3 de abril de 2016

Amin Maalouf, o século de Beatriz e a feminilidade do mundo

«La sagesse est la vertu oubliée de notre temps. Un savant qui n'est pas aussi un sage est soit dangereux, soit, dans le meilleur des cas, inutile.»
Amin Maalouf, Le premier siècle après Béatrice (1992)
No ano em que se celebra o quinto centenário da publicação em Lovaina da versão latina da Utopia (1516) de Thomas More, resolvi revisitar O século primeiro depois de Beatriz (1992) de Amin Maalouf, onde a descrição dum mundo possível diferente do nosso é abordado, conquanto o lado eutópico e paralelo imaginado pelo humanista inglês tenha sido substituído pela visão distópica e antecipada do romancista franco-libanês. A sociedade perfeita idealizada no texto quinhentista desaparece do horizonte de eventos e a configuração duma fase futura da sociedade real presente na passagem do segundo para o terceiro milénio entra em cena. A antiga aspiração platónica de criar um estado melhor num tempo ainda por vir é substituída pelo temor atual dos perigos imediatos latentes numa manipulação genética indiscriminada. Tudo isto nos dias imediatos aos de hoje.

O tópico duma natalidade seletiva é chamada à colação pelo protagonista-relator dum livro de testemunhos pessoais ao longo de 83 anos de vida vivida, distribuídos por vinte e seis fragmentos identificados de A a Z. Questiona os limites do livre arbítrio quando está em causa a escolha preferencial dum filho em detrimento duma filha e advoga o princípio do acaso determinado pelas leis da natureza. Cientista de formação, especialista em insetos, depara-se numa viagem académica ao Egito com uma estranha substância que teria a propriedade de garantir a cada um dos pais interessados um descendente varão. Assim lhe garantiu o jovem fornecedor do mercado do Cairo quando lhe vendeu o miraculoso casulo de escaravelho. Eficiência que nunca chegou a testar em si mesmo mas que terá inspirado outros a estudá-la em laboratório e comercializar com grande liberdade o produto final da investigação um pouco por todo lado. As consequências são imediatas. A rarefação dos nascimentos femininos e a proliferação quase absoluta dos masculinos nas décadas seguintes. O desequilíbrio verificado começou a apontar para uma verdadeira catástrofe familiar, muito próxima dum genocídio incontornável baseado numa castração programada. As inquietudes sentidas nessa nova era de manipulações demográficas discriminatórias partilhou-as com Clarence e Beatriz, as duas mulheres que preencheram a sua existência e o ajudaram a redobrar a sua paixão pela feminilidade do mundo. A companheira de sempre e o fruto do seu amor, aliadas inseparáveis das lutas travadas a nível global no seio da Rede de Sábios, a coroar o esforço planetário de devolver à humanidade a esperança dum porvir equilibrado que o egoísmo anquilosado de alguns lhe havia roubado.

Depois de se ter lançado no universo das letras com um ensaio e três relatos ancorados em contextos históricos precisos, um dos já então mais destacados vultos do pensamento contemporâneo envereda pelos trilhos duma categoria literária geralmente arrolada na ficção científica. As tradições vindas do passado são analisadas no presente e equacionadas no futuro. Experiência criativa singular que abandonará nas posteriores incursões nos labirintos da escrita. Tudo leva a crer que manterá com esse estatuto de filho único. Refere uma ou outra vez As viagens de Guliver e o Admirável mundo novo, O Dom Quixote e A divina comédia, sem indicar uma única vez os nomes dos seus autores, Swift e Huxley, Cervantes e Dante. A sua principal preocupação centra-se na identificação das questiúnculas insignificantes estabelecidas entre os protagonistas dos dramas humanos trazidos para o interior dum livro. A antevisão dos grandes desenvolvimentos tecnológicos são mencionados muito de fugida, resumindo-se à descoberta duma vacina inibidora da gestação indesejada de raparigas. Um princípio de eugenia utópica a que os grandes especialistas no género deram uma importância muito relativa.

O grande criador de memórias ficcionadas de realidades factuais nunca se cansa de identificar as grandes/pequenas rivalidades que têm dividido os povos ao longo da sua existência conturbada. O Norte/Sul o Oriente/Ocidente. Em todos os escritos que nos tem vindo a legar, nunca se cansou de preconizar o diálogo entre todos, única forma de resolver divergências e estabelecer entendimentos. Não existem culturas boas ou más. Existem particularidades que as diferenciam. Nada mais. Os juízos de valor são sempre penosos de tecer. Ninguém tem o direito de dar lições aos outros. A única bitola admissível assenta nos direitos do homem e do cidadão. Custe a quem custar. Os séculos vindouros são difíceis de prever. Os cenários imaginados pela ficção estão pejados dos erros mais grosseiros. O rio da História nunca se detém à beira do precipício. Segue sempre o seu percurso até onde a nossa vista pode alcançar. A Era de Beatriz pode esperar e desesperar. Tradição não é Lei. A renovação impõe-se tanto num caso como no outro. Toda a tragédia é grandiosa, todo o apocalipse é grandioso. É verdade. O destino do homem é grandioso. Também é verdade, porque está nas suas mãos traçar a rota que melhor lhe convier.

4 comentários:

  1. Uma feliz resenha que nos salienta a mestria de Maalouf em mergulhar-nos em inquietação saudável, dado que as distopias que nos apresenta leva-nos a questionar as idiossincrasias humanas. A humanidade tem memória curta, pelo que enfrenta situações sucessivas de caos. O futuro, quem o poderá predizer?

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  2. Maalouf é sempre um autor revigorante que nunca "se deixa ler" com indiferença. Gostei da tua recensão, como habitualmente.

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  3. Já li este livro há muitos anos. Vou relê-lo. Gosto muito da escrita de Maalouf.

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  4. José Manuel Moreira Cláudio6 de abril de 2016 às 11:28

    Comecei a ler Maalouf desde 'As cruzadas vistas pelos árabes' e depois continuei por alguns mais até 'Origines'. A sua recensão (este já li) deu-me vontade de voltar ao autor...

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