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1 de dezembro de 2024

Do branco-azul real ao verde-rubro republicano da bandeira em riste

Silva e Sousa, A querela da bandeira (1910)
            «Guerra Junqueiro e Teófilo Braga»            

Registam com esmero didático os manuais escolares oficiais, bem como os guias de pretensa divulgação popular ou de duvidosa cultura histórica, corresponder o verde da bandeira nacional à esperança do povo português e o vermelho à coragem por si manifestada em batalha. Informações patrióticas que os leitores comuns aceitam de ânimo leve, sem pestanejar, como se se tratasse de verdades axiomáticas, e que não se cansam de repetir à tripa forra para memória futura.

Reclamam os monárquicos empedernidos da junção republicana destas duas cores, tão pouco ortodoxa em termos heráldicos, reivindicando a reposição da harmonia multissecular da união real do branco e azul usada desde o tempo dos Borgonhas fundadores. Guerras de alecrim e manjerona transferidas para a tessitura simbólica do estandarte do país, em que todos esbracejam e ninguém tem razão, caricaturado por Silva e Sousa na «Querela da Bandeira» ocorrida em 1910.

Consta que no tempo da restauração dinástica de 1640, o pendão de Dom João IV estava ornado com uma bordadura azul sobre fundo branco. Longe ainda da adoção do campo partido bicolor que os Braganças aprovaram em 1822 e Dona Maria II passou a usar em 1834, após a vitória final dos Liberais sobre os Absolutistas e a sua reposição no trono real de Portugal e Algarves. Uma tradição, afinal, bastante recente, que num cômputo benevolente não atinge a cifra redonda duma centúria.

Arredados de vez os mitos enganosos das origens e clamados os contramitos reveladores da verdade. Digamos que a cruz azul em fundo branco, usado pelo Conde Dom Henrique, se referiria à sua dupla condição de cruzado e capetíngio, intimamente associado ao poder político francês. Por seu lado, o verde-rubro atual mais não representava do que as cores dos ideias, partidos e instituições que haviam realizado a revolução, decerto com bravura e anseio de dias melhores republicanos, está bem de ver.

A nova Bandeira Nacional

4 de fevereiro de 2021

Principado da Beira

«Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas» 

Collegidos por Diogo Barbosa Machado (c. 1729-1730)

bei·ra
(origem duvidosa)
nome feminino
Faixa de terra junto a uma extensão de água.


Um príncipe herdeiro com um principado honorífico...

Já disse por aqui ter sido a Estremadura a marca defensiva entre o Norte da Reconquista Cristã e o Sul da Conquista Muçulmana. Nas estremas das duas faixas limítrofes rivais, ficavam o Condado Portu-calense e os Reinos Taifas, limitados transversalmente pelos rios Douro e Tejo. E assim as fronteiras do futuro Reyno de Portugal se foram fazendo. Sempre em linha reta, ao longo da costa atlântica, em direção imparável ao mar do al-Gharb al-'Andalus, no golfo magrebi-no, mesmo ali às portas do Mediterrâneo islâmico.

A progressão vitoriosa das forças lusitanas e a ampliação do território recuperado pelas armas aos invasores sarracenos obrigou a uma sucessiva reorganização do território. A zona tampão estremenha deslocou-se até à linha do Sado e deixou a descoberto toda a margem direita do Mondego, dando origem à Província das Beiras. Os antigos lugares interiores da beira da serra da Estrela passaram também a incluir a beira litoral oceânica desde o Porto à Figueira da Foz, transformando-se assim na maior região do país.

Com o estatuto que a dimensão espacial lhe conferira, Dom João IV converteu essa banda central no Principado da Beira, uma entidade honorífica cujo titular sucederia ao Monarca, e se chamaria Príncipe do Brasil se fosse um filho ou Princesa da Beira se fosse uma filha. Mais tarde, Dom João V reservou esta honraria em exclusivo para o varão mais velho do herdeiro presuntivo do trono, passando este a designar-se por vontade expressa de Dom João VI por Príncipe Real de Portugal, logo após a independência do Brasil.

O título de Príncipe foi introduzido entre nós por via inglesa, quando Dom Duarte quis distinguir o primogénito dos irmãos, os Infantes a quem outorgou a honraria nobiliárquica de Duque, também a criação do Principado e Príncipe da Beira deve ter seguido a mesma fonte de inspiração, à semelhança dos seus primos da Casa de Lencastre, que contavam com o Principado e Príncipe de Gales e para ombrear com os Principados e Príncipes das Astúrias em Castela, de Girona em Aragão e de Viana em Navarra.

