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24 de junho de 2025

A saltar a fogueira na noite de São João

Portinari, Festa de São João (1958)
MARCHA POPULAR
«Santo António já se acabou | O São Pedro está-se acabar | São João, São João | Dá cá um balão | Para eu brincar...»
António Lopes Ribeiro & Frederico de Freitas, São João Bonito (1942)
FESTAS DO LUME NOVO 

Os santos da minha infância pré-escolar eram passados na casa dos meus avós maternos, berço desse ramo familiar, da qual, por razões da ananke grega, do fatum latino ou do destino lusitano escapei, nem por bem nem por mal, mas pelas necessidades inevitáveis da vida referidas nos mitos épicos e dramáticos. Que me recorde, os três heróis elevados aos altares dos bem-aventurados celestiais, por vontade popular e reconhecimento clerical, nunca foram festejados com o mesmo brilho no espaço urbano da cidade da rainha onde cresci do que com o cenário quase aldeão da vila nativa dos meus avoengos. Faltava-lhe os balões aquecidos, os festões coloridos, as alcachofras acabadas de colher ou os cravos de papel com quadras em redondilha maior ou menor espetados num vaso de manjerico.

As festas do fogo da minha meninice celebravam-se na noite de São João, um pouco depois do solstício do verão, mas a abranger todo esse período de despedida do inverno e da permuta do reino da sombra para o da luz. Tudo começava nas vésperas desse ponto de viragem, com uma ida ao Pinhal Grande para juntar uns quantos ramos de alecrim e alfazema, apanhar algumas pinhas e troncos secos, mais umas braçadas de caruma para alimentar o lume novo que daria as boas-vindas à nova estação há muito desejada que aí vinha com toda a força renovadora. O arraial de rua far-se-ia, depois, com o contributo de toda a vizinhança reunida à volta das chamas perfumadas duma enorme fogueira, pronta a ser saltada pelos mais afoitos ao som dos cantos alusivos e do ritmo das danças rituais.

O odor a madeira queimada ainda mora na minha memória. O cheiro a cinzas fumegantes no empedrado da rua estreita que então me parecia imensa ainda persiste no meu olhar remoto dessa viragem simbólica da idade pueril para a juvenil. Aromas rurais imolados na fogueira mesclados com os urbanos do café torrado da mercearia do Swing e dos perfumes da barbearia do Fala-Baixo. Sinestesias variadas a alimentar as vivências um dia vividas e vivificadas nos ainda por viver. A alcachofra silvestre que queimei na noite de São João floresceu na manhã do dia seguinte. Tive sempre sucesso nesse renascer cíclico da natureza. Os amores idílicos com a minha prima Vera duraram até se diluírem no ar. Rondávamos a meia dúzia de anos e estas memórias excederam as seis décadas bem contadas.

19 de junho de 2025

Férias pequenas, grandes e plenas

Bonnevacance!
férias
Nome feminino plural de féria (fé.ri.a | ˈfɛrjɐ), do latim ferĭa-, «dia de festa».

Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa

A capacidade de olhar à distância levam-me a vislumbrar um tempo idílico de infância, em que as férias não eram nem pequenas nem grandes, eram plenas. Começavam quando o solstício de verão se aproximava e os dias se tornavam maiores e mais quentes. Acabavam nas vésperas do equinócio do outono, quando as vindimas estavam no seu auge e as festividades das estações frias despontavam.

Em sentido contrário, dirijo o olhar para as férias que aí vêm e que voltarão a ter a dimensão dos dias de festa dos tempos pré-escolares. Estas agora só não são plenas porque entre os primeiros dias do inverno e os finais da primavera outras tarefas se foram impondo para preencher os longos dias duma reforma, aposentação ou jubilação obtida após a travessia da etapa ativa adulta pela vida.

