7 de março de 2018

Jogos da cabra-cega ou das ovelhas vendadas

sheep with blindfold on

drawing by Saza

    O L H O S   T A P A D O S    


Dei comigo dias a trautear uma melodia com meio século de vida e que acabara de ouvir há pouco mais duma semana. O culpado é um jovem intérprete com ar de J. C. Superstar rendido aos fascínios da tatuagem. Fê-lo numa das eliminatórias do encontro anual de cantigas originais que a televisão pública promove há décadas para eleger aquela que a representará num certame mais amplo presidido pelas doze estrelas eurovisivas radiantes. A suspeita de plágio cometido pelo compositor-autor-cantor levou-me a viajar pelo sistema global de redes de computadores ligados entre si vulgarmente conhecido por Internet. O YouTube ajudou-me na tarefa. Ouvi o mesmo tema ser cantado em inglês e português. Pediam-me para abrir os olhos e os ouvidos. Fi-lo também para ouvir a canção do festival e só encontrei pequenas variantes nas palavras. Sobretudo quando o eu-acusador alerta o tu-acusado de olhar tudo e não ver nada.

Nestes jogos da cabra-cega, das ovelhas vendadas ou do maior cego é o que não quer ver, os universos da imitação até podem fugir ao anátema da má-fé afirmando que les beaux esprits se rencontrent. Caso contrário, que dizer do Arma virumque cano dos Italianos cantado por Vergílio na Eneida, parafraseado milénio e meio depois por Camões n'Os Lusíadas quando se propõe cantar As armas e os barões assinalados dos Lusitanos. Maneirismos clássicos quinhentistas elogiados nos manuais de literatura e malvistos nos comentários pós-modernistas das redes sociais contemporâneas. Os instrumentalistas do quarteto de cordas acompanhante ficaram de olhos tapados ao longo da performance, sem possibilidade de repetir o prodígio dos palcos do Multiusos de Guimarães nos do Altice Arena de Lisboa. A canção do fim levava em si o germe dum final sem honra nem glória. Ironia trágica própria dos dramas de antanho com fiéis seguidores nos hodiernos.

3 comentários:

  1. Continuo a não dar atenção aos festivais, precisamente porque passei a sentir que ouvia repetições, sem criatividade abonatória... Mas acabei por ouvir, no noticiário, a polémca e a interpretação da canção concorrente e da música original. Afinal, onde esta a dúvida sobre o plágio?

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  2. Há gente que é cega, surda e por vezes também muda...

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