8 de abril de 2016

Por palavras contadas ou descontadas

RAFAEL BORDALO PINHEIRO - A PARÓDIA 1901

Os protagonistas da história...

Há coisa duns tempos fui convidado a compor uma reflexão pessoal de 200 palavras a propósito da minha passagem pela escola que frequentara no ensino preparatório e secundário. Faria parte das comemorações paraoficiais dos 50 anos da sua inauguração solene. Integrar-se-ia numa publicação coletiva intitulada Eu faço parte desta história. 

Fi-lo sem reservas. Obedeci à dimensão verbal indicada e enviei o texto final dentro do prazo convencionado. Até ao momento não recebi qualquer sinal de retorno. Presumo que o testemunho tenha sido ignorado. Pouco importa. Registo-o mesmo assim nas linhas abaixo para que passe a conste, porque, de facto, Eu fiz parte daquela história.

Entrei caloiro na Escola Velha em 62 e fui logo fustigado com um par de vergastadas nas pernas. Aprendi logo ali que os calções – cuecas na gíria académica – eram um trajo de escola primária e não de ciclo preparatório para a vida de adulto. Rito iniciático que me dispensou do batismo no chafariz das cinco bicas ou medir o recreio com um fósforo queimado.

Dois anos volvidos, assisti à inauguração solene da Escola Nova, matriculado no curso geral de comércio. Recordo vagamente a presença dum almirante a cortar fitas e dum cardeal a borrifar paredes. Loas terão pregado os dois. As palmas vieram depois. Obrigatórias. Em uníssono. 

Quando o ditador caiu da cadeira do poder, encontrava-me na secção preparatória para o ICL. Promessa de mudar de página projetada no horizonte. Os media da época choraram o chefe partido e as gargantas do vulgo cantaram os versos da Desfolhada portuguesa

Pouco retive dos livros do deve-e-haver de aprendizagens pretéritas. Para trás mija a burra, disse-me em vernáculo peculiar a Super-Homem. O menino tem jeito para a escrita, disse-me em registo normativo o Aristóteles-Bigodaça. Lições que me levaram a trocar as contas pelas letras. Sem hesitações saudosistas. Até hoje. Onde me encontro...

Vistas bem as coisas, os editores da brochura lá terão tido as suas razões para silenciarem um relato feito por palavras contadas já que lhes seria difícil fazê-lo por palavras descontadas. Cortaram o mal pela raiz. E deste modo me foi vedado prestar o preito devido aos meus mestres primeiros de língua e lá acabei mesmo por Sair do elenco de tal história.

3 comentários:

  1. Uma democracia que não reconhece o direito à liberdade de expressão... A herança ditatorial perdura no tempo para os de fraca instrução, é a única explicação plausível que encontro.

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  2. O silenciamento das palavras contadas e não descontadas deve-se sobretudo ao incómodo provocado por um vernáculo escatológico indesejado a substituir um depoimento laudatório desejado…

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  3. Ó Artur, então queria que publicassem um texto assim!?
    Eu cá gostei muito, olhe, ficaram eles a perder...

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