17 de abril de 2016

Gabriel García Márquez, revisitação dos cem anos de solidão...

«...antes de llegar al verso final ya había comprendido que no saldría jamás de ese cuarto (...) porque las estirpes condenadas a cien años de soledad no tenían una segunda oportunidad sobre la tierra.»
Gabriel García Márquez, Cien años de soledad (1967)
Raras vezes volto a reler na íntegra um livro que já tenha lido num tempo mais ou menos remoto. Fico sempre com a estranha sensação de estar a negar-me a hipótese da descoberta de novos horizontes de leitura, de ignorados prazeres estéticos, de mergulhar na aventura das imagens esboçadas com letras, de encontrar o tal livro da minha vida, aquele que teima em escapar-me das mãos. Só que as obras-primas não se encontram com facilidade ao virar da esquina. Então, a revisitação dos clássicos impõe-se. Para todos os efeitos, foram também esses testemunhos abalizados que me ajudaram a crescer e a transformar naquilo que hoje sou, com defeitos e tudo, como convém. É que a perfeição ideal não existe nem na literatura consagrada. Regra geral, sinto a impotência de tecer um resumo minimamente credível que tenha o condão de me recordar esses enredos mágicos, longínquos e fugidios, feitos de palavras esquecidas. Como aquelas que me falavam duma casa patriarcal, que não parava de crescer, renovar e desfazer, labirinto povoado de seres votados ao mais completo deserto existencial, habitantes compulsivos de todos os silêncios, sem limites nem remissão. Estou a falar da «Casa dos Buendía», que Gabriel García Márquez idealizou há cerca de meio século e etiquetou sugestivamente de Cem anos de solidão (1967).

Depois do livro lido e relido, as palavras voltam a exercer todo o fascínio já experimentado no passado e a imperícia de as parafrasear a repetir-se inexoravelmente. Aliás, o grande mérito das grandes obras de referência abonada reside, como é sabido, na qualidade de se bastarem a si mesmas, sem necessidade de recorrerem a qualquer tipo de amparo externo para se afirmarem como portadoras de sentido. A missão do crítico torna-se em grande parte ociosa ou mesmo inútil. A menos que tenha o bom senso de não querer falar mais alto do que as entidades convocadas pela fábula para nos contarem as suas/nossas sagas. Com toda o decoro que o texto exige, sempre vou dizendo que a história se desenvolve em torno duma cidade fictícia, criada do nada e por acaso, bem como da dos seus fundadores e descendentes repartidos por quatro gerações, tantas quantas as dos heróis lendários, de seres solitários ao longo duma centúria bem contada, tal como nos relatos infantis da tradição oral. Nem mais nem menos. O destino trágico registado em sânscrito nos pergaminhos manuscritos do cigano errante, saltimbanco ambulante e sábio alquimista, conhecedor como nenhum outro do percurso familiar dos protagonistas.

Romance de caráter evocativo por excelência, de memórias individuais e coletivas, de fontes antigas e recentes, escritas e orais, de episódios locais e globais. Pouco importa trilhar por esse tipo de sendeiros, todos eles rastreados à saciedade por especialistas e abonados pelo autor. Em Macondo, palco dos dramas contados, tudo é real e tudo é modelizado pela imaginação, base do realismo mágico que povoa todo o emaranhado narrativo e torna ainda mais apetecido o folhear atento de cada uma das páginas em que se inscreve. O engenho inventivo do homem não tem limites visíveis. Até de criar novas leis para o mundo e de as tomar como fidedignas. A escrita tem-se revelado nos últimos cinco milénios uma aliada preciosa para dar voz a essa ilusão edificadora de eternidade. Gabriel García Márquez aprendeu muito cedo a servir-se desse manancial inesgotável e a transferi-lo, à sua maneira, para o universo novelesco dos factos fictícios de possibilidades idealizadas. Um caos inaugural à procura de um caos epigonal. Uma ordem efémera regida por um século solitário a separá-los para todo o sempre. Sem tirar nem pôr. A idade dos heróis dos mitos ancestrais. O ciclo mágico de eventos traçado, porque «as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra». E nada mais há a aditar. O derradeiro ponto final na intriga encerra de vez o relato de todos os relatos. Inflexível, implacável, indiferente à vontade dos leitores de adiarem por mais cem anos a morte anunciada dos solitários da cidade dos fantasmas, das borboletas amarelas e dos médicos invisíveis. A solução será repetir a leitura ou partir para outras fábulas tecidas pela mesma pena e com a mesma mestria, para que a magia da escrita nos volte a surpreender em toda a sua plenitude.

NOTA
Mais uma revisitação aos Cem anos de solidão, dois anos após a morte de Gabriel García Márquez e através dum texto tornado público no Pátio de Letras nas vésperas do Natal de 2010.

10 comentários:

  1. Este titulo foi-me oferecido quando completei 16 anos, já lá vão mais de três décadas. ficou a pertencer áquele conjunto de livros que li, dos quais nunca mais me esqueci, tal como a Fiesta do Hemingway, ou o Fio da Navalha do Somerset Maugham, leituras com mais de três décadas. Também eu tenho pensado em revesitá-las, mas, sintto que possuo muitas lacunas em termos de leituras e gostava dentro do possível de tentar colmatá-las. Contudo, acredito que voltarei a reler, os Cem Anos de Solidão e outros títulos que me marcaram na juventude.

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  2. E, tal como referi no Pátio de Letras, é sempre bom (re)ler as tuas recensões, que mostram outra face do realismo mágico de García Márquez, em palavras envolventes que despertam a vontade de mergulhar de novo nas suas páginas. Bem haja, Prof.!

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  3. Inesquecível. Também já li há mais de 20 anos, e curiosamente também me foi oferecido. E foi o primeiro livro que li de GGMárquez.

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  4. Maria Emilia Almeida19 de abril de 2016 às 21:15

    Grandes obras ...... toda a obra de Gabriel Garcia Marquez é notavel.

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  5. São livros que no meio de centenas que lemos nos ficam gravados!! Tal como certos autores.

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  6. Teresa Salvado de Sousa6 de maio de 2016 às 16:37

    Um dos livros da minha vida, por razões várias. Uma, ter-me aberto para uma maneira doce de compreender a vivênvia (convivência) de universos plurais na apreensão do real.

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  7. Maria Elizabeth Vicente27 de maio de 2016 às 19:11

    Grande escritor. Quem gosta de ler não deve deixar de ler e porque não reler as suas obras.

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  8. Muito bom e inesquecível.

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  9. Manuela Castro Santos27 de maio de 2016 às 19:13

    Gosto desde a primeira leitura.

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  10. Constantina Serrano27 de maio de 2016 às 19:14

    Um dos livros da minha vida! Já li e reli tantas vezes que perdi a conta...Grande Gabo!

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