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4 de junho de 2026

La copine bretonne

Le vrai bol breton en faïence

Nous nous sommes rencontrées pour la première fois en 1976, au lendemain de la Révolution des Œillets. Mon amie Gigi avait décidé de venir voir sur place de ses propres yeux ce qui se passait. Elle a commencé son voyage à Lagos et l'a terminé à Faro. Ce qui devait être un court séjour a duré toute une semaine. Ce qu'elle a découvert l'a immédiatement captivée. Cette rencontre fortuite l'a marquée à jamais et reste gravée dans sa mémoire jusqu’à présent.

Elle est revenue ici il y a une semaine à peine pour fêter ensemble l'anniversaire d'une amitié ininterrompue d'un demi-siècle. Elle était accompagnée d'autres copains communs, rencontrés au fil de nos voyages incessants entre la Bretagne et l'Algarve, la France et le Portugal. Ils ont rejoint les amis tissés de ce côté-ci de la frontière entre ces deux patries sœurs. Indifférents les et les autres au fil des jours, des mois et des années, comme s'il était passé hier.

Au fil du temps, de vacances en vacances, pas à pas, nous avons découvert l'hexagone gaulois, le rectangle portugais et d'autres coins plus ou moins éloignés des environs européens. Îles atlantiques et normandes, pays flamands et maghrébins. Bro Armor et Bro Argoat, Sotavento et Barlavento. Nous avons gravi des montagnes, traversé des mers, visité des bourgs et bourgades. Nous avons pique-niqué, fait du vélo et célébré la vie. Copains et copines. Voilà !

En cinquante ans, la jeunesse s'en est allée sans arrêt, la maturité s'est épuisée tout d'un coup et le troisième âge s'est installée à grand vitesse. Seule l'amitié est venue pour rester, et la voici, prête à donner et à persister pour toujours. Indifférent à l'usure du temps, aux rides, malaises, raideurs, douleurs et faiblesses, éventuelles et permanentes, à l'écume des jours. Patine empilée impossible à enleverDécade après décade, appelant à bien d'autres.

12 de março de 2025

Caminhar, pedalar, nadar & yogar

Bastard Helene, Randonnée (2020)

Mens sana in corpore sano...

Nunca fui praticante de grandes desportos. Em miúdo andava de triciclo no largo do chafariz d’el-rei e de bicicleta alugada no parque da rainha das caldas. Nada de mais. Jogar à bola com intuito competitivo nunca fez parte dos meus planos traçados a curto ou a longo prazo. Aliás, a bronquite crónica que me começou a fazer companhia desde tenra idade, sempre me inibiu de grandes folias físicas, como correr, saltar, pular e outras atividades afins.

Abandonado o recreio da primária e entrado já no secundário, deixei gradualmente de participar nas aulas normais de educação física e acabei por integrar um grupo restrito de ginástica respiratória, que, depois, mantive noutras paragens fora das instalações escolares. Completava-as sem dificuldade de maior e com algum prazer pelos amplos percursos palmilhados na malha urbana da grande cidade, para onde me mudara transitoriamente.

Em tempos de férias que vão, lancei-me em atividades físicas de maior fôlego com algum cheiro a desporto. Atirei-me às banhadas nos embalses estremenhos do Guadiana espanhol, pus horas a fio o pé no pedal para bicicletar ao longo dos canais flamengos do Limburgo belga e holandês, pratiquei dia após dia randonnées pédestres nas routes bretãs da Fôret de Brocéliande e walking hikings e nos rails irlandeses do Killarney National Park no Kerry.

Depois de ter ensaiado um pouco de montanhismo nas serras de Sintra e Arrábida, investi q.b. no Massif Central e Alpes franceses, lancei-me a aventuras mais amenas nas serranias algarvias de Monchique e do Caldeirão, em escaladas antigas agora substituídas pelas passeatas mais planas pelos trilhos da quinta do Ludo ou da Ria Formosa, pelos sapais de Castro Marim, nas arribas da Ponta de Sagres e nos areais das ilhas-barreira. 

Nos dias e noites que agora fluem, o sonho antigo de fazer o Caminho de Santiago continua de pé, mas a energia para a efetuar é que se dissipou. Deixadas de lado as bicicletadas pela cintura citadina de Faro e as braçadas nas piscinas municipais, restam-me as marchas de fim de domingo e as sessões bissemanais de yoga. Movimentos tranquilos de quem não tem pressa de chegar e posturas milenares vindas das míticas Índias Orientais. Namastê!     

