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29 de junho de 2026

Visita das Fontes

Heinrich Füger
Dichter trinken am Kastalischen Quell das Wasser der Wahrheit, 1790
[
Poetas bebem a água da verdade na Fonte Castália]

Escrevo para subir às fontes. E voltar a nascer...
Eugénio de Andrade, Os sulcos da sede (2001)

No sopé do Monte Parnaso, mesmo ali às portas do Oráculo de Delfos, jorra a Fonte de Castália, rodeada dum pequeno bosque de loureiros consagrados a Apolo, o deus da divina distância, protetor olímpico da verdade, símbolo da inspiração artística, líder orientador das nove musas do panteão helénico. Conta o mito que os aedos cantaram, os rapsodos divulgaram e a tradição preservou, ter o filho de Zeus e Leto acossado uma donzela local, que, para fugir ao assédio indesejado, se atirou à fonte sagrada a que deu o nome.

Tive ocasião de visitar em tempos a nascente de fluidos cristalinos e infundidores das profecias da sacerdotisa Pítia. Aproveitei para me refrescar à sua sombra e para beber das suas águas límpidas. Não pretendi ser como os poetas que ali procuravam o auxílio do divino Febo luminoso e das exímias cantoras das ciências e das artes. Limitei-me a aproveitar o momento para recuperar a energia exigida na escalada íngreme até ao mais importante centro religioso da Grécia Antiga, designado por muitos como o umbigo do mundo.

Através das letras, protagonizou Miguel de Cervantes a Viaje del Parnaso (1614), uma jornada composta em tercetos encadeados compostos em verso decassilábico, com sabor satírico, alegórico e burlesco. A pedido do deus Mercúrio, efetua uma demanda bélica à residência de Apolo Délfico e das Musas Parnasianas, para assim defender o monte sagrado dum exército de maus poetas que o pretendiam assaltar e tomar. No final da contenda, a boa poesia sai vencedora e a ordem poética é restaurada em toda a sua pujança.

Tenho por casa umas quantas estantes pejadas de livros de todos os géneros, tipos e tamanhos, grandes, médios e pequenos. À medida que vão chegando, agrupo-os nas prateleiras disponíveis, lado a lado, uns por cima dos outros por baixo, em primeira e segunda fila, uns à frente outros atrás. Abro-os, leio-os, sublinho-os, comento-os, protejo-os. Dia após dia, ano após ano, década após década. De manhã, à tarde e à noite. Incessantemente. Sempre à espera de novas surpresas quotidianas a alegrar-nos a vida.

Na Castália mítica do Monte Parnaso, a água da fonte sagrada jorra liberta dos maus poetas extirpados pelo Príncipe de los Ingenios e Manco de Lepanto. Na minha biblioteca caseira nenhum deles precisa de ser banhado nas águas do rio do esquecimento do reino das sombras. O Lethes foi convertido na Academia Sénior onde continuo a dar voz aos criadores dos heróis da imaginação. As agruras da vida ficam à porta, os prazeres da leitura entram na sala. O proveito e deleite são reis e senhores nesta visita das fontes.

Κασταλία
Qsar Lybia (Neápolis): Mosaico bizantino séc. vi

16 de junho de 2026

Sono & Sonhos

Evelyn De Morgan, Nigth and Sleep (1878)
[London - De Morgan Centre]

Morrer, dormir, sonhar, talvez...

INTERRUPTOR

Clica-se a tecla dum interruptor e faz-se luz. Clica-se de novo essa tecla e reavemos o breu inicial. A sucessão do claro/escuro faz-se ao ritmo dum único click. Alternadamente, o tudo e o nada são-nos fornecidos por um dispositivo mecânico que suspende a passagem da corrente elétrica com um simples toque manual. O processo pode repetir-se amiúde até atingir o colapso final do comutador de energia. A eternidade é mais uma vez om produto da imaginação dos homens criadores dos deuses.

Mais fantasista do que os fabricantes de mecanismos atuais, Hesíodo atribuiu a Nyx o poder de dar à luz por partenogénese o incansável Thánatos e o seu irmão gémeo Hypnos, bem como a imensa tribo dos Oneiros. Por outras palavras do dia a dia, a Noite pariu sem fertilização masculina a dócil Morte e o pacífico Sono, o seio divino de todos os Sonhos humanos. Para compor o ramalhete mítico, Ovídio introduz a figura de Morfeu, capaz de dar forma às fantasias noturnas dos meros mortais adormecidos.

