17 de outubro de 2016

Chico Buarque e a demanda do irmão alemão

«E assim como o Christian se dá o direito de emular poetas russos, serei capaz de escrever um romance inspirado na Alemanha dos anos 30, tão presente nas minhas leituras e fantasias. Posso romancear por exemplo a história de Anne Ernst, cuja foto com meu irmão no colo guardo no bolso da camisa e várias vezes por dia tenho a compulsão de olhar.»
Chico Buarque, O irmão alemão (2014)
Chico Buarque descobriu aos 22 anos que tinha um meio-irmão europeu, fruto dum relacionamento pré-matrimonial que o pai tivera em Berlim, quando ali exercera as funções de correspondente de O Jornal, entre 1929 e 1930. A curiosidade instala-se-lhe no espírito e a demanda do paradeiro do parente nascido no seio do Terceiro Reich, nas antevésperas da Segunda Guerra Mundial e da divisão/unificação da Alemanha, ter-se-á iniciado nesse preciso momento. Ocupá-lo-á durante toda a vida. Decorrido cerca de meio século, o compositor, intérprete, contista e poeta brasileiro resolve transpor para um romance de iniciação semibiográfico o resultado das pesquisas efetuadas. Dá-lhe o título apelativo de O irmão alemão (2014), disponível nas livrarias das duas margens atlânticas do grande mar Oceano. Fá-lo acompanhar dum conjunto de documentos autênticos que acabam por fornecer ao leitor a ilusão de a realidade subjetiva do autor se fundir com a realidade objetiva do narra-dor. Habilidades literárias há muito tempo urdidas pelos contadores de histórias imaginadas como se fossem genuínas, subterfúgios poéticos intemporais que nunca deixaram de exercer um fascínio avassalador em todos aqueles que as escutam, sempre ávidos de degustar à exaustão os efeitos inebriantes que os envolvem.

Deixemos de parte as informações fornecidas na contracapa, badanas do livro, notas e fotos complementares da edição, e viajemos pelo interior da fábula. O Francisco de Holanda desaparece do horizonte de eventos e surge-nos o Francisco de Hollander. Este sabe da existência do familiar perdido por uma carta encontrada entre as páginas 36 e 37 de O ramo de ouro, a muito provável coletânea de mitos e lendas de todo o mundo organizada por Sir James George Frazer em 1890, depositado numa prateleira alta da biblioteca lá de casa junto a quatro volumes de Camões. É através do engenho e arte do protagonista que se chega à presença de Sérgio Günther, o autêntico e o inventado, o de carne e osso e o de papel e tinta. Fá-lo em dezassete capítulos ou etapas cronológicas. Uma aventura feita com palavras achadas nos meandros mais profundos dos sonhos fantasiados em estado de vigília e com os olhos abertos. A infância e juventude são revisitadas a pente fino com uma linguagem solta e descomprometida própria da idade de relator. O conhecimento do irmão brasileiro presente é confrontada com o desconhecimento do irmão alemão ausente. Entre um e outro, fabrica arduamente um conjunto de cenários possíveis com que a tessitura narrativa se vai alimentando, crescendo e medrando. As histórias da História instalam-se no discurso. Fala-se de tortura, prisões e ditadura. O devaneio criativo invade-o a cada instante. Arquiteta factos sobre o passado do pai e destino da madrasta. Inventa-lhe um marido pianista. Transporta-os para espaços hipotéticos. Contacta-os em pensamento. Visita-os em São Paulo. Constrói uma bateria alternativa de soluções verosímeis do enigma que só terá um desfecho almejado na reta final do escrito. A 20 de maio de 2013, embarca na Lufthansa para Berlim. Ali ouve por acaso num táxi a gravação da voz do irmão unilateral na faixa dum CD. Ali recupera a voz do pai quando era jovem. Ali encontra semelhanças com a voz do irmão bilateral quando tinha 30 anos. Ali acha as memórias póstumas do irmão alemão já levado desta vida pela morte.

Terminada a viagem pelo interior do livro, penso na carreira que o autor traçou ao longo de décadas na música popular brasileira (MPB) e chego à conclusão do quão difícil é atingir o nível de excelência em todas as áreas. Cantigas, marchinhas, sambas, enredos e óperas são únicas. Inigualáveis. A vertente ficcionista pura é boa. Ótima mesmo. Soa bem ao ouvido de quem ouve com atenção o que a vista enxerga em cada uma das linhas impressas no texto que temos entre mãos. Sinestesia notável de sentidos revelados mas insuficientes no cômputo geral da obra magma produzida. Cada um nasce para o que nasce e o Chico Buarque terá nascido para contar histórias cantadas. Um verdadeiro aedo-rapsodo dos dias que correm. Juízo de valor pessoal. Sem dúvida. Opinião discutível. Decerto. A obra romanesca até já foi premiada e contestada. Sinal significativo de vitalidade interveniente neste nosso universo de competitividades desenfreadas. A demonstrar que as fronteiras entre as artes maiores e as menores são muito fluídas. Dependem de quem as estabelece. Sobretudo agora que os académicos suecos resolveram atribuir em nome do inventor da dinamite o galardão máximo da literatura internacional a um cantautor morte americano de língua inglesa. Coisas deste nosso mundo globalizado pelos padrões anglo-saxónicos vigentes. Realidade com a qual nos fomos habituando e conformando como se fosse eterna mas que mais tarde ou mais cedo terá de chegar ao fim. Pelo menos são essas as lições que os tempos passados tentam passar aos presentes. Quem sabe se num futuro próximo a língua portuguesa não virá a ser reconhecida através desta associação das letras e das notas. Candidatos não faltam por aí a dar com um pau.

2 comentários:

  1. A escrita de Chico Buarque é notável para mim. Admiro a sua criatividade em tudo aquilo que ousou intervir, quer como cantor e compositor, quer como escritor e dramaturgo. Mas eu sou apenas uma leiga em matéria literária...

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  2. Li em tempos no JL, uma entrevista do autor a propósito do livro. Uma estória curiosa, só original por ter como protagonista Buarque. Cá em casa somos fãs da MPB, mas nunca lemos nada do Chico...

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