O título de Príncipe da Beira é usado pelo primogénito do Duque de Bragança e Príncipe Real, apesar da titularia monárquica ter sido abolida pela República. Adotou como brasão de armas o escudo real, diferenciado por um lambel de prata de três pés, cada um carregado com uma rosa vermelha abotoada a ouro, provavelmente em memória de rainha Dona Filipa de Lencastre. O conjunto é encimado por uma coroa fechada de três arcos de pérolas visíveis e um invisível. Enfim, com papas e bolos se enganam os tolos...
Brasão de armas do Príncipe da Beira
 a ladear a rosa e o emblema dos Lencastre de Coimbra

15 de dezembro de 2017

Real, real, real, por el-Rei de Portugal!

Veloso Salgado - Coroação de D. João IV - 1908

[Lisboa, Museu Militar: Sala da Restauração]

GUERRA DE PALAVRAS

Do levantamento-aclamação à coroação-restauração


Duas semanas após o levantamento aristocrático do Primeiro de Dezembro de 1640, o até então Duque de Bragança é formalmente aclamado Rei de Portugal, tendo ficado conhecido nos anais históricos como Dom João IV, o Restaurador. A cerimónia decorreu num palanque junto à varanda do Paço da Ribeira, tendo sido testemunhada pelos conspiradores e presenciada pela arraia-miúda concentrada no vasto terreiro palaciano que dava para o Tejo. Coroação lhe chamou Veloso Salgado, seguindo os parâmetros dum romantismo tardio que o inspiraram na recriação da cena.

A notícia da cessação da Monarquia Dual caiu como uma bomba em Madrid, tendo sido particularmente sentida pela Majestade Católica de Filipe IV de Castela, por se ter visto despojado dos reinos e senhorios da Coroa de Portugal. A entronização do novo soberano em Lisboa e a fundação duma nova dinastia, sob a égide da Sereníssima Casa de Bragança, ramo lateral das de Borgonha e Avis-Beja, desencadeou um longo conflito de vinte e oito anos. Na época foi designado por Guerra da Aclamação, a que a leitura nacionalista recente rebatizou de Guerra da Restauração.

A restauração dum rei natural e deposição dum estrangeiro afirma a independência da Monarquia Lusitana face à Hispânica. Revela, também, uma oposição ao projeto do Conde-Duque de Olivares de converter os reinos ibéricos em meros satélites do Rei-Planeta, em torno do qual orbitariam para sempre. A História lá nos vai dizendo que a substituição duma legalidade obsoleta por uma atualizada costuma recorrer a atos de rebeldia contra o poder instituído. Só assim se muda um regime, se aclama uma nova ordem, se recupera um governo autónomo e liberto de vontades alheias.

Anónimo - Juramento e Aclamação de D. João IV (c. 1640)
[Paço Ducal de Vila Viçosa - Fundação Casa de Bragança]

13 de junho de 2016

Arraiais, marchas, manjericos e fogueiras de Santo António

Santo António a pregar aos peixes
[Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa]

Os padroeiros de Lisboa

Celebra-se hoje o feriado municipal da capital, por ter sido neste dia que Fernando de Bulhões, conhecido entre nós como Santo António de Lisboa, faleceu em Pádua, corria o ano de 1231. Justa homenagem prestada ao mais ilustre taumaturgo, teólogo, asceta, místico e orador nascido na cidade entre 1191 e 1195.

Acontece que essas honrarias são regra geral concedidas ao padroeiro local, coisa que o frade Agostinho tornado Franciscano, canonizado por Roma e designado Doutor da Igreja nunca foi. A escolha recaiu primeiro nos irmãos gémeos São Crispim e São Crispiano, depois trocados por São Vicente de Fora.

Como prémio de compensação, foi proclamado segundo padroeiro do país por Pio XI. O primeiro posto é ocupado desde os tempos de D. João IV pela Imaculada Conceição, também coroada rainha de Portugal. Santos de casa não fazem milagres. Está bem de ver. Que se vá buscar lá fora aquilo que cá dentro não se obtém.

O povo de Lisboa escolheu-o para patrono. Tornou-o casamenteiro. Dedicou-lhe arraiais e ergueu-lhe altares. -lo a pular fogueiras e a assar sardinha. Levou-o a queimar alcachofras e a regar manjericos. Convidou-o a marchar na avenida a noite toda. Afinou os cavalinhos, bailou e cantou. E se assim é, que a festa dure até ser dia.