25 de abril de 2016

Álvaro Guerra, Trilogia dos Cafés: terceiro folhetim – 25 de Abril

«... o café foi batizado pela terceira vez e a velha tabuleta substituída por outra de fundo verde, cravos vermelhos em grinalda a envolver as letras amarelas que formavam o novo nome – Café 25 de Abril...» 
Álvaro Guerra, Café 25 de Abril (1987)
Muitas têm sido as tentativas de definir com a eficácia desejada o velho continente, berço e túmulo de sonhos e quimeras, palco privilegiado de quezílias continuadas entre gregos e troianos, de brigas absurdas de alecrim e manjerona pela conquista de impérios e domínio hegemónico do mundo. Diligências ensaístas bem-intencionadas todas elas, mas quase sempre votadas ao malogro pela complexidade dos caminhos trilhados. George Steiner tenta ultrapassar essa dificuldade aparentemente insolúvel com o pragmatismo modelar a que nos habituou. Assenta os pés no chão, arregaça as mangas e convoca a substância das coisas ancoradas na realidade das cafetarias e cafés, das paisagens humanizadas e dos viajantes pedestres, dos nomes de ruas e de praças, da dupla herança de Atenas e Jerusalém, da consciência escatológica do fim ou finalidade da civilização ocidental. Reúne todos esses parâmetros em cinco axiomas e traça com uma precisão milimétrica A ideia de Europa (2004) em forma de reflexão pessoal, que nos oferece generosamente para que a possamos questionar, aceitar ou rebater.

Álvaro Guerra antecipa-se-lhe duas décadas e idealiza um Folhetim do mundo vivido em Vila Velha, burgo fictício com ruas e praças alusivas a heróis reais/imaginados, desenha-as numa quadrícula urbana convincente, povoa-a de habitantes anónimos ou de figuras públicas com direito a nomes e apelidos. Estabelece os eixos essenciais duma vida comunitária plausível, onde não pode faltar o ambiente peculiar do café de província para dar o tom de verosimilhança ao painel. Reparte o fresco feito de palavras por três atos seguidos, tal como nos grandes dramas encenados pela humanidade, por vezes com o sabor satírico da comédia, outras com o afinco purificador da tragédia. Em cada uma dessas fases de representação teatral, o local das tertúlias mantém-se fixo no coração da terra, muito embora o bom senso dos proprietários galegos o vão (re)batizando ao sabor da maré e dos ditames históricos do momento. O autor da ficção gostou da ideia e coligiu o Café República (1982), o Café Central (1984) e o Café 25 de Abril (1987). O destino mítico do país está todo concentrado nessas tramas fingidas que compõem essa gesta de gestas vividas nas lezírias do rio Grande, a dois passos de Lisboa, no percurso que vai da revolução que destronou um rei à revolução que derrubou uma ditadura, no limite do romantismo ideológico de uns e do realismo político dos restantes.

O terceiro retábulo da trilogia fala-nos dos comunas que o pintaram e dos reaças que o esborrataram. O texto não se refere aos partidários dos dois campos opostos nestes precisos termos. A lembrança que guardo da época garante-me que eram então as mais rotineiras, a par de muitas outras que o uso/abuso que delas se fez se encarregou de afastar paulatinamente do nosso vocabulário quotidiano. Retenho, todavia, um conjunto de quatro letras que nos habituámos a ler, sem saber muitas vezes o seu real sentido. PREC, uma sigla maldita/nostálgica que continua a assustar de morte uns e a alimentar de saudosismo outros. Todos aqueles que assistiram ao período revolucionário em curso mais de perto, porque, para os restantes, talvez signifique muito pouco ou nada. Apagados os ardores revolucionários de 74-75, de verões quentes e maiorias silenciosas, saneamentos políticos e reforma agrária, passada tanta água debaixo das pontes, ultrapassados os discursos inflamados dos pás, gajos e portantos, extintos os ecos dos slogans populares, dessa agitação inusitada num país de brandos costumes ou tido como tal, resta-nos a imagem dos cravos coloridos e das esperanças que semeámos em seu redor e que teimamos em manter viçosos, ano após ano, como se fosse o primeiro e o último das nossas vidas.

Lidos os livros à distância de duas décadas, a crónica desses anos revolucionários ganha um sentido que as testemunhas oculares estavam impedidas de percecionar. O caráter novelesco do folhetim/diário apaga-se e a História revela-se-nos através do testemunho do autor e dos relatos das entidades internas do romance convocadas expressamente para o espaço cénico em que a peça se declama. O tempo alarga-se e chega até nós matizado pelos caprichos seletivos da memória. A individual e a coletiva. Para George Steiner, a Europa é feita de cafés, como o preferido de Pessoa em Lisboa ou o de Kierkegaard em Copenhaga. Para Álvaro Guerra, Portugal pode ser contado à mesa de um café, no centro de uma pacata vila de província, de um pequeno país à beira-mar plantado, de onde as ruínas dum mundo em estilhaços podem ser placidamente criticadas, enquanto se bebe uma bica bem tirada e se saboreia um pastel de nata com canela.

NOTA:
Terceiro painel dum retábulo dedicado à história da República e que Álvaro Guerra resolveu associar à tradição bem portuguesa do Café, espaço público por excelência de encontros e desencontros dum país com o seu próprio destino. Publiquei-o pela primeira vez no Pátio de Letras há precisamente meia década. Trago-o agora para aqui, para fazer companhia aos seus companheiros de percurso e para celebrar também o 25 de Abril que o inspirou...

1 comentário:

  1. Magnífica resenha do retrato fenomenal de Álvaro Guerra sobre os tempos quentes em Portugal. Continua a faltar-me a leitura dos dois últimos livros da trilogia, que bem valem para melhor interiorizar as minhas próprias lembranças de outros tempos nesta aldeia à beira-mar plantada onde, ainda hoje, há quem pinta e quem esborrate, com discursos partidários sempre inflamados...

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