14 de novembro de 2016

Lídia Jorge: a noite das mulheres cantoras ou o reino do império minuto

«Mas nós rodopiávamos indiferentes aos brilhos projetados sobre as nossas roupas, porque sabíamos que estávamos a celebrar um encontro no interior do império minuto, e havia vinte e um anos que na realidade não nos encontrávamos.»
Lídia Jorge, A noite das mulheres cantoras (2011)
A sede desmedida de sucesso instantâneo é uma realidade incontornável nos nossos dias, fantasiada por uma multidão sempre crescente de potenciais candidatos aos cumes olímpicos da fama e campos elísios da imortalidade. Deitarem-se obscuros e levantarem-se famosos nos quatro cantos da terra. Eis a grande sonho acalentado por todos. Custe o que custar e doa a quem doer. Entre um momento e o outro, bastaria uma simples aparição fulgurante num qualquer concurso mediático, norma geral patrocinado pela variante televisiva, para atingir o resultado merecido, o triunfo repentino e irrefutável. Nestes desígnios de idolatria galopante, o sonho nunca prevê o pesadelo. A glória da vitória nunca admite a vanglória da derrota. Cada pretendente crê poder alcançar por mérito próprio o rótulo de Top Model dos trapos, Master Chef dos tachos ou Super Idol dos palcos. Tudo em inglês, para que a ilusão do troféu conquistado adquira um relevo de magnitude planetária e deixe todos de boca aberta e a salivar de inveja.

Lídia Jorge centra-se nesse fenómeno mediático atual do reino do império minuto n' A noite das mulheres cantoras (2011), onde nos relata a saga de cinco candidatas a estrelas cintilantes das canções pop-swing erigidas em português e com passaporte garantido para o mundo. Fá-lo através de duas versões de dimensão diferente, a oficial e a real, separadas por um intervalo de vinte e um anos de lembranças adormecidas e de esquecimentos avivados. À mais recente e breve, dá o nome de «O Conto de Solange» e situa-a numa noite perfeita do verão de 2009. À mais antiga e longa, dá um ar de exame de consciência dos acontecimentos vividos em 87-88 e reparte-a por vinte capítulos numerados e um epílogo sintetizador de todos os fragmentos convocados pela intriga. Amor e ódio, riso e choro, vida e morte, são ingredientes omnipresentes na ação que dá corpo à fábula e alma ao texto.

Lisboa é o palco central do drama e África o lateral das tragédias. Os ecos de histórias antigas são frequentes. Prodígios duma escrita sem limites a que a autora há muito nos habituou. As costas índicas dos murmúrios e atlânticas das saudades, as cidades silvestres das amizades forjadas e das inimizades forçadas, as notícias de ventos assobiando nas gruas do devir coletivo dum povo, são atualizados pela memória da voz feminina que conta e reconta a história dum bando de cinco mulheres cantoras, descendentes dum velho império perdido à procura de novos horizontes globais a subjugar que possam combater sem tréguas as sombras multisseculares dos fantasmas de antanho. Os aromas do chá moçambicano do Monte Namúli no Gurué e do café angolano do Paralelo Dez no Cuanza-Sul chegam-nos através das rotas de Joanesburgo e do Lobito com umas pitadas das rotas americanas alternativas dos EUA e Canadá. Há ainda um pão com diamantes expressamente preparado para as merendas futuras num cais de muitas chegadas e partidas, de muitas debandadas e retornos, de escassas permanências e demasiadas ausências. A janela da imaginação abre-se de par em par em cada página dum romance composto com palavras musicais a soar a jazz com cadência perfumada de blues, requebros dissonantes de ópera italiana rejeitada e um tudo ou nada de fado lusitano mal digerido a deixar um travo amargo na língua.

O protagonismo imediato recai nas cinco jovens que dão título à obra e mediato na corte de fabricantes de êxito certo e seguro, gravado em vinil e consagrado em cena. A fazer-lhes companhia silenciosa, encontramo-nos nós, leitores-espetadores privilegiados dum reality show especial, urdido com utopias quotidianas tecidas para deleite e proveito de todos aqueles que queiram assistir à representação sempre renovada da comédia humana. O teatro da vida é oferecido a quem o quiser observar no interior dum livro tradicional feito de papel e letras a cheirar a tinta e pautas musicais invisíveis à espera duma partitura inspirada. Então, poderemos idear a melodia mais ajustada para trautear com as mulheres cantoras as lyrics avisadas da «Canção Afortunada», aquela que nos fala de alguém que tem tudo e não quer nada, ironia trágica quando aplicada a um grupo que nada tem e tudo quer. Amor, morada, valor, fama e tudo o mais que vier.

NOTA:
Os reinos do império minuto continuam tão vivos hoje como à data da publicação dum dos mais marcantes romances de Lídia Jorge. Os reality show serão outros, mas o espírito é o mesmo. As mulheres cantoras até podem ser homens cantores, mas as cantorias pouco terão variado. Recupero para este espaço um texto que então tornei público no Pátio de Letras, possibilidade de visitar um livro que na altura gostei de percorrer, palavra a palavra, frase a frase, página a página.

3 comentários:

  1. Desconhecia este título de Lidía Jorge. Texto muito interessante. Já tomei nota claro!

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  2. Reli o texto com todo o prazer que senti em 2012. E reitero a magia que envolvem as tuas palavras que musicam magistralmente os títulos conhecidos de Lídia Jorge, ao partilhares a tua opinião sobre este romance. Não resisti mais uma vez a deixar um comentário, Prof., pois o dom da palavra escrita da Lídia Jorge é bem compartilhado contigo e estimula o leitor. Obrigada pelo magnífico texto!

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  3. Fiz pesquisa e vejo, que o único livro traduzido para sueco é "A Vale da Paixão" com o título "Walters Dotter" ("A Filha do Walter"). É um verdadeiro escândalo, que não há mais traduções de uma escritora em comparação com Lobo Antunes e Saramago. Enfim, vou encomendar aqui na biblioteca e noto este seu título na minha "lista-de-livros-a-comprar-estando-em-Portugal-na-próxima-vez".

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