30 de junho de 2016

Falemos de futebol...

Holandês Voador

[Mural - Favela do Rio de Janeiro - 2014]


Jogo de ombros


«Mas logo a conversa deslizou para o futebol, porque o Marques sabia que em matéria de futebol eu estava completamente em bran-co e fazia questão de me manter fora das conversações. Trata-se dum novo jogador, o Ferreira, o melhor marcador de golos do cam-peonato, apesar de só ter uma perna.
– Lá que é difícil jogar só com uma perna, admito – observava o Marques – mas olha que a maior parte dos golos que ele tem mar-cado são de cabeça. O que o gajo tem é um bom jogo de ombros, lá isso é que é…»
Mário de Carvalho, «Dies Iræ» IN A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho (1988: 38)

27 de junho de 2016

Amin Maalouf, quatro séculos de história vistos duma poltrona sobre o Sena

«Le premier occupant du fauteuil n'y resta pas longtemps. Reçu en mars 1634, il se noya dans la Seine quatorze mois plus tard, ce qui lui vaut le triste privilège d'avoir été le premier " immortel " à mourir.»
Amin Maalouf, Un fauteuil sur la Seine (2016)
Amin Maalouf foi recebido com toda a pompa e circunstância como membro eleito da Académie française em 2012. Estava à sua espera e inteira disposição a vigésima nona poltrona da mais famosa associação de imortais, alojada no Institut national de France. Aquela que tem como principal missão a defesa da pureza e eloquência da língua francesa exigidas em todas as áreas abrangidas pelas artes e pelas ciências. No dia da receção solene no palácio da Coupole, cumpriu o tradicional ritual de tecer um elogio ao antropólogo Claude Lévi-Strauss, o seu predecessor naquele mesmo assento que a partir desse momento passaria a ser também seu e a título vitalício. Não teve oportunidade, então, de prestar uma homenagem adequada aos restantes ocupantes daquele espaço privilegiado de divulgação da cultura ao longo da existência multissecular da Compagnie e do próprio país que a instituiu nesse já longínquo ano de 1634. A conceção de Un fauteuil sur la Seine. Quatre siècles d’histoire de France (2016) teve como grande objetivo colmatar, precisamente, essa lacuna.

Nessa tarefa hercúlea de traçar o perfil imparcial de dezoito figuras públicas imortalizadas em vida (filósofos, cardeais, médicos, diplomatas, dramaturgos, advogados e libretistas), o biógrafo voluntário foi obrigado a consultar todos os arquivos postos ao seu dispor. O estatuto de herói outorgado pelos quarenta membros em efetividade de funções nas cerimónias oficiais do cais de Conti é questionada constantemente. A obtenção da honra de se ser lembrado para sempre depende da memória coletiva dos homens e não da vontade iluminada dos sábios reconhecidos pelo poder instituído do momento. Os nomes consagrados de Ernest Renan, Henry de Montherlant e Levi-Strauss são recordados com o mesmo empenho ensaístico com que o são os nomes esquecidos de Pierre Bardin, Nicolas Bourbon, Salomon de Virelade, Philippe Quinault, François de Callières, André-Hercule de Fleury, Paul d’Albert de Luynes, Claris de Florian, Jean-François Cailhava, Joseph Michaud, Pierre Flourens, Claude Bernard, Charllemel-Lacour, Gabriel Hanotaux e André Siegfried. Os grandes a darem visibilidade aos pequenos. Abreviando e sintetizando.

O percurso pelos bastidores da instituição parisiense fundada oficialmente pelo Cardeal de Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII, acaba por se transformar num meticuloso percurso pelo devir histórico do país que a acolheu, primeiro na residência de Valentin Conrart, membro do círculo literário inicial, depois no Collège des Quatre-Nations, por vontade expressa do Cardeal Mazzarini, primeiro-ministro de Luís XIV. O Ancien Régime, as cinco Repúblicas e os dois Impérios perpassam pelos nossos olhos de leitores atentos. Os tempos conturbados da Convenção, Diretório e Consulado são chamados à colação. As referências ao Musée de France, à Comédie-Française e ao Collège de France são recorrentes. As alusões às querelas estabelecidas entre republicanos e realistas, revolucionários e reacionários, clássicos e românticos são frequentes. A falta de dados concretos sobre os sucessivos usufruidores da cadeira em apreço levam o seu atual proprietário a tropeçar em pequenas anedotas que os marcaram no período de tempo, enquanto participantes das sessões privadas e públicas do Cenáculo tetrassecular. Encontram-se todos coligidos nas dezoito didascálias com que abre cada uma das entradas da compilação de celebridades exumadas do passado.

