid, outro em Londres.

Celebra-se também hoje o IV Centenário de Cervantes e de Shakespeare. Estranho hábito este nosso de comemorar a morte dos heróis nacionais em vez de festejar o seu nascimento. Prova-velmente por ser depois da passagem pela vida que têm o condão de ser recordados para sempre.

Celebra-se no dia de hoje por decisão da XXVIII Conferência Geral da Unesco, que ocorreu entre 25 de outubro e 16 de novembro de 1995. Iniciativa louvável esta de juntar na morte os dois génios das letras hispânicas e britânicas aos demais criadores de heróis da imaginação das letras mundiais.

Celebra-se muito bem mas na data errada. O novelista castelhano transpôs as portas do Parnaso a 22 de abril do novo calendário gregoriano e o dramaturgo inglês a 23 de abril do velho calendário juliano. Equívocos provocados por alguma precipitação na análise atenta das coordenadas do tempo.

Celebra-se ainda a 23 de abril a Festa de São Jorge. Na Catalunha nasceu a ideia de oferecer uma rosa por um livro nesse dia. Que a tradição ganhe raízes e se espalhe por toda a parte. Que se associe o símbolo do amor com o símbolo da cultura em nome de todos os habitantes do Parnaso em geral.







NOTA:
O calendário juliano foi criado por Júlio César em 46 AEC tendo sido substituído pelo grego-riano em 1582 EC por Gregório XIII. Em 1606 a diferença entre os dois calendários cifrava-se em 10 dias, pelo que 23 de abril corresponde, de facto, a 3 de maio.

22 de abril de 2016

Cuarto Centenario de Cervantes

MIGUEL DE CERVANTES Y SAAVEDRA
[RAE - Real Academía Española]


Siempre las desdichas persiguen al buen ingenio...


—¿Qué delitos puede tener —dijo don Quijote—, si no han merecido más pena que echalle a las galeras?

—Va por diez años —replicó la guarda—, que es como muerte cevil. No se quiera saber más sino que este buen hombre es el famoso Ginés de Pasamonte, que por otro nombre llaman Ginesillo de Parapilla.

—Señor comisario —dijo entonces el galeote—, váyase poco a poco y no andemos ahora a deslindar nombres y sobrenombres. Ginés me llamo, y no Ginesillo, y Pasamonte es mi alcurnia, y no Parapilla, como voacé dice; y cada uno se dé una vuelta a la redonda, y no hará poco.

—Hable con menos tono —replicó el comisario—, señor ladrón de más de la marca, si no quiere que le haga callar, mal que le pese. 

—Bien parece —respondió el galeote— que va el hombre como Dios es servido, pero algún día sabrá alguno si me llamo Ginesillo de Parapilla o no.

—Pues ¿no te llaman ansí, embustero? —dijo la guarda.

—Sí llaman —respondió Ginés—, mas yo haré que no me lo llamen, o me las pelaría donde yo digo entre mis dientes. Señor caballero, si tiene algo que darnos, dénoslo ya y vaya con Dios, que ya enfada con tanto querer saber vidas ajenas; y si la mía quiere saber, sepa que yo soy Ginés de Pasamonte, cuya vida está escrita por estos pulgares.

—Dice verdad —dijo el comisario—, que él mesmo ha escrito su historia, que no hay más que desear, y deja empeñado el libro en la cárcel en docientos reales.

—Y le pienso quitar —dijo Ginés—, si quedara en docientos ducados.

—¿Tan bueno es? —dijo don Quijote.

—Es tan bueno —respondió Ginés—, que mal año para Lazarillo de Tormes y para todos cuantos de aquel género se han escrito o escribieren. Lo que le sé decir a voacé es que trata verdades y que son verdades tan lindas y tan donosas que no pueden haber mentiras que se le igualen.

—¿Y cómo se intitula el libro? —preguntó don Quijote.

La vida de Ginés de Pasamonte— respondió el mismo.

—¿Y está acabado? —preguntó don Quijote.

—¿Cómo puede estar acabado —respondió él—, si aún no está acabada mi vida? Lo que está escrito es desde mi nacimiento hasta el punto que esta última vez me han echado en galeras.

—Luego ¿otra vez habéis estado en ellas? —dijo don Quijote.

—Para servir a Dios y al rey, otra vez he estado cuatro años, y ya sé a qué sabe el bizcocho y el corbacho —respondió Ginés—; y no me pesa mucho de ir a ellas, porque allí tendré lugar de acabar mi libro, que me quedan muchas cosas que decir y en las galeras de España hay más sosiego de aquel que sería menester, aunque no es menester mucho más para lo que yo tengo de escribir, porque me lo sé de coro.