16 de março de 2024

Mandachuvas & Paus-Mandados

Paula Rego, Salazar a vomitar a pátria (1960)

[Lisboa, Centro de Arte Moderna, Gulbenkian]

No tempo da outra senhora...

No tempo da outra senhora, os destinos do país eram sabiamente regidos por duas entidades magnas: um mandachuva absoluto e um pau-mandado submisso. O primeiro dava pelo nome pomposo de presidente do conselho e o segundo de chefe de estado, por horror inato às designações comuns de Primeiro Ministro e Presidente da República. Era ao herdeiro efetivo e incontestado da Ditadura Militar [1926-1928] que competia designar o suposto dirigente máximo do regime, a preceder o processo simulado da sua eleição/nomeação legal. Tudo a bem da nação como mandavam os figurinos.

Fui gerado numa fase intermédia de troca do consulado do primeiro pau-mandado do Estado Novo para o segundo. Reinava então no seu poder ilimitado o dinossauro excelentíssimo de Santa Comba, arvorado na categoria de mandachuva-mor interino, sem direito a um número de ordem na listagem oficial dos chefes de estado / presidentes da república, ocupando o lugar interposto entre o 11.º e o 12.º inquilino do Palácio de Belém. Fraca consolação para quem era de facto senhor disto tudo e preferia ditar as suas leis a partir do Palacete de São Bento, modesto como se fazia pintar.

O primeiro delfim do antigo seminarista de Viseu e lente de Coimbra aqueceu o lugar pouco tempo. Quando cheguei à  primária, o retrato do segundo pau-mandado de serviço já dera lugar ao do terceiro. É desse que me lembro pendurado na parede da sala de aulas, ao lado do do manda-chuva vitalício e com um crucifixo de permeio. Ótima companhia para as três filas de meninos que olhavam a santíssima trindade com o respeito que lhe era devido, a dos que nunca andavam descalços, a dos que nunca andavam calçados e a dos medianos como eu que alternavam o pé calçado e o descalço.

No preparatório e secundário não havia fotos de mandachuvas e paus-mandados pendurados nas paredes. Lembro-me de ter visto o marinheiro almirante na inauguração solene da escola nova que substituíra de vez a improvisada escola velha há muito a gritar um tirem-me daqui urgente. Nunca vi ao vivo os dois caciques maiores que entretanto se haviam sucedido no poder. É que o quase eterno Manholas das Botas caíra entretanto da cadeira e sido trocado pelo promotor das soporíferas conversas de família televisivas. Tardou décadas mas nada acrescentou ou arrecadou o render da guarda.

O levantamento militar das Caldas de há 50 anos apanhou-me já em Lisboa. Para trás haviam ficado as brincadeiras infantis com os meninos da rua junto ao chafariz d'el-Rei em tempo duma Segunda República envergonhada ou dos colegas de escola no recreio das aulas e nos trilhos e clareiras secretas da mata real da cidade. O prelúdio para o movimento dos capitães de abril e da revolução dos cravos estava dadoAssim as novas aragens que pairam no horizonte nos permitam celebrar dentro de dias a queda definitiva e em paz dos mandachuvas e paus-mandados recentes de tão má memória.

31 de agosto de 2022

O ver para crer de São Tomé

Fantasias caídas das ilhas voadoras

Aos 10 anos, deixei de acreditar no Menino Jesus e no Pai Natal. A culpa terá sido do processo natural de crescimento que me fez transitar ante da idade das fadas e das varinhas de condão para a dos índios e cowboys do Far West norte-americano. De permeio pulularam muitas outras histórias de aventuras dos livros aos quadradinhos partilhados com os colegas de brincadeira da rua. Entre os recreios da primária e da catequese as quimeras de ilhas voadoras e de castelos de areia começaram a ruir.

Aos 20 anos, deixei de acreditar no transcendente total revelado pela religião ainda reinante no país das mil maravilhas à beira-mar plantado que sempre fora o meu. A mudança da pequena cidade de província para a grande cidade metropolitana abriram-me as portas para a realidade palpável vivida no dia a dia. As leituras que então me começaram insistentemente a visitar ajudaram no percurso imparável de fuga total à fantasia infantil das histórias da carochinha para o universo tangível que nos rodeia e abriga. 

Aos 30 anos deixei de acreditar na política militante dos partidos do poder ou a ele apegado. Depois de perder a fé nos paraísos celestes de origem divina, perdi a fé nos paraísos terrestres de natureza humana. À medida que as eutopias se diluíram no horizonte de eventos a perder de vista, as distopias abeiraram-se cada vez mais a toque de caixa. A utopia desfez-se e a miragem utópica dum oásis de perfeição dos sonhos cor-de-rosa abrigou-se nas páginas da ficção científica ou dos contos maravilhosos.