Contista de vidas alheias e pessoais, fingidas e reais, de memórias frágeis recuperadas pela escrita, Amin Maalouf conjuga na história desta poltrona com vista para o Sena os dois modos de traçar o perfil de vultos de renome assegurado e de particular merecimento e dá-lhes um cunho ensaístico, género em que também é um mestre exímio. Romance plural de muitas travessias singulares pelos sendeiros duma fama passageira ou perene no fluxo dum cronótopo imparável e contínuo. Fénix fabulosas renascidas das próprias cinzas com direito à glória efémera de voltarem ao nosso convívio nas páginas dum livro enquanto dura o ato da leitura. Arte primorosa dum autor que tão bem tem sabida elevar-se à altura dos heróis que povoam a nossa imaginação sedenta de poesia integral nesta nossa aldeia global cada vez mais rendida à vulgaridade medíocre da prosa integral. Exercício de estilo sem o qual o status tão almejado de génio se não alcança.

25 de junho de 2016

Bye-bye, farewell, cheerio Britannia...

Rule Britannia 

Nostalgia Puzzles

[wentworthpuzzles]

Os bárbaros andam por aí...

πας μη Ελλην βαρβαρος
[quem não é grego é um bárbaro]

Os Gregos antigos designavam de «bárbaros» (βάρβαρος) todos aqueles povos que não pertenciam à Hélada, i.e., que não descendiam do herói epónimo Heleno, que não falavam um dialeto helénico e que não partilhavam o panteão dos helenos. Significava, grosso modo, estrangeiro.

Os Romanos conquistaram a Grécia pela força das armas e foram derrotados pela força das ideias. Adaptaram o conceito de «paideia» (παιδεία), i.e., o sistema de educação e formação ética herdada de Atenas, generalizaram o termo e alargaram-no ao conceito de não-romano ou incivilizado.

A «xenofobia» (ξενοφοβία), i.e., a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, levou a grande cidade-estado fundada por Rómulo e Remo a alimentar uma guerra constante com os Bárbaros, o que levaria à sua queda e fragmentação de toda a România. Seguiram-se-lhe 500 anos de caos.

A Europa das nações nascentes mergulhou numa sucessão de guerras civis ininterruptas que só começou a abrandar nos últimos 60 anos com o Tratados de Roma de 1957. A  UE tem garantido um longo período de paz e entendimento entre os povos que a formam «unidos na diversidade».

O horror aos bárbaros invadiu o Reino Unido. O Brexit votado pelos seus cidadãos ditaram o adeus à União Europeia. A nação que colonizou meio mundo fechou a porta aos imigrantes invasores. Ironia trágica que poderá levar ao desmembramento da própria Britannia. Alea jacta est...

20 de junho de 2016

Teoria das cores do oito ou oitenta

Goethe, Farbenkreis, 1809

[Goethe-Museum im Goethe-Haus, Frankfurt]


Nada mais peregrino para um daltónico do que falar de cores, das suas tabelas e teorias, bem como dos seus sentidos mais ou menos esotéricos. A forma como os mass media se têm vindo a fixar em determinados comprimentos de onda do espetro eletromagnético da luz obrigam-me a retomar o tema.

As cores nacionais têm vindo a predominar estes últimos dias nos canais televisivos, jornalísticos e radiodifundidos. Omnipotentes - omnipresentes - omniscientes. Divinização duma equipa de futebol com resultados bem pouco visíveis nas quatro linhas. O branco que é tudo à compita com o negro que é nada.

As notícias isentas andam em parte incerta. Escusado procurá-las por aí. As manifestações entre a Escola pública e a privada converteram-se numa guerra de números pintada de amarelo. A cor-pigmento primária e cor-luz secundária resultante da sobreposição do verde e do vermelho. Está tudo explicado.

A verdade tem sempre duas cores. A real e a retocada. O oito ou oitenta. Cromatismo situado entre o infravermelho e o ultravioleta. Movimento harmónico simples entre extremos. A fronteira situada entre o visível e o invisível. Paleta global com que o mundo se veste para deleite dos olhos. Variada, plural, plena.

