30 de setembro de 2016

Uma bandeira no alto dum cedro


IDENTIDADE


«Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza de que Portugal existe. Ainda há pouco tem-po atravessei o território de norte a sul, demorei sete horas, sempre a abrir, as autoestradas funcionaram na perfeição, e por onde elas passavam havia bandeiras verde-rubras hasteadas em locais inima-gináveis – encostas de montanhas, cimo de palheiros, telhados de igrejas e até em carros de bois, atadas aos fueiros da frente, eu as vi a acenar, como se a paisagem fosse uma parada. Isto aconteceu um mês depois de a Seleção Portuguesa ter ido à Suíça como favo-rita e os rapazes se terem portado mal. Quando perguntei a uma funcionária da estação de serviço por que razão ainda mantinham a bandeira arvorada no alto dos cedros, ela olhou-me com um certo desprezo – “Que importância tem? Não é por perdermos que deixa-mos de ser portugueses.”»

Lídia Jorge, Contrato sentimental (2009)

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