12 de abril de 2016

Lídia Jorge, os encontros fortuitos de cinco contos situados

«Em que altura a criança troca a moeda de oiro da inocência pela agulha da perversidade?»
Lídia Jorge, Praça de Londres. Cinco contos situados (2008)
Há tempos, colocaram-me a questão de saber por que motivo a última coletânea de contos de Lídia Jorge, Praça de Londres (2008), estava a ter um acolhimento tão pouco expressivo por parte do público. Na altura não soube dar uma resposta satisfatória. Alguns meses passados, continuo na mesma. Revisitei atentamente os Cinco contos situados e voltei a sentir o mesmo prazer que o primeiro encontro me havia proporcionado. Trata-se de uma obra à altura das restantes que a autora nos tem vindo a oferecer regularmente ao longo de três décadas.

A dificuldade de identificar um fio condutor unificador de textos autónomos encontra-se aqui um pouco mitigada, por todos eles se centrarem em espaços urbanos concretos. O subtítulo eleito já nos acautelava para essa particularidade. Depois, a análise continuada da série é facilitada pelo magnetismo de escrita emprestado às instâncias narrativas, pela fluidez de discurso concedido às personagens, pela abordagem de tópicos postos à disposição do leitor. Remetem-nos, afinal, para um universo romanesco ímpar que só os grandes vultos da literatura logram atingir.

Na impossibilidade de tocar em todos os potenciais focos de interesse dos relatos, centrei-me num deles, nessa velha capacidade humana de fabricar histórias e de as transmitir a todos os interessados, de entrar nesse jogo de faz-de-conta, nesse debate partilhado de ideias. A verosimilhança dos factos imaginados nunca foi um obstáculo. Lídia Jorge não foge a essa regra de ouro da criatividade artística. Geralmente fá-lo através da voz experiente das mulheres. É o que se passa na totalidade dos fragmentos fingidos de vida em apreço. Como expositora de factos, como ouvinte de casos, como protagonista de eventos.

Em «Praça de Londres», seguimos a corrente de pensamento duma transeunte anónima que se deixa surpreender pelas manifestações de afeto dum homem grisalho para com uma criança, talvez filha, com quem se cruza nesse recanto da cidade do Tejo. O insólito quotidiano documentado na «Rue du Rhône» está ligado à compra de uma mala de mão de senhora, em pele de crocodilo genuíno do Mississipi, episódio vivenciado por duas clientes portuguesas e uma vendedora suíça, numa loja dessa movimentada artéria de Genève. O palco dos sucessos volta à capital do nosso país, quando a protagonista de «Branca de Neve», uma bancária de sucesso, se sente perseguida por um bando de sete crianças na avenida dos Estados Unidos. A «Viagem para dois» coloca-nos na presença dum criminalista e duma novelista, em trânsito ferroviário entre Milão e Veneza, em que o primeiro põe a segunda ao corrente dum estranho episódio que testemunhara em Lisboa e lhe solicita que, enquanto escritora de histórias de cordel, lhe dê uma forma literária conveniente. O livro encerra com «Perfume», o único inédito da série, composto como uma «Homenagem tardia a Yalmaz Güney» e desenvolvido em torno da fragrância emanada duma história de amor muito particular, a dos pais do narrador do conto, repartida pelas principais cidades da Europa.

As sínteses estão feitas. Os pormenores ficam de reserva para os curiosos. Que a surpresa da descoberta persista para deleite de todos aqueles que, por um qualquer descuido, ainda não mergulharam na aventura da leitura, no mundo mágico dos heróis da imaginação. Quem sabe se no final dessa viagem não vislumbram uma resposta satisfatória para a questão inicial.

Na réplica literária de Lídia Jorge à história de amor contada pelo cineasta turco referido pode ler-se: «Diz uma velha canção que no fundo de uma garrafa se encontra a vida de um homem, e por certo que assim acontece desde que se inventou a fermentação do malte». A chave do êxito das obras de arte em geral e dum livro em particular só pode ser encontrada se tivermos o ousadia de a abraçar com todos os sentidos. Lídia Jorge pôs-nos a «garrafa» à nossa disposição, agora só temos de abri-la e ouvir todas as canções que ela encerra. De facto, não se trata de um fardo muito pesado para carregar.

NOTA:
No mesmo dia em que se publica entre nós um novo conjunto de contos de Lídia Jorge, O amor em Lobito Bay, trago aqui a estas Histórias d'Arthur d'Algarbe a visão pessoal que tornei público no Pátio de Letras sobre a Praça de Londres há meia dúzia de anos. Os relatos situados em espaços relativamente próximos da penúltima coletânea dão lugar a alguns mais situados em espaços longínquos. Vou iniciar a viagem para visitar os novos roteiros. 

2 comentários:

  1. Já registei o título. Possuimos vários livros da escritora, mas não esse. O meu marido já os leus todos, eu apenas A Costa dos Murmúrios e gostei, do livro e do texto!

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  2. A Lídia Jorge tem o dom de nos abrir portas a mundos humanos, revelados com prosa mágica. Este livro de contos ainda não li, mas esta recensão fantástica desperta bem a vontade de o fazer.

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