A resistência da irmandade pré-rafaelita à gramática renascentista não impediu Evelyn De Morgan de retratar, na Nigth and Sleep (1878), as figuras aladas da Noite e do Sono a pairarem sobre uma paisagem crepuscular, no seu afã imemorial de espalharem às mãos cheias papoilas vermelhas, inspiradoras dos Sonhos e das suas incontáveis fantasias. Nada nos garante que nesse esvoaçar idílico das duas potestades helénicas houvesse o propósito fatídico de privar algum adormecido de voltar a acordar pela manhã.

Para dramatizar um Sono sem Sonhos, com ou sem retorno ao mundo dos seres viventes, teremos de recorrer às palavras versificadas de Shakespeare, no Hamlet (c.1601), em que o ser ou não ser trágico se resume ao morrer, dormir, sonhar talvez. A frieza prosaica do estalido seco do interruptor que liga/desliga, entre Gaia e Thânatos, entre a personificação da Vida e da Morte, divindades primevas da Mãe Terra e do Pai Caos, origem do tudo e do nada, matéria-prima de onde tudo derivou e aonde tudo voltará.

22 de janeiro de 2026

Olhares maneiristas de Narciso olhados em claro-escuro por Caravaggio

Michelangelo Caravaggio, Narcissus (1597-1599)
[Roma, Galleria Nazionale di Arte Antica - Galleria Corsini - Roma]
«Havia uma fonte límpida com águas brilhantes e prateadas, que nem pastores, nem cabras, nem qualquer outro animal jamais se aproximara, que nenhuma ave, nenhuma fera selvagem, nenhum ramo caído de uma árvore jamais perturbara. Estava rodeada de erva que se mantinha fresca pela proximidade da água; e a floresta impedia que o sol aquecesse esses locais. Foi ali que Narciso, cansado do ardor da caçada e do calor, veio deitar-se, atraído pelo aspeto do local e pela fonte. Mas enquanto tentava matar a sede, outra sede crescia dentro dele. Enquanto bebia, seduzido pela imagem da sua beleza que vislumbrava, apaixonou-se por um reflexo sem substância, tomou por corpo o que era apenas uma sombra.»
Ovídio, Metamorfoses (8 EC)

    Narcísicas                                                          

Contam os mitos helénicos ter o deus Cefiso e a ninfa Liríope gerado Narciso, um jovem muito belo insensível aos apelos do amor. A pedido dos pais, o adivinho Tirésias previu que a criança viveria até ser velho, se não olhasse para si mesmo. Já adulto, mostrou-se alheio a todas as paixões, incluindo a ninfa Eco. Esta definharia com a rejeição, até restar apenas a sua voz a ecoar nas montanhas. As pretendentes desdenhadas rogaram vingança aos céus, Némesis ouviu-as e num dia de grande calor, após uma caça, obrigou o efebo a refrescar-se numa fonte. Ao debruçar-se sobre a água, olhou para o rosto ali revelado e enamorou-se pela própria imagem.

O olhar maneirista de Caravaggio capta, precisamente, o momento crucial em que Narciso olha a sua imagem claro-escura refletida no espelho de águas cristalinas duma fonte nas imediações de Tebas. Segundo o olhar de Ovídio, fixado nas Metamorfoses (Liv. III), a semidivindade helénica teria sucumbido ao fascínio da sua beleza, brotando no local da sua morte uma flor a que foi dado nome de narciso. Ignoramos se o grande mestre milanês das artes pictóricas se terá rendido a esta versão latina da lenda ou se teria virado para outros finais alternativos, caso o seu olhar perscrutador tivesse ido um pouco mais longe do plasmado na tela.

Com o olhar letal reproduzido no olho-d'água beócio cumpriu-se o oráculo de Tirésias. A flor que recorda a beleza efémera de Narciso sobreviveu até hoje. Com ela espalhou-se também a memória dum narcisismo absoluto que os narcisos atuais tanto gostam de servir. À diferença dos mitos de antanho, os contramitos hodiernos não enviam ninguém para o reino das sombras com um simples olhar. Espelho, espelho meu, quem é o mais esplendoroso ser vivente do mundo? E sem ouvir a resposta do espelho: Sou eu, sou eu, o mais poderoso narciso de todos os tempos! Até quando, perguntamo-nos nós, a justiça de Némesis continuará inerte...

