3 de julho de 2016

A fístula do rei & o hino da rainha

Louis XIV, le Roi-Soleil

[Château de Versailles]

Dieu sauve le roi & God save de king

A história é conhecida mas apetece-me repeti-la aqui neste espaço. Envolve os extintos reinos da França e Navarra e o ainda Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. O isolacionismo britânico que tem vindo a agudizar-se nos dias que correm na Old England, antigo ninho de impérios globais situado no outro lado da Mancha, e a separação anunciada da altiva Albion da pérfida União Europeia, convenceram-me a fazê-lo.

Registam as crónicas ter Luís XIV sido operado a uma fístula anal em 1686. Os riscos duma tal intervenção cirúrgica nessa época levou os fiéis cortesãos do Rei-Sol a incrementarem as preces ao altíssimo pelo rápido e completo restabelecimento do monarca. Conta-nos a marquesa de Créqui nos seus Souvenirs ter a duquesa de Binon composto um poema que Jean-Baptiste Lully musicou, intitulado Grand Dieu sauve le roi.

A história teria ficado por aqui, se o compositor alemão naturalizado inglês Georg Friedrich Händell não tivesse entrado em cena. Quando visitou Versalhes em 1714, ouviu o cântico real. Engraçou com a melodia e mandou Carrey traduzir a letra. De regresso a Londres, ofereceu-o ao rei Jorge I como sendo obra sua. O hino da monarquia francesa rapidamente se transformou no hino oficial da monarquia inglesa, o God save de king / queen.

A questão que fica no ar é se o Brexit sancionado pelo nacionalismo britânico vai continuar a desejar a Sua Majestade Graciosa o mesmo que o patriotismo gaulês desejou a Sua Majestade Cristianíssima. Honni soit qui mal y pense, dá vontade de dizer, tal como Eduardo III de Inglaterra gritou em francês em 1347 e transformou em lema da Ordem da Jarreteira, gravada na bandeira do reino a par do Dieu et mon droit. Quem viver verá...

2 comentários:

  1. E como não foi só o cântico real que se tornou propriedade indevida da Inglaterra ao longo dos tempos, levanta-se sempre a questão de saber quando os seus políticos aprenderão alguma coisa de governação justa, que não seja sempre a defender os seus interesses à revelia da dos outros povos... Uma interessante reflexão, Prof.!

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