18 de junho de 2016

O evangelho de Jesus Cristo segundo José Saramago

«Sim, meu filho, o homem é pau para toda a colher, desde que nasce até que morre está sempre disposto a obedecer, mandam-no para ali, e ele vai, dizem-lhe que pare e ele para, ordenam-lhe que volte para trás, e ele recua, o homem, tanto na paz como na guerra, falando em termos gerais, é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses.» 
José Saramago, O evangelho segundo Jesus Cristo (1991)
Quando as leituras que fizemos no passado nos exigem releituras no presente, isso significa terem os diálogos travados em tempos idos com o autor permanecido inconclusos e abertos a novas conversas de atualização dos sentidos encobertos das palavras. Ajuste de contas das ideias feitas com as refeitas. As polémicas geradas em torno duma obra perturbam, por vezes, o prazer do texto e das escritas que lhes deram origem. As interpretações extremadas acabam por desviar a atenção do leitor e desvirtuar os significados implícitos/explícitos das mensagens, de trocar as linhas e as entrelinhas, lacunas que só uma revisitação efetuada no momento certo poderá esclarecer ou colmatar.

No caso concreto de José Saramago e d’O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), os fundamentalistas ortodoxos e políticos de pacotilha centraram-se em blasfémias anacrónicas e impiedades bafientas alegadamente lesivas da matriz religiosa do país, os críticos encartados mais exigentes deram-se conjuntamente as mãos e acusaram o escritor de ter sido pouco ousado no ato criativo e de ter trocado o maravilhoso cristão dos evangelhos canónicos pelo maravilhoso herege dos evangelhos apócrifos. Sem entrar em extremismos exegético-literários, fiquei então um pouco dececionado com o romancista, com a forma pouco realista como abordara o tema e deixei ficar o romance a repousar até hoje. Vinte e um anos de intervalo para arrumar as ideias e deixá-las atingir uma maioridade absoluta e desejada.

Queria ver o natural onde havia o sobrenatural. Topar o imanente onde achava o transcendente. Agora, contento-me em testemunhar o realismo mágico onde a alegoria assentou arraiais. A presença do insólito no relato acaba por acentuar ainda mais a profunda humanidade de Jesus. Facto singular que a vontade dos homens, perante a grandeza exemplar da sua conduta na vida, deificou com o decorrer dos séculos, confundindo a natureza mortal do filho de Maria e José com a natureza imortal de Jeová. O retratado, em contrapartida, prescinde da dignidade divina outorgada pelo senhor todo-poderoso criador de todas as coisas e escolhe a paternidade dum simples carpinteiro galileu desconhecido criador de meros objetos de uso quotidiano. O livre arbítrio terreno é chamado à colação e derrota sem ponto de retorno a predestinação celestial.

O evangelho de Jesus Cristo segundo José Saramago equaciona as fontes que o devir histórico nos legou e reescreve, com toda a minúcia permitida pela ficção, a biografia do filho do homem que recusou ser filho de deus. Efetua uma interpretação atenta dos mitos fundadores do monoteísmo cristão que estiveram na origem da moderna civilização ocidental e dá-lhe uma dimensão alternativa. Recupera o nome de Judas duma traição inexistente, dá a possibilidade a Madalena de amar e ser amada, permite a Maria e José a liberdade de constituir uma verdadeira família e devolve ao mentor involuntário duma religião ancorada no sacrifício e martírio do calvário o direito à mortalidade, o tal que os deuses sempre invejaram e os discípulos lhe roubaram para proveito próprio. As coordenadas maniqueístas do bem e do mal são alteradas, apenas para que a infabilidade dos dogmas seja questionada. É que as mãos que compuseram as versões escritas do sagrado são em tudo idênticas àquelas que produziram as profanas.

No ano em que José Saramago completaria o seu nonagésimo aniversário, a sua presença continua mais viva do que nunca entre nós. As incursões que façamos ao universo romanesco por si gizado serão sempre premiadas com novas e renovadas descobertas, com fartas e variadas pistas de leituras, com múltiplas e incontáveis formas de olhar o mundo real e imaginário que nos rodeia e nos define. Apanágio muito raro só alcançado por alguns, como será o caso dos inventores inatos dos heróis da imaginação, com os quais acabam por se confundir e fundir. Aqueles que desde os tempos imemoriais da criação artística vão dando sentido pleno à imortalidade, ao privilégio de viverem em espírito na memória coletiva dos povos.