Aos 40 anos deixei de acreditar na amizade genuína dos colegas de profissão. As disputas insanas travadas durante os concursos anuais de colocação, as rivalidades alimentadas no decorrer do estágio pedagógico, as guerrilhas insanas para obter os melhores horários fizeram-me arrepiar caminho e pôr de lado o mito da solidariedade interpares. A ingenuidade também tem prazo de validade. Dura o tempo dum já era. A maré alta chega à praia e leva à sua frente as mais belas esculturas à beira-mar levantadas.

Aos 50 anos deixei de acreditar nos atalhos formativos seguidos pela pequenez das medidas educativas do novo milénio. O copo 1/2  cheio transformou-se pouco a pouco num copo 1/2 vazio a ameaçar o vazio total dum copo esvaziado de tudo no seu interior. Nem sequer um mero castelo feito de nuvens efémeras sem gota de água no seu interior. Uma seca total a converter-se numa descrença global ou numa crença em coisa nenhuma. Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, como alguém em tempos disse.  

Aos 60 anos deixei de acreditar nos malabarismos de faz-de-conta duma carreira académica sem fim à vista. Cansei-me de perder os dias a escrever papers sem ter tempo de ler os alheios. Cartas fora do baralho. DefinitivamenteA sineta tocou forte e a hora de virar a página chegouImparável. A corrida em contrarrelógio entrou na rampa descendente. A aposentação, a reforma ou a jubilação perfiladas no horizonte de eventos. Indiferentes aos sentidos ocultos nas etiquetas seguidas. Encantos caídos, encantos criados.   

Aos 70 anos deixei de acreditar em castelos nos Pirenéus, feitos de areia ou neblina a fugirem entre dedos, alçados em ilhas voadoras dum qualquer reino ideal das histórias da carochinhaIgnoro qual será o meu descrer nesta nova década agora iniciada. Talvez chegue aos 81,06 anos de idade, os tais que as estatísticas de esperança média de vida global calculadas pelo INE me dizem poder atingir com a segurança matemática.  para afirmar que o crer e o descrer se confundem, como o ver para crer de São Tomé.

27 de junho de 2022

Dança de cadeiras & amizades de vida

Jotes picades sobre el treball, l'amistat i la vida
Quico el Célio, el Noi i el Mut de Ferreries,
 Si no fos (2012)
«Naõ ha mais ſegura riqueza para a vida que hum bom amigo; porque com elle ſe ſuſtẽtaõ as proſperidades, ſe encobre a amizade, ſe remedea a falta, ſe eſtima a bonança, ſe chora a dor, & ſe feſteja o contentamento.»
Gaspar Pires Rebelo, Infortúnios trágicos da constante Florinda (1633)

Se não fosse só por isso...

No jogo das cadeiras, fazem-se danças de roda, ouve-se a música atentamente, ciranda-se sem parar dum lado para o outro, espera-se a cada instante que o silêncio se faça, ocupa-se um lugar vago para mais uma partida, quem fica de pé perde a jogada. É que no jogo da cadeira há sempre mais jogadores do que cadeiras. O último a sentar-se vence a peleja. O vencedor da contenda ganha a solidão.

Tirando primos e primas, sou o mais velho da família. Segundo a lei de quem parte e de quem fica, serei o primeiro a partir. Quem parte não leva lembranças. Deixa algumas a quem fica. Dos amigos que fui fazendo, sou o mais velho de todos. Segundo essa mesma lei de quem parte e de quem fica, serei o último a sair de cena. Aí a coisa fia mais fino. O silêncio aperta. A solidão assusta. A saudade abala. 

E pouco a pouco as cadeiras ficam vazias. não ninguém que as ocupeO palco vazio perde de vez a razão de ser. O jogo das cadeiras esvaziou-se de sentido. O baile mandado, o corridinho e a jota picada perderam quem os dançasse ou quisesse fazer. Pela lei natural da vida/morte, os primeiros a chegar são os primeiros a partir. Se não fosse por isso, sejamos mais amigos de quem vai ficando.

