15 de março de 2017

A caixinha mágica que mudou o mundo

POP ART

Roy Lichtenstein, Scalater Street, London, 2006

AS CANTIGAS DA RTP EM DIA DE FESTA

Quando nasci a televisão ainda não existia em Portugal. A primeira vez que a vi foi às cavalitas do meu pai. Fez-me olhar para uma caixinha cheia de luz e imagens em movimento que se encontrava no interior dum café. Ficámos do lado de fora porque a lotação se esgotara no interior. Teria uma meia dúzia de anos e esqueci-me por completo de mais pormenores. Na altura nem percebi bem o que estava a acontecer. Depois o insólito banalizou-se e habituei-me à sua presença em locais mais confortáveis.

Os períodos de transmissão engordaram e o número de canais dis-parou. Ganharam cor e novas formas de difusão. As grelhas de pro-gramação adaptaram-se aos modismos do momento. As noites de cinema e de teatro foram-se. As telenovelas da vida imitada come-çaram a alternar com as da vida real e a atropelar-se entre si. Os concursos sofisticaram-se, os noticiários eternizaram-se, os comen-tadores do tudo e do nada proliferaram como cogumelos em terreno baldio. A novidade evaporou-se e o tédio instalou-se.

Por estes dias a televisão fez 60 anos e celebrou a efeméride com a pompa usual. Passou-me em grande parte despercebida. As séries infindáveis de publicidade dos canais generalistas empurra-me cada vez mais para os transmitidos por cabo. Um breve zapping por todos eles deteve-me por instantes pelo festival da canção. Já se comemorava em apoteose a vitória duma delas e pela primeira vez em décadas consegui ouvi-la do princípio até ao fim. Gostei. Espan-toso como a RTP ainda me consegue surpreender.

2 comentários:

  1. Vi TV pela primeira vez no dia 15 de dezembro de 1966, dia em que cheguei a Lisboa, trazida menina e moça - 14 aninhos acabados de completar - da minha terra natal. A novidade conquistou-me, com o mundo a entrar-me pela porta dentro. Hoje, tirando as notícias e algum filme ou série, confesso que vou perdendo muita coisa boa porque já não tenho paciência para exageros...

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  2. Depois do insólito se ter banalizado, a novidade se ter evaporado e o tédio se ter instalado, comecei a ser menos assíduo à companhia da televisão, sobretudo no que toca aos canais generalistas. Comecei a instalar-me nos temáticos mas cada vez com menos persistência. A criatividade escasseia e a vulgaridade abunda. Um dia deixo mesmo de olhar para a caixinha mágica que transformou o mundo e dedico-me a outras formas mais imaginativas de preencher os momentos de lazer oferecidos pelo real quotidiano…

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