Nas vésperas dos dias de festa do descanso maior, interrompi as caminhadas de domingo mas mantive as sessões bissemanais de yoga, abrandei os ensaios dos grupos corais e ultimei as aulas pro bono na academia sénior. Comecei a contar os dias que me separam do sol e sombra, das leituras e escritas, da companhia mais assídua dos livros de proveito e deleite, de ensino e diversão.

arrumei as calças, camisolas e casacos; estreei as t-shirts, bermudas e havaianas; já apartei as toalhas de praia, os fatos de banho e a cadeira de lona. Os chapéus de sol, os para-ventos de prevenção e os panamás de pano já foram postos de lado. Os giros à beira-mar, à beira-ria e à beira-dunas já se avistam no horizonte. E aí vou eu em pensamento ávido de lá chegar de corpo e alma.

21 de junho de 2017

Verões de festa e alegria

ESTATE

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

O dia mais longo depois da noite mais curta

O verão é a estação do ano por que todos ansiamos enquanto du-ram as restantes. Aos outonos da prosperidade e decadência, aos invernos do recolhimento e reflexão e às primaveras da pureza e re-novação, sucedem os estios da festa e alegria. É o triunfo do dia sobre a noite, da luz sobre as trevas, do cosmos sobre o caos.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) representa-o como Vertumno. Atribui-lhe as feições joviais da divindade etrusca que promovia a mudança da vegetação e a maturação dos frutos. A alcachofra eleita como emblema simboliza a regeneração da vida e a ressu-rreição dos mortos, porque volta a florescer depois de queimada.

Nas guerras sem trégua de gato e rato, de alecrim e manjerona ou do ser e parecer, as estéticas maneiristas dizem-nos que no final da refrega nunca há vencedores nem vencidos absolutos. Equinócios e solstícios saem sempre empatados. As mesmas horas, os mesmos minutos, os mesmos segundos de claros-escuros anuais.

20 de março de 2017

Primaveras de pureza e renovação

PRIMAVERA

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

Quando os dias ganham fôlego e igualam as noites

A primavera é a estação do renascimento e da purificação da natureza. Concreção periódica do mito do eterno retorno que nos faz sonhar com o da eterna juventude. A morte a render-se à vida. Coisas de deuses e heróis oferecidas anualmente aos homens. Ilusão efémera situada entre a friagem invernal e a canícula estival.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) alia-o a Adónis. Às flores fres-cas, às roseiras bravas, às margaridas silvestres. Deu-lhe o aspeto juvenil de alguém que está enamorado da sua própria figura. Veste uma capa feita de elementos vegetais. Folhas, arbustos, musgo. O lírio escolhido como emblema simboliza a glória do amor sublimado.

As lições paradoxais que o maneirismo impôs na cultura quinhen-tista europeia mantêm-se atuantes nos nossos dias. A entrada num novo ciclo vital pressupõe também ele o início do fim. Tempus fugit. Os equinócios e solstícios batem-se entre si pelo predomínio dos dias e das noites. Miragem sazonal de luz e sombra. Nada mais...

21 de dezembro de 2016

Invernos de recolhimento e reflexão

INVERNO

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

O dia mais curto depois da noite mais longa

O inverno começa com o dia mais curto do ano e termina com o nú-mero de horas idêntico ao da noite. Equilíbrio efémero de imediato desfeito pela primavera dentro e só será recuperado na passagem meteórica do verão para o outono. Luta sem quartel entre equinócios e solstícios a marcar a roda contínua das estações.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) liga-o a Thanatos. À hera, às raí-zes e aos fungos. Deu-lhe um ar carrancudo de alguém que está de mal com a vida e ganhou um esgar duradoro no olhar. A seiva dos verdes anos secou de vez e deixou um tronco morto em seu lugar. O limão usado como emblema simboliza o azedume da velhice.

A tradição milenar que o maneirismo consagrou associa-o ao final dum ciclo de vida. Aquele que se situa entre o alfa e ómega da exis-tência humana. Tempo de recolhimento e reflexão. A linearidade do homem a perder aos pontos com a circularidade da natura. Sem apelo nem agravo. Imparavelmente. Dia após dia, noite após noite...