1 de dezembro de 2025

O país das laranjas & o pais dos coelhos

LARANJA

Laranja, s. Do persa nārang (por sua vez do sânscrito nāranga) pelo ár. nāranjâ, mesmo sentido; cf.: esp. naranja, galego laranja. Este dualismo hispânico (laranja-naranja) faz-me hesitar quanto ao caso port.: trata-se da evolução ár. nāranjâ < port. laranja, ou, talvez antes, de port. laranja < ár. vulgar nāranâ? Esta última forma é nome de unidade de laranj, muito espalhado pelos dialetod ocidentais...
J. P. Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa,  Lx. Horizonte: 1977 (III, 386b)

Os mitos e lendas greco-latinos localizaram o Jardim das Hespérides nas terras do fim do mundo junto ao grande mar Oceano. Os Pomos de Ouro ali existentes passaram com o tempo a confundir-se com as Laranjas. Provavelmente as amargas, porque as doces parece terem sido introduzidas/inventadas pelos habitantes históricos ali instalados, sobretudo na parte mais ocidental da península. Alguns passaram então a chamar-lhes Portugal ou «Terra das Laranjas».

Inspirados nesse diz que diz enriquecido pela mitologia helénica, portokáli, portocálâ, portokal' e portokal passaram a designar LARANJA em grego, romeno, búlgaro e turco. O exemplo foi depois seguido por outras línguas faladas fora das fronteiras europeias, tais como o arménio, georgiano, afegão ou iraquiano. Até a vintena de países árabes (os introdutores do fruto na península), o fazem no seu dia a dia, registando برتقال e pronunciando bortugal ou burtugálum.

Os mitos e contramitos fenícios não tiveram a mesma sorte neste rincão distante da Ibéria a que chamaram Span ou Spania, que, através da terminação I-shphanim, remeteria para um mamífero roedor da família dos hiracoides ali existentes em grande quantidade. À falta dum nome mais adequado para identificar esse território obscuro onde o sol se punha no final do dia, batizaram-no de «Terra dos Coelhos». A denominação Hispânia viria mais tarde por via latina, derivando depois para Espanha.

No Primeiro de Dezembro de 1640 o País das Laranjas venceu o Pais dos Coelhos. Dizem por aí que o primeiro se libertou da tutela do segundo, ou que recuperou mesmo a sua independência. Bocas. Os Habsburgos coroados caíram e os Braganças levantaram-se. Sai um primo entra outro primo. Castelhanos/Portugueses ou vice-versa. Tudo farinha do mesmo saco. Os herdeiros de Carlos Quinto de Gand e de Isabel de Portugal revezaram-se no poder.

Os festejos da restauração monárquica portuguesa foram breves, sendo logo substituídas pelas fanfarras dos exércitos hispânicos. A Guerra da Aclamação duraria 28 anos a que se seguiram alguns conflitos mais em períodos intermitentes. Até houve uma Guerra das Laranjas ainda viva em Olivença por palavras ditas/reditas nos dois lados da raia. Questiúnculas antigas de irmãos/hermanos desavindos e sempre de braços abertos para o restabelecimento da paz.

10 de outubro de 2025

Le jambonneau du Mont Saint-Michel

 Le Mont Saint-Michel dans la Fête de l'Archange
« Les très riches heures du duc de Berry »

DICTON
Le Couesnon dans sa folie a mis le Mont en Normandie

 Un piquenique dans les rives du Couesnon                

A história do Mont-Saint-Michel é antiga e cheia de peripécias. Há séculos que funciona como fronteira disputada entre dois ducados franceses há muito extintos como entidades independentes, a Bretanha dos arminhos negros em fundo branco e a Normandia dos leões dourados em campo vermelho. Aquele que já foi bretão e deixou de ser e voltou a ser normando tal como ao nascer. Dizem que terá sido do Couesnon, que na sua corrida furiosa para o mar, colocou o monte na orla direita do seu leito.