5 de agosto de 2021

As lições dos mestres carismáticos

Accademia di Platone ad Atene
Mosaico da villa di T. Siminius Stephanus a Pompei 
(c. séc. )
[MuseoNazionale Archeologico di Napoli]

«A profissão de professor [...] compreende numerosas tipologias que vão desde a do pedagogo destruidor de espíritos à do Mestre carismático.»
George Steiner, As lições dos mestres (2003)

1. Letras & Números
Soube dias que o Prof. Dinis morrera, ao que me foi dado saber num acidente de viação, desconheço exatamente quando. Rondaria agora os noventa e picos. Durante muito tempo, tive vontade de rever o meu mestre-escola da Primária. Nunca calhou. Não voltei a saber nada dele. Nem sequer me lembro do apelido. Difícil de o encontrar na Net. Iniciou-me nas Letras e nos Números e demais artes do trívio e do quadrívio. Recordo-o vestido a rigor de príncipe de gales, sempre de gravata e sapatos superengraxados. Por alguma razão era conhecido por Manequim Inglês. Podia ser pior.

2. Língua & História
tempos, dizia eu a um amigo, num diário em rede que quando estava a ler pela enésima vez As lições dos mestres de George Steiner, me lembrara do Dr. Bento Monteiro, meu professor no Secundário de Língua e de HistóriaNa altura perguntei-me porquê, depois percebi ter sido o meu primeiro mestre carismático, aquele que me iniciara no universo do canto lírico e da paideia grega e me motivara a escrever e a ler ainda mais. Através da blogosfera soube ter falecido em 2008. Mais um que não voltei a ver como desejava, o Aristóteles Bigodaça, como alguns lhe chamavam.  

3. Filosofia & Dialética
E nada digo a propósito de epítetos, porque a partir do Médio os discípulos deixavam de alcunhar os mestres. Se o Prof. Barrilaro Ruas algum tivesse, seria com certeza o de Sofista Maiêutico, dado o modo como referia o método pedagógico de Sócrates, o grande mestre da Filosofia e da Dialética, nas aulas que eu frequentava no Instituto Comercial de Lisboa. Perdi-o de vista, apesar de tal como eu se ter mudado para a Faculdade de Letras. Vi-o algumas vezes na RTP, enquanto deputado do PPM, até que em 2003 os mass media anunciaram o seu passamento aos 82 anos de idade.   
 
4. Filologia & Linguística
Encontrei o Prof. Lindley Cintra já no final de vida, aquele que foi o meu Mestre de Mestres na Universidade de Lisboa, onde me iniciou no seio da Filologia e da Linguística, o estudo da linguagem nas fontes históricas antigas dos textos literários e registos escritos das diversas variantes do português e das suas congéneres românicas. Com ele aprendi que sem um conhecimento mínimo do latim e do grego, dificilmente entenderia a génese, avanço e triunfo da realidade cultural portuguesa. É que quem descura as suas origens ancestrais, empenha seriamente a sua razão de existir e dos seus.    

5. Literatura & Cultura 
Nunca perdi de vista a Prof.ª Ana Hatherly desde que a vi pela primeira vez no Príncipe Real, numa dependência da Universidade Nova de Lisboa. Sobre a minha orientadora de Mestrado e Doutoramento em Literatura e Cultura contei aqui algumas histórias que não vou repetir. Limito-me a reforçar a ideia de ser uma Mestre Prodigiosa de muitas artes e saberes, que me ajudou a olhar com olhos de ver para o Barroco. Convivemos como mestre e discípulo um quarto de século. E mais houvera se não tivesse entretanto partido para o Parnaso, o único lugar mítico que lhe pertence de direito*.

NOTAS
* No dia em que há seis anos Ana Hatherly partiu para junto de Apolo e das nove Musas, as entidades míticas inspiradoras da criação artística e científica.

27 de janeiro de 2021

Um sono sem sonhos nem pesadelos

Jacques-Louis David 
«La mort de Socrate» 
...To die, to sleep, | No more; and by a sleep to say we end | The heart-ache, and the thousand natural shocks | That flesh is heir to: 'tis a consummation | Devoutly to be wished. To die, to sleep; | To sleep, perchance to dream...

[...Morrer, dormir, | não mais; dizer que rematamos com um sono a angústia | E as mil pelejas naturais herança do homem | Morrer para dormir: é uma consumação | Que bem merece e desejamos com fervor. | Dormir, sonhar talvez...]
William Shakespeare, Hamlet, Prince of Denmark (1599-1602: III, ii, 62-68)

       As sete vidas dos gatos       

Morri sete vezes e ressuscitei outras tantas, mas sempre de modo diferente. Tantas quanto as sete vidas dum gato. Estou a falar em sentido figurado, está bem de ver. Se o fizesse em sentido próprio, a frase transformar-se-ia numa não-frase de sentido vazio ou absurdo. Aliás, em bom rigor e perfeito juízo, nenhuma destas frases teria sido escrita ou sequer pensada. Se tivesse dito adormeci profundamente e despertei sempre duma anestesia geral com sensações diferentes, talvez o risco de insanidade mental desaparecesse, apesar de cair na banalidade de converter o sono num simulacro de morte efémera ou de ressurreição assegurada, o que teria as suas vantagens. Daria para refletir sobre a falência irreversível do livre-arbítrio no que à morte se refere e nas formas possíveis de a antecipar através do suicídio programado ou da eutanásia solicitada, de a imitar através dum anestésico cirúrgico ou da hipnose terapêutica, de a experimentar através do desmaio acidental ou do coma provocado.