22 de setembro de 2016

Outonos de prosperidade e decadência

AUTUNNO

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

Quando os dias emagrecem as noites engordam

O outono é a terceira estação do ano. Também podia ser a primeira ou a última. Tudo depende do ponto de vista que se adote. Princípio ou final de ciclo. É aquela que fica entre os calores do verão e os frios do inverno. É o início da inexorável da decrepitude. É o ponto simétrico da primavera que representa o desabrochar da juventude.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) associa-o a Baco. Às uvas, às vindimas e ao vinho. Deu-lhe um rosto jovial de alguém que está contente com a vida e a quem lhe resta ainda a vontade de sorrir. A fortuna bafejou-o com os bens que a terra dá. Frutos e cereais. A romã utilizada como emblema simboliza a prosperidade alcançada.

Os maneirismos atualizados pelas pós-modernidades ligam-no ao retomar das atividades laborais depois das férias grandes anuais e de todas as rentrées. Os dias emagrecem e as noites engordam. Ine-xoravelmente. Inaugura-se o longo período de seis meses em que o equinócio da sombra espera ansiosamente pelo equinócio da luz...

8 de agosto de 2016

Citius, Altius, Fortius

TOCHA OLÍMPICA

(Jogos Olímpicos de Atenas 2004)

Tudo por uma coroa de azebuche...

Afirmam as lendas que os jogos pan-helénicos foram estabelecidos num local sagrado em memória dos feitos realizados por um deus ou por um herói. Estariam ligados às festividades religiosas rurais, simbolizados na coroa duma planta oferecida ao vencedor. De loureiro nos Píticos, criados por Apolo em Delfos, por ter vencido o dragão Píton; de pinheiro nos Ístmicos, fixados por Teseu ou Sísifo no ístmo de Corinto, junto à tumba de Melicertes-Palémon, afogado no mar; de aipo nos Nemeus, fundados em Nemeia por Adrasto, em honra de Ofeltes, morto pela mordedura duma serpente; e de oliveira silvestre ou azebuche nos Olímpicos, instituídos por Pélops em Olímpia, dedicados a Enomau.

Interessam-me em particular estes últimos, porque foram os únicos a sobreviver à voragem do tempo e à ortodoxia fundamentalista dos homens. São jogados hoje em dia por atletas dos cinco continentes e seguidos pelo olhar mediático dos espetadores da aldeia global. O objetivo passou agora a ser o de subir ao pódio da fama e ser medalhado de bronze, prata ou ouro, para glória imediata e duradou-ra. Os antigos começaram a registar-se a partir de 777 AEC. Foram extintos em 393 EC pelo imperador romano Teodósio I, quando mandou encerrar o templo de Zeus em Olímpia, escudado nos preceitos do Cristianismo triunfante na cidade eterna. Foram restau-rados em 1896 e celebrados em Atenas.

As 292 Olimpíadas da Era Antiga e as 31 da Era Moderna decorrem num ano bissexto, aquele em que a conjunção dos calendários lunar e solar exigia a introdução dum dia suplementar. Realizavam-se na primeira lua cheia depois do solstício de verão, entre 11 e 16 de julho aproximadamente. Estabelecia-se uma trégua olímpica entre todas as cidades do mundo helénico, para permitir aos participantes deslocarem-se tranquilamente ao recinto sagrado dos jogos e voltarem com toda a serenidade a casa. A chama olímpica era acesa e durava toda a competição, num máximo de 5 dias. Esta começou por ser constituída por uma corrida no estádio a que se acrescentaram depois outras provas.

Contam as lendas de que são feitos os mitos continuarem ainda hoje guardados no santuário de Pelóps os ossos gigantescos do filho de Tântalo e Dione, o rei do Poloponeso, onde foi erigida Olímpia, consagrada aos deuses do Olimpo. Segundo reza a tradição, os despojos do soberano terão estado no cerco de Troia para facilitar a sua conquista. Teriam naufragado na viagem de regresso e logo recuperados por um pescador. Um contínuo de prodígios que a arqueologia ameaça demolir. Ao que parece, trata-se dos restos dum mero dinossauro que a imaginação humana transformou nas ossadas do herói epónimo da maior península grega. Ilusões que dão sentido à vida tão carente de sentidos.