NOTA:
Texto trazido do Pátio de Letras no 6.º aniversário da morte de Saramago, onde o tenho depositado há quase dois pares de anos. Faço-o porque a leitura dos clássicos está constantemente a exigir novas leituras... 

13 de junho de 2016

Arraiais, marchas, manjericos e fogueiras de Santo António

Santo António a pregar aos peixes
[Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa]

Os padroeiros de Lisboa

Celebra-se hoje o feriado municipal da capital, por ter sido neste dia que Fernando de Bulhões, conhecido entre nós como Santo António de Lisboa, faleceu em Pádua, corria o ano de 1231. Justa homenagem prestada ao mais ilustre taumaturgo, teólogo, asceta, místico e orador nascido na cidade entre 1191 e 1195.

Acontece que essas honrarias são regra geral concedidas ao padroeiro local, coisa que o frade Agostinho tornado Franciscano, canonizado por Roma e designado Doutor da Igreja nunca foi. A escolha recaiu primeiro nos irmãos gémeos São Crispim e São Crispiano, depois trocados por São Vicente de Fora.

Como prémio de compensação, foi proclamado segundo padroeiro do país por Pio XI. O primeiro posto é ocupado desde os tempos de D. João IV pela Imaculada Conceição, também coroada rainha de Portugal. Santos de casa não fazem milagres. Está bem de ver. Que se vá buscar lá fora aquilo que cá dentro não se obtém.

O povo de Lisboa escolheu-o para patrono. Tornou-o casamenteiro. Dedicou-lhe arraiais e ergueu-lhe altares. -lo a pular fogueiras e a assar sardinha. Levou-o a queimar alcachofras e a regar manjericos. Convidou-o a marchar na avenida a noite toda. Afinou os cavalinhos, bailou e cantou. E se assim é, que a festa dure até ser dia.

10 de junho de 2016

As escritas de Camões...

LUÍS DE CAMÕES

O retrato pintado em Goa, 1581

Numa mão a espada na outra a pena...


Em finais dos anos oitenta, realizei uma edição crítica dum autor português seiscentista. Tive de respeitar as práticas de escrita que nesses tempos se usavam, as mesmas que Camões teria usado. O meu PC não gostou dessa forma tão bizarra de escrever e mandou-me consultar com urgência a norma oficial portuguesa de registo da língua então em vigor. A de 1945 revista em 1973.

Este episódio assalta-me a memória sempre que vem à baila a aplicação do acordo ortográfico de 1990. Dizem que se Camões o pudesse ver fugiria a sete pés e procuraria de novo refúgio no tú-mulo. Vá-se lá saber porquê. E como a ignorância é muito atrevida, aí vão duas oitavas d’Os Lusíadas, registadas tal qual como soía fazer-se em 1572, ano da editio princeps da epopeia.

OITAVAS
Eis aqui quaʃi cume da cabeça,
De Europa toda, o Reino Luʃitano,
Onde a Terra se acaba, & o mar começa,
E onde Febo repouʃa no Occeano:
Eʃte quis o Ceo juʃto que floreça
Nas armas, contra o torpe Mauritano,
Deitando o de ʃi fora, e la na ardente
Affrica estar quieto o nam o conʃente.

Esta he a ditoʃa patria minha amada,
Aa qual ʃe o Ceo me dá, que eu ʃem perigo
Torne, com eʃta empreʃa ja acabada,
Acabeʃe eʃta luz ali comigo.
Eʃta foy Luʃitania, deriuada
De Luʃo ou Lyʃa: que de Bacho antigo
Filhos forão, pareçe, ou companheiros,
e nella antam os Incolas primeiros

Impreʃʃos em Lisboa, com licença da ʃancta Inquisição, & do Ordinario:
em caʃa de Antonio Gõnçaluez Impreʃʃor. 1572
(III, 20-21, fls. 41-41v.; Pdf pp. 91 e 92)

OBS.:
A questão que se me põe neste momento é a de saber se Camões teria a mesma reação relati-vamente a todos os registos que a sua escrita foi sofrendo ao longo dos tempos. Exatamente 444 anos após a publicação da obra máxima da cultura literária portuguesa. Depois, caso os recusasse em bloco, por ferirem os seus hábitos ortográficos, começarmos a restaurar as práticas algo peculiares que teria seguido nos seus dias. Seria, no mínimo, curioso, para não dizer doloroso...