—Hábil pareces —dijo don Quijote.

—Y desdichado —respondió Ginés—, porque siempre las desdichas persiguen al buen ingenio.
     
Miguel de Cervantes y Saavedra, El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha (1605: I, 22)


NOTA:
No dia do 4.º Centenário de Cervantes
(morto a 22 e enterrado a 23 de abril de 2016)


COMENTÁRIO:
Como podemos nós contar toda a vida de alguém, se ele está ainda vivo entre nós?

17 de abril de 2016

Gabriel García Márquez, revisitação dos cem anos de solidão...

«...antes de llegar al verso final ya había comprendido que no saldría jamás de ese cuarto (...) porque las estirpes condenadas a cien años de soledad no tenían una segunda oportunidad sobre la tierra.»
Gabriel García Márquez, Cien años de soledad (1967)
Raras vezes volto a reler na íntegra um livro que já tenha lido num tempo mais ou menos remoto. Fico sempre com a estranha sensação de estar a negar-me a hipótese da descoberta de novos horizontes de leitura, de ignorados prazeres estéticos, de mergulhar na aventura das imagens esboçadas com letras, de encontrar o tal livro da minha vida, aquele que teima em escapar-me das mãos. Só que as obras-primas não se encontram com facilidade ao virar da esquina. Então, a revisitação dos clássicos impõe-se. Para todos os efeitos, foram também esses testemunhos abalizados que me ajudaram a crescer e a transformar naquilo que hoje sou, com defeitos e tudo, como convém. É que a perfeição ideal não existe nem na literatura consagrada. Regra geral, sinto a impotência de tecer um resumo minimamente credível que tenha o condão de me recordar esses enredos mágicos, longínquos e fugidios, feitos de palavras esquecidas. Como aquelas que me falavam duma casa patriarcal, que não parava de crescer, renovar e desfazer, labirinto povoado de seres votados ao mais completo deserto existencial, habitantes compulsivos de todos os silêncios, sem limites nem remissão. Estou a falar da «Casa dos Buendía», que Gabriel García Márquez idealizou há cerca de meio século e etiquetou sugestivamente de Cem anos de solidão (1967).

Depois do livro lido e relido, as palavras voltam a exercer todo o fascínio já experimentado no passado e a imperícia de as parafrasear a repetir-se inexoravelmente. Aliás, o grande mérito das grandes obras de referência abonada reside, como é sabido, na qualidade de se bastarem a si mesmas, sem necessidade de recorrerem a qualquer tipo de amparo externo para se afirmarem como portadoras de sentido. A missão do crítico torna-se em grande parte ociosa ou mesmo inútil. A menos que tenha o bom senso de não querer falar mais alto do que as entidades convocadas pela fábula para nos contarem as suas/nossas sagas. Com toda o decoro que o texto exige, sempre vou dizendo que a história se desenvolve em torno duma cidade fictícia, criada do nada e por acaso, bem como da dos seus fundadores e descendentes repartidos por quatro gerações, tantas quantas as dos heróis lendários, de seres solitários ao longo duma centúria bem contada, tal como nos relatos infantis da tradição oral. Nem mais nem menos. O destino trágico registado em sânscrito nos pergaminhos manuscritos do cigano errante, saltimbanco ambulante e sábio alquimista, conhecedor como nenhum outro do percurso familiar dos protagonistas.

Romance de caráter evocativo por excelência, de memórias individuais e coletivas, de fontes antigas e recentes, escritas e orais, de episódios locais e globais. Pouco importa trilhar por esse tipo de sendeiros, todos eles rastreados à saciedade por especialistas e abonados pelo autor. Em Macondo, palco dos dramas contados, tudo é real e tudo é modelizado pela imaginação, base do realismo mágico que povoa todo o emaranhado narrativo e torna ainda mais apetecido o folhear atento de cada uma das páginas em que se inscreve. O engenho inventivo do homem não tem limites visíveis. Até de criar novas leis para o mundo e de as tomar como fidedignas. A escrita tem-se revelado nos últimos cinco milénios uma aliada preciosa para dar voz a essa ilusão edificadora de eternidade. Gabriel García Márquez aprendeu muito cedo a servir-se desse manancial inesgotável e a transferi-lo, à sua maneira, para o universo novelesco dos factos fictícios de possibilidades idealizadas. Um caos inaugural à procura de um caos epigonal. Uma ordem efémera regida por um século solitário a separá-los para todo o sempre. Sem tirar nem pôr. A idade dos heróis dos mitos ancestrais. O ciclo mágico de eventos traçado, porque «as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra». E nada mais há a aditar. O derradeiro ponto final na intriga encerra de vez o relato de todos os relatos. Inflexível, implacável, indiferente à vontade dos leitores de adiarem por mais cem anos a morte anunciada dos solitários da cidade dos fantasmas, das borboletas amarelas e dos médicos invisíveis. A solução será repetir a leitura ou partir para outras fábulas tecidas pela mesma pena e com a mesma mestria, para que a magia da escrita nos volte a surpreender em toda a sua plenitude.