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foram abertos com pompa e circunstância no início de agosto. A tocha olímpica foi acesa pelas sacerdotisas de Hera em Olímpia. A chama de fogo roubada por Prometeu a Zeus foi levada para o Maracanã. A bandeira branca com os cinco círculos de azul-amarelo-preto-verde-vermelho foi hasteada. O hino olímpico foi entoado. Fizeram-se os juramentos olímpicos. Os atletas entraram no estádio. Cantou-se o hino brasileiro. Aplaudiu-se com entusiasmo. O presidente interino reduziu o discurso de abertura a 10 segundos e foi vaiado. As vozes dissonantes vindas do exterior foram abafadas. Estranhos jogos estes em que a paz olímpica é imposta pela força das armas.

20 de março de 2016

Falemos de equinócios e solstícios...


LE SOLSTICE D'ÉTÉ

21 mars : le printemps, l’équinoxe. On guette chaque signe de l’allongement des jours. L’année se met à dévaler, tout s’accélère. On file vert l’été. Après le 21 juin, déjà, les jours commencent à raccourcir. On s’en amuse, parce que bien sûr les meilleurs mois d’été sont encore à venir, les déambulations dans les rues chaudes, les repas aux terrasses, aux bougies dans les jardins.

 Quand même, lance toujours quelqu’un, soulevant autour de lui une réprobation agacée, quand même, les soirées sont déjà moins longues…

À soixante ans on a franchi depuis longtemps le solstice d'été. Il y aura encore de jolis soirs, des amis, des enfances, des choses à espérer. Mais c'est ainsi : on est sûr d'avoir franchi le solstice. C'est peut-être un bon moment pour essayer de garder le meilleur : une goutte de nostalgie s'infiltre au cœur de chaque sensation pour la rendre plus durable et menacée. Alors rester léger dans les instants, avec les mots. Le solstice d'été est peut-être déjà l'été indien, et le doute envahit les saisons, les couleurs. Le temps n'est pas à jouer ; il n'y a pas de temps à perdre. 

Avec les mots rester solaire. Je sais ce qu'on peut dire à ce sujet : l'essentiel est dans l'ombre, le mystère, le cheminement nocturne. Et puis comment être solaire quand l'humanité souffre partout, quand la douleur physique et morale, la violence, la guerre recouvrent tout ? Eh bien peut-être rester solaire à cause de tout cela. Constater, dénoncer sont des tâches essentielles. Mais dire qu'autre chose est possible, ici. Plus les jours passent et plus j'ai envie de guetter la lumière, à plus forte raison si elle s'amenuise. Rester du côté du soleil. 
Philippe Delerm, Le trottoir au soleil (2011: 14-15)

17 de dezembro de 2015

Presépio de Belém, Dia de Natal e Sol Invicto

Giotto di Bondone, Adorazione dei Magi (c. 1303-1305)
[Cappella degli ScrovegniPadova]

Segundo se julga saber, deve-se a São Francisco de Assis a criação do primeiro presépio. A encenação natalícia ocorreu no já longínquo ano de 1223 e contou com o acordo papal de Honório III. O drama litúrgico foi representado numa gruta da floresta de Grécio e integrado numa missa especial, rezada na presença da imagem do Menino Jesus deitado num berço revestido de feno e ladeado pelas imagens da Virgem Maria e de São José. Para completar o cenário, foram levados para ali um jumento e um boi verdadeiros. A recriação anual do nascimento do Messias Salvador acabava de ser instituída, atravessaria o milénio e chegaria até aos nossos dias.

Artistas e artesãos deram-lhe vida em figuras pintadas, desenhadas e esculpidas, expostas em museus nacionais de todo o mundo e nas casas da gente anónima um pouco por todo o lado. A lenda local dada à luz num recanto perdido da Terra Santa transformar-se-ia, com o decorrer dos tempos, num mito global que abraça os cinco continentes habitados pelos seres humanos, devotos ou não das diversas interpretações da fé Cristã. Cada cor seu paladar. Os interpretes do presépio franciscano multiplicaram-se, o estábulo abriu-se ao exterior e os caminhos de areia traçados num chão de musgo chegarem até ao castelo dos Reis Magos.