Nas diversas vezes que passei por ali, tive sempre o ensejo de testemunhar a impetuosidade extrema da corrente daquele riacho fronteiriço e a magnitude desmedida da maré que cobre todo o seu largo estuário em menos dum nada. Nessas ocasiões de preia-mar total, a formação rochosa converte-se numa ilhota perdida na vasta baía do Mont-Sant-Michel no Canal da Mancha, o grande braço de mar pertencente ao Oceano Atlântico que separa a Pequena Bretanha francesa da Grã-Bretanha inglesa.

Deixando de parte as conflitos ancestrais transfronteiriças gaulesas, carregados de mitos e contramitos ancestrais, vem-me à memória uma dessas visitas estivais ao site touristique du pays montois, associada a um piquenique memorável na margem oriental do rio, realizado numa zona verdejante aprazível junto ao parque de estacionamento. Fi-lo na companhia dum grupo animado de copains et copines, ávidos de ver/rever a abadia dedicada a Saint-Michel, o anjo mensageiro divino que deu nome ao monte.

Estendida a toalha usada nestas alturas e postos os pâtées, rillettes, andouilles, fromages, fruits et boissons habituais, a nossa anfitriã Gigi avisou que ia comprar la spécialité d'un traiteur du coin qu'il fallait forcément goûter. Voltou ao fim duma hora bem contada. A demora devera-se mais à turba que entupia as ruelas exíguas do burgo do que à distância percorrida. Trouxe-nos um jambonneau de porc plus bon marché qu'une omelette de la Mère PoulardDe facto, há surpresas que superam as nossas melhores expectativas.

 Jambonneau de porc & Omelette de la Mère Poulard

31 de julho de 2025

O homem a quem chamaram cavalo...

I'm not a horse, I'm not an animal, I'm a man...

 A L T E R I D A D E S                                                       

Anda por aí disponível na Net um filme que eu vi nos anos 70, já não me recordo muito bem onde, mas cuja memória me acompanhou até hoje, apesar de nunca mais o ter voltado a visionar desde então no grande ecrã. Revi-o agora em formato pequeno num canal da TV Cabo, o Star Movies 92 da NOS, no meu plasma caseiro. Espero que se mantenha disponível nos próximos tempos, sobretudo por tratar dum conjunto de tópicos tão atuais nos nossos dias, ligados ao embate de culturas oriundas de espaços geográficos diametralmente opostos e a aversão visceral duns e doutros aos distintos sistemas civilizacionais em confronto. Estou-me a referir a A Man Called Horse (1970), uma película estadunidense realizada por Elliot Silverstein, baseado no conto de Dorothy M. Johnson, Indian Country (1968).

Nas décadas anteriores, os westerns clássicos exibidos nos cinemas ou emitidos na televisão primavam pelas lutas ferozes entre índios e cowboys, quer dizer, entre os corajosos vaqueiros americanos e os ferozes indígenas emplumados. A completar esse estado bélico constante contado com imagens em movimento havia, ainda, toda uma gama de histórias aos quadradinhos, em que os colts certeiros dos bons derrotavam sem exceção os arcos e flechas dos maus. Ou seja, naquele mundo exótico do Far West mítico, os caras-pálidas levavam sempre a melhor sobre os peles-vermelhas. As aventuras infindas do Kansas Kid, do Roy Rogers, do Buffalo Bill contra o Touro Sentado, o Nuvem Vermelha, o Cavalo Louco preenchiam o nosso imaginário infantil a contaminar largamente o juvenil e até adulto.

O homem a quem chamaram cavalo veio dizer-nos que o ser-se diferente não nos faz, a priori, nem bons nem maus. Tudo depende  de se cumprirem ou não as regras estabelecidas por cada um dos grupos em presença. Neste caso concreto, entre um representante singular dos invasores ingleses e uma tribo inteira dos invadidos Sioux. O contacto abrupto e o convívio forçado dum europeu nunca até então visto leva a tribo americana que o arrestou a considerá-lo como um mero animal, sem o menor traço de humanidade claro à flor da pele. Tanto para o cativo como para os cativadores, a lei da alteridade considera o outro, individual/coletivo, como um selvagem, cruel e bárbaro. Estão todos errados, afinal. Os padrões é que variam, ou seja, os plasmados na tela e os visionados pelos espetadores.  