NOTA
Mais uma revisitação aos Cem anos de solidão, dois anos após a morte de Gabriel García Márquez e através dum texto tornado público no Pátio de Letras nas vésperas do Natal de 2010.

12 de abril de 2016

Lídia Jorge, os encontros fortuitos de cinco contos situados

«Em que altura a criança troca a moeda de oiro da inocência pela agulha da perversidade?»
Lídia Jorge, Praça de Londres. Cinco contos situados (2008)
Há tempos, colocaram-me a questão de saber por que motivo a última coletânea de contos de Lídia Jorge, Praça de Londres (2008), estava a ter um acolhimento tão pouco expressivo por parte do público. Na altura não soube dar uma resposta satisfatória. Alguns meses passados, continuo na mesma. Revisitei atentamente os Cinco contos situados e voltei a sentir o mesmo prazer que o primeiro encontro me havia proporcionado. Trata-se de uma obra à altura das restantes que a autora nos tem vindo a oferecer regularmente ao longo de três décadas.

A dificuldade de identificar um fio condutor unificador de textos autónomos encontra-se aqui um pouco mitigada, por todos eles se centrarem em espaços urbanos concretos. O subtítulo eleito já nos acautelava para essa particularidade. Depois, a análise continuada da série é facilitada pelo magnetismo de escrita emprestado às instâncias narrativas, pela fluidez de discurso concedido às personagens, pela abordagem de tópicos postos à disposição do leitor. Remetem-nos, afinal, para um universo romanesco ímpar que só os grandes vultos da literatura logram atingir.

Na impossibilidade de tocar em todos os potenciais focos de interesse dos relatos, centrei-me num deles, nessa velha capacidade humana de fabricar histórias e de as transmitir a todos os interessados, de entrar nesse jogo de faz-de-conta, nesse debate partilhado de ideias. A verosimilhança dos factos imaginados nunca foi um obstáculo. Lídia Jorge não foge a essa regra de ouro da criatividade artística. Geralmente fá-lo através da voz experiente das mulheres. É o que se passa na totalidade dos fragmentos fingidos de vida em apreço. Como expositora de factos, como ouvinte de casos, como protagonista de eventos.

Em «Praça de Londres», seguimos a corrente de pensamento duma transeunte anónima que se deixa surpreender pelas manifestações de afeto dum homem grisalho para com uma criança, talvez filha, com quem se cruza nesse recanto da cidade do Tejo. O insólito quotidiano documentado na «Rue du Rhône» está ligado à compra de uma mala de mão de senhora, em pele de crocodilo genuíno do Mississipi, episódio vivenciado por duas clientes portuguesas e uma vendedora suíça, numa loja dessa movimentada artéria de Genève. O palco dos sucessos volta à capital do nosso país, quando a protagonista de «Branca de Neve», uma bancária de sucesso, se sente perseguida por um bando de sete crianças na avenida dos Estados Unidos. A «Viagem para dois» coloca-nos na presença dum criminalista e duma novelista, em trânsito ferroviário entre Milão e Veneza, em que o primeiro põe a segunda ao corrente dum estranho episódio que testemunhara em Lisboa e lhe solicita que, enquanto escritora de histórias de cordel, lhe dê uma forma literária conveniente. O livro encerra com «Perfume», o único inédito da série, composto como uma «Homenagem tardia a Yalmaz Güney» e desenvolvido em torno da fragrância emanada duma história de amor muito particular, a dos pais do narrador do conto, repartida pelas principais cidades da Europa.

As sínteses estão feitas. Os pormenores ficam de reserva para os curiosos. Que a surpresa da descoberta persista para deleite de todos aqueles que, por um qualquer descuido, ainda não mergulharam na aventura da leitura, no mundo mágico dos heróis da imaginação. Quem sabe se no final dessa viagem não vislumbram uma resposta satisfatória para a questão inicial.