A perfeição só acontece uma vez na vida e chega inexoravelmente com a morte. É irrepetível e ninguém escapa. Se tudo já está feito não há mais nada a fazer. E como ato singular e definitivo que é, não penaliza nem premia. Apaga tudo à sua volta para todo o sempre. É que no nosso mundo real a consciência de se estar vivo exclui liminarmente a consciência de se estar morto. Constitui um autêntico absurdo da existência humana, tal como Albert Camus a seu tempo defendeu O mito de Sisifo. Ensaio sobre o absurdo (1942), ter a veleidade de aspirar à experiência da morte depois da vida se ter ido de vez é uma ilusão que nem chega a ser desfeita. Seria perfeitamente infrutuoso. Ao invés do que afirma o protagonista da tragédia de William Shakespeare, Hamlet, Príncipe da Dinamarca (1599-1602), morrer e dormir não são a mesma coisa, afastando assim de vez a hipótese dramática do sonho ligeiro ou do pesadelo tenebroso. Do mal o menos. Nem angústia chega a ser.

A pena de morte foi abolida de Portugal em 1867, tal como a pena de prisão perpétua, ambas ignóbeis, por impedirem a real reabilitação do condenado. A primeira, por substituir a punição merecida por uma benesse imerecida do criminoso dada pela morte que tudo apaga; a segunda, por criar um novo suplício de Tântalo ou de morte em vida do proscrito da sociedade que lhe é vedada para sempre. Ironia trágica e violência sádica aplicadas em nome da justiça, a dar na probidade da sentença, o que nem sempre se verifica. Como a votação final da lei da eutanásia na Assembleia da República foi adiada para depois das eleições presidenciais, teremos ainda de aguardar que o inquilino reeleito do Palácio de Belém proceda com toda a celeridade à promulgação da despenalização da morte medicamente assistida – caso venha a ser aprovada como se espera* –, substituindo duma vez por todas o sofrimento injusto imposto pela matriz judaico-cristã da distanásia e devolver o livre-arbítrio a cada um de nós.

   HYPNOS & THÁNATOS   
Carrying the body of Sarpedon from the battlefield of Troy
Detail from an Attic white-ground lekythos, ca. 440 BC.
[The British Museum - London]
NOTAS
(*) [1] 29.01.2021: Foi aprovada com 136 votos a favor, 4 abstenções e 78 votos contra. || 18.02.2021: O Presi-dente da República enviou para o Tribunal Constitucional o diploma para verificação da sua constitucio-nalidade || 15.03.2021: O Tribunal Constitucional chumbou o diploma com 7 votos contra a sua constituciona-lidade e 6 a favor. || 29.11.2021: O Presidente da República devolveu sem promulgação o decreto da Assem-bleia da República sobre morte medicamente assistida, envolvendo a eutanásia e o suicídio medicamente assistido. || [2] 9.06.2022: A Assembleia da República aprovou pela segunda vez o diploma, posteriormente alvo dum veto político do Presidente da República. || [3] 9.12.2022: A Assembleia da República aprovou pela terceira vez o diploma. || 4.01.2003: O Presidente da República voltou a submeter o decreto do Parlamento que despenaliza a morte medicamente assistida ao Tribunal Constitucional para fiscalização preventiva da sua constitucionalidade. ||  30.01.2023: O Tribunal Constitucional veta nova Lei da Eutanásia e remeteu-a para a Assembleia da República afim de a alterar pela quarta vez.|| [4] 31.04.2023: A Assembleia da República apro-vou mais uma vez a o diploma, após 2 chumbos do Tribunal Constitucional e 3 vetos presidenciais. || 19.04.2023: Veto político do Presidente da República e devolução à Assembleia da República. ||  [5] 12.05.2023: O decreto vetado pelo Presidente da República sobre a morte medicamente assistida foi confir-mado pelo Parlamento, com 129 votos a favor, 81 contra e uma abstenção. || 16.05.2023: O Presidente da Re-pública promulgou o Decreto n.º 43/XV, da Assembleia da República, tal como está obrigado nos termos do artigo 136.º, n.º 2 da Constituição da República Portuguesa.