No ano em que este filme estreou, estavam ainda em cartaz dois outros de temática afim: The Royal Hunt of the Sun (1969) e o Soldier Blue (1970), de Irving Lerner e Ralph Nelson. Sobre o mais antigo, falei um pouco aqui, o que farei certamente acerca do mais recente, quando voltar a revê-lo numa qualquer estação televisiva. Com três idas ao cinema em menos dum ano, todos os mitos e contramito ligados à conquista do Novo Mundo pelo Velho partiram à desfilada para o país distante do nunca mais. Para tal terá contribuído também o desconforto de ter seguido todos os debates verbais travados na tribo ameríndia em sioux sem legendas auxiliares, pondo-me assim na pele das minorias que são confrontadas com uma língua estranha como se fosse de facto a sua. Tão simples e tão eficiente, em suma.

15 de maio de 2025

Mitos, Lendas & Contos de Fadas

«Foi a mulher que trouxeste para junto de mim que me ofereceu da árvore e eu comi...»
Génesis 3, 12

A arte de contar histórias terá surgido no preciso momento em que o homem adquiriu a capacidade de traduzir por palavras as imitações de realidades vividas ou imaginadasEsta habilidade de criar mundos paralelos numa fase remota, difícil de precisar, ocorreu na chamada etapa infantil ou animista da humanidade. Terá sido também neste comenos que os deuses e fadas entraram em cena nos mitos, lendas e contos que viriam depois a alimentar as literaturas orais e escritas de todos os povos dispersos pelos quatro cantos da terra.

A arte rupestre gravada e pintada em rochas, cavernas e abrigos pré-históricos, os carateres cuneiformes mesopotâmicos cunhados em placas de argila, os pictogramas hieroglíficos traçados nos papiros egípcios faraónicos, os manuscritos greco-romanos registados em rolos antigos e pergaminhos medievais, mais não são do que o germe dos cantos épicos, dramáticos e diegéticos clássicos, das narrativas sapienciais divinas, das fábulas e histórias da carochinha, impressos ou transmitidos de boca em boca e de geração em geração.

O Pomo de Ouro do Jardim das Hespérides, lançado pela Discórdia à mais bela das três deusas do Olimpo, provocou a rivalidade de todas e a Guerra de Troia. O Fruto Proibido da Árvore da Sabedoria, dado pela Serpente a Adão e Eva, levou à sua expulsão imediata do Paraíso Terrestre. A Maçã Envenenada, oferecida pela Rainha à Branca de Neve, causou-lhe um sono profundo e instantâneo, quebrado pela magia do beijo apaixonado do Príncipe Perfeito, num happy end sempre presente e esperado nos contos de fadas.

Mitos e lendas, epopeias e tragédias, histórias e romances, fábulas e apólogos, contos e parábolas, compostos em verso ou em prosa, são tudo produto duma mesma safra imagética, independentemente da natureza do pomar ou de se tratar dum pomo de ouro, dum fruto proibido ou duma maçã envenenada. A grande diferença é que a Literatura Infantil é a mais abrangente de todas as séries gizadas pela criatividade humana ao longo dos tempos, porque, ao contrário da literatura para adultos, se aplica a todos sem limite de idade.

27 de janeiro de 2025

Dioniso, o deus que nasceu duas vezes

         DIONISO - ΔΙΌΝΥΣΟΣ         
[Vaso grego de cerâmica com figuras vermelhas, séc. vi aec]
«Salve, descendente de Cronos, deus de tudo quanto é líquido e luminoso | Dá-nos ânforas repletas, rebanhos gordos, campos de fruta e colmeias de abastança | Vela pelas cidades e pelos navios que se fizeram ao mar e protege os jovens e a bondosa Témis.»
Hino Dionisíaco, apud Daniel J. Boorstin, Os Criadores (1992)

Chamam os mitos helénicos antigos heróis aos filhos dos deuses e dos homens. Podiam muito bem designá-los a todos por semideuses ou super-homens, porque simultaneamente divinos e humanos. A imortalidade herdada da sua origem olímpica permitia-lhes perdurar na memória coletiva dos mortais que os viram nascer, viver e morrer cobertos de glória, fama e honra eternas. O seu nome manter-se-á presente para todo o sempre nas gerações de seres perecíveis que testemunharam os seus feitos temporais e lhes deram um enfoque intemporal. Assim ocorreu com Héracles, Aquiles, Odisseu, Orfeu ou Jasão, para só referir alguns dos mais conhecidos.