Na réplica literária de Lídia Jorge à história de amor contada pelo cineasta turco referido pode ler-se: «Diz uma velha canção que no fundo de uma garrafa se encontra a vida de um homem, e por certo que assim acontece desde que se inventou a fermentação do malte». A chave do êxito das obras de arte em geral e dum livro em particular só pode ser encontrada se tivermos o ousadia de a abraçar com todos os sentidos. Lídia Jorge pôs-nos a «garrafa» à nossa disposição, agora só temos de abri-la e ouvir todas as canções que ela encerra. De facto, não se trata de um fardo muito pesado para carregar.

NOTA:
No mesmo dia em que se publica entre nós um novo conjunto de contos de Lídia Jorge, O amor em Lobito Bay, trago aqui a estas Histórias d'Arthur d'Algarbe a visão pessoal que tornei público no Pátio de Letras sobre a Praça de Londres há meia dúzia de anos. Os relatos situados em espaços relativamente próximos da penúltima coletânea dão lugar a alguns mais situados em espaços longínquos. Vou iniciar a viagem para visitar os novos roteiros. 

8 de abril de 2016

Por palavras contadas ou descontadas

RAFAEL BORDALO PINHEIRO - A PARÓDIA 1901

Os protagonistas da história...

Há coisa duns tempos fui convidado a compor uma reflexão pessoal de 200 palavras a propósito da minha passagem pela escola que frequentara no ensino preparatório e secundário. Faria parte das comemorações paraoficiais dos 50 anos da sua inauguração solene. Integrar-se-ia numa publicação coletiva intitulada Eu faço parte desta história. 

Fi-lo sem reservas. Obedeci à dimensão verbal indicada e enviei o texto final dentro do prazo convencionado. Até ao momento não recebi qualquer sinal de retorno. Presumo que o testemunho tenha sido ignorado. Pouco importa. Registo-o mesmo assim nas linhas abaixo para que passe a conste, porque, de facto, Eu fiz parte daquela história.

Entrei caloiro na Escola Velha em 62 e fui logo fustigado com um par de vergastadas nas pernas. Aprendi logo ali que os calções – cuecas na gíria académica – eram um trajo de escola primária e não de ciclo preparatório para a vida de adulto. Rito iniciático que me dispensou do batismo no chafariz das cinco bicas ou medir o recreio com um fósforo queimado.

Dois anos volvidos, assisti à inauguração solene da Escola Nova, matriculado no curso geral de comércio. Recordo vagamente a presença dum almirante a cortar fitas e dum cardeal a borrifar paredes. Loas terão pregado os dois. As palmas vieram depois. Obrigatórias. Em uníssono. 

Quando o ditador caiu da cadeira do poder, encontrava-me na secção preparatória para o ICL. Promessa de mudar de página projetada no horizonte. Os media da época choraram o chefe partido e as gargantas do vulgo cantaram os versos da Desfolhada portuguesa

Pouco retive dos livros do deve-e-haver de aprendizagens pretéritas. Para trás mija a burra, disse-me em vernáculo peculiar a Super-Homem. O menino tem jeito para a escrita, disse-me em registo normativo o Aristóteles-Bigodaça. Lições que me levaram a trocar as contas pelas letras. Sem hesitações saudosistas. Até hoje. Onde me encontro...

Vistas bem as coisas, os editores da brochura lá terão tido as suas razões para silenciarem um relato feito por palavras contadas já que lhes seria difícil fazê-lo por palavras descontadas. Cortaram o mal pela raiz. E deste modo me foi vedado prestar o preito devido aos meus mestres primeiros de língua e lá acabei mesmo por Sair do elenco de tal história.

3 de abril de 2016

Amin Maalouf, o século de Beatriz e a feminilidade do mundo

«La sagesse est la vertu oubliée de notre temps. Un savant qui n'est pas aussi un sage est soit dangereux, soit, dans le meilleur des cas, inutile.»
Amin Maalouf, Le premier siècle après Béatrice (1992)
No ano em que se celebra o quinto centenário da publicação em Lovaina da versão latina da Utopia (1516) de Thomas More, resolvi revisitar O século primeiro depois de Beatriz (1992) de Amin Maalouf, onde a descrição dum mundo possível diferente do nosso é abordado, conquanto o lado eutópico e paralelo imaginado pelo humanista inglês tenha sido substituído pela visão distópica e antecipada do romancista franco-libanês. A sociedade perfeita idealizada no texto quinhentista desaparece do horizonte de eventos e a configuração duma fase futura da sociedade real presente na passagem do segundo para o terceiro milénio entra em cena. A antiga aspiração platónica de criar um estado melhor num tempo ainda por vir é substituída pelo temor atual dos perigos imediatos latentes numa manipulação genética indiscriminada. Tudo isto nos dias imediatos aos de hoje.