Olhando com atenção para essas reconstituições do mistério da encarnação, até nos esquecemos da fragilidade dos dados factuais a ele associados e dos constantes desmentidos proferidos pelos registos históricos que até nós chegaram. A pragmática prosaica da realidade raras vezes dá as mãos à fantasia poética da imaginação. As temperaturas negativas que se fazem sentir nas montanhas de Belém aconselhariam os progenitores do recém-nascido a protegê-lo um pouco melhor dos frios invernais do último mês do ano. A menos que o parto sagrado se tenha dado noutra altura ou noutro espaço. As hipóteses alternativas são mais do que muitas.

A fixação do Natal a 25 de dezembro parece estar ligada ao culto ro-mano do Sol Invictus, cujo nascimento se festejava nesse dia. Com a conversão de Constantino ao Cristianismo em 313, a substituição duma divindade por outro efetuou-se de imediato, passando Jesus de Nazaré a ser o verdadeira resplendor invencível. E assim ficou até hoje no rito católico predominante entre nós. Data em que a luz do dia começa a aumentar após o solstício de inverno e o renascimento do astro-rei se iniciava. Momento simbólico de desejar as boas-festas à vida renovada, independentemente o nome que lhe outorguemos e dos sentidos religiosos que lhe agreguemos.

13 de junho de 2015

Sardinhas e velas de Santo António


FESTAS DE LISBOA
Alberto Faria - Santo António do fogareiro
«No fim de contas, talvez os arquiduques decidam dar uma volta pelo grande canal e sejam recebidos pelo doge, mas solimão, os cou-raceiros, todos e a restante equipagem ficarão em pádua, de cara para a basílica de santo antónio, que de lisboa é, reivindiquemo-lo, e não de pádua, num espaço livre de árvores e outras vegetações.»
José Saramago, A viagem do elefante (2008: 188)
Em tempos de crise, a inquietação instala-se e a emigração dispara. Vá-se lá saber se Fernando de Bulhões (Lisboa: 1191/1195 - Pádua: 1231), mais conhecido por Santo António, terá um dia rumado a outras paragens em busca de melhor vida. Por aí ganhou fama como teólogo, místico, asceta, taumaturgo e orador, o que levou Gregório IX a canonizá-lo em 1232 e Pio XII a conceder-lhe o título de Doctor Evangelicus da Igreja Católica em 1946.

Como santos de casa não fazem milagres por dá cá aquela palha, o Santo António de Lisboa passou a Santo António de Pádua. Nesta usurpação da hagiográfica, o mais famoso franciscano português não está só. Do mesmo se pode queixar João XXI, o papa, médico, filósofo, professor e matemático lusitano Pedro Hispano (1215-1277); tal como o humanista, arquiteto, escultor, desenhador e iluminador alfacinha Francisco de Holanda (1517-1585).

Entre o nascer e o morrer, o segundo termo do binómio leva sempre a melhor nos aniversários dos heróis partidos. Celebra-se o final do percurso e esquece-se o início da caminhada. A 13 de junho festeja-se em Lisboa o trespasse do santo em Pádua. A sardinha assada é rainha. Os casamentos na Sé e as marchas na Avenida unem o sagrado e o profano. O São João e o São Pedro entram na folia e o solstício do verão cumpre-se em nome dos santos populares.

Numas férias algarvias passadas em 82 com uns amigos bretões, resolvemos fazer uma visita a Lisboa. Calcorreámos as sete colinas e demos de cara com a igreja de Santo António. Entrei com a minha filha de três anos ao colo. Na presença de tanta vela acesa, bateu as palmas e cantou os parabéns, para espanto dos fiéis. Não seria caso para tanto, já que se celebrava nesse dia o nascimento do padroeiro do templo. Lá diziam os latinos: voz pueri, vox dei.