De todos esses seres geneticamente híbridos, um que se destacou por se ter libertado da costela humana recebida da mãe e apropriado da dimensão divina do pai. Nas suas aventuras espúrias useiras e vezeiras, Zeus enamora-se de Sémele e engravida-a. Hera, movida pelos proverbiais ciúmes de mulher traída, resolve vingar-se da rival e propõe-lhe que solicite ao amado deixar-se ver sem disfarces, em todo o seu esplendor. Esta assim faz, sendo de imediato fulminada pelo resplendor do rei dos deuses e dos homens, que retirou o feto do ventre materno e coseu dentro da sua própria coxa. Finda a gestação, dava à luz Dioniso, o deus que nasceu duas vezes.

As façanhas, prodígios e loucuras terrestres abriram-lhe as portas das esferas celestiais, não sem que antes tivesse dado uma saltada às profundezas infernais, para resgatar do Hades a sombra da mãe e a levar consigo para o Olimpo, demonstrando assim o seu poder à data reconhecido por todos. Aquele a quem também chamaram Baco foi convertido no atípico deus dos ciclos vitais, da fertilidade, da insânia, das festividades, dos ritos religiosos, do teatro, do vinho e do caos, provavelmente por ter vencido como nenhum antes a lei da morte e conquistado o direito divino à eternidade, como décimo segundo e último habitante maior do panteão grego.

Numa data não registada da idade dos mitos, os deuses deixaram de procriar com os humanos e os heróis saíram de cena, ou foram coagidos a mudar de paradigma. porém um corte neste quadro de aparente entrega dos mortais ao seu próprio destino. Uma virgem judia deu à luz uma criança gerada pelo espírito dum deus sem nome revelado. A sua estada entre os homens foi efémera, mas a sua ressurreição após a morte repôs-lhe a vida eterna própria da sua natureza divina, aquela que lhe permitiu recuperar a mãe da terra e coroá-la rainha do céu. Acaso este de gregos e hebreus deterem as mesmas chaves de acesso à imortalidade.

18 de dezembro de 2024

Olhares d'el-Rei Dom Sebastião olhados por Cristóvão de Morais

Dom Sebastião (c. 1571-1574)
Cristóvão de Morais
[Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga]

Olhem para mim! ‒ parece dizer-nos Dom Sebastião (1554-1578) ‒, sou rei desde os 3 anos de idade e, mais dia menos dia, vou ser imperador do mundo. Portugal e Algarves d'Aquém e d'Além-Mar em África não me chegam como reinos há muito herdados pela Graça de Deus. Os Senhorios da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia são só o início dum Quinto Império que a dimensão dos territórios antanho dominados por Assírios, Persas, Gregos e Romanos nunca alcançaram.

Olhem-no, como eu o estou a olhar agora! diz-nos o galgo de caça d'O Desejado, muito compenetrado do seu papel ‒, o derradeiro Cavaleiro-Cruzado da Cristandade a terras da Moirama já está de espada em punho e de armadura engalanado. Levar-me-á com ele ou estou aqui só como figura de decoração num quadro de aparato maneirista. Olho-o e quase lhe beijo a mão, mas o olhar majestático do meu soberano já está virado para outros horizontes distantes, onde o olhar dum canis lupus familiaris não seria muito bem olhada.

Olhem-no, pronto para partir para Marrocos! ‒ sugere-nos o olhar artístico de Cristóvão Morais, ao retratar a meio corpo O Encoberto na flor da idade, que nunca chegou a abandonar, teria então 17 anos (ou talvez 20) e finar-se-ia ingloriamente no campo de batalha de Alcácer-Quibir aos 24 anos. O bisneto por partida dupla, a materna e a paterna, de Dom Manuel Primeiro, não regressaria vivo de Marrocos, à procura duma grandeza sonhada, logo convertida em pesadelo para todos aqueles que seguiram e lhe sobreviveram.    

O olhar enigmático e distante do único monarca lusitano morto a terçar armas continua a olhar-nos como uma das joias maiores expostas destacadamente no Museu de Arte Antiga de Lisboa, ali mesmo às Janelas Verdes. Diz-se também que o seu corpo remido se encontra sepultado no Convento de Santa Maria de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, num túmulo monumental, mas, aí, o seu olhar real não se deixa olhar por ninguém. Só o podemos imaginar com algum esforço, com o poder dos mitos e contramitos nos concedem.