O tópico duma natalidade seletiva é chamada à colação pelo protagonista-relator dum livro de testemunhos pessoais ao longo de 83 anos de vida vivida, distribuídos por vinte e seis fragmentos identificados de A a Z. Questiona os limites do livre arbítrio quando está em causa a escolha preferencial dum filho em detrimento duma filha e advoga o princípio do acaso determinado pelas leis da natureza. Cientista de formação, especialista em insetos, depara-se numa viagem académica ao Egito com uma estranha substância que teria a propriedade de garantir a cada um dos pais interessados um descendente varão. Assim lhe garantiu o jovem fornecedor do mercado do Cairo quando lhe vendeu o miraculoso casulo de escaravelho. Eficiência que nunca chegou a testar em si mesmo mas que terá inspirado outros a estudá-la em laboratório e comercializar com grande liberdade o produto final da investigação um pouco por todo lado. As consequências são imediatas. A rarefação dos nascimentos femininos e a proliferação quase absoluta dos masculinos nas décadas seguintes. O desequilíbrio verificado começou a apontar para uma verdadeira catástrofe familiar, muito próxima dum genocídio incontornável baseado numa castração programada. As inquietudes sentidas nessa nova era de manipulações demográficas discriminatórias partilhou-as com Clarence e Beatriz, as duas mulheres que preencheram a sua existência e o ajudaram a redobrar a sua paixão pela feminilidade do mundo. A companheira de sempre e o fruto do seu amor, aliadas inseparáveis das lutas travadas a nível global no seio da Rede de Sábios, a coroar o esforço planetário de devolver à humanidade a esperança dum porvir equilibrado que o egoísmo anquilosado de alguns lhe havia roubado.

Depois de se ter lançado no universo das letras com um ensaio e três relatos ancorados em contextos históricos precisos, um dos já então mais destacados vultos do pensamento contemporâneo envereda pelos trilhos duma categoria literária geralmente arrolada na ficção científica. As tradições vindas do passado são analisadas no presente e equacionadas no futuro. Experiência criativa singular que abandonará nas posteriores incursões nos labirintos da escrita. Tudo leva a crer que manterá com esse estatuto de filho único. Refere uma ou outra vez As viagens de Guliver e o Admirável mundo novo, O Dom Quixote e A divina comédia, sem indicar uma única vez os nomes dos seus autores, Swift e Huxley, Cervantes e Dante. A sua principal preocupação centra-se na identificação das questiúnculas insignificantes estabelecidas entre os protagonistas dos dramas humanos trazidos para o interior dum livro. A antevisão dos grandes desenvolvimentos tecnológicos são mencionados muito de fugida, resumindo-se à descoberta duma vacina inibidora da gestação indesejada de raparigas. Um princípio de eugenia utópica a que os grandes especialistas no género deram uma importância muito relativa.

O grande criador de memórias ficcionadas de realidades factuais nunca se cansa de identificar as grandes/pequenas rivalidades que têm dividido os povos ao longo da sua existência conturbada. O Norte/Sul o Oriente/Ocidente. Em todos os escritos que nos tem vindo a legar, nunca se cansou de preconizar o diálogo entre todos, única forma de resolver divergências e estabelecer entendimentos. Não existem culturas boas ou más. Existem particularidades que as diferenciam. Nada mais. Os juízos de valor são sempre penosos de tecer. Ninguém tem o direito de dar lições aos outros. A única bitola admissível assenta nos direitos do homem e do cidadão. Custe a quem custar. Os séculos vindouros são difíceis de prever. Os cenários imaginados pela ficção estão pejados dos erros mais grosseiros. O rio da História nunca se detém à beira do precipício. Segue sempre o seu percurso até onde a nossa vista pode alcançar. A Era de Beatriz pode esperar e desesperar. Tradição não é Lei. A renovação impõe-se tanto num caso como no outro. Toda a tragédia é grandiosa, todo o apocalipse é grandioso. É verdade. O destino do homem é grandioso. Também é verdade, porque está nas suas mãos traçar a rota que melhor lhe convier.