5 de junho de 2016

Khayyam, Pessoa & Énard...

FLAGRANTE DELITRO
Fernando Pessoa, inspirado por Omar Khayyam,no Abel Pereira da Fonseca de Lisboa
(1929)

Rubaiyat

OMAR KHAYYAM
Je suis allé à la mosquée, j’y ai volé un tapis.
Bien plus tard, je me suis repenti,
Je suis retourné à la mosquée : le tapis était usé,
Il fallait le changer.
………………………………………………......
Verse-moi de ce vin, que je lui dise adieu
Adieu au nectar rose comme tes joues en feu.
Las, mon repentir est aussi droit et sincère
Que l’arabesque des boucles de tes cheveux.
Tu bois du vin, tu es face à la vérité,
Devant les souvenirs de tes jours en allés,
Les saisons de la rose, les amis enivrés.
Dans cette triste coupe, tu bois l’éternité.

FERNANDO PESSOA
La joie suit la douleur, et la douleur la joie.
Nous buvons du vin car c’est fête, parfois
Nous buvons du vin dans la grande douleur.
Mais de l’un ou l’autre vin, il en reste quoi ?
Après les roses, échanson, tu as versé
Le vin dans ma coupe et tu t’es éloigné.
Qui est plus fleur que toi, qui t’es enfui ?
Qui est plus vin que toi, qui t’es refusé ?
………………………………………………
On dit que le bon Khayyam repose
À Nishapour parmi les fragrantes roses
Mais ce n'est pas Khayyam qui gît là-bas,
C'est ici qu'il se trouve, et c'est lui nos roses.

MATHIAS ÉNARD
Sarah me parlait des tavernes de Lisbonne où Fernando Pessoa allait boire, entendre de la musique ou de la poésie, et effectivement, elles ressemblaient dans son récit aux meykhané iraniennes, à tel point que Sarah ajoutait ironiquement que Pessoa était un hétéronyme de Khayyam, que le poète le plus occidental et le plus atlantique d’Europe était en réalité un avatar du dieu Khayyam…

Mathias Énard, Bussole (2015 : 73, 326, 328 & 376)

2 de junho de 2016

De amarelo se vestiram...

Amarillos.png

MOZAICO DE AMARILLOS

Mauricio Lucioni Maristany - 2015

«-Sí. Cuando alcances mi edad habrás perdido casi por completo la vista. Verás el color amarillo y sombras y luces. No te preocupes. La ceguera gradual no es una cosa trágica. Es como un lento atardecer de verano.» 
Jorge Luis Borges, «El otro» IN El libro de arena (1975)
Os colégios privados deste país vestiram-se de amarelo neste início de primavera. Alguma razão terão tido para escolherem esta cor em particular. Desconheço-a por completo. Uma pesquisa rápida pelos dicionários de etimologias e símbolos esclareceu-me das origens e significados da palavra.

O vocábulo «amarelo» entrou no português pelo castelhano amarillo (= pálido), como diminutivo do latim amārus (= amargo). Segundo o filólogo catalão Joan Corominas, a associação de conceitos pode estar relacionada à palidez provocada pela icterícia, um distúrbio da bílis ou humor amargo.

O amarelo está ligado à luz, ao calor, à descontração, ao otimismo e à alegria. Simboliza o sol, o verão, a prosperidade, a felicidade. Dizem ser uma cor inspiradora que desperta a criatividade, propicia a reflexão e estimula o estudo. Em excesso, todavia, pode provocar distração e ansiedade.

Representa também a riqueza, o dinheiro, o ouro, de mãos dadas com o poder, a nobreza, o luxo. Estatuto mais chegado às tias e tios, meninos e meninas de papá e mamã que andam por aí de camisola amarela, sem terem vencido nenhuma etapa da volta a Portugal em bicicleta.

Cartão amarelo apresentado à tal geringonça defensora dum ensino público pintado de todas as cores do arco-íris. Amarelo de raiva de impérios caídos. Negociatas da China. Liberdade de escolher ao preço da uva mijona. Contas pagas com os frutos suculentos da árvore das patacas.

A vanglória de mandar contagiou pivots da TV, comentadores e figuras públicas com alguma visão mediática. Pintaram de amarelo-torrado o jornalismo cinzento que por aqui se faz. Esquecem-se que o astro-rei também encadeia, ofusca e cega quando fitado com arrogância e de frente.