2 de maio de 2017

Lunchs, brunchs & petits-déjeuners

AMANHADORA DE PEIXE

Painel de azulejos do século xviii

[Museu da Cidade - Palácio Pimenta - Câmara Municipal de Lisboa]

CONVERSAS À MESA...

A releitura em anos de centenário e meio da obra completa de Júlio Dinis (1839-1871) fez-me reencontrar com um universo de referên-cias quotidianas mortas e enterradas, que só a literatura seria capaz de voltar a dar vida, de trazer até nós o final do século xix ao início do xxi, como se de facto fossem contemporâneos.

A cada passo dessas crónicas ingénuas de recorte pós-romântico ou pré-realista, deparamo-nos com as refeições que pupilas e mor-gadinha, mouriscos e ingleses, vão tomando ao longo das suas his-tórias noveladas ou romanceadas. Conhecemo-las a todas pelos no-mes e estranhamos sempre as horas em que o fazem.

Almoçam ao amanhecer, jantam ao meio-dia, merendam à tardinha e ceiam ao anoitecer. Ignoram o petit-dejeuner matinal e o lunch ves-pertino. Preferem o vernáculo genuíno a galicismos e anglicismos importados, como substituir os dois almoços, o pequeno e o grande, por um único repasto, o mui sonoro e britânico brunch.

Os heróis oitocentistas mantêm-se fiéis às suas origens. Por isso fi-caram gravados na memória das gentes. Os leitores abrem-lhes os braços a cada nova visita. Veem-nos saltar das páginas dos livros e oferecem-lhes um lugar à mesa. O banquete começa e o serão con-verte-se numa alegre cavaqueira de velhos e bons amigos.

1 comentário:

  1. Sempre achei interessante a denominação oitocentista das principais refeições diárias. No séc XIV, eram duas, o jantar e a ceia, pelo que transijo que se lhes mude o nome mas que não se crie o hábito de uma única refeição no meio da manhã, pois o meu apetite não gosta...

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