8 de agosto de 2016

Citius, Altius, Fortius

TOCHA OLÍMPICA

(Jogos Olímpicos de Atenas 2004)

Tudo por uma coroa de azebuche...

Afirmam as lendas que os jogos pan-helénicos foram estabelecidos num local sagrado em memória dos feitos realizados por um deus ou por um herói. Estariam ligados às festividades religiosas rurais, simbolizados na coroa duma planta oferecida ao vencedor. De loureiro nos Píticos, criados por Apolo em Delfos, por ter vencido o dragão Píton; de pinheiro nos Ístmicos, fixados por Teseu ou Sísifo no ístmo de Corinto, junto à tumba de Melicertes-Palémon, afogado no mar; de aipo nos Nemeus, fundados em Nemeia por Adrasto, em honra de Ofeltes, morto pela mordedura duma serpente; e de oliveira silvestre ou azebuche nos Olímpicos, instituídos por Pélops em Olímpia, dedicados a Enomau.

Interessam-me em particular estes últimos, porque foram os únicos a sobreviver à voragem do tempo e à ortodoxia fundamentalista dos homens. São jogados nos nossos dias por atletas dos cinco continentes e seguidos pelo olhar mediático dos espetadores da aldeia global. O objetivo passou agora a ser o de subir ao pódio da fama e ser medalhado de bronze, prata ou ouro, para glória imediata e duradoura. Os antigos começaram a registar-se a partir de 777 AEC. Foram extintos em 393 EC pelo imperador romano Teodósio I, quando mandou encerrar o templo de Zeus em Olímpia, escudado nos preceitos do Cristianismo triunfante na cidade eterna. Foram restaurados em 1896 e celebrados em Atenas.

As 292 Olimpíadas da Era Antiga e as 31 da Era Moderna decorrem num ano bissexto, aquele em que a conjugação dos calendários lunar e solar exigia a introdução dum dia suplementar. Realizavam-se na primeira lua cheia depois do solstício de verão, entre 11 e 16 de julho aproximadamente. Estabelecia-se uma trégua olímpica entre todas as cidades do mundo helénico, para permitir aos participantes deslocarem-se tranquilamente ao recinto sagrado dos jogos e voltarem com toda a serenidade a casa. A chama olímpica era acesa e durava toda a competição, num máximo de 5 dias. Esta começou por ser constituída por uma corrida no estádio a que se acrescentaram depois outras provas.

Contam as lendas de que são feitos os mitos continuarem ainda hoje guardados no santuário de Pelóps os ossos gigantescos do filho de Tântalo e Dione, o rei do Poloponeso, onde foi erigida Olímpia, consagrada aos deuses do Olimpo. Segundo reza a tradição, os despojos do soberano terão estado no cerco de Troia para facilitar a sua conquista. Teriam naufragado na viagem de regresso e logo recuperados por um pescador. Um contínuo de prodígios que a arqueologia ameaça demolir. Ao que parece, trata-se dos restos dum mero dinossauro que a imaginação humana transformou nas ossadas do herói epónimo da maior península grega. Ilusões que dão sentido à vida tão carente de sentidos.

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foram abertos com pompa e circunstância no início de agosto. A tocha olímpica foi acesa pelas sacerdotisas de Hera em Olímpia. A chama de fogo roubada por Prometeu a Zeus foi levada para o Maracanã. A bandeira branca com os cinco círculos de azul-amarelo-preto-verde-vermelho foi hasteada. O hino olímpico foi entoado. Fizeram-se os juramentos olímpicos. Os atletas entraram no estádio. Cantou-se o hino brasileiro. Aplaudiu-se com entusiasmo. O presidente interino reduziu o discurso de abertura a 10 segundos e foi vaiado. As vozes dissonantes vindas do exterior foram abafadas. Estranhos jogos estes em que a paz olímpica é imposta pela força.

1 comentário:

  1. Um enquadramento histórico fantástico! A paz olímpica, essa, parece reinar apenas nos recintos onde as provas decorrem...

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