22 de maio de 2017

Firmeza e lealdade do rei-filósofo

DIVISA DE DOM DUARTE

Capelas Imperfeitas (séc. xvi)
[Mosteiro de Santa Maria da Vitória - Batalha]
«Muyto prezada e amada Raynha Senhora: vos me requerestes que junta-mente vos mandasse screver algũas cousas que avia scriptas per boo regi-mento de nossas conciencias e voontades [...] E assi o fiz por vos complazer e filhar em no fazendo algũu spaço de cuidados com razoado passamento de tempo [...] Podelloees, se vos praz, chamar leal consselheiro, por que ainda me nom atreva certificar que da em todo boos consselhos, sey que lealmente he todo scripto quanto meu pequeno saber, embargado em todo geeral regimentode justiça, consselhos e outras proveenças de meus Reynos e Senhorio, pode percalçar pera poer tal obra assi brevemente em scripto, por que algũas se podem bem razoar que non som taees pera screver.»
Leal Consselheiro o qual fez Dom Eduarte, pella graça de deos Rey de Portugal e do Algarve e Senhor de Cepta, a rrequerimento da muyto excelsa Reynha dona Leonor, sua molher [Lx: c. 1423-1438, fls. 3r. & 3 v.]

SEREI SEMPRE LEAL

A aliança das Casas de Avis e de Lencastre trouxe uma renovação de práticas palatinas que os Borgonhas peninsulares desconheciam. Entre elas, inclui-se o uso das empresas pessoais, figuras simbóli-cas acompanhadas de letra e mote, que podiam completar a men-sagem heráldica das armas reais. Os fundadores da Dinastia Joanina introduziram esse modo de sistematizar as diferenças, depois se-guido pelos Príncipes da Ínclita Geração e respetiva descendência.

A distância dos séculos tem vindo a dificultar a leitura dessas divisas, sem se correr o risco das interpretações fantasiosas ou anacrónicas. É o que se passa com a escolhida por D. Duarte (1391-1438), o Eloquente, cujo corpo e alma nos parecem remeter para os conceitos de firmeza e lealdade, assim a persistência sugerida pela «hera» seja completada com a «leaute faray» e «tã ya serey», inscritos à exaustão nas Capelas Imperfeitas do mosteiro da Batalha.

Serei sempre fiel, serei leal ou guardarei lealdade enquanto existir. A sentença contida tanto na componente vegetal como na verbal seriam dirigidas a Leonor de Aragão (1402-1445), princesa e rainha de Portugal, com quem o rei-filósofo se havia unido pelo casamento. Promessa que lhe fizera e cumprira de compilar um livro de en-sinamentos destinados à formação da corte. Explicação convincente sugerida no incipit do Leal Conselheiro. Quem souber dirá...

1 comentário:

  1. Senpre interessantes estas análises das divisas históricas! Esta daria lugar a umas quantas interpretações diferentes, não se conhecendo a verdadeira razão que lhe deu voz...

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