28 de agosto de 2016

Madame du Barry & Marie Antoinette, as duas rivais de Versailles...

«Je l’aime, Bécu»
Journal Epicurien

Quem viaja por França encontra na zona mais nobre e central de qualquer cidade, por muito pequena que seja, uma Boutique Com-tesse du Barry, especializada em fois gras, saumon & caviar, truffe, terrine, repas e épicerie fine, entre outras ofertas especiais de fazer salivar o palato mais exigente. A entrada neste antro de perdição pantagruélica é obrigatória. À saída somos sempre acompanhados duma provisão considerável de plaisirs exquis à prix réduits [sic] para recordar no regresso os bons sabores da gastronomia gaulesa com um cheirinho aristocrático do Ancien Régime.

A ligação do nome desta Maison gourmet ao da derradeira favorita de Louís XV, le Bien-Aimé, dever-se-á ao facto de ser bisneta de Jean Bécu, mestre charcuteiro reputado, e neta de Fabien Bécu, cozinheiro de Isabelle de Ludres, ex-amante de Louis XIII, le Juste. Jeanne Bécu, a futura Madame du Barry, era filha ilegítima de Anne Bécu e, dizem as más-línguas, do frade franciscano Jean-Baptiste Gormand de Vaubernier, le Frère Ange. Uma educação esmerada num convento a expensas dum protetor da mãe e uma vida de aventureira em Paris abriram-lhe com facilidade as portas de Versailles.

A sucessora de Madame de Pompadour no leito do bisneto do Roi Soleil em breve se cruzará com Marie-Antoinette, recentemente che-gada da corte imperial austríaca. A animosidade da delfina da França e Navarra pela concubina real do sogro foi imediata. Votou-a ao mais profundo ostracismo e ganhou o desagrado de Loulou, per-dido de amores pela sua Bécu querida. Instada pelas circunstâncias e antipatia geral granjeada na corte e no país, viu-se obrigada a dirigir-lhe a palavra uma única vez: Il y a bien du monde, aujourd'hui, à Versailles! Salvavam-se as aparências e serenavam-se os ânimos.

O reinado da cortesã finda com a morte do real amante. O reinado da rival inicia-se com a subida ao trono de Louis XVI. Separadas em vida, unir-se-ão pela morte: perderam ambas a cabeça na guilhotina du-rante a Revolução Francesa. Diz-se que terão dirigido as últimas pa-lavras ao carrasco de serviço. A rainha, por ter perdido um sapato nas escadas do cadafalso: Monsieur, je vous demande pardon, je ne l'ai pas fait exprès. A condessa, por achar que o seu tempo merecia durar um pouco mais: De grâce, monsieur le bourreau, encore un petit moment! Coisas do sangue azul ou azulado. Voilà!

2 comentários:

  1. Um texto digno de um bom "gourmant", que bem sabe a origem dos "plaisirs exquis". Versalhes tem sido objeto de muitos bons filmes e séries de qualidade, tal como esta rivalidade entre Madame du Barry / Marie Antoinette, que tão bem soube lidar com a situação.

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  2. Texto delicioso. Tenho lido vários romances históricos que versam sobre esse espaço temporal, estou a escrever estas palavras fora de casa por esse facto sem acesso é minha pequena biblioteca, mas refiro que existem várias obras literárias absolutamente espantosas, cheias de ritmo e de curiosidades da época.

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